Estou postando para a Ju e aproveito para dizer que ela é maravilhosa, além de escrever a melhor fanfic que já existiu! Beijos, Ana/Detoxx.
Meu
celular toca. É Emma. Falo com ela por mais de uma hora. Ela pergunta do meu
dia, e eu do dela, e depois trocamos palavras carinhosas e calientes. Eu a amo
e estou morrendo de saudades. Antes de desligar, ela diz que vai me ligar de
novo quando chegar ao hotel. Eba!
Depois, entediada e sem saber o que fazer, entro no quarto que Emma diz que é meu e tiro meus CDs de música. Ao ver o de Malú, aquele que me traz ótimas lembranças, decido colocá-lo no meu sonzinho.
Depois, entediada e sem saber o que fazer, entro no quarto que Emma diz que é meu e tiro meus CDs de música. Ao ver o de Malú, aquele que me traz ótimas lembranças, decido colocá-lo no meu sonzinho.
Sé que faltaron razones... sé que sobraron motivos.
Contigo porque me matas... y ahora sin ti ya no vivo.
Tú dices blanco... yo digo negro.
Tú dices voy... yo digo vengo.
Cantarolando essa música tão importante para mim e para meu amor, continuo tirando as coisas das caixas. Olho com carinho para meus livros e começo a arrumá-los nas prateleiras que comprei.
De repente, a porta do quarto se abre devagarzinho e Flyn diz, muito irritado:
— Desliga essa música. Está me incomodando.
Olho para ele surpresa.
— Está te incomodando, é?
— É.
Solto o ar bufando. Impossível a música estar incomodando. Não está tão alta a esse ponto, mas tento ser boazinha, me levanto e abaixo um pouco o volume. Volto para perto das prateleiras e pego os livros que deixei no chão. Vejo de relance que o garoto vai até o aparelho de som, desliga com um solo e sai.
Filho da mãe! Está procurando encrenca e vai encontrar.
Deixo os livros em cima de uma mesa, me aproximo do som e ligo a música de novo. O menino, que está passando pela porta nesse instante, para, olha para mim como se quisesse me matar e grita:
— Por que não vai pra sua casa?
— Quê?!
— Vai, e para de encher o saco.
Me seguro para não responder. Melhor me segurar porque, se eu me deixar levar pelo meu temperamento, esse moleque resmungão vai saber direitinho como uma mulher espanhola se comporta quando se irrita. De cara amarrada, anda até o aparelho de som novamente. Desliga. Tira o disco e, sem dizer nada, abre a porta envidraçada e joga o CD no lado de fora.
Ai, Deus, meu CD de Malú!
Vou matá-lo, matá-lo, matáááááá-lo!
Sem pensar duas vezes, saio para buscar o disco. Eu o pego da neve como se fosse um bebê, limpo-o com minha camiseta enquanto vou xingando todos os antepassados desse pestinha. Quando me viro, ouço o clique da porta sendo trancada. Fecho os olhos e murmuro:
— Por favor, meu Deus, dai-me paciência!
Está frio, muito frio, e bato na porta do lado de fora.
— Flyn, abre agora, por favor!
O pequeno demônio me olha. Sorri com maldade, vira-se e, depois de jogar no chão vários livros que coloquei na estante e pisotear uma porção de CDs, sai do quarto.
Tento abrir a porta, mas está trancada por dentro.
— Merda!
Com vontade de estrangulá-lo, caminho até a outra porta envidraçada, e meu tênis fica encharcado e atolado na neve. Meu Deus, que frio! Chego bem em frente ao quarto onde ele faz os deveres e o vejo entrando ali. Bato no vidro e digo:
— Flyn, por favor, abre a porta!
Nem me olha. Me ignora totalmente!
Estou tremendo. Faz um frio terrível e insisto que ele abra a porta. Mas nada. Não fica com pena de mim. Dez minutos depois, quando estou batendo os dentes, meu cabelo molhado já está congelado e sinto gotículas de gelo debaixo do nariz, grito enfurecida ao mesmo tempo que esmurro a porta.
— Puta que pariu, Flyn! Abre essa maldita porta!
A criatura me olha finalmente. Acho que vai sentir pena de mim. Levanta, caminha até a porta e fecha as cortinas. Perplexa, continuo esmurrando a porta enquanto solto um milhão de palavrões em espanhol.
Está nevando. Estou na rua usando apenas umas míseras roupas de algodão e um par de tênis. Estou morrendo de frio. Esfrego as mãos e penso no que fazer. Corro até a porta da cozinha. Fechada. Lembro que Simona não está. Tento entrar pela porta da sala. Fechada. A porta da rua. Fechada. A porta do escritório de Emma. Fechada. A janela do banheiro. Fechada.
Estou congelando e meu cabelo molhado me faz espirrar. Vou acabar pegando uma pneumonia. Volto aonde sei que Flyn está atrás das cortinas. Que vontade de matá-lo! Olho para cima. A varanda de um dos quartos. Sem pensar no perigo, subo num banco de pedra para tentar chegar à varanda, mas estou tão congelada e o banco está tão escorregadio, que acabo caindo no chão. Levanto e insisto. Sento num muro congelado, me estico outra vez e, antes de alcançar a varanda, meu tênis escorrega e acabo me esborrachando no chão, mas antes bato no muro. O golpe foi forte e meu queixo dói horrores.
Deitada na neve, resmungo e, quando me levanto com a cara cheia de gelo, solto um berro:
— Abre essa maldita porta! Estou congelando.
Flyn abre as cortinas e sua expressão já está diferente. Diz alguma coisa que não consigo ouvir. Quando enfim abre a porta, grita:
— Você está sangrando!
— Onde?
Mas já não preciso que ele diga. Ao olhar para o chão, vejo a neve tingida de vermelho aos meus pés. Minha blusa cinza está vermelha também e, quando toco no queixo, sinto a ferida e minhas mãos se enchem de sangue. Flyn me olha apavorado. Não sabe o que fazer. Enquanto vou entrando em seu quarto, digo:
— Me dá uma toalha ou algo assim, corre!
Sai disparado e volta com uma toalha, mas o chão já está manchado de sangue. Ponho a toalha no queixo e tento me acalmar. Sinto na boca o sabor metálico do sangue. Mordi meu lábio também. Estou sozinha com Flyn. Simona e Norbert não estão, e preciso ir urgentemente a um hospital. Sem hesitar, me viro para Flyn, que está desconcertado, e pergunto:
— Sabe onde fica o hospital mais próximo?
O menino faz que sim com a cabeça.
— Vamos, coloca o casaco e o gorro.
Corremos até a porta e pegamos nossos casacos. Gotas de sangue caem no chão e não tenho tempo de limpá-las. Quando vou vestir meu casaco, retiro a toalha do queixo e o sangue jorra dali. Me assusto. Flyn também. Coloco a toalha novamente e, encharcada de água e sangue, pergunto:
— Me ajuda a vestir o casaco?
Ele obedece imediatamente. Protegidos do frio, entramos na garagem. Pego o Mitsubishi e Flyn segura a toalha no meu queixo para eu poder dirigir. Ele vai me indicando por onde devo ir. Minhas mãos e joelhos tremem, mas tento manter a calma enquanto estou ao volante.
O hospital não fica longe. Quando chegamos e os funcionários veem meu estado, sou logo atendida. Flyn não sai do meu lado. Diz a alguns médicos que é sobrinho de Marta Grujer e pede que por favor telefonem para ela vir ao hospital. Fico surpresa com a capacidade que esse pirralho tem para dar ordens, mas estou com tanta dor que para mim isso não faz diferença. Se ele quiser, pode chamar até o Mickey Mouse, que não estou nem aí.
Somos levados a outra sala. Quando o médico vê minha ferida, diz que a do lábio vai cicatrizar logo, mas no queixo vou ter que levar cinco pontos. Fico assustada. Estou quase chorando. Tenho horror a pontos. Quando eu era pequena, levei cinco no joelho e fiquei traumatizada. Olho para Flyn. Está branco como a neve. Tomou um susto horrível. E me dou conta de que não choro por vergonha dele, mas, assim que me dão anestesia no queixo, uma lágrima escorre dos meus olhos. Flyn repara. De repente se levanta do banco, pega minha mão e aperta. O médico o obriga a sentar de novo, mas o garoto se nega. Por fim, eu ouço o médico dizer a Flyn:
— Você é igualzinho a sua tia.
Isso me deixa espantada. Ou não?
— Seu nome é...?
— Regina Mills.
— Espanhola?
Ai, meu Deus, só espero que ele não venha com aquele papo de “olé, paella, touro e castanholas”. Não quero ouvir isso. Mas, assim que confirmo, o homem diz:
— Olé, touro!
Me seguro para não partir pra cima dele. Malditos gringos. Minha cabeça, minha boca e meu queixo estão doendo, e o idiota só fica dizendo “Olé, touro!”.
— É a namorada da minha tia Emma.
Arregalo os olhos. Me surpreende que o garoto admita isso.
— Bom, Regina, vou dar os pontos no seu queixo — avisa o médico. — Não se preocupe com as cicatrizes. Vão diminuir com o tempo e ninguém vai nem reparar. Mas talvez nos próximos dias sua cara fique meio roxa. Você levou uma pancada feia e já está com hematomas.
— Ok.
Instintivamente, aperto a mãozinha de Flyn. Sua energia me acalma. Quando o médico termina de botar um enorme curativo no meu queixo, aplica um creme no meu lábio e diz que tenho que voltar em uma semana. Faço que sim com a cabeça. Em seguida pergunto como devo pagar a consulta, e ele diz que depois acertará com Marta.
