domingo, 26 de abril de 2015

Peça - me o que quiser Capitulo 39

Notas do capítulo:
Estou postando para a Ju e aproveito para dizer que ela é maravilhosa, além de escrever a melhor fanfic que já existiu! Beijos, Ana/Detoxx.

    Meu celular toca. É Emma. Falo com ela por mais de uma hora. Ela pergunta do meu dia, e eu do dela, e depois trocamos palavras carinhosas e calientes. Eu a amo e estou morrendo de saudades. Antes de desligar, ela diz que vai me ligar de novo quando chegar ao hotel. Eba!
    Depois, entediada e sem saber o que fazer, entro no quarto que Emma diz que é meu e tiro meus CDs de música. Ao ver o de Malú, aquele que me traz ótimas lembranças, decido colocá-lo no meu sonzinho.

              Sé que faltaron razones... sé que sobraron motivos.
             Contigo porque me matas... y ahora sin ti ya no vivo.
             Tú dices blanco... yo digo negro.
             Tú dices voy... yo digo vengo.

    Cantarolando essa música tão importante para mim e para meu amor, continuo tirando as coisas das caixas. Olho com carinho para meus livros e começo a arrumá-los nas prateleiras que comprei.
    De repente, a porta do quarto se abre devagarzinho e Flyn diz, muito irritado:
    — Desliga essa música. Está me incomodando.
    Olho para ele surpresa.
   — Está te incomodando, é?
   — É.
  Solto o ar bufando. Impossível a música estar incomodando. Não está tão alta a esse ponto, mas tento ser boazinha, me levanto e abaixo um pouco o volume. Volto para perto das prateleiras e pego os livros que deixei no chão. Vejo de relance que o garoto vai até o aparelho de som, desliga com um solo e sai.
    Filho da mãe! Está procurando encrenca e vai encontrar.
    Deixo os livros em cima de uma mesa, me aproximo do som e ligo a música de novo. O menino, que está passando pela porta nesse instante, para, olha para mim como se quisesse me matar e grita:
    — Por que não vai pra sua casa?
    — Quê?!
    — Vai, e para de encher o saco.
    Me seguro para não responder. Melhor me segurar porque, se eu me deixar levar pelo meu temperamento, esse moleque resmungão vai saber direitinho como uma mulher espanhola se comporta quando se irrita. De cara amarrada, anda até o aparelho de som novamente. Desliga. Tira o disco e, sem dizer nada, abre a porta envidraçada e joga o CD no lado de fora.
    Ai, Deus, meu CD de Malú!
    Vou matá-lo, matá-lo, matáááááá-lo!
    Sem pensar duas vezes, saio para buscar o disco. Eu o pego da neve como se fosse um bebê, limpo-o com minha camiseta enquanto vou xingando todos os antepassados desse pestinha. Quando me viro, ouço o clique da porta sendo trancada. Fecho os olhos e murmuro:
    — Por favor, meu Deus, dai-me paciência!
    Está frio, muito frio, e bato na porta do lado de fora.
    — Flyn, abre agora, por favor!
    O pequeno demônio me olha. Sorri com maldade, vira-se e, depois de jogar no chão vários livros que coloquei na estante e pisotear uma porção de CDs, sai do quarto.
 Tento abrir a porta, mas está trancada por dentro.
    — Merda!
   Com vontade de estrangulá-lo, caminho até a outra porta envidraçada, e meu tênis fica encharcado e atolado na neve. Meu Deus, que frio! Chego bem em frente ao quarto onde ele faz os deveres e o vejo entrando ali. Bato no vidro e digo:
    — Flyn, por favor, abre a porta!
    Nem me olha. Me ignora totalmente!
    Estou tremendo. Faz um frio terrível e insisto que ele abra a porta. Mas nada. Não fica com pena de mim. Dez minutos depois, quando estou batendo os dentes, meu cabelo molhado já está congelado e sinto gotículas de gelo debaixo do nariz, grito enfurecida ao mesmo tempo que esmurro a porta.
    — Puta que pariu, Flyn! Abre essa maldita porta!
    A criatura me olha finalmente. Acho que vai sentir pena de mim. Levanta, caminha até a porta e fecha as cortinas. Perplexa, continuo esmurrando a porta enquanto solto um milhão de palavrões em espanhol.
     Está nevando. Estou na rua usando apenas umas míseras roupas de algodão e um par de tênis. Estou morrendo de frio. Esfrego as mãos e penso no que fazer. Corro até a porta da cozinha. Fechada. Lembro que Simona não está. Tento entrar pela porta da sala. Fechada. A porta da rua. Fechada. A porta do escritório de Emma. Fechada. A janela do banheiro. Fechada.
    Estou congelando e meu cabelo molhado me faz espirrar. Vou acabar pegando uma pneumonia. Volto aonde sei que Flyn está atrás das cortinas. Que vontade de matá-lo! Olho para cima. A varanda de um dos quartos. Sem pensar no perigo, subo num banco de pedra para tentar chegar à varanda, mas estou tão congelada e o banco está tão escorregadio, que acabo caindo no chão. Levanto e insisto. Sento num muro congelado, me estico outra vez e, antes de alcançar a varanda, meu tênis escorrega e acabo me esborrachando no chão, mas antes bato no muro. O golpe foi forte e meu queixo dói horrores.
    Deitada na neve, resmungo e, quando me levanto com a cara cheia de gelo, solto um berro:
    — Abre essa maldita porta! Estou congelando.
    Flyn abre as cortinas e sua expressão já está diferente. Diz alguma coisa que não consigo ouvir. Quando enfim abre a porta, grita:
    — Você está sangrando!
    — Onde?
    Mas já não preciso que ele diga. Ao olhar para o chão, vejo a neve tingida de vermelho aos meus pés. Minha blusa cinza está vermelha também e, quando toco no queixo, sinto a ferida e minhas mãos se enchem de sangue. Flyn me olha apavorado. Não sabe o que fazer. Enquanto vou entrando em seu quarto, digo:
    — Me dá uma toalha ou algo assim, corre!
    Sai disparado e volta com uma toalha, mas o chão já está manchado de sangue. Ponho a toalha no queixo e tento me acalmar. Sinto na boca o sabor metálico do sangue. Mordi meu lábio também. Estou sozinha com Flyn. Simona e Norbert não estão, e preciso ir urgentemente a um hospital. Sem hesitar, me viro para Flyn, que está desconcertado, e pergunto:
    — Sabe onde fica o hospital mais próximo?
   O menino faz que sim com a cabeça.
    — Vamos, coloca o casaco e o gorro.
  Corremos até a porta e pegamos nossos casacos. Gotas de sangue caem no chão e não tenho tempo de limpá-las. Quando vou vestir meu casaco, retiro a toalha do queixo e o sangue jorra dali. Me assusto. Flyn também. Coloco a toalha novamente e, encharcada de água e sangue, pergunto:
    — Me ajuda a vestir o casaco?
    Ele obedece imediatamente. Protegidos do frio, entramos na garagem. Pego o Mitsubishi e Flyn segura a toalha no meu queixo para eu poder dirigir. Ele vai me indicando por onde devo ir. Minhas mãos e joelhos tremem, mas tento manter a calma enquanto estou ao volante.
    O hospital não fica longe. Quando chegamos e os funcionários veem meu estado, sou logo atendida. Flyn não sai do meu lado. Diz a alguns médicos que é sobrinho de Marta Grujer e pede que por favor telefonem para ela vir ao hospital. Fico surpresa com a capacidade que esse pirralho tem para dar ordens, mas estou com tanta dor que para mim isso não faz diferença. Se ele quiser, pode chamar até o Mickey Mouse, que não estou nem aí.
    Somos levados a outra sala. Quando o médico vê minha ferida, diz que a do lábio vai cicatrizar logo, mas no queixo vou ter que levar cinco pontos. Fico assustada. Estou quase chorando. Tenho horror a pontos. Quando eu era pequena, levei cinco no joelho e fiquei traumatizada. Olho para Flyn. Está branco como a neve. Tomou um susto horrível. E me dou conta de que não choro por vergonha dele, mas, assim que me dão anestesia no queixo, uma lágrima escorre dos meus olhos. Flyn repara. De repente se levanta do banco, pega minha mão e aperta. O médico o obriga a sentar de novo, mas o garoto se nega. Por fim, eu ouço o médico dizer a Flyn:
     — Você é igualzinho a sua tia.
    Isso me deixa espantada. Ou não?
   — Seu nome é...?
   — Regina Mills.
   — Espanhola?
   Ai, meu Deus, só espero que ele não venha com aquele papo de “olé, paella, touro e castanholas”. Não quero ouvir isso. Mas, assim que confirmo, o homem diz:
    — Olé, touro!
    Me seguro para não partir pra cima dele. Malditos gringos. Minha cabeça, minha boca e meu queixo estão doendo, e o idiota só fica dizendo “Olé, touro!”.
    — É a namorada da minha tia Emma.
    Arregalo os olhos. Me surpreende que o garoto admita isso.
   — Bom, Regina, vou dar os pontos no seu queixo — avisa o médico. — Não se preocupe com as cicatrizes. Vão diminuir com o tempo e ninguém vai nem reparar. Mas talvez nos próximos dias sua cara fique meio roxa. Você levou uma pancada feia e já está com hematomas.
    — Ok.
   Instintivamente, aperto a mãozinha de Flyn. Sua energia me acalma. Quando o médico termina de botar um enorme curativo no meu queixo, aplica um creme no meu lábio e diz que tenho que voltar em uma semana. Faço que sim com a cabeça. Em seguida pergunto como devo pagar a consulta, e ele diz que depois acertará com Marta.
     Como não estou com muita vontade de falar e meu rosto está doendo, aceito sem me opor. O médico me entrega um relatório e, quando saio, vejo a cara angustiada de Marta.
    — Meu Deus, o que houve contigo, Regina? — pergunta horrorizada ao ver minha aparência.
    Sem querer dar muitas explicações, olho para Flyn, que não soltou minha mão ainda, e murmuro:
    — Eu estava correndo na neve e acabei escorregando. Dei o azar de cair de queixo no chão.
     — Deixa seu carro aqui — diz Marta, solícita. — Norbert vem buscar depois. Vamos, vou levar vocês no meu.
    Preciso fechar os olhos e esquecer a dor que estou sentindo. No caminho começa a chover e, quando chegamos em casa, cai um dilúvio. Simona e Norbert nos esperam em pânico. Ao voltarem do supermercado e toparem com sangue no chão, imaginaram mil coisas. Eu os acalmo, e eles ficam mais tranquilos ao verem o menino e a mim, apesar de ainda me olharem meio assustados. Flyn não sai de perto de mim. Parece que grudaram uma cola nele. Gosto disso, mas ao mesmo tempo estou irritada. Tudo o que aconteceu foi culpa dele.
     Minha cabeça está me matando. Dói à beça e resolvo ir para a cama. Tomo o remédio que o médico passou, tiro a roupa manchada de sangue e me deito. Marta avisa que dormirá no quarto de hóspedes, para o caso de eu precisar de alguma coisa. No meio da madrugada, acordo com barulho de trovão. Cheia de dor, me viro na cama e encosto no lado de Emma. Estou com saudades dela. Quero que volte logo. Fecho os olhos novamente, relaxo, até que ouço mais uma trovoada. Abro os olhos. Flyn!
