terça-feira, 17 de maio de 2016

Afterburn, Capítulo 6

 

 
     Quando Emma e eu voltamos ao Mill's, Nico me lançou um olhar de quem entendeu tudo. Mostrei a língua para ele.
    Escolhemos uma mesa e pedimos um vinho. Pedi lasanha para mim, Emma foi de pollo alla cacciatora ( É frango com frutos: tomate, pimentão..., especiarias,  vinho branco e cogumelos). Enquanto esperávamos pela comida,
eu a examinei, admirando o jeito como as pequenas velas na mesa a cobriam com um tom de dourado. Parecia mais calma, mais relaxada, e seu rosto não poderia estar mais bonito.
    Tinha aquela expressão de quem acabou de se esbaldar na cama, um ar
de que, embora estivesse saciada, antecipava os prazeres que estavam por
vir. Eu adorava ser a responsável por aquilo, o que também me deixava
morrendo de raiva. Porque não eram apenas as coisas que ela dizia que
representavam um perigo: tudo a respeito de Emma me tornava vulnerável.  O efeito que ela tinha em mim era em grande parte devido ao efeito que eu tinha nela.
    Eu a fazia feliz. Eu a deixava satisfeita. E era difícil não achar que isso me tornava especial, mesmo não sendo boba.
    “Kathryn é sua madrasta?”, perguntei, tentando pensar em outra coisa.
    “É.” Ela fitou a própria taça.
    “Como foi isso?” Será que ela ia falar de Owen…?
    “Minha mãe morreu dez anos atrás.”
    “Ah.” Ver o modo como ela se fechou me deixou em alerta — aquele era
um assunto espinhoso. “Sinto muito.”
    “Não tanto quanto eu na época”, murmurou Emma, antes de virar a taça
quase cheia em três goles. Ela a encheu novamente e ergueu os olhos para
mim. “Sua mãe parece ótima.”
    Assenti. “Ela está feliz. Os filhos estão bem de vida, o negócio vai bem, e
em breve vai virar avó.”
    “Como Angelo está lidando com a ideia de virar pai?”
    “Bem. Atrapalhou os planos dele de abrir outra filial do Mill's, mas
acho que é melhor assim. Ruby já tem um negócio, então acho que seria
puxado demais os dois tomarem conta de dois empreendimentos e um
casamento novo.”
    “Você gosta dela?”, perguntou Emma, alisando a haste da taça.
    “Muito. Ela é ótima.” Olhei para a mesa ao lado, uma família de quatro
pessoas discutindo animada como a comida estava boa. “Acho que vi
Allison no evento ontem à noite. Como ela e Theodore estão indo?”
    Para falar a verdade, não ligava a mínima para como estavam seu primo
e sua mulher rabugenta, mas a menção à mãe de Emma me fez perceber que
ela sabia mais sobre mim do que eu sobre ela. Tirando seus parentes
políticos que apareciam nos jornais, Allison era a única que eu conhecia.
    “Bem.” Emma deu outro gole. “Ela é tudo de que ele precisa para concorrer
a governador na próxima eleição.”
    “Que bom que ela o apoia.”
    Emma soltou uma risada de desdém. “Os dois mal se falam. Mas Allison
sabe lidar com a imprensa e é muito ativa no planejamento da campanha.
Ted escolheu bem. Ela combina com ele exatamente como Kathryn com meu
pai.”
    “Achei que o estereótipo do casamento como uma parceria de negócios era coisa de Hollywood.”
    “Não.” Emma esticou o braço e alisou de leve as costas da minha mão. “É
preciso lidar com relacionamentos de forma pragmática. Casar por amor
nunca dá certo. Meus pais se amavam e eram infelizes. Agora, Kathryn e o
meu pai… Eles vão dar certo. Ela sabe as regras do jogo.”
    “Ele parece gostar dela de verdade.”
    “Depois do que passou com minha mãe, ela deve ser mesmo fácil.” Emma
deu outro gole e se recostou na cadeira enquanto nossos pratos eram
servidos.
     A mudança de humor foi outro alerta. Ela não parecia à vontade quando falava da mãe. Eu teria que ser cuidadosa ao abordar o assunto. “Foi Owen que apresentou os dois, não foi?”
    “O que fez dele um homem de sorte, não é?”, devolveu Emma, com um tom
de sarcasmo na voz.
    “Porque ele resolveu cobrar a dívida e você apareceu? Você não pode
salvar o cara, Emma.”
    “Não é para isso que estou aqui.” Ela deu de ombros, com uma expressão fria nos olhos. “Meu papel é manter Cristina Yang sob controle. E isso eu posso fazer.”
    Nico se aproximou com um prato de macarrão fumegante nas mãos.
    “Posso me juntar a vocês?”
    Emma empurrou a cadeira diante dele com o pé. “Quanto mais Mills melhor.”
    Infelizmente, quando mais Swan, mais assustador. E fora isso que
tornara Emma quem era.
    Perdi-me em meus pensamentos enquanto Emma e Nico conversavam
 descontraídos, o que me fazia lembrar como ela não tinha qualquer
dificuldade para se encaixar na minha vida… e quão pouco à vontade eu me
sentia na dela.
 