Como não estou com muita vontade de falar e meu rosto está doendo, aceito sem me opor. O médico me entrega um relatório e, quando saio, vejo a cara angustiada de Marta.
— Meu Deus, o que houve contigo, Regina? — pergunta horrorizada ao ver minha aparência.
Sem querer dar muitas explicações, olho para Flyn, que não soltou minha mão ainda, e murmuro:
— Eu estava correndo na neve e acabei escorregando. Dei o azar de cair de queixo no chão.
— Deixa seu carro aqui — diz Marta, solícita. — Norbert vem buscar depois. Vamos, vou levar vocês no meu.
Preciso fechar os olhos e esquecer a dor que estou sentindo. No caminho começa a chover e, quando chegamos em casa, cai um dilúvio. Simona e Norbert nos esperam em pânico. Ao voltarem do supermercado e toparem com sangue no chão, imaginaram mil coisas. Eu os acalmo, e eles ficam mais tranquilos ao verem o menino e a mim, apesar de ainda me olharem meio assustados. Flyn não sai de perto de mim. Parece que grudaram uma cola nele. Gosto disso, mas ao mesmo tempo estou irritada. Tudo o que aconteceu foi culpa dele.
Minha cabeça está me matando. Dói à beça e resolvo ir para a cama. Tomo o remédio que o médico passou, tiro a roupa manchada de sangue e me deito. Marta avisa que dormirá no quarto de hóspedes, para o caso de eu precisar de alguma coisa. No meio da madrugada, acordo com barulho de trovão. Cheia de dor, me viro na cama e encosto no lado de Emma. Estou com saudades dela. Quero que volte logo. Fecho os olhos novamente, relaxo, até que ouço mais uma trovoada. Abro os olhos. Flyn!
Me levanto e ando até seu quarto. Minha cabeça está explodindo. Assim que entro, vejo que o abajur está aceso e que ele está acordado, sentado na cama, tremendo e muito assustado. Me aproximo dele e pergunto:
— Posso dormir contigo?
O garoto me olha surpreso. Devo estar parecendo uma bruxa com esse cabelo todo desgrenhado.
— Flyn — insisto —, tenho medo de trovão.
Ele balança a cabeça concordando e eu me enfio na cama. Põe o travesseiro no meio de nós dois. Marcando distância, como sempre. Sorrio. Quando consigo fazê-lo deitar, sussurro:
— Fecha os olhos e pensa em alguma coisa bonita. Você vai dormir rapidinho e nem vai ouvir as trovoadas.
Por um instante ficamos deitados em silêncio no quarto, enquanto a tempestade cai com força lá fora. Mais um trovão ecoa, e Flyn dá um pulo na cama. Nesse momento, tiro o travesseiro que está no meio de nós dois, pego sua mão e o puxo para mais perto de mim. Está congelando, tremendo e apavorado. Quando eu o aproximo de mim, ele não reclama. Ao contrário, até sinto que ele se aperta mais ainda. Com carinho e cuidado para não esbarrar no meu queixo, dou um beijo na sua testa.
— Feche os olhos, pense em coisas bonitas e durma. Juntos, vamos nos proteger dos trovões.
Dez minutos mais tarde, nós dois, exaustos, dormimos abraçados.
Um golpe no meu queixo me faz acordar. Está doendo. Flyn se mexeu e acabou esbarrando ali. Me sento na cama e passo a mão no machucado. O curativo é enorme e eu resmungo. A chuva e o trovão já pararam. Olho o relógio em cima da mesinha de cabeceira. São 5h27.
Nossa, está muito cedo!
Morrendo de dor, me deito de novo, até que vejo Emma sentada numa cadeira num canto do quarto. Emma! Ela se levanta rápida e vem até mim. Seus olhos demonstram preocupação e seus lábios estão contraídos. Me dá um beijo na testa, me pega entre seus braços e me tira do quarto. Estou tão chapada que não sei se é sonho ou realidade. Ela me coloca em nossa cama e murmura:
— Não se preocupa com nada, amor. Voltei pra cuidar de você. Pisco os olhos surpresa e, após receber um beijo doce nos lábios, pergunto:
— Mas... o que você está fazendo aqui? Não ia voltar só amanhã?
Ela faz que sim e ao mesmo tempo olha para o curativo no meu queixo.
— Liguei pra falar contigo, e Simona me contou o que houve. Voltei imediatamente. Desculpa não estar aqui, pequena.
— Não tem problema, estou bem. Não está vendo?
Emma me observa.
— Está bem mesmo?
Dou de ombros.
— Sim, com um pouco de dor, mas estou bem. Não se preocupe.
— O que houve?
Fico tentada a lhe contar a verdade. Seu sobrinho é uma peste. Mas sei que isso traria mais dor de cabeça para ela e problemas para Flyn. Acabo dizendo:
— Saí pro jardim, escorreguei e caí de queixo no chão.
Seus olhos não acreditam em mim. Desconfiam de alguma coisa. Mas me esforço para que ela aceite minha versão.
— Você sabe como sou estabanada na neve. Mas, sério, estou bem. O chato é a cicatriz que vai ficar. Espero que não dê pra notar.
— Vaidosa — diz Emma, sorrindo.
Também sorrio.
— Tenho uma namorada muito gata e quero que sinta orgulho de mim — explico.
Emma deita ao meu lado e me abraça. Seu corpo está tremendo.
— Sempre me orgulho de você, pequena. — Apoia a cabeça junto ao meu pescoço e acrescenta: — Não vou me perdoar por não ter estado aqui. Não vou me perdoar.
Esse seu drama todo me surpreende. Ela não suporta imaginar o que poderia ter acontecido. Fecho os olhos. Estou cansada. Me aconchego nela e durmo nos seus braços.
Contigo porque me matas... y ahora sin ti ya no vivo.
Tú dices blanco... yo digo negro.
Tú dices voy... yo digo vengo.
Cantarolando essa música tão importante para mim e para meu amor, continuo tirando as coisas das caixas. Olho com carinho para meus livros e começo a arrumá-los nas prateleiras que comprei.
De repente, a porta do quarto se abre devagarzinho e Flyn diz, muito irritado:
— Desliga essa música. Está me incomodando.
Olho para ele surpresa.
— Está te incomodando, é?
— É.
Solto o ar bufando. Impossível a música estar incomodando. Não está tão alta a esse ponto, mas tento ser boazinha, me levanto e abaixo um pouco o volume. Volto para perto das prateleiras e pego os livros que deixei no chão. Vejo de relance que o garoto vai até o aparelho de som, desliga com um solo e sai.
Filho da mãe! Está procurando encrenca e vai encontrar.
Deixo os livros em cima de uma mesa, me aproximo do som e ligo a música de novo. O menino, que está passando pela porta nesse instante, para, olha para mim como se quisesse me matar e grita:
— Por que não vai pra sua casa?
— Quê?!
— Vai, e para de encher o saco.
Me seguro para não responder. Melhor me segurar porque, se eu me deixar levar pelo meu temperamento, esse moleque resmungão vai saber direitinho como uma mulher espanhola se comporta quando se irrita. De cara amarrada, anda até o aparelho de som novamente. Desliga. Tira o disco e, sem dizer nada, abre a porta envidraçada e joga o CD no lado de fora.
Ai, Deus, meu CD de Malú!
Vou matá-lo, matá-lo, matáááááá-lo!
Sem pensar duas vezes, saio para buscar o disco. Eu o pego da neve como se fosse um bebê, limpo-o com minha camiseta enquanto vou xingando todos os antepassados desse pestinha. Quando me viro, ouço o clique da porta sendo trancada. Fecho os olhos e murmuro:
— Por favor, meu Deus, dai-me paciência!
Está frio, muito frio, e bato na porta do lado de fora.
— Flyn, abre agora, por favor!
O pequeno demônio me olha. Sorri com maldade, vira-se e, depois de jogar no chão vários livros que coloquei na estante e pisotear uma porção de CDs, sai do quarto.
Tento abrir a porta, mas está trancada por dentro.
— Merda!
Com vontade de estrangulá-lo, caminho até a outra porta envidraçada, e meu tênis fica encharcado e atolado na neve. Meu Deus, que frio! Chego bem em frente ao quarto onde ele faz os deveres e o vejo entrando ali. Bato no vidro e digo:
— Flyn, por favor, abre a porta!
Nem me olha. Me ignora totalmente!
Estou tremendo. Faz um frio terrível e insisto que ele abra a porta. Mas nada. Não fica com pena de mim. Dez minutos depois, quando estou batendo os dentes, meu cabelo molhado já está congelado e sinto gotículas de gelo debaixo do nariz, grito enfurecida ao mesmo tempo que esmurro a porta.
— Puta que pariu, Flyn! Abre essa maldita porta!
A criatura me olha finalmente. Acho que vai sentir pena de mim. Levanta, caminha até a porta e fecha as cortinas. Perplexa, continuo esmurrando a porta enquanto solto um milhão de palavrões em espanhol.
Está nevando. Estou na rua usando apenas umas míseras roupas de algodão e um par de tênis. Estou morrendo de frio. Esfrego as mãos e penso no que fazer. Corro até a porta da cozinha. Fechada. Lembro que Simona não está. Tento entrar pela porta da sala. Fechada. A porta da rua. Fechada. A porta do escritório de Emma. Fechada. A janela do banheiro. Fechada.