    Me levanto e ando até seu quarto. Minha cabeça está explodindo. Assim que entro, vejo que o abajur está aceso e que ele está acordado, sentado na cama, tremendo e muito assustado. Me aproximo dele e pergunto:
    — Posso dormir contigo?
    O garoto me olha surpreso. Devo estar parecendo uma bruxa com esse cabelo todo desgrenhado.
    — Flyn — insisto —, tenho medo de trovão.
    Ele balança a cabeça concordando e eu me enfio na cama. Põe o travesseiro no meio de nós dois. Marcando distância, como sempre. Sorrio. Quando consigo fazê-lo deitar, sussurro:
    — Fecha os olhos e pensa em alguma coisa bonita. Você vai dormir rapidinho e nem vai ouvir as trovoadas.
    Por um instante ficamos deitados em silêncio no quarto, enquanto a tempestade cai com força lá fora. Mais um trovão ecoa, e Flyn dá um pulo na cama. Nesse momento, tiro o travesseiro que está no meio de nós dois, pego sua mão e o puxo para mais perto de mim. Está congelando, tremendo e apavorado. Quando eu o aproximo de mim, ele não reclama. Ao contrário, até sinto que ele se aperta mais ainda. Com carinho e cuidado para não esbarrar no meu queixo, dou um beijo na sua testa.
    — Feche os olhos, pense em coisas bonitas e durma. Juntos, vamos nos proteger dos trovões.
     Dez minutos mais tarde, nós dois, exaustos, dormimos abraçados.
     Um golpe no meu queixo me faz acordar. Está doendo. Flyn se mexeu e acabou esbarrando ali. Me sento na cama e passo a mão no machucado. O curativo é enorme e eu resmungo. A chuva e o trovão já pararam. Olho o relógio em cima da mesinha de cabeceira. São 5h27.
     Nossa, está muito cedo!
     Morrendo de dor, me deito de novo, até que vejo Emma sentada numa cadeira num canto do quarto. Emma! Ela se levanta rápida e vem até mim. Seus olhos demonstram preocupação e seus lábios estão contraídos. Me dá um beijo na testa, me pega entre seus braços e me tira do quarto. Estou tão chapada que não sei se é sonho ou realidade. Ela me coloca em nossa cama e murmura:
    — Não se preocupa com nada, amor. Voltei pra cuidar de você. Pisco os olhos surpresa e, após receber um beijo doce nos lábios, pergunto:
   — Mas... o que você está fazendo aqui? Não ia voltar só amanhã?
   Ela faz que sim e ao mesmo tempo olha para o curativo no meu queixo.
   — Liguei pra falar contigo, e Simona me contou o que houve. Voltei imediatamente. Desculpa não estar aqui, pequena.
    — Não tem problema, estou bem. Não está vendo?
   Emma me observa.
    — Está bem mesmo?
    Dou de ombros.
   — Sim, com um pouco de dor, mas estou bem. Não se preocupe.
  — O que houve?
    Fico tentada a lhe contar a verdade. Seu sobrinho é uma peste. Mas sei que isso traria mais dor de cabeça para ela e problemas para Flyn. Acabo dizendo:
   — Saí pro jardim, escorreguei e caí de queixo no chão.
    Seus olhos não acreditam em mim. Desconfiam de alguma coisa. Mas me esforço para que ela aceite minha versão.
    — Você sabe como sou estabanada na neve. Mas, sério, estou bem. O chato é a cicatriz que vai ficar. Espero que não dê pra notar.
    — Vaidosa — diz Emma, sorrindo.
    Também sorrio.
    — Tenho uma namorada muito gata e quero que sinta orgulho de mim — explico.
    Emma deita ao meu lado e me abraça. Seu corpo está tremendo.
    — Sempre me orgulho de você, pequena. — Apoia a cabeça junto ao meu pescoço e acrescenta: — Não vou me perdoar por não ter estado aqui. Não vou me perdoar.
    Esse seu drama todo me surpreende. Ela não suporta imaginar o que poderia ter acontecido. Fecho os olhos. Estou cansada. Me aconchego nela e durmo nos seus braços.

    Quando acordo na manhã seguinte, me surpreendo ao ver Emma dormindo ao meu lado.
    São oito e meia e é a primeira vez que acordo antes dela. Sorrio. Observo-a com curiosidade. É linda. Vê-la relaxada e dormindo é uma das coisas mais bonitas que já presenciei na vida. Não me mexo. Quero que esse momento dure para sempre. Curto a cena por um tempo, até que ela abre seus maravilhosos e impactantes olhos verdes e me vê.
    — Bom dia, meu amor.
   Surpresa, Emma pergunta:
   — Que horas são?
   Olho o relógio e respondo:
  — Quase nove.
   Emma me olha, me olha e me olha e, ao reparar na sua expressão, digo:
    — O que houve?
    Passa a mão pelo meu cabelo e o retira do meu rosto.
    — Você está bem? — ela pergunta.
    Me espreguiço e respondo:
   — Estou, querida, não se preocupe.
   Emma senta na cama e eu faço o mesmo. Depois, ela vai até o banheiro. Me espreguiço novamente e vou atrás. Mas, ao entrar ali e ver minha imagem no espelho, grito:
    — Meu Deus, estou um monstro!
    Minha cara é uma paleta de cores. Embaixo dos olhos, tenho círculos roxos e verdes que me deixam sem palavras. Minha Swan me segura pela cintura e me faz sentar na tampa do vaso. Minha aparência horrível me assustou, e eu murmuro horrorizada:
    — Ai, meu Deus! Mas se eu só caí de cara na neve.
   — Você deve ter levado um belo de um tombo, pequena.
    Eu sei. Bati contra um muro antes de cair na neve. Agora recordo com mais clareza.
    Emma me acalma, dizendo várias palavras carinhosas.
    Mas acabo lembrando o que o médico avisou: hematomas. Consciente de que não há nada que possa fazer contra isso, levanto e me olho no espelho. Emma está ao meu lado. Não me solta. Movo a cabeça para os lados e reclamo:
    — Estou horrível.
    Emma beija meu pescoço. Me agarra por trás e diz:
   — Você não consegue ficar horrível. Nem com muito esforço, Regina.
  Seu comentário me faz sorrir. Minha aparência é um desastre. Sou o oposto da beleza, e a mulher mais bonita do mundo acaba de demonstrar seu carinho e amor por mim. No fim das contas, decido ser prática e dou de ombros.
    — A parte boa disso tudo é que daqui a alguns dias vai passar.
   Minha  Icewoman sorri, e eu escovo os dentes enquanto ela toma banho. Quando termino, me sento no vaso e fico olhando para ela. Adoro seu corpo. Esbelto, forte e sensual. Observo suas coxas, sua bela bunda, e suspiro ao ver seus seios. Ao sair do banho, pega a toalha que lhe dou e se enxuga. Estendo minha mão e a toco. Emma me olha, me afasta um pouco para trás e diz:
    — Pequena, hoje você não está para muitas estripulias.
   Solto uma gargalhada. Ela tem razão. Fico olhando para ela por um tempo, enquanto minha mente assanhada imagina mil fantasias. Pela minha cara, Emma percebe e diz:
    — Em que você está pensando?
   Sorrio...
    — Fala, sua safadinha, está pensando em quê?
   Achando graça de seu comentário, pergunto:
   — Nunca teve nenhuma experiência com um homem?
   Ergue a sobrancelha, olha para mim e diz:
  — Não sou chegada, amor. Você sabe disso.
  — Eu também não era chegada tanto assim em mulher — afirmo. — Mas confesso que adoro que brinquem comigo.
    Minha  Icewoman sorri e, enxugando-se, avisa:
 — Mas eu me importo, sim, que um homem brinque comigo.
 Nós duas rimos.
   — E se eu quiser te oferecer a um homem?
    Emma para, me encara com o olhar e responde:
   — Eu me negaria.
   — Por quê? É só um jogo. E você é minha.
   — Regi,  já te disse que não curto homem.
    Balanço a cabeça e sorrio, mas não estou disposta a desistir.
   — Você fica excitada quando vê uma mulher metendo a boca entre as minhas pernas, né?
   — Sim, muito, pequena.
   — Pois eu gostaria de ver um homem com a boca entre as suas pernas.
   Surpresa com meu comentário, ela pergunta:
   — Você está bem?
   — Ótima, senhora  Swan. — Vendo como ele me olha, me levanto e o abraço pela cintura. — Não se esqueça, querida: seu prazer é meu prazer, e nós somos as donas de nossos corpos. Você me mostrou um mundo que eu não conhecia. E agora eu quero, anseio e desejo te beijar enquanto um homem te...
   — Bom, a gente fala disso outra hora — me corta.
    Fico na ponta dos pés, beijo seus lábios e murmuro:
   — Claro que a gente vai falar disso outra hora. Não tenha dúvida.
   Emma sorri e balança a cabeça. Enrola a toalha abaixo dos seios e depois me pega nos braços.
    — Sabe, amor, você está começando a me assustar.
   Depois do almoço, Emma vai ao escritório. Promete voltar em duas horas. Antes de ir, me proíbe de sair na neve e eu rio. Marta, que ainda está aqui, também vai embora. E Cora, ao saber o que aconteceu, me liga angustiada, mas depois de falar comigo fica mais calma.
    Simona está preocupada. Assistimos juntas à nossa novela, mas volta e meia ela olha para mim. Tento convencê-la de que estou bem. Nesse dia, o vilão Carlos Alfonso Halcones de San Juan, ao não conseguir o amor da jovem Esmeralda Mendoza, rouba o bebê dela e dá a uns camponeses, mandando-os desaparecer com a criança. Horrorizadas, Simona e eu nos entreolhamos. O que será que vai acontecer com o bebezinho Claudito Mendoza? Que situação!
    Estou no quarto quando Flyn volta do colégio. Sentada num tapete felpudo, conversando pelo Facebook com um grupo de amigas. Nos chamamos Guerreiras Maxwell. Todas temos uma dose de loucura e diversão que adoramos.
    — Posso entrar?
    É Flyn. Fico surpresa, já que ele nunca pergunta. Faço que sim com a cabeça. O garoto entra e fecha a porta. Quando levanto meu rosto na direção dele, vejo que ficou pálido de repente. Está apavorado. Não esperava ver uma cara tão colorida como a minha, cheia de hematomas.
    — Você está bem?
    — Estou.
    — Mas sua cara...
    Me lembro do meu estado e sorrio, tentando minimizar a importância disso. Em seguida cochicho:
    — Não se preocupe. É uma aquarela de cores, mas estou bem.
    — Está doendo?
    — Não.
    Fecho o notebook, e o menino pergunta novamente:
   — Posso falar contigo?
    Suas palavras e seu interesse me comovem. É um grande avanço, e eu respondo:
   — Claro. Vem. Senta aqui comigo.
   — No chão?
    Achando graça, dou de ombros.
    — Daqui eu te garanto que a gente não vai cair.
    Ele sorri. Um sorriso! Quase aplaudo.