     Depois do jantar, Emma e eu seguimos para seu carro alugado. Antes de entrar, parei por um instante. “Se eu voltar para o hotel agora, você vai ter
que me levar para o apartamento de Nico quando ele sair do restaurante.”
     Emma descansou o braço na porta aberta do carro. “Você não vai passar a
noite comigo? Queria que passasse.”
     Eu também queria. Uma vez, havia muito tempo, largara tudo por Emma e
acabara ficando magoada com ela por causa disso. Podia não ter aprendido
a ficar longe dela, mas agora sabia uma coisa ou outra sobre manter uma
relação mais saudável.
    “Vim para cá para passar um tempo com meu irmão.”
    Ela inspirou e expirou profundamente.
     “Justo. Pode reservar uma
hora para ficar comigo?”
    Estávamos muito próximas uma da outra, espremidas no espaço entre o
carro e a porta, mas era como se houvesse um abismo entre nós. Fora eu
quem criara aquilo, mas ainda desejava que isso não existisse.
    “O que você tem em mente?”
    “Qualquer noite durante a semana e, com certeza, o fim de semana que
vem.”
    Assenti, então entrei no carro. Emma bateu a porta e contornou o carro pela
traseira, dando-me um tempo para conjecturar como o restante da noite ia
 transcorrer. Mais sexo. Mais Emma. Ansiava pelos dois, mas seria bom não ter tantas dúvidas e reservas.  Sentia falta de como éramos descontraídas. Mas acho que era uma ilusão minha. Emma sabia que ia acabar desde o início.
    Ela entrou no carro e fechou a porta, mas não deu a partida de imediato.
    “Escute”, começou, “você deve saber que isso também é difícil para mim."
    “Mas você sabe o que está acontecendo”, argumentei, calmamente.
    “Eu não tenho ideia.”
    Emma virou-se em seu assento e estendeu o braço, me segurando pela nuca e me puxando na sua direção. Fechei os olhos, antecipando o momento em que seus lábios entreabertos tocariam os meus. Sua língua delineou o contorno da minha boca, uma carícia demorada que fez eu me aproximar dela em busca de mais.
    “Tão doce”, murmurou Emma. “Vou colocar você na cama e lamber seu
corpo dos pés à cabeça.”
    “Você é boa nisso”, respondi, ofegante, sentindo um tremor de
ansiedade varar meu corpo.
    Emma se afastou, como que para ligar o carro, então voltou na minha
direção, tomando meus lábios num beijo ardente, molhado e voraz. Ela me
comeu com a boca, a língua movendo-se fundo e veloz dentro da minha.
    Estava tão sedenta quanto ela, minha mão deslizando entre seu cabelo,
segurando os fios  à medida que a saboreava num frenesi. Ela envolveu um de meus seios com a mão, apertando-o, envolvendo o mamilo
dolorido com o polegar e o indicador e puxando-o ritmicamente. Soltei um
gemido, excitada e faminta.
    “Nossa”, murmurou ela, soltando-me e voltando bruscamente para o
assento. “Quero você aqui. Agora.”
    Fiquei mais do que tentada pela ideia. Se estivéssemos em qualquer
outro lugar que não o Mill's talvez tivesse pulado em cima dela e concretizado sua vontade.
    “Pisa fundo nesse acelerador”, falei para ela.
    Emma soltou uma risada gostosa e deitou a cabeça no encosto do banco para olhar para mim. “Tudo bem. Mas, quando estivermos na cama, vou bem
devagar.”