Estou congelando e meu cabelo molhado me faz espirrar. Vou acabar pegando uma pneumonia. Volto aonde sei que Flyn está atrás das cortinas. Que vontade de matá-lo! Olho para cima. A varanda de um dos quartos. Sem pensar no perigo, subo num banco de pedra para tentar chegar à varanda, mas estou tão congelada e o banco está tão escorregadio, que acabo caindo no chão. Levanto e insisto. Sento num muro congelado, me estico outra vez e, antes de alcançar a varanda, meu tênis escorrega e acabo me esborrachando no chão, mas antes bato no muro. O golpe foi forte e meu queixo dói horrores.
Deitada na neve, resmungo e, quando me levanto com a cara cheia de gelo, solto um berro:
— Abre essa maldita porta! Estou congelando.
Flyn abre as cortinas e sua expressão já está diferente. Diz alguma coisa que não consigo ouvir. Quando enfim abre a porta, grita:
— Você está sangrando!
— Onde?
Mas já não preciso que ele diga. Ao olhar para o chão, vejo a neve tingida de vermelho aos meus pés. Minha blusa cinza está vermelha também e, quando toco no queixo, sinto a ferida e minhas mãos se enchem de sangue. Flyn me olha apavorado. Não sabe o que fazer. Enquanto vou entrando em seu quarto, digo:
— Me dá uma toalha ou algo assim, corre!
Sai disparado e volta com uma toalha, mas o chão já está manchado de sangue. Ponho a toalha no queixo e tento me acalmar. Sinto na boca o sabor metálico do sangue. Mordi meu lábio também. Estou sozinha com Flyn. Simona e Norbert não estão, e preciso ir urgentemente a um hospital. Sem hesitar, me viro para Flyn, que está desconcertado, e pergunto:
— Sabe onde fica o hospital mais próximo?
O menino faz que sim com a cabeça.
— Vamos, coloca o casaco e o gorro.
Corremos até a porta e pegamos nossos casacos. Gotas de sangue caem no chão e não tenho tempo de limpá-las. Quando vou vestir meu casaco, retiro a toalha do queixo e o sangue jorra dali. Me assusto. Flyn também. Coloco a toalha novamente e, encharcada de água e sangue, pergunto:
— Me ajuda a vestir o casaco?
Ele obedece imediatamente. Protegidos do frio, entramos na garagem. Pego o Mitsubishi e Flyn segura a toalha no meu queixo para eu poder dirigir. Ele vai me indicando por onde devo ir. Minhas mãos e joelhos tremem, mas tento manter a calma enquanto estou ao volante.
O hospital não fica longe. Quando chegamos e os funcionários veem meu estado, sou logo atendida. Flyn não sai do meu lado. Diz a alguns médicos que é sobrinho de Marta Grujer e pede que por favor telefonem para ela vir ao hospital. Fico surpresa com a capacidade que esse pirralho tem para dar ordens, mas estou com tanta dor que para mim isso não faz diferença. Se ele quiser, pode chamar até o Mickey Mouse, que não estou nem aí.
Somos levados a outra sala. Quando o médico vê minha ferida, diz que a do lábio vai cicatrizar logo, mas no queixo vou ter que levar cinco pontos. Fico assustada. Estou quase chorando. Tenho horror a pontos. Quando eu era pequena, levei cinco no joelho e fiquei traumatizada. Olho para Flyn. Está branco como a neve. Tomou um susto horrível. E me dou conta de que não choro por vergonha dele, mas, assim que me dão anestesia no queixo, uma lágrima escorre dos meus olhos. Flyn repara. De repente se levanta do banco, pega minha mão e aperta. O médico o obriga a sentar de novo, mas o garoto se nega. Por fim, eu ouço o médico dizer a Flyn:
— Você é igualzinho a sua tia.
Isso me deixa espantada. Ou não?
— Seu nome é...?
— Regina Mills.
— Espanhola?
Ai, meu Deus, só espero que ele não venha com aquele papo de “olé, paella, touro e castanholas”. Não quero ouvir isso. Mas, assim que confirmo, o homem diz:
— Olé, touro!
Me seguro para não partir pra cima dele. Malditos gringos. Minha cabeça, minha boca e meu queixo estão doendo, e o idiota só fica dizendo “Olé, touro!”.
— É a namorada da minha tia Emma.
Arregalo os olhos. Me surpreende que o garoto admita isso.
— Bom, Regina, vou dar os pontos no seu queixo — avisa o médico. — Não se preocupe com as cicatrizes. Vão diminuir com o tempo e ninguém vai nem reparar. Mas talvez nos próximos dias sua cara fique meio roxa. Você levou uma pancada feia e já está com hematomas.
— Ok.
Instintivamente, aperto a mãozinha de Flyn. Sua energia me acalma. Quando o médico termina de botar um enorme curativo no meu queixo, aplica um creme no meu lábio e diz que tenho que voltar em uma semana. Faço que sim com a cabeça. Em seguida pergunto como devo pagar a consulta, e ele diz que depois acertará com Marta.
Como não estou com muita vontade de falar e meu rosto está doendo, aceito sem me opor. O médico me entrega um relatório e, quando saio, vejo a cara angustiada de Marta.
— Meu Deus, o que houve contigo, Regina? — pergunta horrorizada ao ver minha aparência.
Sem querer dar muitas explicações, olho para Flyn, que não soltou minha mão ainda, e murmuro:
— Eu estava correndo na neve e acabei escorregando. Dei o azar de cair de queixo no chão.
— Deixa seu carro aqui — diz Marta, solícita. — Norbert vem buscar depois. Vamos, vou levar vocês no meu.
Preciso fechar os olhos e esquecer a dor que estou sentindo. No caminho começa a chover e, quando chegamos em casa, cai um dilúvio. Simona e Norbert nos esperam em pânico. Ao voltarem do supermercado e toparem com sangue no chão, imaginaram mil coisas. Eu os acalmo, e eles ficam mais tranquilos ao verem o menino e a mim, apesar de ainda me olharem meio assustados. Flyn não sai de perto de mim. Parece que grudaram uma cola nele. Gosto disso, mas ao mesmo tempo estou irritada. Tudo o que aconteceu foi culpa dele.
Minha cabeça está me matando. Dói à beça e resolvo ir para a cama. Tomo o remédio que o médico passou, tiro a roupa manchada de sangue e me deito. Marta avisa que dormirá no quarto de hóspedes, para o caso de eu precisar de alguma coisa. No meio da madrugada, acordo com barulho de trovão. Cheia de dor, me viro na cama e encosto no lado de Emma. Estou com saudades dela. Quero que volte logo. Fecho os olhos novamente, relaxo, até que ouço mais uma trovoada. Abro os olhos. Flyn!
Me levanto e ando até seu quarto. Minha cabeça está explodindo. Assim que entro, vejo que o abajur está aceso e que ele está acordado, sentado na cama, tremendo e muito assustado. Me aproximo dele e pergunto:
— Posso dormir contigo?
O garoto me olha surpreso. Devo estar parecendo uma bruxa com esse cabelo todo desgrenhado.
— Flyn — insisto —, tenho medo de trovão.
Ele balança a cabeça concordando e eu me enfio na cama. Põe o travesseiro no meio de nós dois. Marcando distância, como sempre. Sorrio. Quando consigo fazê-lo deitar, sussurro:
— Fecha os olhos e pensa em alguma coisa bonita. Você vai dormir rapidinho e nem vai ouvir as trovoadas.
Por um instante ficamos deitados em silêncio no quarto, enquanto a tempestade cai com força lá fora. Mais um trovão ecoa, e Flyn dá um pulo na cama. Nesse momento, tiro o travesseiro que está no meio de nós dois, pego sua mão e o puxo para mais perto de mim. Está congelando, tremendo e apavorado. Quando eu o aproximo de mim, ele não reclama. Ao contrário, até sinto que ele se aperta mais ainda. Com carinho e cuidado para não esbarrar no meu queixo, dou um beijo na sua testa.
— Feche os olhos, pense em coisas bonitas e durma. Juntos, vamos nos proteger dos trovões.
Dez minutos mais tarde, nós dois, exaustos, dormimos abraçados.
Um golpe no meu queixo me faz acordar. Está doendo. Flyn se mexeu e acabou esbarrando ali. Me sento na cama e passo a mão no machucado. O curativo é enorme e eu resmungo. A chuva e o trovão já pararam. Olho o relógio em cima da mesinha de cabeceira. São 5h27.
Nossa, está muito cedo!
Morrendo de dor, me deito de novo, até que vejo Emma sentada numa cadeira num canto do quarto. Emma! Ela se levanta rápida e vem até mim. Seus olhos demonstram preocupação e seus lábios estão contraídos. Me dá um beijo na testa, me pega entre seus braços e me tira do quarto. Estou tão chapada que não sei se é sonho ou realidade. Ela me coloca em nossa cama e murmura:
— Não se preocupa com nada, amor. Voltei pra cuidar de você. Pisco os olhos surpresa e, após receber um beijo doce nos lábios, pergunto:
— Mas... o que você está fazendo aqui? Não ia voltar só amanhã?
Ela faz que sim e ao mesmo tempo olha para o curativo no meu queixo.
— Liguei pra falar contigo, e Simona me contou o que houve. Voltei imediatamente. Desculpa não estar aqui, pequena.
— Não tem problema, estou bem. Não está vendo?
Emma me observa.
— Está bem mesmo?
Dou de ombros.
— Sim, com um pouco de dor, mas estou bem. Não se preocupe.
— O que houve?