    Senta-se na minha frente e olhamos um para o outro. Por alguns minutos nos observamos sem falar nada. Isso me deixa nervosa, mas estou decidida a suportar seu olhar intimidador pelo tempo que for necessário, assim como às vezes suporto o olhar da tia. Ao fim, o menino diz:
    — Desculpa. — Seus olhos se enchem de lágrimas e ele murmura: — Me perdoa?
    Seu gesto me sensibiliza. O severo e independente Flyn está chorando! Não aguento ver ninguém chorando. Sou uma manteiga derretida. Não aguento!
    — Claro que te perdoo, meu amor, mas só se você parar de chorar, tá bom? — Ele confirma com a cabeça, engole o choro e, para que ele se sinta menos culpado, digo: — Também foi culpa minha. Não deveria ter subido no muro e...
    — A culpa foi só minha. Fechei as portas e não te deixei entrar. Estava chateado, e eu... eu... o que fiz foi muito errado, e vou entender se a tia Emma me mandar pro colégio interno. Ela me avisou da última vez, e eu a decepcionei de novo.
     A dor e o medo que vejo em seus olhos me deixam arrasada. Flyn não vai a nenhum colégio interno. Não vou permitir. Sua insegurança me parte o coração, e eu respondo:
    — Ela não vai ficar sabendo, porque nem eu nem você vamos contar, combinado?
    Minha reação pega Flyn de surpresa.
    — Você não contou a minha tia o que aconteceu?
    — Não, meu amor. Apenas disse que eu estava na neve, escorreguei e caí.
    De repente me lembro do meu pai. Acabo de surpreender Flyn e de certa forma isso o fragiliza. Sorrio. Ele relaxa os ombros, lhe tirei um peso de cima.
    — Obrigado, eu já estava me imaginando no colégio interno.
    Sua sinceridade me faz sorrir.
    — Flyn, você tem que me prometer que não vai mais se comportar desse jeito. Ninguém quer que você vá pra um colégio interno. Mas você, com suas atitudes, é que parece querer, não percebe? — Ele não diz nada e eu pergunto: — O que houve outro dia na escola?
    — Nada.
    — Ah, não, rapazinho! Os segredos acabaram! Se você quer que eu confie em você, precisa confiar em mim e me contar que diabo está acontecendo na escola e por que dizem que você começou uma briga, quando na verdade eu não acredito que seja assim.
     Ele fecha os olhos, medindo as consequências do que vai me dizer.
   — Robert e os outros meninos começaram a me xingar. Como sempre, me chamaram de chinês de merda, fracote, cagão. Eles riem de mim porque eu não sei fazer nada do que eles fazem com skate, bicicleta e patins. Como sempre, tentei não dar bola, mas, quando George me jogou no chão e começou a me dar socos, peguei seu skate e bati na cabeça dele. Sei que não deveria ter feito isso, mas...
    — Esses sem-vergonha te dizem essas coisas?
   Flyn confirma com a cabeça.
   — Eles têm razão. Sou um desengonçado.
   Xingo Emma em silêncio. Com o medo que tem de que ocorram várias coisas, é ela quem está provocando isso tudo. Flyn sussurra:
    — Os professores não acreditam em mim. Sou o cara esquisito da sala. E, como não tenho amigos pra me defender, sempre acabo levando a culpa.
    — E sua tia também não acredita em você?
    Flyn dá de ombros.
    — Ela não sabe de nada. Acha que eu me meto em confusão porque sou briguento. Não quero que ela saiba que os outros garotos riem de mim porque sou covarde. Não quero decepcioná-la.
    Isso me deixa triste. Não é justo que Flyn passe por isso tudo e Emma nem fique sabendo. Preciso falar com ela. Mas me concentro no garoto, passo a mão no contorno do seu rosto e murmuro:
    — Isso de dar com o skate na cabeça do colega não está certo, querido. Você sabe disso, né? — Flyn balança a cabeça num gesto afirmativo e, disposta a ajudá-lo, acrescento: — Mas não vou deixar mais ninguém debochar de você.
    Seus olhinhos de repente ganham vida. Me lembro da minha sobrinha.
    — Coloca seu polegar no meu. E, assim que se tocarem, damos um tapinha na mão. — Ele faz o que digo e volta a sorrir. — Esse é o código de amizade que tenho com minha sobrinha. Agora vai ser nosso também, que tal?
     Faz que sim, sorri, e estou quase pulando de alegria. Uma trégua. Finalmente consegui uma trégua com Flyn. E, como se não bastasse, ele diz:
    — Obrigado por dormir comigo ontem.
    Dou de ombros para mostrar a ele que isso não tem muita importância.
    — Nada disso! Eu é que te agradeço por me deixar ficar na sua cama.
    Ele sorri e comenta:
    — Você não tem medo de trovão. Eu sei. Você é adulta.
    Dou uma risada. Que garoto esperto!
    — Sabe, Flyn? Quando eu era pequena, também tinha medo de raio e trovão. Cada vez que caía uma tempestade, eu era a primeira a me enfiar na cama dos meus pais. Mas minha mãe me ensinou que não devemos ter medo de nada dessas coisas.
    — E como ela te ensinou isso?
    Sorrio. Pensar na mamãe, no seu olhar carinhoso, nas suas mãos quentinhas e no seu sorriso constante, me leva a dizer:
    — Me dizia pra fechar os olhos e pensar em coisas bonitas. E um dia me comprou um bicho de estimação. Dei o nome de Calamar. Foi meu primeiro cãozinho. Meu superamigo e supermascote. Quando havia tempestade, Calamar ficava comigo na cama, e sua companhia me deixou mais corajosa. Não precisei mais ir pra cama dos meus pais. Calamar me protegia e eu o protegia também.
    — E onde ele está?
    — Morreu quando eu tinha 15 anos. Está com minha mãe no céu.
    Essa revelação sobre minha mãe o pega de surpresa. Evito mencionar Trampo, ou tudo isso vai parecer muito cruel.
    — É, Flyn, minha mãe também já morreu. Mas sabe? Ela e Calamar no céu me dão forças pra que eu não tenha medo de nada. E tenho certeza de que sua mãe faz o mesmo contigo.
    — Você acha?
    — Claro que acho!
    — Eu não me lembro da mamãe.
    Sua tristeza me comove e eu respondo:
    — Normal, Flyn. Você era muito pequeno quando ela se foi.
    — Gostaria de ter conhecido ela.
    Seu sofrimento me faz sofrer também. E, querendo conversar mais sobre o assunto, murmuro:
    — Acho que você pode conhecê-la através dos olhos das pessoas que a amaram, como sua avó Cora, a tia Marta e a tia Emma. Falar com elas sobre sua mãe é uma forma de se lembrar dela e saber coisas a respeito dela. Tenho certeza de que sua avó adoraria te contar milhares de coisas sobre sua mãe.
    — Cora?
    — É.
    — Ela está sempre muito ocupada — reclama o garoto.
    — Claro, Flyn. Se você não a deixa cuidar de você nem ser carinhosa, ela tem que seguir a vida dela. As pessoas não podem ficar sentadas esperando que outras gostem dela; têm que continuar vivendo, mesmo que lá no fundo sintam saudades todo dia. Aliás, por que você a chama pelo nome e não se refere a ela como “vó”?
    Ele encolhe os ombros e pensa um pouco antes de responder.
    — Não sei. Acho que é porque o nome dela é Cora.
    — E você não gostaria de chamá-la de “vó”? Tenho certeza de que ela ficaria superfeliz. Liga um dia e convida ela pra lanchar, almoçar ou jantar. Pede pra ela contar coisas sobre sua mãe. Assim certamente você vai perceber o quanto você é importante pra ela e pra sua tia Marta.
    O garoto faz que sim com a cabeça. Silêncio. Mas de repente diz:
    — Eu agitei a Coca-Cola outro dia pra que espirrasse na sua cara.
    Lembrar o episódio me faz rir. Que pestinha! Mas, determinada a não levar isso em conta, afirmo:
    — Eu já imaginava.
    — Sério?
    — Sério.
    — E por que não disse nada pra tia  Emma?
     — Porque não sou dedo-duro, Flyn. — Vendo como ele me olha, toco em seu cabelo escuro e acrescento: — Mas isso já não tem importância. O importante é que a partir de agora a gente vai tentar se dar bem e ser amigos, tá legal?
    Ele concorda. Coloca seu polegar no meu e fazemos nossa saudação. Abro um sorriso. Seus olhos percorrem o quarto com curiosidade e vejo que volta e meia se detêm em alguma coisa que está à direita. Disfarçadamente, me viro e reparo que sua atenção é atraída pelo skate e meus patins. Sem pensar duas vezes, pergunto:
    — Você tem vontade de aprender a andar de skate ou patinar, né? — Flyn não responde, e cochicho: — Vai ser um segredo nosso. Por enquanto, sua tia não precisa ficar sabendo, combinado? Apesar de que mais cedo ou mais tarde a gente vai ter que contar, e ela é capaz de matar a gente. Quer que eu te ensine?
     Sua expressão se transforma e ele aceita. Eu sabia! Sabia que Flyn queria aprender coisas novas. Me levanto do chão depressa. Ele faz o mesmo. Pego o skate e mostro ao garoto que sei como usar.
    — Posso fazer isso também? Paro, desço do skate e digo: — Mas é claro, querido. — E, piscando um olho para ele, murmuro: — Vou te ensinar a fazer coisas que, quando uma certa menina loura do colégio te vir, não vai conseguir parar de olhar pra você.
    O garoto fica vermelho.
    — Como ela se chama? — pergunto num tom de cumplicidade.
    — Laura.
     Radiante pelo ótimo momento que estou vivendo com Flyn, seguro seus ombros e afirmo:
     — Te garanto que daqui a alguns meses Laura e esse bando de mal-educados da sua escola vão cair pra trás, quando virem como você domina o skate. O pequeno balança a cabeça concordando. Olho para ele e digo:
    — Vamos... experimenta. Primeiro, coloca um pé no skate e sente como ele se move.
    Flyn me obedece. Pego suas mãos e o menino escorrega ao pôr o pé no skate. Assustado, olha para mim e tento acalmá-lo.
    — Número um: nunca ande nele sem que eu esteja por perto. Dois: pra não se machucar, tem que usar joelheira, tornozeleira e capacete. Número três, e muito importante: confia em mim?
    Ele faz que sim e fico emocionada.
    De repente, ouvimos o barulho de um carro. Olho pela janela e vejo Emma entrando na garagem. Sem eu precisar dizer nada, o garoto desce do skate e se senta ao meu lado no chão outra vez. Disfarçamos. Minutos depois, a porta do quarto se abre. Ao nos ver no chão, Emma pergunta, surpresa:
    — Está acontecendo alguma coisa?
    Flyn se levanta e abraça a tia.
    — Regina me ajudou com algumas coisas do colégio.
    Emma se vira para mim. Concordo. O garoto sai do quarto. Eu me levanto, chego mais perto da minha alemã favorita e, agarrando-a pela cintura, murmuro:
    — Como você pode ver, daqui a pouco vou conseguir um beijo do seu sobrinho. Assombrado como nunca vi antes, Emma sorri. Me aninha em seus braços e, tomando cuidado para não esbarrar no meu queixo, sussurra:
     — Por enquanto, pequena, o meu beijo você já tem.