   
     “Emma!” Com as mãos agarradas aos lençóis, eu tinha o corpo arqueado,
tentando escapar da tortura de sua boca, embora quisesse mais. Havia esquecido o que ela podia fazer comigo, como me despia para chegar ao
fundo, como seu controle completo de meu corpo me deixava disposta a
fazer ou dizer qualquer coisa em troca do prazer que ela podia me proporcionar.
    Emma me segurava pelas coxas, a boca colada em meu sexo pulsante, a
língua brincando comigo. As carícias aveludadas em meu clitóris eram de
tirar o fôlego, e a necessidade de alcançar o clímax era tão violenta que eu estava empapada em suor, as pernas tremendo pelo esforço.
    “Por favor”, implorei, rouca, apertando os seios. Os mamilos estavam
inchados e sensíveis pelos longos minutos que Emma passara se dedicando a eles com puxões lentos e calculados da boca.
    Podia sentir seus cabelos macios roçando minha pele. Ela ergueu a cabeça.
    “Por favor o quê?”
    “Eu quero gozar.”
    “Só mais um pouquinho.”
   “Por favor, Emma!” Enfiei a mão entre as pernas, desesperada para chegar ao
alívio.
    Emma mordiscou meus dedos, e eu gritei, ofegante.
    Com a cabeça baixa, sua língua traçava caminhos por minha pele
inchada. Ela circulou meu clitóris, então brincou junto à entrada mais abaixo.
    Agarrei sua cabeça, segurando-a perto de mim e me esforçando para
erguer os quadris contra sua boca. Mas Emma era mais forte e me imobilizou
com facilidade, o hálito quente junto à minha pele sensível. Ela sugava com
carinho, movendo-se devagar ao longo de minha abertura e fazendo a
pressão exata para me enlouquecer.
    “Me deixa virar”, arfei. “Me deixa chupar você.”
    Sua risada soou tão divertida que me deixou  arrepiada.
    Então ela enfiou a língua dentro de mim.
     “Emma!”
    Ela segurou minha bunda e me  levantou, inclinando-me em sua boca
incansável. Sua língua me fodia depressa, os mergulhos rasos em meu sexo trêmulo me conduzindo direto ao orgasmo. Seu rosnado vibrou junto ao
meu clitóris, seu prazer alimentando o  meu.
    Agarrei seus cabelos, gemendo, cravando meus calcanhares no colchão
para me mover contra seus lábios.
    “Não pare”, arfei, tão perto agora, todo o meu corpo formigando.
    Emma ficou de joelhos, erguendo-me. Minhas pernas estavam arreganhadas, dando-lhe acesso ilimitado. Ela me devorou, faminta e gananciosa. O prazer não me deixava respirar. As lambidas frenéticas contra os tecidos sensíveis inundaram meus sentidos. Eu fiquei observando, exatamente como ela queria que eu fizesse. A visão de sua cabeça e de seus cabelos loiros entre as minhas coxas, as investidas rápidas de sua língua, sua beleza… ela era  insuportavelmente maravilhosa e  erótica.
    Emma era linda. Tudo o que sempre quis. E a necessidade feroz estampada
em seu rosto me avisava que ela ia me conduzir ao meu limite antes de
chegar ao fim.
    Outro gemido irrompeu de minha garganta seca. “Ah, Emma… Vou gozar.”
    “Espera”, ordenou ela. “Quero que goze com meus dedos dentro  dentro de você.”
    Soltei um grito frustrado por entre os dentes enquanto ela me colocava de volta na cama. Eu agarrei-a entre os braços e as pernas e a puxei na
minha direção, erguendo-me para ela. Então ela colocou uma das mãos entre nós, para acariciar meu sexo latejante e escorregadio. Engoli em seco. Seus olhos escureceram, as bochechas corando à medida que seus dedos abriam minha entrada sedenta.
    “Emma”, rosnei.
     Ela meteu com força, entrando fundo num único movimento, me fazendo gritar ao ser dominada pelo orgasmo. Com o pescoço arqueado e os
olhos apertados, permaneci rígida, sentindo o prazer correr por meu corpo, meu âmago se tensionando com seus três dedos dentros de mim.
    “Assim”, gemeu ela,
impulsionando os dedos cada vez mais.
    O clímax se intensificou, exacerbado pelas suas investidas rítmicas...a sensasão era maravilhosa.