Fico tentada a lhe contar a verdade. Seu sobrinho é uma peste. Mas sei que isso traria mais dor de cabeça para ela e problemas para Flyn. Acabo dizendo:
— Saí pro jardim, escorreguei e caí de queixo no chão.
Seus olhos não acreditam em mim. Desconfiam de alguma coisa. Mas me esforço para que ela aceite minha versão.
— Você sabe como sou estabanada na neve. Mas, sério, estou bem. O chato é a cicatriz que vai ficar. Espero que não dê pra notar.
— Vaidosa — diz Emma, sorrindo.
Também sorrio.
— Tenho uma namorada muito gata e quero que sinta orgulho de mim — explico.
Emma deita ao meu lado e me abraça. Seu corpo está tremendo.
— Sempre me orgulho de você, pequena. — Apoia a cabeça junto ao meu pescoço e acrescenta: — Não vou me perdoar por não ter estado aqui. Não vou me perdoar.
Esse seu drama todo me surpreende. Ela não suporta imaginar o que poderia ter acontecido. Fecho os olhos. Estou cansada. Me aconchego nela e durmo nos seus braços.
Quando acordo na manhã seguinte, me surpreendo ao ver Emma dormindo ao meu lado.
São oito e meia e é a primeira vez que acordo antes dela. Sorrio. Observo-a com curiosidade. É linda. Vê-la relaxada e dormindo é uma das coisas mais bonitas que já presenciei na vida. Não me mexo. Quero que esse momento dure para sempre. Curto a cena por um tempo, até que ela abre seus maravilhosos e impactantes olhos verdes e me vê.
— Bom dia, meu amor.
Surpresa, Emma pergunta:
— Que horas são?
Olho o relógio e respondo:
— Quase nove.
Emma me olha, me olha e me olha e, ao reparar na sua expressão, digo:
— O que houve?
Passa a mão pelo meu cabelo e o retira do meu rosto.
— Você está bem? — ela pergunta.
Me espreguiço e respondo:
— Estou, querida, não se preocupe.
Emma senta na cama e eu faço o mesmo. Depois, ela vai até o banheiro. Me espreguiço novamente e vou atrás. Mas, ao entrar ali e ver minha imagem no espelho, grito:
— Meu Deus, estou um monstro!
Minha cara é uma paleta de cores. Embaixo dos olhos, tenho círculos roxos e verdes que me deixam sem palavras. Minha Swan me segura pela cintura e me faz sentar na tampa do vaso. Minha aparência horrível me assustou, e eu murmuro horrorizada:
— Ai, meu Deus! Mas se eu só caí de cara na neve.
— Você deve ter levado um belo de um tombo, pequena.
Eu sei. Bati contra um muro antes de cair na neve. Agora recordo com mais clareza.
Emma me acalma, dizendo várias palavras carinhosas.
Mas acabo lembrando o que o médico avisou: hematomas. Consciente de que não há nada que possa fazer contra isso, levanto e me olho no espelho. Emma está ao meu lado. Não me solta. Movo a cabeça para os lados e reclamo:
— Estou horrível.
Emma beija meu pescoço. Me agarra por trás e diz:
— Você não consegue ficar horrível. Nem com muito esforço, Regina.
Seu comentário me faz sorrir. Minha aparência é um desastre. Sou o oposto da beleza, e a mulher mais bonita do mundo acaba de demonstrar seu carinho e amor por mim. No fim das contas, decido ser prática e dou de ombros.
— A parte boa disso tudo é que daqui a alguns dias vai passar.
Minha Icewoman sorri, e eu escovo os dentes enquanto ela toma banho. Quando termino, me sento no vaso e fico olhando para ela. Adoro seu corpo. Esbelto, forte e sensual. Observo suas coxas, sua bela bunda, e suspiro ao ver seus seios. Ao sair do banho, pega a toalha que lhe dou e se enxuga. Estendo minha mão e a toco. Emma me olha, me afasta um pouco para trás e diz:
— Pequena, hoje você não está para muitas estripulias.
Solto uma gargalhada. Ela tem razão. Fico olhando para ela por um tempo, enquanto minha mente assanhada imagina mil fantasias. Pela minha cara, Emma percebe e diz:
— Em que você está pensando?
Sorrio...
— Fala, sua safadinha, está pensando em quê?
Achando graça de seu comentário, pergunto:
— Nunca teve nenhuma experiência com um homem?
Ergue a sobrancelha, olha para mim e diz:
— Não sou chegada, amor. Você sabe disso.
— Eu também não era chegada tanto assim em mulher — afirmo. — Mas confesso que adoro que brinquem comigo.
Minha Icewoman sorri e, enxugando-se, avisa:
— Mas eu me importo, sim, que um homem brinque comigo.
Nós duas rimos.
— E se eu quiser te oferecer a um homem?
Emma para, me encara com o olhar e responde:
— Eu me negaria.
— Por quê? É só um jogo. E você é minha.
— Regi, já te disse que não curto homem.
Balanço a cabeça e sorrio, mas não estou disposta a desistir.
— Você fica excitada quando vê uma mulher metendo a boca entre as minhas pernas, né?
— Sim, muito, pequena.
— Pois eu gostaria de ver um homem com a boca entre as suas pernas.
Surpresa com meu comentário, ela pergunta:
— Você está bem?
— Ótima, senhora Swan. — Vendo como ele me olha, me levanto e o abraço pela cintura. — Não se esqueça, querida: seu prazer é meu prazer, e nós somos as donas de nossos corpos. Você me mostrou um mundo que eu não conhecia. E agora eu quero, anseio e desejo te beijar enquanto um homem te...
— Bom, a gente fala disso outra hora — me corta.
Fico na ponta dos pés, beijo seus lábios e murmuro:
— Claro que a gente vai falar disso outra hora. Não tenha dúvida.
Emma sorri e balança a cabeça. Enrola a toalha abaixo dos seios e depois me pega nos braços.
— Sabe, amor, você está começando a me assustar.
Depois do almoço, Emma vai ao escritório. Promete voltar em duas horas. Antes de ir, me proíbe de sair na neve e eu rio. Marta, que ainda está aqui, também vai embora. E Cora, ao saber o que aconteceu, me liga angustiada, mas depois de falar comigo fica mais calma.
Simona está preocupada. Assistimos juntas à nossa novela, mas volta e meia ela olha para mim. Tento convencê-la de que estou bem. Nesse dia, o vilão Carlos Alfonso Halcones de San Juan, ao não conseguir o amor da jovem Esmeralda Mendoza, rouba o bebê dela e dá a uns camponeses, mandando-os desaparecer com a criança. Horrorizadas, Simona e eu nos entreolhamos. O que será que vai acontecer com o bebezinho Claudito Mendoza? Que situação!
Estou no quarto quando Flyn volta do colégio. Sentada num tapete felpudo, conversando pelo Facebook com um grupo de amigas. Nos chamamos Guerreiras Maxwell. Todas temos uma dose de loucura e diversão que adoramos.
— Posso entrar?
É Flyn. Fico surpresa, já que ele nunca pergunta. Faço que sim com a cabeça. O garoto entra e fecha a porta. Quando levanto meu rosto na direção dele, vejo que ficou pálido de repente. Está apavorado. Não esperava ver uma cara tão colorida como a minha, cheia de hematomas.
— Você está bem?
— Estou.
— Mas sua cara...
Me lembro do meu estado e sorrio, tentando minimizar a importância disso. Em seguida cochicho:
— Não se preocupe. É uma aquarela de cores, mas estou bem.
— Está doendo?
— Não.
Fecho o notebook, e o menino pergunta novamente:
— Posso falar contigo?
Suas palavras e seu interesse me comovem. É um grande avanço, e eu respondo:
— Claro. Vem. Senta aqui comigo.
— No chão?
Achando graça, dou de ombros.
— Daqui eu te garanto que a gente não vai cair.
Ele sorri. Um sorriso! Quase aplaudo.
Senta-se na minha frente e olhamos um para o outro. Por alguns minutos nos observamos sem falar nada. Isso me deixa nervosa, mas estou decidida a suportar seu olhar intimidador pelo tempo que for necessário, assim como às vezes suporto o olhar da tia. Ao fim, o menino diz:
— Desculpa. — Seus olhos se enchem de lágrimas e ele murmura: — Me perdoa?
Seu gesto me sensibiliza. O severo e independente Flyn está chorando! Não aguento ver ninguém chorando. Sou uma manteiga derretida. Não aguento!
— Claro que te perdoo, meu amor, mas só se você parar de chorar, tá bom? — Ele confirma com a cabeça, engole o choro e, para que ele se sinta menos culpado, digo: — Também foi culpa minha. Não deveria ter subido no muro e...
— A culpa foi só minha. Fechei as portas e não te deixei entrar. Estava chateado, e eu... eu... o que fiz foi muito errado, e vou entender se a tia Emma me mandar pro colégio interno. Ela me avisou da última vez, e eu a decepcionei de novo.
A dor e o medo que vejo em seus olhos me deixam arrasada. Flyn não vai a nenhum colégio interno. Não vou permitir. Sua insegurança me parte o coração, e eu respondo:
— Ela não vai ficar sabendo, porque nem eu nem você vamos contar, combinado?
Minha reação pega Flyn de surpresa.
— Você não contou a minha tia o que aconteceu?
— Não, meu amor. Apenas disse que eu estava na neve, escorreguei e caí.
De repente me lembro do meu pai. Acabo de surpreender Flyn e de certa forma isso o fragiliza. Sorrio. Ele relaxa os ombros, lhe tirei um peso de cima.
— Obrigado, eu já estava me imaginando no colégio interno.