    De manhã, a cor do meu rosto está mais para verde. Me olho no espelho e me desespero. Como posso estar com essa cara? Fala sério, estou parecendo o Incrível Hulk!
     Tudo bem... nem é só pela beleza, mas, convenhamos, me ver desse jeito é horrível, deprimente. Coitada da Emma. Olha a namorada que ela tem. Estou igualzinha à Noiva Cadáver, do desenho. Isso me faz rir. Como sou boba!
     Quando volto ao quarto, está tocando no rádio Satisfaction, dos Rolling Stones, e começo a cantar. Essa música sempre me lembra meus amigos de Jerez. Canto alto e danço ao mesmo tempo. Emma sobe para me dar um beijo antes de ir para o trabalho e, surpresa, me observa da porta, até que me dou conta do meu espetáculo ridículo e paro, apesar de meus ombros continuarem se movendo enquanto caminho na direção dela.
    — Adoro te ver assim, tão feliz.
    Sorrio e lhe dou um beijo.
    — Essa música me traz ótimas lembranças da minha galera.
    — De alguém em especial?
    Com um sorriso maquiavélico, faço que sim com a cabeça. Emma muda a expressão do rosto e, dando-me um tapinha de um jeito sensual, exige possessiva:
    — De quem?
    Achando graça do que estou prestes a dizer, respondo:
   — De Robin... — Reparo na tensão dos seus olhos e continuo: — De Grahan, Laura, Carlos, Pepi, Loli ... Me dá outro tapa e mais um. Ficam ardendo, mas eu rio. Sua expressão agora é divertida, e ela murmura enquanto massageia meu traseiro, que está vermelho pelos seus golpes:
     — Não brinca com fogo, pequena, ou você vai se queimar.
    — Hummmm, adoro me queimar. — E, insinuando-me toda, sussurro: — Quer me queimar?
    Emma me afasta dela e bufa. Ficou tentada com minha proposta. Sei que ela está a fim. Mas depois balança a cabeça de um lado para outro, rejeitando a ideia..
    — Primeiro você se recupera. Quando já estiver boa, prometo te queimar.
    — Uau! — grito e ela sorri. Me dá um beijo e diz:
    — Bom dia, amor.
    Depois vai embora. Está a 5 metros de mim e eu já estou sentindo sua falta. Mas combinei de almoçar com Maura e sei que vou me divertir. Debruçada na janela, vejo o carro de Emma se afastando. De repente o telefone toca. Minha irmã.
    — Oi, fofaaaa!
    — Oi, gordinha! Tudo bem? — pergunto, rindo, e deito na cama para falar com ela.
    — Tudo. Cada dia mais enrolada, mas tudo bem. E você, como estão as coisas?
    Sua voz parece triste, mas eu, me lembrando do episódio na neve, respondo:
     — Olha, Mary, não se assusta. Estou bem, mas estou a cara do Incrível Hulk. Anteontem caí na neve. Pareço um quadro de Picasso e levei pontos no queixo. Basicamente isso.
    — Fofaaaa, não me assusta!
    Ao perceber seu alarme, acrescento:
    — Mas não estou aqui conversando contigo numa boa? Foi uma pancadinha de nada. Não exagera, que eu te conheço.
     Falamos por mais de uma hora. Ela parece bem, mas alguma coisa estranha me deixa intrigada... não sei bem o quê. Depois me visto e desço para a sala de jantar. Simona está passando o aspirador. Assim que me vê, para e pergunta:
    — Como está hoje, senhorita?
    — Melhor, Simona. Já começou Loucura Esmeralda?
    A mulher olha o relógio e diz:
    — Meu Deus! Temos que correr senão vamos perder a novela.
    Hoje Luis Alfredo Quiñones persegue Esmeralda Mendoza a cavalo pelo campo, depois a beija e, enquanto contemplam juntos o horizonte, ele promete a ela recuperar o filho deles. Emocionadas com a cena, eu e Simona nos olhamos e suspiramos.
    Ao meio-dia aparece Maura com a encomenda que eu lhe pedi quando soube que viria. Quando me vê, fica apavorada. Apesar de eu ter avisado por telefone, não consegue deixar de se impressionar com o estado do meu rosto. Sentadas na sala, comemos o que Simona preparou e batemos papo.
    — Preciso te contar uma coisa, Maura.
    — Fala.
     Divertindo-me com o que vou falar, olho nos seus olhos e murmuro:
    — Outro dia encontrei Betta e dei dois tapas na cara dela e um chute na bunda. Tá, antes que você diga qualquer coisa, reconheço que foi errado da minha parte. Sou adulta e não posso me comportar como uma delinquente, mas preciso admitir que me senti bem fazendo isso e, não fosse pela cara das mulheres em volta, eu teria continuado.
    O garfo cai de suas mãos e nós duas começamos a rir. Conto exatamente o que houve e Maura lamenta não ter estado lá para aproveitar a oportunidade e lhe dar uma bofetada também, como fez Marta. Quando terminamos de comer, decidimos ir para meu quarto em vez de ficar na sala. Ela se surpreende ao ver como está ficando bonito e, assim que repara na árvore de Natal vermelha num canto do cômodo, meu comentário é:
     — Melhor nem perguntar.
      Animadas, sentamos num confortável sofá vermelho que Emma me deu de presente e, depois de fofocar sobre nossa novela preferida, ela pergunta:
    — Então, está tudo bem com Emma?
    — Está. Discutimos, fazemos as pazes e discutimos de novo. Bem.
    — Fico feliz — diz, rindo. — E no sexo, tudo bem também?
    Olho para cima, numa expressão de encantamento, e digo que sim. Damos risadas.
    — Incrível. Sempre que encontramos Helena  e brincamos a três, é maravilhoso. Fico louca vendo a paixão de Emma. O jeito como me oferece... Ai, meu Deus, adoro como as duas transam comigo ao mesmo tempo. Nunca imaginei que curtiria tanto uma coisa que antes me parecia escandalosa.
    — Sexo é sexo, Regina. Não tem o que discutir. Se vocês, como casal, gostam desse esquema e se divertem com isso, vão em frente!
    — Agora eu aproveito muito, Maura. Só que antes eu pensava que as pessoas que faziam essas coisas eram umas depravadas. Ah, mas a sensação que eu tenho ao me sentir tão desejada e ao ver como elas me possuem...
    — Para... para porque assim você me deixa excitada. Sou uma depravada! — Caímos na gargalhada e Maura acrescenta: — Aliás, por falar em depravação, Emma te falou alguma coisa sobre a festinha particular de hoje à noite?  —Nego com a cabeça. — Heidi e Luigi dão umas festas maravilhosas. Tenho certeza de que eles convidaram vocês, mas no seu estado imagino que Emma tenha recusado o convite.
    — Normal. Com essa minha aparência... Melhor não me tirar de casa mesmo, ou então vou assustar os outros — digo, debochando de mim mesma, e nós duas rimos de novo. Mas acabo ficando curiosa e pergunto: — Vai muita gente a essa festinha?
   — Vai, sim, bastante gente. Eles costumam organizá-la na casa de suingue deles, e te garanto que ali acontece o que há de melhor. — Abaixa a voz e murmura: — No ano passado, nessa festa, eu e Jane realizamos uma de nossas fantasias. Ao ver minha cara, Frida ri e cochicha: — Fiz um gangbang, e Jane um girlbang. — Pisco os olhos, sem entender, e ela sussurra: — Jane escolheu seis mulheres da festa, e eu seis homens. Entramos num dos quartos da boate, e eu me entreguei a eles assim como  Jane a elas. Foi o máximo, Regina! Eu era o centro dos meus homens e ia experimentando diferentes posições com todos eles. Cara, você não imagina o quanto eu curti, e te garanto que Jane também se divertiu à beça com as garotas. No fim, os dois grupos se juntaram e a gente fez uma orgia. Como te disse, as festas de Heidi e Luigi sempre guardam ótimas surpresas.
    Parece excitante mesmo, mas um pouco exagerado para o meu gosto. Duas mulheres já são suficientes para mim, mas realmente imaginar o que ela disse é algo que me excita.
    Maura fica um tempo me contando suas experiências. Todas são cheias de loucura e despertam meu desejo. Adoro conversar abertamente com ela sobre sexo. Nunca tive uma amiga com quem pudesse falar disso com tanta sinceridade, e isso me agrada.
    Às cinco ela vai embora. Tem que se arrumar para a festa. Cora liga para saber como estou, e logo em seguida Marta. Está empolgada com o encontro de hoje à noite. Eu lhe dou força e peço para me telefonar amanhã e me contar como foi.
    À tarde, Flyn volta do colégio. Depois de fazer seus deveres, eu o espero no meu quarto. Assim que ele entra, mostro os patins que mandei Maura trazer para ele. Fica todo feliz. Coloca as joelheiras, tornozeleiras e o capacete, e começamos suas aulas de skate. Como era de se esperar, no início ele fica nervoso. Primeiro tem que aprender a encontrar o centro de equilíbrio do skate. Tem um pouco de dificuldade, mas no fim consegue, ainda que de forma meio precária.
     Assim que ouvimos o carro de Emma, largamos tudo rapidamente. Não pode saber que estamos usando essas coisas. Flyn corre para seu quarto de estudo e nós dois conseguimos disfarçar muito bem. Tiro um chiclete de morango do bolso da minha calça e ponho na boca. Emma vem até o quarto para me procurar e me vê sentada no chão, olhando para a tela do computador.
    — Por que não senta numa cadeira?
    — pergunta.
    — Porque adoro sentar nesse tapete felpudo e caríssimo. Tem problema?
    Ela se agacha e me dá um beijo. Está muito gata com seu sobretudo azul e seu vestido escuro. Seu visual de executiva é imponente e eu adoro. Me estende a mão e eu me levanto com sua ajuda. Em seguida ela me surpreende com um lindo buquê de rosas vermelhas.
    — Feliz Dia dos Namorados, pequena.
   Estou passada!
   Sem palavras e estarrecida.
   Que romântica!
   Minha Icewoman me comprou um buquê maravilhoso pelo Dia dos Namorados e eu nem lhe dei parabéns nem nada. Sou um desastre! Emma sorri. Parece saber o que estou pensando.
    — Meu melhor presente é você, Regina. Não preciso de mais nada.
    Nos beijamos e eu sorrio.
    — Estou te devendo um presente. Mas por enquanto tenho uma coisinha pra você.
    Ela me olha surpresa e eu pego o pacote de chiclete do meu bolso. Mostro a ela. Emma sorri. Tiro um, abro e enfio na sua boca. Achando graça disso, ao se lembrar do que significa para nós duas, ela pergunta:
    — Agora as brotoejas vão aparecer e sua cabeça vai rodar como a da menina de O exorcista?
    Damos uma gargalhada deliciosa.
    — A nova modalidade é minha cara verde e meus pontos. Pode haver algo mais sexy para o Dia dos Namorados?
    Emma me beija e, quando se separa de mim, digo:
    — Maura comentou comigo que hoje à noite vai rolar uma festa numa casa de suingue. Está sabendo?
    — Estou. Luigi me ligou e nos chamou pra Natch. Mas recusei o convite. Você não está muito pra festas, não acha?