    Eu me contorci, perdida, completamente entregue a ela, lutando para me
segurar, apesar de querer me render.
    “Isso.” Os lábios de Emma estavam junto da minha orelha, sua respiração
quente e acelerada. “Enterra os dedos em mim.”
    Minhas unhas agarravam suas costas molhadas de suor, sentindo os
músculos se flexionarem, a medida que seu corpo se movimentava para nos satisfazer. O movimento de vai e vem, aumentava o atrito de nossas peles, tornando o momento ainda mais gostoso.
    Ela enfiou os dentes no lóbulo da minha orelha e gemeu, seu suor e o meu grudando-nos.
    “Os barulhos que você faz”, arfou Emma “Me deixam ainda mais louca”
    E ela estava louca. Louquíssima.
    “É tão bom.” Tentei engolir, com a garganta completamente seca. “Emma… é bom demais.”
    “Você foi feita para mim”, disse ela, intensamente. “Ninguém mais, Regina.
Você é minha.”
     E a cada  nova investida provava seu ponto, devorando-me tão
completamente que eu não podia pensar em mais nada além da
necessidade de gozar mais uma vez.
Meu corpo já não me pertencia.
     Emma era a única capaz de fazer aquilo comigo… tirar-me do sério… virar um bicho. Na cama com ela, não era eu mesma, era dela. Pronta e disposta a fazer tudo o que ela quisesse, a aceitar qualquer coisa que me oferecesse, sabendo que me faria gozar de novo e de novo…
    Gemi baixinho, sentindo-a aumentar a velocidade, as paredes da minha vagina enrijecendo à medida que o prazer aumentava.
    Emma baixou o rosto úmido contra o meu. “Tão quente e apertadinha…
Regina.”
    Percebi que estava se agarrando a mim tão desesperadamente quanto
eu a ela, aquela urgência contagiando cada fôlego e cada toque. Emma estava
me comendo como se fosse morrer, como se tivesse que parar, como se fosse possível me foder forte o suficiente para mergulhar ainda mais fundo em mim.
    Quando o orgasmo me atingiu, meus olhos encheram-se de lágrimas,
deixando-me sem fôlego e embaçando minha visão. Um gemido grave que eu
era incapaz de reconhecer como meu escapou.
    “Ah, Regina.” Ela me beijou, absorvendo o som, desacelerando o
movimento. “Adoro o som que você faz quando goza. Assim sei
o quanto você gosta, o quanto ama minha boca… minhas mãos.”
    Eu a amava muito.
    Estava esparramada sob seu corpo, arreganhada e possuída, e Emma
parecia um sonho. Algo que eu havia conjurado.
    “Sinta meu corpo”, sussurrou ela, erguendo o tronco para olhar para
mim. Seus olhos estavam escuros, o rosto corado, a pele tensionada pela
luxúria, os ângulos esculpidos de seu rosto. “Dentro de você…” Ela moveu os dedos. Em seguida, com a outra mão, pegou a minha e a levou até seus seios: “E você em mim”.
    “Emma…”
     Ela tomou minha boca, beijando-me intensamente, a língua se
esfregando na minha. Nossos corpos  se movimentado devagar, o que me permitia sentir cada centímetro delicioso de sua anatomia. Ela se lembrava muito bem do meu corpo, sabia exatamente como me manter
em ponto de bala.
    “Senti saudade, Regina”, sussurrou ela, em meio ao beijo. “Você também
sentiu minha falta?”
    Quando não respondi, Emma ajeitou os fios molhados do meu cabelo e me examinou em busca de uma resposta.
    Meu sexo latejava ao redor de seus dedos. Com os olhos fechados e os
lábios entreabertos, Emma tensionou o corpo. “Ainda não.”
    “Por favor…” Eu estava implorando e não ligava a mínima. Só queria que
ela gozasse também. Queria isso mais do que qualquer coisa.
    “Não vou apressar.” Com a mão livre, apertou minha bunda,
me fazendo se erguer num impulso suave e fácil. “Humm… perfeita. Sempre foi perfeita.”
    Eu queria provocá-la, jogar o jogo com tanta frieza quanto ela, mas não
era capaz.
    “Pare de pensar e sinta”, murmurou Emma, mordiscando o canto da minha
boca. “Me deixa fazer você se sentir bem. É tudo o que quero. Fazer você se
sentir bem.”
    Virando a cabeça, mordi seus lábios e deixei que ela fizesse o que queria.
 