Sua sinceridade me faz sorrir.
— Flyn, você tem que me prometer que não vai mais se comportar desse jeito. Ninguém quer que você vá pra um colégio interno. Mas você, com suas atitudes, é que parece querer, não percebe? — Ele não diz nada e eu pergunto: — O que houve outro dia na escola?
— Nada.
— Ah, não, rapazinho! Os segredos acabaram! Se você quer que eu confie em você, precisa confiar em mim e me contar que diabo está acontecendo na escola e por que dizem que você começou uma briga, quando na verdade eu não acredito que seja assim.
Ele fecha os olhos, medindo as consequências do que vai me dizer.
— Robert e os outros meninos começaram a me xingar. Como sempre, me chamaram de chinês de merda, fracote, cagão. Eles riem de mim porque eu não sei fazer nada do que eles fazem com skate, bicicleta e patins. Como sempre, tentei não dar bola, mas, quando George me jogou no chão e começou a me dar socos, peguei seu skate e bati na cabeça dele. Sei que não deveria ter feito isso, mas...
— Esses sem-vergonha te dizem essas coisas?
Flyn confirma com a cabeça.
— Eles têm razão. Sou um desengonçado.
Xingo Emma em silêncio. Com o medo que tem de que ocorram várias coisas, é ela quem está provocando isso tudo. Flyn sussurra:
— Os professores não acreditam em mim. Sou o cara esquisito da sala. E, como não tenho amigos pra me defender, sempre acabo levando a culpa.
— E sua tia também não acredita em você?
Flyn dá de ombros.
— Ela não sabe de nada. Acha que eu me meto em confusão porque sou briguento. Não quero que ela saiba que os outros garotos riem de mim porque sou covarde. Não quero decepcioná-la.
Isso me deixa triste. Não é justo que Flyn passe por isso tudo e Emma nem fique sabendo. Preciso falar com ela. Mas me concentro no garoto, passo a mão no contorno do seu rosto e murmuro:
— Isso de dar com o skate na cabeça do colega não está certo, querido. Você sabe disso, né? — Flyn balança a cabeça num gesto afirmativo e, disposta a ajudá-lo, acrescento: — Mas não vou deixar mais ninguém debochar de você.
Seus olhinhos de repente ganham vida. Me lembro da minha sobrinha.
— Coloca seu polegar no meu. E, assim que se tocarem, damos um tapinha na mão. — Ele faz o que digo e volta a sorrir. — Esse é o código de amizade que tenho com minha sobrinha. Agora vai ser nosso também, que tal?
Faz que sim, sorri, e estou quase pulando de alegria. Uma trégua. Finalmente consegui uma trégua com Flyn. E, como se não bastasse, ele diz:
— Obrigado por dormir comigo ontem.
Dou de ombros para mostrar a ele que isso não tem muita importância.
— Nada disso! Eu é que te agradeço por me deixar ficar na sua cama.
Ele sorri e comenta:
— Você não tem medo de trovão. Eu sei. Você é adulta.
Dou uma risada. Que garoto esperto!
— Sabe, Flyn? Quando eu era pequena, também tinha medo de raio e trovão. Cada vez que caía uma tempestade, eu era a primeira a me enfiar na cama dos meus pais. Mas minha mãe me ensinou que não devemos ter medo de nada dessas coisas.
— E como ela te ensinou isso?
Sorrio. Pensar na mamãe, no seu olhar carinhoso, nas suas mãos quentinhas e no seu sorriso constante, me leva a dizer:
— Me dizia pra fechar os olhos e pensar em coisas bonitas. E um dia me comprou um bicho de estimação. Dei o nome de Calamar. Foi meu primeiro cãozinho. Meu superamigo e supermascote. Quando havia tempestade, Calamar ficava comigo na cama, e sua companhia me deixou mais corajosa. Não precisei mais ir pra cama dos meus pais. Calamar me protegia e eu o protegia também.
— E onde ele está?
— Morreu quando eu tinha 15 anos. Está com minha mãe no céu.
Essa revelação sobre minha mãe o pega de surpresa. Evito mencionar Trampo, ou tudo isso vai parecer muito cruel.
— É, Flyn, minha mãe também já morreu. Mas sabe? Ela e Calamar no céu me dão forças pra que eu não tenha medo de nada. E tenho certeza de que sua mãe faz o mesmo contigo.
— Você acha?
— Claro que acho!
— Eu não me lembro da mamãe.
Sua tristeza me comove e eu respondo:
— Normal, Flyn. Você era muito pequeno quando ela se foi.
— Gostaria de ter conhecido ela.
Seu sofrimento me faz sofrer também. E, querendo conversar mais sobre o assunto, murmuro:
— Acho que você pode conhecê-la através dos olhos das pessoas que a amaram, como sua avó Cora, a tia Marta e a tia Emma. Falar com elas sobre sua mãe é uma forma de se lembrar dela e saber coisas a respeito dela. Tenho certeza de que sua avó adoraria te contar milhares de coisas sobre sua mãe.
— Cora?
— É.
— Ela está sempre muito ocupada — reclama o garoto.
— Claro, Flyn. Se você não a deixa cuidar de você nem ser carinhosa, ela tem que seguir a vida dela. As pessoas não podem ficar sentadas esperando que outras gostem dela; têm que continuar vivendo, mesmo que lá no fundo sintam saudades todo dia. Aliás, por que você a chama pelo nome e não se refere a ela como “vó”?
Ele encolhe os ombros e pensa um pouco antes de responder.
— Não sei. Acho que é porque o nome dela é Cora.
— E você não gostaria de chamá-la de “vó”? Tenho certeza de que ela ficaria superfeliz. Liga um dia e convida ela pra lanchar, almoçar ou jantar. Pede pra ela contar coisas sobre sua mãe. Assim certamente você vai perceber o quanto você é importante pra ela e pra sua tia Marta.
O garoto faz que sim com a cabeça. Silêncio. Mas de repente diz:
— Eu agitei a Coca-Cola outro dia pra que espirrasse na sua cara.
Lembrar o episódio me faz rir. Que pestinha! Mas, determinada a não levar isso em conta, afirmo:
— Eu já imaginava.
— Sério?
— Sério.
— E por que não disse nada pra tia Emma?
— Porque não sou dedo-duro, Flyn. — Vendo como ele me olha, toco em seu cabelo escuro e acrescento: — Mas isso já não tem importância. O importante é que a partir de agora a gente vai tentar se dar bem e ser amigos, tá legal?
Ele concorda. Coloca seu polegar no meu e fazemos nossa saudação. Abro um sorriso. Seus olhos percorrem o quarto com curiosidade e vejo que volta e meia se detêm em alguma coisa que está à direita. Disfarçadamente, me viro e reparo que sua atenção é atraída pelo skate e meus patins. Sem pensar duas vezes, pergunto:
— Você tem vontade de aprender a andar de skate ou patinar, né? — Flyn não responde, e cochicho: — Vai ser um segredo nosso. Por enquanto, sua tia não precisa ficar sabendo, combinado? Apesar de que mais cedo ou mais tarde a gente vai ter que contar, e ela é capaz de matar a gente. Quer que eu te ensine?
Sua expressão se transforma e ele aceita. Eu sabia! Sabia que Flyn queria aprender coisas novas. Me levanto do chão depressa. Ele faz o mesmo. Pego o skate e mostro ao garoto que sei como usar.
— Posso fazer isso também? Paro, desço do skate e digo: — Mas é claro, querido. — E, piscando um olho para ele, murmuro: — Vou te ensinar a fazer coisas que, quando uma certa menina loura do colégio te vir, não vai conseguir parar de olhar pra você.
O garoto fica vermelho.
— Como ela se chama? — pergunto num tom de cumplicidade.
— Laura.
Radiante pelo ótimo momento que estou vivendo com Flyn, seguro seus ombros e afirmo:
— Te garanto que daqui a alguns meses Laura e esse bando de mal-educados da sua escola vão cair pra trás, quando virem como você domina o skate. O pequeno balança a cabeça concordando. Olho para ele e digo:
— Vamos... experimenta. Primeiro, coloca um pé no skate e sente como ele se move.
Flyn me obedece. Pego suas mãos e o menino escorrega ao pôr o pé no skate. Assustado, olha para mim e tento acalmá-lo.
— Número um: nunca ande nele sem que eu esteja por perto. Dois: pra não se machucar, tem que usar joelheira, tornozeleira e capacete. Número três, e muito importante: confia em mim?
Ele faz que sim e fico emocionada.
De repente, ouvimos o barulho de um carro. Olho pela janela e vejo Emma entrando na garagem. Sem eu precisar dizer nada, o garoto desce do skate e se senta ao meu lado no chão outra vez. Disfarçamos. Minutos depois, a porta do quarto se abre. Ao nos ver no chão, Emma pergunta, surpresa:
— Está acontecendo alguma coisa?
Flyn se levanta e abraça a tia.
— Regina me ajudou com algumas coisas do colégio.
Emma se vira para mim. Concordo. O garoto sai do quarto. Eu me levanto, chego mais perto da minha alemã favorita e, agarrando-a pela cintura, murmuro:
— Como você pode ver, daqui a pouco vou conseguir um beijo do seu sobrinho. Assombrado como nunca vi antes, Emma sorri. Me aninha em seus braços e, tomando cuidado para não esbarrar no meu queixo, sussurra:
— Por enquanto, pequena, o meu beijo você já tem.
De manhã, a cor do meu rosto está mais para
verde. Me olho no espelho e me desespero. Como posso estar com essa cara? Fala
sério, estou parecendo o Incrível Hulk!