    — Tem razão... mas, olha, se eu estivesse minimamente apresentável, gostaria de ir.
    Emma me beija e morde meu lábio inferior.
    — Sua taradinha... está tão necessitada assim, é? — Eu rio e nego com a cabeça, e ela comenta enquanto me aperta contra si: — Vai haver outras festas. Te prometo. — Ao ver meu olhar, Emma acrescenta: — Diz aí, Regi, o que você quer me perguntar?
     Abro um sorriso. Impressionante como ela me conhece cada vez mais. Chego mais perto e digo:
    — Você já fez girlbang?
    — Já.
    — Sério? Uau!
    Emma ri.
    — amor, estou há mais de catorze anos fazendo um tipo de sexo que pra você agora é novidade. Fiz muitas coisas e pode ter certeza de que muitas delas eu não gostaria que você fizesse. — Vendo minha cara de espanto e curiosidade, continua: — Sado.
    — Ah, não! Isso eu não quero mesmo — digo. Emma dá uma risada e eu pergunto: — O que você acha de gangbang?
    Emma me olha, me olha, me olha... e, quando estou quase perdendo a paciência, responde:
    — São homens demais entre nós duas. Acho melhor não.
    Seu comentário me faz rir e, antes que eu diga algo, ela muda de assunto.
    — Estou com sede. Quer beber alguma coisa?
    Eufórica, segurando meu buquê, caminho de mãos dadas com Emma pelo enorme corredor da casa. Assim que chegamos à cozinha, Simona me olha sorrindo e grito diante do que vejo:
     — Susto!
    O bichinho corre na minha direção e Emma o detém, preocupada que me machuque. Mas o cachorro está radiante de alegria, e eu mais ainda. Dou um abraço em Susto e faço carinho nele. Depois me viro para minha mulher de olhos verdes e, sem me importar com a presença de Simona, me jogo nos braços dela e digo:
     — Gangband ou girlband que nada! Você é a coisa mais linda do mundo e juro que eu casava contigo agorinha e de olhos fechados.
      Emma sorri. Está agitada. Me beija.
   — Você que é a coisa mais linda. E quando quiser a gente pode casar.
   Ai, meu Deus! O que foi que eu disse?! Eu realmente a pedi em casamento? Merda, vou me matar!
    Susto dá pulinhos ao nosso redor. Emma tenta pará-lo e comenta, divertindo-se:
    — Como você pode ver, coloquei nele o cachecol que você fez. Por falar nisso, ele está afônico.
    — Ai, Icewoman, você não existe! — exclamo, rindo, e lhe dou um beijo.
    Emocionada, faço carinho em Susto, que não para de se mexer de tão contente que está. Até que vejo algo nas mãos de Simona. É um filhote branco.
    — E essa fofura? — pergunto, olhando para ela toda boba.
    Sem soltar minha cintura, Emma comenta:
    — Estava na mesma gaiola que Susto. Pelo visto é o único da ninhada que sobreviveu, e me disseram que deve ter um mês e meio. Susto não queria vir comigo se eu não trouxesse o filhote junto. Você tinha que ver como ele o segurou pela boca e saiu da jaula quando o chamei. Então não consegui devolver o cãozinho.
    — A senhora  é muito humana, senhora Swan — Simona murmura comovida.
   — Ela é maravilhosa — confirmo, feliz. E em seguida, olhando para Susto, afirmo: — E você, um paizão.
    Minha  Icewoman sorri com nossos comentários e diz, olhando para o filhote:
    — Só não sei qual é a raça.
    Com cuidado, pego o cãozinho. É gordinho e macio. Uma graça.
    — É um vira-lata.
    — Um vira-lata? Como assim? — pergunta Simona.
    Emma entendeu o que eu disse e sorri. E eu, com o filhote nas mãos, explico a Simona:
    — É um cachorro que tem um pouco de todas as raças e nenhuma em especial.
    Nós três rimos. Simone sai para contar a novidade a Norbert. Deixo o bichinho no chão, e Emma diz enquanto segura Susto para que não avance em mim:
    — Gostou dos presentes?
     Radiante de alegria e apaixonada, dou um beijo nela e digo:
    — São os melhores presentes do mundo, querida. Você é maravilhosa.
     Emma está feliz. Percebo em seu olhar.
    — Por enquanto eles podem ficar na garagem, até a gente construir uma casinha do lado de fora.
    Olho para ela. Ela está falando sério?!
     — Tá bom... hoje eles podem ficar aqui dentro. Está muito frio.
     — Aqui dentro?
     — É.
     Nesse exato momento, o filhote se mija. Que bela mijada ele dá! Emma  me olha e pergunta, com cara séria:
     — Aqui dentro?
     Dou uma piscada para ela e cochicho:
    — Fique sabendo que você acaba de aumentar a família. Já somos cinco.
    Minha alemã fecha os olhos e entende perfeitamente o que acabo de dizer. Antes que ela solte alguma de suas pérolas, eu me antecipo:
     — Vem, Emma — digo, pegando o cãozinho. — Vamos fazer uma surpresa a Flyn.
     — Ele não vai ter medo do Susto?
     Faço que não com a cabeça.
    Sem fazer barulho, andamos até o quarto de brinquedos. Abro a porta com cuidado e faço o bichinho entrar.
    — Susto! — grita o menino e o abraça.
    As risadas de Flyn são maravilhosas. Uma delícia! E o cachorro deita de barriga para cima para Flyn acariciá-lo. Por um tempo o garoto fica eufórico de tanta alegria, até que me vê segurando algo que chama sua atenção. Com os olhos arregalados, pergunta:
    — E esse, quem é?
    Todo orgulhoso e principalmente surpreso com a felicidade do sobrinho, Emma explica:
    — Quando fui buscar Susto, estava com ele na gaiola. Susto não quis deixá-lo sozinho e ele veio com a gente.
     O garoto olha espantado para a tia. Dois cachorrinhos. Dois! E eu, radiante, deixo o filhote nas suas mãos.
     — Esse bichinho vai ser seu superamigo e seu supermascote. Então você é que vai escolher o nome dele.
     Flyn olha para a tia e, quando a vê acenando com a cabeça num gesto afirmativo, sorri. Em seguida olha para o filhote branco e diz, depois de piscar para mim:
    — Vai se chamar Calamar.
    Uma enxurrada de emoções invade a minha garganta ao escutar isso. Abro um enorme sorriso. Flyn encosta o polegar no meu e fazemos nossa saudação. Emma beija meu pescoço e sussurra no meu ouvido ao ver seu sobrinho feliz:
    — Quando quiser, já sabe... caso contigo.

Peça - me o que Quiser Capitulo 38

    A vida com Icewoman vai de vento em popa apesar das nossas discussões. Quando estamos a sós, vivemos momentos loucos, doces e apaixonados, e, sempre que visitamos Helena, os encontros são calientes, com muitos joguinhos. Emma me entrega a sua amiga, e eu aceito, morrendo de tesão. Não há ciúme. Não há reprovação. Apenas sexo, brincadeira e loucura. Nós três fazemos um trio maravilhoso e curtimos nossa sexualidade plenamente a cada encontro. Nada é sujo. Nada é obscuro. Tudo é absolutamente sensual.
    Flyn é outra história. O garoto não facilita minha vida. A cada dia que passa ele se mostra mais resistente a ser amável comigo e a aceitar minha felicidade com Emma. Nós duas só discutimos por causa da criança. Ela é a fonte de nossas brigas, e parece gostar disso.
    Agora tenho acompanhado Norbert algumas manhãs ao colégio. O que Flyn não sabe é que, quando o motorista dá a partida no carro e vai embora, eu o observo sem ser vista. Não entendo o que acontece. Não consigo compreender por que Flyn é motivo de piada para seus supostos amigos. Eles batem nele, o empurram, e a criatura nem reage. Sempre acaba no chão. Preciso dar um jeito nisso. Quero que ele sorria, que tenha confiança em si mesmo, mas não sei o que fazer.
    Uma tarde, estou no meu quarto cantando Tanto, de Pablo Alborán, e vejo pela janela que voltou a nevar. Mais neve em cima da camada que já caiu e isso me deixa alegre. Que linda é a neve! Empolgada, vou ao quarto de brinquedos onde Flyn faz os deveres e abro a porta.
    — Quer brincar na neve?
    O menino olha para mim e responde, com sua cara séria de sempre:
    — Não.
   Seu lábio está machucado. Isso me enfurece. Eu o pego pelo queixo e pergunto:
    — Quem fez isso contigo?
    O moleque me olha e, mal-humorado, responde:
   — Não te interessa.
   Penso duas vezes antes de responder e decido ficar quieta. Fecho a porta e vou atrás de Simona, que está na cozinha preparando uma sopa.
    — Simona.
    A mulher seca as mãos no avental e me olha.
   — Diga, senhorita.
  — Aiiii, Simona, por favor, me chama pelo nome, Regina!
  Simona sorri.
   — Eu bem que tento, senhorita, mas é difícil me acostumar com isso.
   Compreendo que realmente não deve ser nada fácil para ela.
   — Há algum trenó na casa? — pergunto.
   A mulher pensa um pouco e diz:
   — Sim. Tem um guardado na garagem.
   — Ótimo! — digo, animada. E olhando para ela acrescento: — Preciso te pedir um favor.
   — Fique à vontade.
   — Preciso que você vá lá fora comigo e a gente brinque de atirar bolas de neve.
   Incrédula, arregala os olhos, sem entender nada. E eu, achando graça, seguro suas mãos e cochicho:
    — Quero que Flyn veja o que está perdendo. É uma criança e deveria brincar com a neve e com o trenó. Vem, vamos mostrar pra ele como existem coisas divertidas além do videogame.
    De início, a mulher fica reticente. Não sabe o que fazer, mas, ao ver que estou esperando, ela tira o avental.
    — Me dê uns segundinhos pra eu calçar minhas botas. Com o sapato que estou usando, não dá pra ir lá fora.
   — Ótimo!
   Já na porta de casa, visto meu casaco vermelho e as luvas, e logo Simona aparece e pega seu casaco azul e um gorro.
  — Vamos brincar! — digo, puxando seu braço.
   Saímos de casa. Caminhamos pela neve até chegar em frente ao quarto de brinquedos de Flyn, e ali começamos nossa guerra de bolas de neve. No início, Simona fica um pouco tímida, mas acaba se animando depois que eu a acerto algumas vezes. Pegamos montinhos de neve e, em meio a risadas, atiramos uma na outra.
     Surpreso com o que estamos fazendo, Norbert vem até nós. Primeiro resiste um pouco a participar, mas alguns minutos depois ele acaba brincando conosco. Flyn nos observa. Vejo pelo vidro que ele está olhando e grito:
    — Vamos, Flyn... Vem brincar com a gente!
    O garoto nega com a cabeça, e nós três continuamos. Peço a Norbert para pegar o trenó na garagem: é vermelho. Empolgada, subo nele e deslizo por uma ladeira coberta de neve. Dou uma derrapada de respeito, mas a neve acumulada acaba me detendo e solto uma gargalhada. A próxima a se aventurar no trenó é Simona, e depois vamos as duas juntas. Terminamos a brincadeira cobertas de neve, mas felizes, apesar da expressão contrariada de Norbert. Não confia em nós duas. De repente, e quando menos esperávamos, vejo Flyn ​saindo da casa e nos olhando.