                              ******

     Nico me observou enquanto eu me acomodava num dos bancos do bar
do Mill’s depois do expediente, e eu tinha certeza de que notara que
eu estava sem maquiagem, o que traía a chuveirada que havia tomado meia
hora antes. Meu irmão estava limpando o bar, mas parou e pegou uma
garrafa de cerveja, abrindo-a antes de deslizá-la para mim.
    “Tinha esquecido como gosto de Emma”, ele disse, puxando conversa.
    Concordei com a cabeça. Também gostava de Emma. O problema era que
não sabia qual Emma era a verdadeira.
    “Vocês voltaram?”
    “Não, é temporário. Mas, desta vez, sei as regras do jogo.”
    “Talvez não goste tanto dela assim.” Nico abriu outra garrafa e deu um
longo gole.  “Ela está apaixonado por você, sabia?”
    “Ela sente tesão por mim”, corrigi, secamente, descascando o rótulo da
garrafa. “E, por mim, tudo bem, posso viver com isso. Minha dificuldade é lidar com as outras coisas: o jeito como ela fala comigo às vezes, como se
fosse mais do que isso, e a piração na minha cabeça sobre por que foi
embora e agora voltou.”
    “Minha oferta sobre dar um chega pra lá na sujeita para ver se ela cria juízo ainda está de pé.”
    Sorri. “Talvez fosse mais fácil e eficaz fazer com que eu criasse um pouco
de juízo.”
    “ Também possoo fazer isso.” Nico bateu sua garrafa contra a minha, num
brinde. “Mas você já é muito ajuizada. Sabe o que está fazendo. Só queria
não estar fazendo. Emma obviamente não tem ideia, pois se tivesse não
correria o risco de deixar você escapar. Nunca vai encontrar alguém melhor
que você.”
    “Ah, por favor, não venha com esse papo para cima de mim. Não vou
aguentar.” Não era brincadeira. Estava me sentindo chorosa e sentimental.
    Sexo com Emma me deixava assim.
    Nico sorriu. “Tudo bem. Levanta essa bunda da cadeira e me ajuda a
limpar este lugar pra gente poder sair logo daqui.”
    Desci do banco com um suspiro. “Droga. Devia ter aceitado o papinho."


                              *****

    No domingo de manhã, acordei com uma batida insistente na porta.
    Rolei para fora do sofá com um palavrão e tropecei, decidida a praguejar contra quem fosse.
    Ao usar o olho mágico, no entanto, o que vi foram rostos queridos.
    Soltei a corrente de segurança e girei a maçaneta para abrir a porta para
meus irmãos e Ruby. “O que aconteceu?”, resmunguei.
     “Pois é. O que aconteceu?” Nico surgiu do quarto vestindo uma calça de
moletom que mal se segurava na cintura dele. O sem vergonha sabia ser bonito.
    “Vocês sabem que horas são?”
    Vincent foi o primeiro a entrar. “Hora de acordar.”
    Angelo veio logo atrás de Ruby, segurando sua mão.      “Você deixou a Regina dormir no sofá? Sério?
    “Eu ofereci a cama.” Nico cruzou os braços. “Ela não quis.”
      “Mais que compreensível”, disse Vincent. “Se aquela cama falasse, teria o
próprio reality show.”
     “Deixe de ser ciumento”, retrucou Nico. “Tenho certeza de que sua cama
um dia vai ver algum tipo de ação. Apesar de tudo, você ainda é um Mills”
    “O que estão fazendo aqui?”, interrompi. Estava feliz de vê-los. Ter
minha família ao redor trazia de volta um pouco da normalidade que
perdera na última noite na cama de Emma. Estava me sentindo como Regina Mills de novo — sem acreditar que era a mulher se contorcendo, gemendo e unhando que gozara meia dúzia de vezes em uma questão de horas. Era como se eu fosse duas pessoas diferentes.
    E você está com raiva de Emma por ter duas caras…
    “Estamos esperando vocês se vestirem pra gente ir tomar café”,
respondeu Ruby. Seu cabelo estava preso em duas trancinhas que
emolduravam seu rosto branco. O batom combinava com o tom de rosa do
cabelo, fazendo-a parecer algum tipo de heroína de mangá. “Estou morrendo de fome.”
    “Vocês têm problemas”, murmurou Nico. “É cedo demais para comer ou
fazer qualquer coisa.”
    “São nove horas”, observou Vincent.
    Nico me lançou um olhar e falou com a voz arrastada: “Então”.