Tudo bem... nem é só pela beleza, mas, convenhamos, me ver desse jeito é horrível, deprimente. Coitada da Emma. Olha a namorada que ela tem. Estou igualzinha à Noiva Cadáver, do desenho. Isso me faz rir. Como sou boba!
Quando volto ao quarto, está tocando no rádio Satisfaction, dos Rolling Stones, e começo a cantar. Essa música sempre me lembra meus amigos de Jerez. Canto alto e danço ao mesmo tempo. Emma sobe para me dar um beijo antes de ir para o trabalho e, surpresa, me observa da porta, até que me dou conta do meu espetáculo ridículo e paro, apesar de meus ombros continuarem se movendo enquanto caminho na direção dela.
— Adoro te ver assim, tão feliz.
Sorrio e lhe dou um beijo.
— Essa música me traz ótimas lembranças da minha galera.
— De alguém em especial?
Com um sorriso maquiavélico, faço que sim com a cabeça. Emma muda a expressão do rosto e, dando-me um tapinha de um jeito sensual, exige possessiva:
— De quem?
Achando graça do que estou prestes a dizer, respondo:
— De Robin... — Reparo na tensão dos seus olhos e continuo: — De Grahan, Laura, Carlos, Pepi, Loli ... Me dá outro tapa e mais um. Ficam ardendo, mas eu rio. Sua expressão agora é divertida, e ela murmura enquanto massageia meu traseiro, que está vermelho pelos seus golpes:
— Não brinca com fogo, pequena, ou você vai se queimar.
— Hummmm, adoro me queimar. — E, insinuando-me toda, sussurro: — Quer me queimar?
Emma me afasta dela e bufa. Ficou tentada com minha proposta. Sei que ela está a fim. Mas depois balança a cabeça de um lado para outro, rejeitando a ideia..
— Primeiro você se recupera. Quando já estiver boa, prometo te queimar.
— Uau! — grito e ela sorri. Me dá um beijo e diz:
— Bom dia, amor.
Depois vai embora. Está a 5 metros de mim e eu já estou sentindo sua falta. Mas combinei de almoçar com Maura e sei que vou me divertir. Debruçada na janela, vejo o carro de Emma se afastando. De repente o telefone toca. Minha irmã.
— Oi, fofaaaa!
— Oi, gordinha! Tudo bem? — pergunto, rindo, e deito na cama para falar com ela.
— Tudo. Cada dia mais enrolada, mas tudo bem. E você, como estão as coisas?
Sua voz parece triste, mas eu, me lembrando do episódio na neve, respondo:
— Olha, Mary, não se assusta. Estou bem, mas estou a cara do Incrível Hulk. Anteontem caí na neve. Pareço um quadro de Picasso e levei pontos no queixo. Basicamente isso.
— Fofaaaa, não me assusta!
Ao perceber seu alarme, acrescento:
— Mas não estou aqui conversando contigo numa boa? Foi uma pancadinha de nada. Não exagera, que eu te conheço.
Falamos por mais de uma hora. Ela parece bem, mas alguma coisa estranha me deixa intrigada... não sei bem o quê. Depois me visto e desço para a sala de jantar. Simona está passando o aspirador. Assim que me vê, para e pergunta:
— Como está hoje, senhorita?
— Melhor, Simona. Já começou Loucura Esmeralda?
A mulher olha o relógio e diz:
— Meu Deus! Temos que correr senão vamos perder a novela.
Hoje Luis Alfredo Quiñones persegue Esmeralda Mendoza a cavalo pelo campo, depois a beija e, enquanto contemplam juntos o horizonte, ele promete a ela recuperar o filho deles. Emocionadas com a cena, eu e Simona nos olhamos e suspiramos.
Ao meio-dia aparece Maura com a encomenda que eu lhe pedi quando soube que viria. Quando me vê, fica apavorada. Apesar de eu ter avisado por telefone, não consegue deixar de se impressionar com o estado do meu rosto. Sentadas na sala, comemos o que Simona preparou e batemos papo.
— Preciso te contar uma coisa, Maura.
— Fala.
Divertindo-me com o que vou falar, olho nos seus olhos e murmuro:
— Outro dia encontrei Betta e dei dois tapas na cara dela e um chute na bunda. Tá, antes que você diga qualquer coisa, reconheço que foi errado da minha parte. Sou adulta e não posso me comportar como uma delinquente, mas preciso admitir que me senti bem fazendo isso e, não fosse pela cara das mulheres em volta, eu teria continuado.
O garfo cai de suas mãos e nós duas começamos a rir. Conto exatamente o que houve e Maura lamenta não ter estado lá para aproveitar a oportunidade e lhe dar uma bofetada também, como fez Marta. Quando terminamos de comer, decidimos ir para meu quarto em vez de ficar na sala. Ela se surpreende ao ver como está ficando bonito e, assim que repara na árvore de Natal vermelha num canto do cômodo, meu comentário é:
— Melhor nem perguntar.
Animadas, sentamos num confortável sofá vermelho que Emma me deu de presente e, depois de fofocar sobre nossa novela preferida, ela pergunta:
— Então, está tudo bem com Emma?
— Está. Discutimos, fazemos as pazes e discutimos de novo. Bem.
— Fico feliz — diz, rindo. — E no sexo, tudo bem também?
Olho para cima, numa expressão de encantamento, e digo que sim. Damos risadas.
— Incrível. Sempre que encontramos Helena e brincamos a três, é maravilhoso. Fico louca vendo a paixão de Emma. O jeito como me oferece... Ai, meu Deus, adoro como as duas transam comigo ao mesmo tempo. Nunca imaginei que curtiria tanto uma coisa que antes me parecia escandalosa.
— Sexo é sexo, Regina. Não tem o que discutir. Se vocês, como casal, gostam desse esquema e se divertem com isso, vão em frente!
— Agora eu aproveito muito, Maura. Só que antes eu pensava que as pessoas que faziam essas coisas eram umas depravadas. Ah, mas a sensação que eu tenho ao me sentir tão desejada e ao ver como elas me possuem...
— Para... para porque assim você me deixa excitada. Sou uma depravada! — Caímos na gargalhada e Maura acrescenta: — Aliás, por falar em depravação, Emma te falou alguma coisa sobre a festinha particular de hoje à noite? —Nego com a cabeça. — Heidi e Luigi dão umas festas maravilhosas. Tenho certeza de que eles convidaram vocês, mas no seu estado imagino que Emma tenha recusado o convite.
— Normal. Com essa minha aparência... Melhor não me tirar de casa mesmo, ou então vou assustar os outros — digo, debochando de mim mesma, e nós duas rimos de novo. Mas acabo ficando curiosa e pergunto: — Vai muita gente a essa festinha?
— Vai, sim, bastante gente. Eles costumam organizá-la na casa de suingue deles, e te garanto que ali acontece o que há de melhor. — Abaixa a voz e murmura: — No ano passado, nessa festa, eu e Jane realizamos uma de nossas fantasias. Ao ver minha cara, Frida ri e cochicha: — Fiz um gangbang, e Jane um girlbang. — Pisco os olhos, sem entender, e ela sussurra: — Jane escolheu seis mulheres da festa, e eu seis homens. Entramos num dos quartos da boate, e eu me entreguei a eles assim como Jane a elas. Foi o máximo, Regina! Eu era o centro dos meus homens e ia experimentando diferentes posições com todos eles. Cara, você não imagina o quanto eu curti, e te garanto que Jane também se divertiu à beça com as garotas. No fim, os dois grupos se juntaram e a gente fez uma orgia. Como te disse, as festas de Heidi e Luigi sempre guardam ótimas surpresas.
Parece excitante mesmo, mas um pouco exagerado para o meu gosto. Duas mulheres já são suficientes para mim, mas realmente imaginar o que ela disse é algo que me excita.
Maura fica um tempo me contando suas experiências. Todas são cheias de loucura e despertam meu desejo. Adoro conversar abertamente com ela sobre sexo. Nunca tive uma amiga com quem pudesse falar disso com tanta sinceridade, e isso me agrada.
Às cinco ela vai embora. Tem que se arrumar para a festa. Cora liga para saber como estou, e logo em seguida Marta. Está empolgada com o encontro de hoje à noite. Eu lhe dou força e peço para me telefonar amanhã e me contar como foi.
À tarde, Flyn volta do colégio. Depois de fazer seus deveres, eu o espero no meu quarto. Assim que ele entra, mostro os patins que mandei Maura trazer para ele. Fica todo feliz. Coloca as joelheiras, tornozeleiras e o capacete, e começamos suas aulas de skate. Como era de se esperar, no início ele fica nervoso. Primeiro tem que aprender a encontrar o centro de equilíbrio do skate. Tem um pouco de dificuldade, mas no fim consegue, ainda que de forma meio precária.
Assim que ouvimos o carro de Emma, largamos tudo rapidamente. Não pode saber que estamos usando essas coisas. Flyn corre para seu quarto de estudo e nós dois conseguimos disfarçar muito bem. Tiro um chiclete de morango do bolso da minha calça e ponho na boca. Emma vem até o quarto para me procurar e me vê sentada no chão, olhando para a tela do computador.
— Por que não senta numa cadeira?
— pergunta.
— Porque adoro sentar nesse tapete felpudo e caríssimo. Tem problema?
Ela se agacha e me dá um beijo. Está muito gata com seu sobretudo azul e seu vestido escuro. Seu visual de executiva é imponente e eu adoro. Me estende a mão e eu me levanto com sua ajuda. Em seguida ela me surpreende com um lindo buquê de rosas vermelhas.