    — Vamos, Flyn, vem!
   O menino se aproxima e eu o chamo para sentar no trenó. Me olha com receio, então digo:
    — Vem, eu sento na frente e você atrás, tá bom?
    Incentivado por Simona e Norbert, o menino obedece e com extremo cuidado deslizo pela ladeira. Dou gritinhos de empolgação, e eles logo fazem o mesmo. Quando o trenó para, Flyn me pergunta, radiante:
    — Podemos repetir?
    Feliz por ver nele uma expressão que eu nunca tinha visto, concordo logo. Nós dois corremos até Simona e repetimos a descida.
    A partir desse momento, é só diversão. Pela primeira vez desde que estou na Alemanha, Flyn se comporta como uma criança. Quando consigo convencê-lo a ir sozinho no trenó e ele enfim vai, sua cara de satisfação me enche de alegria.
    Ele está sorrindo!
    Seu sorriso é envolvente, encantador e maravilhoso, até que de repente ele muda a cara e, assim que olho na mesma direção, vejo Susto correndo até nós. Norbert deixou a garagem aberta e, ao ouvir nossos gritos, o bicho não se conteve e quis vir brincar também. Apavorado, o menino para e eu assobio. Susto vem até mim, afago a cabeça dele e murmuro:
    — Não se assuste, Flyn.
    — Cachorros mordem — sussurra, paralisado.
    Me lembro do que o menino contou aquele dia na cama e, acariciando Susto, tento acalmar Flyn:
    — Não, meu amor, nem todos os cachorros mordem. E tenho certeza de que Susto não vai te machucar. — Mas o garoto não se convence e insisto enquanto estendo a mão para ele. — Vem. Confia em mim. Susto não vai te morder.
     Não se aproxima. Apenas me olha. Simona o incentiva, Norbert também, e Flyn dá um passo à frente mas logo para. Está com medo. Sorrio e digo outra vez:
    — Te prometo, querido, que ele não vai fazer nada de mau.
    O menino me olha com receio, até que de repente Susto se atira na neve e põe as patas para cima. Achando graça, Simona faz carinho na barriga do cão.
   — Tá vendo, Flyn? Susto só quer que a gente faça cosquinha. Vem...
   Faço o mesmo que Simona, e o cachorro põe a língua para fora num sinal de alegria. De repente, o menino chega mais perto, se agacha e, morrendo de medo, toca o cãozinho com um dedo. Tenho certeza de que é a primeira vez em muitos anos que ele encosta num animal. Como Susto continua sem se mexer, Flyn se anima e toca nele de novo.
    — E aí, o que achou?
    — Macio e molhado — diz o garoto, que já encosta nele com a palma da mão.
   Meia hora depois, Susto e Flyn já estão amigos e, quando entramos no trenó e deslizamos pela neve, Susto corre ao nosso lado enquanto gritamos e rimos. Todos estamos cobertos de neve e nos divertindo à beça, até que ouvimos um carro se aproximar. Emma. Eu e Simona nos olhamos. Ao ver que é sua tia, Flyn fica imóvel. Isso me espanta. Não corre na direção dela. Quando o veículo chega ainda mais perto, percebo que Emma está nos observando e, pela cara, parece estar de mau humor. Ok, nenhuma novidade. Sem conseguir evitar, murmuro perto de Simona:
    — Oh, oh! Ela pegou a gente no flagra!
     A mulher faz que sim. Emma para o carro. Desce e bate a porta com força, e isso é mais uma prova de que ela está atacada hoje. Caminha na nossa direção de um jeito que intimida.
    Meu Deus! Que recaída minha  Icewoman está tendo!
   Quando quer fazer cara feia, é imbatível. Deixa todo mundo assustado. Olho para ela. Ela me olha de volta. E, quando já está perto de nós, grita num tom de reprovação:
    — O que esse cachorro está fazendo aqui?
    Flyn não diz nada. Norbert e Simona estão paralisados. Todos olham para mim e eu respondo:
    — Estávamos brincando na neve, e ele estava com a gente.
    Emma puxa Flyn pela mão e diz, rosnando:
    — Eu e você precisamos ter uma conversa séria. O que você aprontou no colégio?
    O tom de voz que ela usa com a criança me deixa revoltada. Por que tem que falar com ele assim? Mas, quando penso em dizer alguma coisa, eu a ouço dizer:
    — Me ligaram de novo do colégio. Pelo visto, você voltou a se meter em encrenca, e dessa vez foi das brabas!
    — Tia, eu...
   — Cala a boca! — grita. — Você vai direto pra um colégio interno. No fim das contas, é o que vai acabar acontecendo. Entra no meu escritório e me espera lá.
    Após o olhar duro que Emma lhes dirige, Simona, Norbert e o garoto vão embora.
    A mulher olha para mim com expressão de tristeza. Pisco um olho para ela, apesar de saber que vai sobrar para mim nessa história. Já estou até vendo a bronca que vou levar dessa alemã. Quando ficamos a sós, Emma repara no trenó e nas marcas na ladeira e reclama:
    — Quero esse cachorro fora da minha casa, está me ouvindo?
    — Mas Emma... escuta...
   — Não, não vou escutar, Regina.
   — Mas deveria — insisto.
    Nos encaramos por um tempo, até que ela grita:
    — Eu disse “fora”!
    — Olha só, se você se aborreceu com alguma coisa no escritório, não vá descontar em mim. É o fim da picada!
    Solta o ar bufando, passa a mão pelos cabelos e diz:
   — Já tinha te falado que não queria ver esse cão aqui e, que eu saiba, não te dei permissão pra que meu sobrinho subisse num trenó, e menos ainda ao lado desse animal.
    Fico surpresa com o surto de mau humor, mas, como estou disposta a entrar na briga, protesto:
    — Não sabia que tinha que te pedir permissão pra brincar na neve, ou tinha? Se você me disser que é assim, a partir de hoje vou pedir sua autorização até pra respirar.
    Que merda, só me faltava essa!
    Emma não responde, e continuo, mal-humorada:
    — Quanto a Susto, quero que fique aqui. Essa casa é grande o suficiente pra que você não o veja se não quiser. Tem um jardim que é quase um parque. Posso construir uma casinha pra ele morar dentro dela e ao mesmo tempo proteger nossa casa. Não sei por que você insiste em botá-lo pra fora, mesmo com o frio que está fazendo. Você não percebe? Não tem pena? Tadinho, deve sentir o maior frio. Está nevando, e você quer deixá-lo na rua. Ah, Emma, por favor.
    Minha Icewoman, que está linda com seu terninho e seu sobretudo azul, olha para Susto. O cachorro abana o rabo para ela. Fofinho!
    — Mas, Regina, você acha que sou idiota? — diz, surpreendendo-me.
    Não respondo e ela continua:
    — Esse animal mora na garagem há um tempão.
    Meu coração quase para de bater. Será que ela também viu a moto?
    — Você sabia?
    — Acha que sou tão imbecil a ponto de não me dar conta de uma coisa dessas? Claro que eu sabia.
     Fico sem palavras e, antes que eu possa responder, ela insiste:
    — Eu te disse que não o queria na minha casa, mas mesmo assim você o trouxe pra dentro e...
    — Se você voltar com essa história de sua casa..., vou me irritar — digo, sem mencionar a moto. Já que ela não disse nada, o melhor é não tocar no assunto por enquanto. — Você vive me dizendo pra considerar essa casa como minha, e agora, só porque dei abrigo a um pobre animal na sua maldita garagem pra ele não morrer de frio nem de fome na rua, você está se comportando como uma... uma...
    — Babaca — ela completa.
    — Isso — confirmo. — Você mesmo já disse: uma babaca!
    — Você e meu sobrinho estão aprontando...
    — O que houve com Flyn no colégio? — interrompo.
    — Ele se meteu numa briga, e o outro garoto teve que levar pontos na cabeça.
    Isso me espanta. Não imagino Flyn envolvido numa situação dessas, apesar de estar com o lábio machucado. Furiosa, Emma, novamente passa a mão pela cabeça, olha para Susto e grita:
    — Quero ele fora daqui!
    Tensão. O frio que faz nem se compara com o frio que sinto em meu coração e, antes que ela volte a dizer alguma coisa, ameaço:
    — Se Susto for embora, eu vou junto.
    Emma levanta as sobrancelhas com frieza e, deixando-me com a boca aberta, diz antes de dar meia-volta:
    — Faz o que você quiser. No fim das contas, sempre faz.
    E, sem dizer mais nada, sai. Me deixa ali plantada, com cara de idiota e vontade de discutir mais. Dez minutos passam e continuo fora da casa ao lado do cachorro. Emma não aparece. Não sei o que fazer. Por um lado, entendo que errei ao colocar Susto na garagem, mas por outro não posso deixar na rua esse pobre animalzinho.
    Vejo Flyn se aproximar pela porta de vidro do quarto de brinquedos e aceno para ele. O garoto acena de volta e me parte o coração. Ele gostou de brincar, de andar de trenó e de fazer carinho em Susto, mas não posso deixar o cachorro dentro dessa casa. Sei que isso traria mais problemas.
    Simona sai e vem em minha direção.
    — A senhorita vai se resfriar. Está ensopada e...
    — Simona, preciso encontrar um lar para Susto. Emma não quer que ele fique aqui.
    A mulher fecha os olhos e, triste, balança a cabeça num gesto afirmativo.
    — Sabe que eu o levaria pra minha casa, mas a senhora Swan não iria gostar. A senhorita sabe disso, né? — Faço que sim e ela acrescenta: — Se quiser, podemos ligar pra associação protetora de animais. Eles com certeza arrumarão um abrigo pra ele.
    Peço para ela descobrir o telefone deles. Não há outra saída.
    Não entro na casa. Me recuso. Se eu ver Emma, vou partir para cima dela, no mau sentido. Caminho com Susto pela trilha até chegar ao enorme portão. Saio para a rua e brinco com o bichinho, que está feliz ao meu lado. Meus olhos se enchem de lágrimas e eu as deixo rolarem. Tentar segurá-las seria pior. Então choro. Choro copiosamente enquanto jogo pedrinhas ao cachorro para ele ir pegar. Tadinho!
    Vinte minutos depois, Simona aparece e me entrega um papel com um telefone anotado.
    — Norbert disse pra ligarmos pra esse número. Pra mandarmos chamar Henry e dizer que estamos falando da parte dele.
     Agradeço e pego meu celular do bolso. Com o coração apertado, faço o que Simona sugere. Falo com o tal de Henry e ele diz que em uma hora vão passar para buscar o animal.   Já é noite. Obrigo Simona a entrar na casa para que Emma e Flyn possam jantar, e eu fico do lado de fora com Susto. Estou congelando. Mas isso não é nada comparado ao frio que o coitado do bicho deve ter passado esse tempo todo. Emma liga para o meu celular, mas rejeito a ligação. Não quero falar com ela. Sem chance!