 

     Ao meio-dia, já tínhamos comido e estávamos na quadra de basquete do
condomínio. Modéstia à parte, eu era muito boa. Tinha acabado de fazer uma cesta de três pontos e estava dispensando as provocações e as zombarias com um aceno de mão quando avistei Emma caminhando na nossa direção. Parei onde estava, admirando suas pernas compridas expostas pelo short jeans e a camiseta folgada. Estava de óculos escuros e girava as chaves do carro no dedo. Quando Nico jogou a bola para ela , Emma pegou-a e me presenteou com seu sorriso e suas covinhas.
    “Oi”, disse, aproximando-se de mim e pressionando os lábios contra
minha testa corada.
    “Você nos achou.” Uma onda quente de prazer passou por mim. Ela havia me pegado e me deixado no Mill's, portanto, encontrar o
condomínio de Nico havia exigido iniciativa e empenho.
    “Senti falta de acordar do seu lado”, ela sussurrou contra minha pele.
    Os óculos de sol tornavam impossível ler seu olhar. Peguei a bola e andei
com ela, para recuperar o fôlego.
“Swan”, Angelo cumprimentou, irritado.
    “Segura a onda, nervosinho”, advertiu Ruby, levantando da cadeira que seu marido tinha arrastado da área da piscina. “Oi, sou Ruby. Mulher do
Angelo.”
    Emma apertou a mão dela. “Prazer.”
    “Ouvi muito a seu respeito”, comentou minha cunhada. “Só coisa ruim. Espero que mostre que eles estavam errados.”
    Emma me fitou de sobrancelhas arqueadas.
    “Ah, ela não fala uma vírgula sobre você”, continuou Ruby, fazendo-me
sorrir. Ela sabia dar suas alfinetadas.
    Vincent e Angelo apertaram relutantes a mão de Emma. E então Vincent perguntou: “A gente vai jogarou ou quê?”.
    “Eu entro quando der”, disse Swan, surpreendendo-me.
    Nico passou a mão pelo cabelo. “Entre no meu lugar, no time da Regina.
Estou exausto, graças a umas visitas que resolveram aparecer cedo demais.”
   “Bundão”, murmurou Angelo.
    “A gente estava destruindo vocês.”
    “Porque a gente estava pegando leve”, respondeu Vincent, segurando a
bola que arremessei na direção dele. “Já que ninguém aguenta ouvir sua
ladainha.”
    “Vocês não precisavam ouvir nada, era só ter ficado em casa.”
    “Já chega”, exclamei. “Vamos jogar.
    “Assim que eu gosto”, disse Emma com um sorriso.
    Recomeçamos o jogo. Emma era boa. Muito boa.
     "Jogava basquete de vez em quando. Não como você. Nunca me dediquei
muito." Lembrei-me das palavras que dissera um dia, sussurradas junto ao meu ouvido depois do sexo, enquanto ficávamos abraçadAs. Ela obviamente
havia treinado desde que nos separáramos.
    Será que fora por minha causa? Ou será que era viagem minha?
    Emma passou a bola, e eu fiz a cesta.
    Se ao menos compreendê-la fosse assim tão fácil.