— Feliz Dia dos Namorados, pequena.
Estou passada!
Sem palavras e estarrecida.
Que romântica!
Minha Icewoman me comprou um buquê maravilhoso pelo Dia dos Namorados e eu nem lhe dei parabéns nem nada. Sou um desastre! Emma sorri. Parece saber o que estou pensando.
— Meu melhor presente é você, Regina. Não preciso de mais nada.
Nos beijamos e eu sorrio.
— Estou te devendo um presente. Mas por enquanto tenho uma coisinha pra você.
Ela me olha surpresa e eu pego o pacote de chiclete do meu bolso. Mostro a ela. Emma sorri. Tiro um, abro e enfio na sua boca. Achando graça disso, ao se lembrar do que significa para nós duas, ela pergunta:
— Agora as brotoejas vão aparecer e sua cabeça vai rodar como a da menina de O exorcista?
Damos uma gargalhada deliciosa.
— A nova modalidade é minha cara verde e meus pontos. Pode haver algo mais sexy para o Dia dos Namorados?
Emma me beija e, quando se separa de mim, digo:
— Maura comentou comigo que hoje à noite vai rolar uma festa numa casa de suingue. Está sabendo?
— Estou. Luigi me ligou e nos chamou pra Natch. Mas recusei o convite. Você não está muito pra festas, não acha?
— Tem razão... mas, olha, se eu estivesse minimamente apresentável, gostaria de ir.
Emma me beija e morde meu lábio inferior.
— Sua taradinha... está tão necessitada assim, é? — Eu rio e nego com a cabeça, e ela comenta enquanto me aperta contra si: — Vai haver outras festas. Te prometo. — Ao ver meu olhar, Emma acrescenta: — Diz aí, Regi, o que você quer me perguntar?
Abro um sorriso. Impressionante como ela me conhece cada vez mais. Chego mais perto e digo:
— Você já fez girlbang?
— Já.
— Sério? Uau!
Emma ri.
— amor, estou há mais de catorze anos fazendo um tipo de sexo que pra você agora é novidade. Fiz muitas coisas e pode ter certeza de que muitas delas eu não gostaria que você fizesse. — Vendo minha cara de espanto e curiosidade, continua: — Sado.
— Ah, não! Isso eu não quero mesmo — digo. Emma dá uma risada e eu pergunto: — O que você acha de gangbang?
Emma me olha, me olha, me olha... e, quando estou quase perdendo a paciência, responde:
— São homens demais entre nós duas. Acho melhor não.
Seu comentário me faz rir e, antes que eu diga algo, ela muda de assunto.
— Estou com sede. Quer beber alguma coisa?
Eufórica, segurando meu buquê, caminho de mãos dadas com Emma pelo enorme corredor da casa. Assim que chegamos à cozinha, Simona me olha sorrindo e grito diante do que vejo:
— Susto!
O bichinho corre na minha direção e Emma o detém, preocupada que me machuque. Mas o cachorro está radiante de alegria, e eu mais ainda. Dou um abraço em Susto e faço carinho nele. Depois me viro para minha mulher de olhos verdes e, sem me importar com a presença de Simona, me jogo nos braços dela e digo:
— Gangband ou girlband que nada! Você é a coisa mais linda do mundo e juro que eu casava contigo agorinha e de olhos fechados.
Emma sorri. Está agitada. Me beija.
— Você que é a coisa mais linda. E quando quiser a gente pode casar.
Ai, meu Deus! O que foi que eu disse?! Eu realmente a pedi em casamento? Merda, vou me matar!
Susto dá pulinhos ao nosso redor. Emma tenta pará-lo e comenta, divertindo-se:
— Como você pode ver, coloquei nele o cachecol que você fez. Por falar nisso, ele está afônico.
— Ai, Icewoman, você não existe! — exclamo, rindo, e lhe dou um beijo.
Emocionada, faço carinho em Susto, que não para de se mexer de tão contente que está. Até que vejo algo nas mãos de Simona. É um filhote branco.
— E essa fofura? — pergunto, olhando para ela toda boba.
Sem soltar minha cintura, Emma comenta:
— Estava na mesma gaiola que Susto. Pelo visto é o único da ninhada que sobreviveu, e me disseram que deve ter um mês e meio. Susto não queria vir comigo se eu não trouxesse o filhote junto. Você tinha que ver como ele o segurou pela boca e saiu da jaula quando o chamei. Então não consegui devolver o cãozinho.
— A senhora é muito humana, senhora Swan — Simona murmura comovida.
— Ela é maravilhosa — confirmo, feliz. E em seguida, olhando para Susto, afirmo: — E você, um paizão.
Minha Icewoman sorri com nossos comentários e diz, olhando para o filhote:
— Só não sei qual é a raça.
Com cuidado, pego o cãozinho. É gordinho e macio. Uma graça.
— É um vira-lata.
— Um vira-lata? Como assim? — pergunta Simona.
Emma entendeu o que eu disse e sorri. E eu, com o filhote nas mãos, explico a Simona:
— É um cachorro que tem um pouco de todas as raças e nenhuma em especial.
Nós três rimos. Simone sai para contar a novidade a Norbert. Deixo o bichinho no chão, e Emma diz enquanto segura Susto para que não avance em mim:
— Gostou dos presentes?
Radiante de alegria e apaixonada, dou um beijo nela e digo:
— São os melhores presentes do mundo, querida. Você é maravilhosa.
Emma está feliz. Percebo em seu olhar.
— Por enquanto eles podem ficar na garagem, até a gente construir uma casinha do lado de fora.
Olho para ela. Ela está falando sério?!
— Tá bom... hoje eles podem ficar aqui dentro. Está muito frio.
— Aqui dentro?
— É.
Nesse exato momento, o filhote se mija. Que bela mijada ele dá! Emma me olha e pergunta, com cara séria:
— Aqui dentro?
Dou uma piscada para ela e cochicho:
— Fique sabendo que você acaba de aumentar a família. Já somos cinco.
Minha alemã fecha os olhos e entende perfeitamente o que acabo de dizer. Antes que ela solte alguma de suas pérolas, eu me antecipo:
— Vem, Emma — digo, pegando o cãozinho. — Vamos fazer uma surpresa a Flyn.
— Ele não vai ter medo do Susto?
Faço que não com a cabeça.
Sem fazer barulho, andamos até o quarto de brinquedos. Abro a porta com cuidado e faço o bichinho entrar.
— Susto! — grita o menino e o abraça.
As risadas de Flyn são maravilhosas. Uma delícia! E o cachorro deita de barriga para cima para Flyn acariciá-lo. Por um tempo o garoto fica eufórico de tanta alegria, até que me vê segurando algo que chama sua atenção. Com os olhos arregalados, pergunta:
— E esse, quem é?
Todo orgulhoso e principalmente surpreso com a felicidade do sobrinho, Emma explica:
— Quando fui buscar Susto, estava com ele na gaiola. Susto não quis deixá-lo sozinho e ele veio com a gente.
O garoto olha espantado para a tia. Dois cachorrinhos. Dois! E eu, radiante, deixo o filhote nas suas mãos.
— Esse bichinho vai ser seu superamigo e seu supermascote. Então você é que vai escolher o nome dele.
Flyn olha para a tia e, quando a vê acenando com a cabeça num gesto afirmativo, sorri. Em seguida olha para o filhote branco e diz, depois de piscar para mim:
— Vai se chamar Calamar.
Uma enxurrada de emoções invade a minha garganta ao escutar isso. Abro um enorme sorriso. Flyn encosta o polegar no meu e fazemos nossa saudação. Emma beija meu pescoço e sussurra no meu ouvido ao ver seu sobrinho feliz:
— Quando quiser, já sabe... caso contigo.
Tudo bem... nem é só pela beleza, mas, convenhamos, me ver desse jeito é horrível, deprimente. Coitada da Emma. Olha a namorada que ela tem. Estou igualzinha à Noiva Cadáver, do desenho. Isso me faz rir. Como sou boba!
Quando volto ao quarto, está tocando no rádio Satisfaction, dos Rolling Stones, e começo a cantar. Essa música sempre me lembra meus amigos de Jerez. Canto alto e danço ao mesmo tempo. Emma sobe para me dar um beijo antes de ir para o trabalho e, surpresa, me observa da porta, até que me dou conta do meu espetáculo ridículo e paro, apesar de meus ombros continuarem se movendo enquanto caminho na direção dela.
— Adoro te ver assim, tão feliz.
Sorrio e lhe dou um beijo.
— Essa música me traz ótimas lembranças da minha galera.
— De alguém em especial?
Com um sorriso maquiavélico, faço que sim com a cabeça. Emma muda a expressão do rosto e, dando-me um tapinha de um jeito sensual, exige possessiva:
— De quem?
Achando graça do que estou prestes a dizer, respondo:
— De Robin... — Reparo na tensão dos seus olhos e continuo: — De Grahan, Laura, Carlos, Pepi, Loli ... Me dá outro tapa e mais um. Ficam ardendo, mas eu rio. Sua expressão agora é divertida, e ela murmura enquanto massageia meu traseiro, que está vermelho pelos seus golpes:
— Não brinca com fogo, pequena, ou você vai se queimar.
— Hummmm, adoro me queimar. — E, insinuando-me toda, sussurro: — Quer me queimar?
Emma me afasta dela e bufa. Ficou tentada com minha proposta. Sei que ela está a fim. Mas depois balança a cabeça de um lado para outro, rejeitando a ideia..