     Dez minutos depois, algumas luzes aparecem no fundo da rua e sei que é o carro que vem buscar o animal. Começo a chorar. Susto olha para mim. Um furgão se aproxima e para bem na nossa frente. Me lembro de Trampo. Ele foi embora e agora Susto também está indo. Por que a vida é tão injusta?
    Desce um homem que se identifica como Henry, olha para o bichinho e afaga sua cabeça. Assino uns papéis e, enquanto abre as portas traseiras do furgão, ele diz:
    — Despeça-se dele, senhorita. Já estamos indo. E, por favor, tire isso do pescoço dele.
    — É um cachecol que fiz pra ele. Está resfriado.
    O homem olha para mim e insiste:
    — Por favor, retire. É melhor assim.
    Resmungo. Fecho os olhos, tiro o cachecol e suspiro fundo. Uffff, que momento mais triste! Contemplo Susto, que me olha com seus olhões esbugalhados. Me agacho e murmuro, tocando sua cabeça ossuda:
    — Desculpa, querido, mas essa casa não é minha. Se fosse, pode ter certeza de que ninguém tiraria você daqui. — O cão aproxima seu focinho úmido, me dá uma lambida e continuo: — Vão achar um lar maravilhoso pra você, um abrigo quentinho onde você vai ser muito bem tratado.
    Não consigo dizer mais nada. Fico desfigurada de tanto chorar. É como se eu estivesse me despedindo de Trampo outra vez. Dou um beijo na cabeça de Susto, e Henry o pega e o mete no furgão. O bichinho resiste, mas Henry está acostumado e é mais forte do que ele. Em seguida fecha as portas, despede-se e vai embora.
    Sem me mover, vejo o furgão se afastando, com Susto dentro dele. Tapo o rosto com o cachecol e caio no choro novamente. Por um momento, sozinha nessa rua escura e gelada, eu choro como havia tempo não chorava. Tudo é difícil em Munique. Flyn não facilita minha vida, e Emma às vezes é fria como gelo.
    Quando me viro para entrar em casa, me surpreendo ao perceber Emma parada atrás do portão. A escuridão não me permite ver seu olhar, mas sei que está me observando. Estou com frio. Começo a andar e ela abre a porta. Passo a seu lado e não digo nada.
    — Regina...
    Com raiva, me viro na direção dela.
   — Pronto. Não se preocupe. Susto não está mais na sua maldita casa.
   — Escuta, Regina...
   — Não, não quero escutar. Me deixa em paz.
    Sem dizer mais nada, volto a caminhar. Ela me segue, mas andamos em silêncio. Entramos na casa, tiramos nossos sobretudos e ela pega minha mão. Me solto depressa e subo as escadas. Não quero falar com ela. Lá em cima, topo com Flyn. O menino me olha, mas passo por ele e entro no quarto, batendo a porta com força. Tiro as botas e minha calça jeans molhada e me meto no chuveiro. Estou congelada e preciso de um pouco de calor. A água quente me faz recuperar a energia, mas logo estou chorando de novo.
    — Merda de vida! — grito.
    Um gemido escapa de dentro de mim e caio em prantos. Estou muito chorona hoje. Ouço a porta do banheiro se abrindo e, pelo vidro do boxe, vejo que é Emma. Por alguns minutos nós nos olhamos, até que ela sai do banheiro e me deixa sozinha. Sou grata por isso.
    Saio do banho, me enrolo numa toalha e enxugo o cabelo. Depois visto o pijama e me enfio na cama. Estou sem fome. Pego no sono rapidamente, mas acordo sobressaltada ao sentir que alguém me toca. Emma. Mas estou chateada com ela e me limito a murmurar:
    — Me deixa. Não encosta em mim. Quero dormir.
    Suas mãos se afastam da minha cintura e eu me viro. Não quero que me toque.


    De manhã, quando me levanto, Emma está tomando café na cozinha. Flyn está com ela. Assim que entro, os dois olham para mim.
    — Bom dia, Regi— diz Emma.
    — Bom dia — respondo.
     Não vou até ela. Não lhe dou um beijo de bom-dia, e Flyn nos observa. Simona me oferece um café e sorrio ao ver que ela fez churros para mim. Feliz com seu gesto, agradeço e me sento para comer. O silêncio na cozinha é sepulcral, já que em geral sou eu quem e tento puxar conversa com os outros.
     Emma me olha, me olha e me olha; sei que está aborrecida com minha atitude. Mas não estou nem aí. Quero mesmo é fique aborrecida, tanto quanto ela me aborrece ou até mais.
    Norbert entra na cozinha e diz a Flyn para se apressar ou então chegará tarde ao colégio. Meu celular toca. É Marta. Sorrio, me levanto e saio da cozinha. Subo as escadas e entro no meu quarto.
     — Oi, doida! — eu a cumprimento. Marta ri.
     — Como estão as coisas por aí?
    Respiro fundo, olho pela janela e respondo:
    — Tudo bem. Sabe como é, né? Estou com vontade de matar sua irmã.
    Ouço a risada de Marta outra vez.
    — Então isso significa que está tudo bem.
    Marta fica de passar para me pegar. Quer que eu vá com ela fazer compras. Quando fecho o celular, me viro e vejo Emma bem atrás de mim.
    — Combinou alguma coisa com minha irmã?
    — Combinei.
    Passo por ela, e Emma, estendendo a mão, me para.
    — Regina... você não vai mais falar comigo?
    Olho para ela e respondo com cara séria:
    — Que eu saiba, estou falando.
    Emma sorri. Eu não. Então ela fica séria também. E eu rio por dentro. Me agarra pela cintura.
    — Escuta, querida. Sobre o que aconteceu ontem...
    — Não quero falar disso.
    — Você me ensinou a falar dos problemas. Agora não pode mudar de opinião.
    — Olha só — respondo desaforada —, desta vez sou eu que não quero falar de problema nenhum. Você me cansou.
    Silêncio. Tensão.
    — Amor, desculpa. Ontem não foi um dia bom pra mim e...
   — E você descontou no coitado do Susto, né? E de quebra ainda fez questão de me lembrar que esta é sua casa e que Flyn é seu sobrinho. Quer saber, Emma? Vai à merda!
    Eu a encaro. Ela me encara de volta. Ficamos assim um tempo, até que ela murmura:
    — Regina,  essa é sua casa e...
    — Não, lindinha, não. É sua casa. Minha casa é na Espanha, um lugar de onde eu nunca deveria ter saído.
    Me puxa para si e sussurra:
    — Não diz isso, por favor.
    — Então cala a boca e não fala mais sobre o que aconteceu ontem.
    Tensão. O ar está tão pesado que dá para cortar com uma faca. Penso na moto. Quando descobrir, ela vai me matar. Nos olhamos e, por fim, minha alemã diz:
    — Vou ter que viajar. Eu ia te contar ontem, mas...
    — O quê? Você vai viajar?
    — É.
    — Quando?
    — Agora.
    — Pra onde?
    — Londres. Preciso resolver uns assuntos, mas volto depois de amanhã.
    Londres. Isso me deixa preocupada. Amanda!!
    — Vai ver a Amanda? — pergunto, incapaz de me controlar.
    Emma faz que sim, e me desvencilho dela com raiva. Sou dominada pelo ciúme. Não gosto dessa bruxa e não quero que elas fiquem sozinhas. Mas Emma, sabendo muito bem o que estou pensando, me puxa para si novamente.
    — É uma viagem de negócios. Amanda trabalha pra mim e...
   — E com Amanda você também brinca? Com ela você satisfaz seus vícios nessas viagens, e é isso que você vai fazer agora, né?
    — Regina, não... — sussurra.
    Mas meu ciúme é mais forte e grito, fora de mim:
   — Ah, que ótimo! Pode ir, e que vocês se divirtam muito juntas! E não tenta negar isso, porque não sou otária. Meu Deus, Emma, a gente se conhece! Mas tudo bem, não se preocupa, vou estar te esperando na sua casa quando você voltar.
    — Regina...
    — Quê?! — berro, totalmente descontrolada.
    Emma me pega nos braços, me deita na cama e diz, segurando meu rosto:
    — Por que você acha que vou fazer alguma coisa com ela? Ainda não se deu conta de que só desejo você e só quero você?
    — Mas ela...
    — Mas ela nada — me corta. — Preciso viajar a trabalho, e ela trabalha comigo. E, querida, isso não significa que tenha que rolar alguma coisa entre a gente. Vem comigo. Arruma uma mala e me acompanha. Se você realmente não confia em mim, faz isso, mas não me acusa de coisas que não faço nem vou fazer.
    De repente me sinto ridícula. Estou tão chateada com a história de Susto, que não consigo raciocinar direito. Sei que Emma não mentiria para mim e, após suspirar, eu digo:
    — Desculpa, mas eu...
    Não chego a completar a frase. Emma me agarra e beija minha boca. Me devora, e então eu a abraço de um jeito desesperado. Não quero continuar chateada. Odeio quando a gente não se entende. Aproveito seu beijo. Aperto Emma contra mim até minha boca pedir...
    — Me come.
    Emma se levanta. Passa o trinco que coloquei na porta e, enquanto se desfaz  de sua blusa, murmura:
    — Com prazer, senhorita Mills. Tire a roupa.
    Sem perder tempo, tiro o roupão e o pijama. Quando estou completamente nua, e Emma também, ela senta na cama e diz:
    — Vem...
   Chego mais perto dela. Emma põe a cara no meu púbis e beija. Passa as mãos pelo meu corpo, depois sussurra enquanto me sento sobre ela e com as mãos abre os lábios da minha vagina:
    — Você... é a única mulher que eu quero.
    Ela com seus dedos entra em mim até o fundo.
    — Você... é a coisa mais importante da minha vida.
    Me mexo em busca do meu prazer e, quando vejo que ela respira ofegante, eu acrescento:
    — Você... é a mulher que eu amo e em quem quero confiar.
    Meus quadris vão para a frente e para trás. Quando solto um gemido, Emma se levanta, me coloca na cama, deita em cima de mim e volta a me penetra fundo.
    — Você... é minha como eu sou sua. Não duvida disso, pequena.
   Um movimento forte faz seus dedos entrar até meu útero e eu me contorço.
    — Olha pra mim — ordena.
    Obedeço e, enquanto se move cada vez mais fundo e solto gemidos, Emma diz:
    — Só com você eu posso transar desse jeito, só desejo você e só quero brincar com você.
    Calor... tesão... empolgação.
    Emma me agarra pela cintura, me come e diz coisas maravilhosas. Excitada, gosto de ouvi-las enquanto ela está dentro de mim. Por vários minutos ela entra e sai, forte... rápido... intenso, até que pede:
    — Diz que confia em mim tanto quanto eu em você.
    Entra de novo e me dá um tapa, esperando minha resposta. Olho para ela. Não respondo, e ela volta a se enfiar enquanto com a mão livre segura meu ombro para o movimento ser mais forte.
    — Diz! — exige.
   Seus quadris sobre os meus me imobiliza,  antes que ela me penetre outra vez. Quando me contraio de prazer, Emma me aperta ainda mais contra ela. Enlouquecida, eu murmuro:
    — Confio em você... sim... confio em você.
    Ela abre um sorriso malicioso. Me pega pela cintura e me levanta. Me tem a seu bel- prazer. Adoro isso! Me apoia contra a parede e, cheia de tesão , agora com três de seus dedos, entra com força várias vezes, enquanto cruzo minhas pernas na sua cintura e me arqueio para recebê-la. Isso, assim, assim, assim!
     Controlo meu gemido ao morder a pele alva de seu  ombro, mas Emma percebe meu orgasmo chegando e então, só então, ela goza também. Nuas e suadas, nos abraçamos, ainda coladas à parede. Amo Emma. De todo o coração.
    — Te amo, Regina... — afirma, me trazendo para o chão. — Por favor, não duvida disso, amor.
     Cinco minutos depois estamos debaixo do chuveiro. Transamos de novo. Somos insaciáveis. O sexo entre nós duas é maravilhoso. Incrível.
    Quando Emma vai embora, eu dou tchauzinho com a mão. Confio nela. E preciso disso. Sei o quanto sou importante na sua vida e tenho certeza de que ela não vai me decepcionar.
    Marta passa para me buscar. Sorrio ao vê-la. Entro no carro e mergulhamos no trânsito de Munique. Paramos o carro em frente a uma loja superchique. Assim que entramos, vejo que é a loja de Anita, a amiga de Marta que estava com a gente no bar cubano. Marta escolhe vários vestidos, todos eles lindos e caríssimos. Entramos juntas no provador espaçoso e iluminado, e ela cochicha:
    — Preciso comprar uma roupa bem sexy para o jantar de depois de amanhã.
    — Tem um encontro?
    — Tenho — diz Marta, rindo.
    — Uau! E posso saber com quem?
    Achando graça, Marta murmura:
    — Com Arthur.
    — Arthur, o garçom gato?
    — É.
    — Que beleza, hein! — digo.
    — Resolvi seguir seu conselho e dar uma chance a ele. Talvez dê certo, talvez não, mas pelo menos assim não vou poder dizer que nunca tentei.
    — Isso aí! É assim que se fala, garota! — exclamo.
    Prova um monte de vestidos e acaba se decidindo por um azul. Marta fica linda com ele. De repente, uma voz chama minha atenção. Onde foi que já ouvi essa voz? Saio do provador e fico sem palavras. A poucos metros de mim, vejo a pessoa que nesses meses todos eu gostaria de ter esganado: Betta. Está conversando com uma mulher. Meu sangue ferve e sou dominada pela sede de vingança.
    Sem poder controlar meus impulsos mais violentos, vou até Betta e, antes que ela possa reagir, já estou segurando seu pescoço e dizendo bem na sua cara:
    — Oi, Rebeca! Ou prefere que eu te chame de Betta?
    Ela fica branca como papel, e sua amiga mais ainda. Está assustada. Não esperava me ver aqui, e muito menos que eu a tratasse dessa forma. Sou pequena, mas estou pronta para uma briga, e essa idiota vai saber direitinho com quem está lidando. Ao nos ver, Anita se aproxima. Mas, como não estou a fim de largar minha presa, eu a enfio num provador.
    — Tenho que falar com ela. Você nos dá um minutinho?
    Fecho a porta do provador, e Betta me olha horrorizada. Não tem escapatória. Sem pensar duas vezes, dou uma bofetada nela que faz seu rosto virar para o lado.
    — Isso é pra você aprender, e isso — digo, dando-lhe outro tapa com a mão bem aberta — é só por precaução, para o caso de você ainda não ter aprendido.
    Betta grita. Anita grita. A amiga de Betta grita. Todas gritam e batem na porta. E eu, disposta a dar a essa sem-vergonha o que ela merece, torço seu braço e ela cai de joelhos na minha frente. Em seguida digo:
    — Não sou uma pessoa agressiva nem má, mas, quando agem assim comigo, eu retribuo em dobro. Viro um bicho muito... muito feroz. E sinto muito, sua idiota, mas você sozinha conseguiu despertar o monstro que há dentro de mim.
    — Me solta... me solta que você está me machucando — grita Betta, do chão.
    — Machucando? — repito com sarcasmo. — Isso não é machucar, sua nojenta! Isso é apenas um aviso de que comigo não se brinca. Essa foi a última vez que você levou vantagem na brincadeira. Você sabia quem eu era, mas eu, em compensação, nem te conhecia. Jogou sujo comigo, e eu, boba, não percebi. Mas repito: comigo não se brinca. E, se você fizer isso, vai ter troco.
     Assustada pelos gritos, Marta se junta às outras e começa a esmurrar a porta. Não entende o que está acontecendo. Não entende por que estou me comportando desse jeito. Isso me deixa agoniada, me desconcerta e, antes de soltar Betta, sussurro em seu ouvido:
   — Que seja a última vez que você se aproxima de mim ou de Emma, porque te juro que, se você fizer isso outra vez, não vou ficar só no aviso. Pelo seu bem, fica bem longe de Emma. Não se esqueça.
     Em seguida eu a solto, mas dou um chute no seu traseiro e ela cai de bruços no chão. Ai, meu Deus! Surtei! Depois abro a porta e saio. Marta me olha assustada. Não entende nada, e então vê Betta e aí sim compreende tudo. Assim que a outra se levanta, Marta chega perto dela e, cheia de raiva, lhe dá uma bofetada.
    — Essa é pelo minha irmã. Como você foi capaz de dormir com o pai dela, sua vadia? Nesse momento, Anita para de pedir explicações e entende do que Marta está falando. Horrorizada, a amiga de Betta a ajuda.
    — Chama a polícia, por favor.
    — Por quê?
    — Essas mulheres atacaram Rebeca, você não viu?
    Anita nega com a cabeça.
   — Desculpa, mas não vi nada. Só vi uma cadela no chão.
   Radiante com o que acabo de fazer, me apoio na lateral da porta e olho para Betta. Me controlo. Eu queria mesmo era lhe dar uma boa surra, mas me seguro, por mais que ela mereça. Betta está desorientada, não sabe o que fazer. Por fim, de braços dados com sua amiga, diz:
    — Vamos.
    Quando as duas somem da loja, Anita e Marta olham para mim.
    — Sinto muito. Desculpa, meninas, mas eu tinha que fazer isso. Essa mulher trouxe muitos problemas pra Emma e pra mim. Quando a vi, não consegui me controlar. Meu gênio explosivo me dominou e eu, eu...
     Anita faz que sim com a cabeça e Marta responde:
    — Não precisa se desculpar. Ela merecia.
    Segundos depois, nós três já estamos rindo, enquanto minha mão ainda dói pelas bofetadas que dei em Betta. Ah, mas como foi bom!
    Quando saímos da loja, decidimos parar num lugar para beber umas cervejas. Estamos precisando. Topar com Betta foi algo que ninguém esperava e nos tirou um pouco dos eixos. Quando enfim conseguimos relaxar, Marta me fala do seu encontro.
    — Depois de amanhã é Dia dos Namorados?
    — É — responde Marta. — Não sabia?
    — Não... Estou com tanta coisa na cabeça que sinceramente me esqueci disso. Se bem que, conhecendo sua irmã, sei que ela também não vai dar a menor importância. Se ela esquece o Natal, nem imagino o que deve pensar de um dia tão romântico e consumista.
    — Mulher, de cara ela te disse que vai voltar de viagem bem nesse dia.
   — Sim, mas não mencionou que faríamos nada de especial. Se bem que há pouco tempo sugeri a ela que a gente colocasse um cadeado na ponte dos namorados e ela concordou.
    — Minha irmã?
    — Ahaaaaam.
    — Emma? A Senhora Resmungona aceitou colocar um cadeado do amor?
    — Foi o que ela disse — confirmei, rindo. — Comentei com ela que os cadeados tinham chamado minha atenção e ela disse que, quando eu quisesse, podíamos colocar o nosso. Mas também não é assim, vai, ela nem voltou a falar disso.
    Damos umas risadas incrédulas e Marta cochicha:
    — Cá entre nós, minha irmã nunca foi muito romântica pra essas coisas. E, que eu me lembre, quando ela estava com a vaca da Betta, nunca fizeram nada especial no Dia dos Namorados.
    Tocar no nome dela nos deixa irritadas novamente.
    — Imagino que você ficou assim por alguma coisa além do que essa sem-vergonha fez com minha irmã, né? — pergunta Marta.
    — É.
    — Pode me contar?
    Minha cabeça começa a funcionar a mil por hora. Não posso lhe contar a verdade, porque ela não sabe dos nossos jogos eróticos.
    — Na Espanha ela se meteu na nossa relação, e eu e sua  irmã discutimos e terminamos.
    — Minha irmã terminou contigo por causa dessa nojenta? — pergunta Marta, boquiaberta.
    — Bom... é algo complicado.
   — Ela quis voltar com ela? Porque, se foi isso, eu mato a Emma!
  — Não... não foi isso. Foi um mal-entendido que essa maldita acabou gerando, e ela acreditou mais nela do que em mim.
    — Jura? Minha irmã é idiota?
   — É, além de babaca.
    Nós duas rimos, decidimos encerrar o assunto e comer alguma coisa. Emma me liga. Já chegou a Londres. Não conto o episódio com Betta. Melhor assim.
     Marta me deixa na casa de Emma. Simona avisa que Flyn está fazendo os deveres no quarto de brinquedos e que ela vai ao supermercado com Norbert. Gravou o capítulo de Loucura esmeralda e mais tarde vamos assistir. Subo para o quarto e troco de roupa. Visto uma camiseta e uma calça de algodão cinza de ficar em casa e decido ir ver como está o menino.
    Quando abro a porta, ele olha na minha direção. Está sempre emburrado. Vou até ele e mexo no seu cabelo.
    — Como foi hoje na escola?
     O garoto move a cabeça para se desvencilhar de mim e responde:
   — Bem.
    Reparo que seu lábio está melhor que ontem. Balanço a cabeça de um lado para outro, num gesto de desaprovação. Isso não pode continuar assim. Agachando-me para ficar da sua altura, murmuro:
    — Flyn, você não pode deixar que os meninos continuem fazendo o que fazem contigo. Tem que se defender.
    — É, mas quando eu me defendo minha  tia fica brava comigo — responde ele, furioso. Me lembro do que Emma me contou e faço que sim com a cabeça.
    — Olha, Flyn, entendo o que você diz. Não sei bem o que aconteceu ontem para aquele menino precisar levar pontos.
    Flyn não me olha, mas pela tensão do seu corpo dá para perceber que o que digo o incomoda.
    — Escuta, você não pode permitir que...
    — Cala a boca! — grita enfurecido. — Você não sabe de nada!
    — Ok. Vou ficar quieta. Mas quero que você saiba que sei o que está acontecendo. Eu vi. Vi como esses seus supostos amiguinhos te empurram e debocham de você quando Norbert vai embora.
   — Não são meus amigos.
   — Isso você nem precisa me dizer — digo, brincando. — Já percebi. O que não entendo é por que você não conta tudo isso pra sua tia.
    Flyn se levanta. Me empurra para que eu saia do quarto e me expulsa. Quando fecha a porta na minha cara, minha vontade é abri-la e lhe dar uma bela de uma bronca, mas penso melhor e acabo desistindo. Já o avisei de que estou a par de tudo. Agora é só esperar que ele me peça ajuda.