— Primeiro você se recupera. Quando já estiver boa, prometo te queimar.
— Uau! — grito e ela sorri. Me dá um beijo e diz:
— Bom dia, amor.
Depois vai embora. Está a 5 metros de mim e eu já estou sentindo sua falta. Mas combinei de almoçar com Maura e sei que vou me divertir. Debruçada na janela, vejo o carro de Emma se afastando. De repente o telefone toca. Minha irmã.
— Oi, fofaaaa!
— Oi, gordinha! Tudo bem? — pergunto, rindo, e deito na cama para falar com ela.
— Tudo. Cada dia mais enrolada, mas tudo bem. E você, como estão as coisas?
Sua voz parece triste, mas eu, me lembrando do episódio na neve, respondo:
— Olha, Mary, não se assusta. Estou bem, mas estou a cara do Incrível Hulk. Anteontem caí na neve. Pareço um quadro de Picasso e levei pontos no queixo. Basicamente isso.
— Fofaaaa, não me assusta!
Ao perceber seu alarme, acrescento:
— Mas não estou aqui conversando contigo numa boa? Foi uma pancadinha de nada. Não exagera, que eu te conheço.
Falamos por mais de uma hora. Ela parece bem, mas alguma coisa estranha me deixa intrigada... não sei bem o quê. Depois me visto e desço para a sala de jantar. Simona está passando o aspirador. Assim que me vê, para e pergunta:
— Como está hoje, senhorita?
— Melhor, Simona. Já começou Loucura Esmeralda?
A mulher olha o relógio e diz:
— Meu Deus! Temos que correr senão vamos perder a novela.
Hoje Luis Alfredo Quiñones persegue Esmeralda Mendoza a cavalo pelo campo, depois a beija e, enquanto contemplam juntos o horizonte, ele promete a ela recuperar o filho deles. Emocionadas com a cena, eu e Simona nos olhamos e suspiramos.
Ao meio-dia aparece Maura com a encomenda que eu lhe pedi quando soube que viria. Quando me vê, fica apavorada. Apesar de eu ter avisado por telefone, não consegue deixar de se impressionar com o estado do meu rosto. Sentadas na sala, comemos o que Simona preparou e batemos papo.
— Preciso te contar uma coisa, Maura.
— Fala.
Divertindo-me com o que vou falar, olho nos seus olhos e murmuro:
— Outro dia encontrei Betta e dei dois tapas na cara dela e um chute na bunda. Tá, antes que você diga qualquer coisa, reconheço que foi errado da minha parte. Sou adulta e não posso me comportar como uma delinquente, mas preciso admitir que me senti bem fazendo isso e, não fosse pela cara das mulheres em volta, eu teria continuado.
O garfo cai de suas mãos e nós duas começamos a rir. Conto exatamente o que houve e Maura lamenta não ter estado lá para aproveitar a oportunidade e lhe dar uma bofetada também, como fez Marta. Quando terminamos de comer, decidimos ir para meu quarto em vez de ficar na sala. Ela se surpreende ao ver como está ficando bonito e, assim que repara na árvore de Natal vermelha num canto do cômodo, meu comentário é:
— Melhor nem perguntar.
Animadas, sentamos num confortável sofá vermelho que Emma me deu de presente e, depois de fofocar sobre nossa novela preferida, ela pergunta:
— Então, está tudo bem com Emma?
— Está. Discutimos, fazemos as pazes e discutimos de novo. Bem.
— Fico feliz — diz, rindo. — E no sexo, tudo bem também?
Olho para cima, numa expressão de encantamento, e digo que sim. Damos risadas.
— Incrível. Sempre que encontramos Helena e brincamos a três, é maravilhoso. Fico louca vendo a paixão de Emma. O jeito como me oferece... Ai, meu Deus, adoro como as duas transam comigo ao mesmo tempo. Nunca imaginei que curtiria tanto uma coisa que antes me parecia escandalosa.
— Sexo é sexo, Regina. Não tem o que discutir. Se vocês, como casal, gostam desse esquema e se divertem com isso, vão em frente!
— Agora eu aproveito muito, Maura. Só que antes eu pensava que as pessoas que faziam essas coisas eram umas depravadas. Ah, mas a sensação que eu tenho ao me sentir tão desejada e ao ver como elas me possuem...
— Para... para porque assim você me deixa excitada. Sou uma depravada! — Caímos na gargalhada e Maura acrescenta: — Aliás, por falar em depravação, Emma te falou alguma coisa sobre a festinha particular de hoje à noite? —Nego com a cabeça. — Heidi e Luigi dão umas festas maravilhosas. Tenho certeza de que eles convidaram vocês, mas no seu estado imagino que Emma tenha recusado o convite.
— Normal. Com essa minha aparência... Melhor não me tirar de casa mesmo, ou então vou assustar os outros — digo, debochando de mim mesma, e nós duas rimos de novo. Mas acabo ficando curiosa e pergunto: — Vai muita gente a essa festinha?
— Vai, sim, bastante gente. Eles costumam organizá-la na casa de suingue deles, e te garanto que ali acontece o que há de melhor. — Abaixa a voz e murmura: — No ano passado, nessa festa, eu e Jane realizamos uma de nossas fantasias. Ao ver minha cara, Frida ri e cochicha: — Fiz um gangbang, e Jane um girlbang. — Pisco os olhos, sem entender, e ela sussurra: — Jane escolheu seis mulheres da festa, e eu seis homens. Entramos num dos quartos da boate, e eu me entreguei a eles assim como Jane a elas. Foi o máximo, Regina! Eu era o centro dos meus homens e ia experimentando diferentes posições com todos eles. Cara, você não imagina o quanto eu curti, e te garanto que Jane também se divertiu à beça com as garotas. No fim, os dois grupos se juntaram e a gente fez uma orgia. Como te disse, as festas de Heidi e Luigi sempre guardam ótimas surpresas.
Parece excitante mesmo, mas um pouco exagerado para o meu gosto. Duas mulheres já são suficientes para mim, mas realmente imaginar o que ela disse é algo que me excita.
Maura fica um tempo me contando suas experiências. Todas são cheias de loucura e despertam meu desejo. Adoro conversar abertamente com ela sobre sexo. Nunca tive uma amiga com quem pudesse falar disso com tanta sinceridade, e isso me agrada.
Às cinco ela vai embora. Tem que se arrumar para a festa. Cora liga para saber como estou, e logo em seguida Marta. Está empolgada com o encontro de hoje à noite. Eu lhe dou força e peço para me telefonar amanhã e me contar como foi.
À tarde, Flyn volta do colégio. Depois de fazer seus deveres, eu o espero no meu quarto. Assim que ele entra, mostro os patins que mandei Maura trazer para ele. Fica todo feliz. Coloca as joelheiras, tornozeleiras e o capacete, e começamos suas aulas de skate. Como era de se esperar, no início ele fica nervoso. Primeiro tem que aprender a encontrar o centro de equilíbrio do skate. Tem um pouco de dificuldade, mas no fim consegue, ainda que de forma meio precária.
Assim que ouvimos o carro de Emma, largamos tudo rapidamente. Não pode saber que estamos usando essas coisas. Flyn corre para seu quarto de estudo e nós dois conseguimos disfarçar muito bem. Tiro um chiclete de morango do bolso da minha calça e ponho na boca. Emma vem até o quarto para me procurar e me vê sentada no chão, olhando para a tela do computador.
— Por que não senta numa cadeira?
— pergunta.
— Porque adoro sentar nesse tapete felpudo e caríssimo. Tem problema?
Ela se agacha e me dá um beijo. Está muito gata com seu sobretudo azul e seu vestido escuro. Seu visual de executiva é imponente e eu adoro. Me estende a mão e eu me levanto com sua ajuda. Em seguida ela me surpreende com um lindo buquê de rosas vermelhas.
— Feliz Dia dos Namorados, pequena.
Estou passada!
Sem palavras e estarrecida.
Que romântica!
Minha Icewoman me comprou um buquê maravilhoso pelo Dia dos Namorados e eu nem lhe dei parabéns nem nada. Sou um desastre! Emma sorri. Parece saber o que estou pensando.
— Meu melhor presente é você, Regina. Não preciso de mais nada.
Nos beijamos e eu sorrio.
— Estou te devendo um presente. Mas por enquanto tenho uma coisinha pra você.
Ela me olha surpresa e eu pego o pacote de chiclete do meu bolso. Mostro a ela. Emma sorri. Tiro um, abro e enfio na sua boca. Achando graça disso, ao se lembrar do que significa para nós duas, ela pergunta:
— Agora as brotoejas vão aparecer e sua cabeça vai rodar como a da menina de O exorcista?
Damos uma gargalhada deliciosa.
— A nova modalidade é minha cara verde e meus pontos. Pode haver algo mais sexy para o Dia dos Namorados?
Emma me beija e, quando se separa de mim, digo:
— Maura comentou comigo que hoje à noite vai rolar uma festa numa casa de suingue. Está sabendo?
— Estou. Luigi me ligou e nos chamou pra Natch. Mas recusei o convite. Você não está muito pra festas, não acha?
— Tem razão... mas, olha, se eu estivesse minimamente apresentável, gostaria de ir.
Emma me beija e morde meu lábio inferior.
— Sua taradinha... está tão necessitada assim, é? — Eu rio e nego com a cabeça, e ela comenta enquanto me aperta contra si: — Vai haver outras festas. Te prometo. — Ao ver meu olhar, Emma acrescenta: — Diz aí, Regi, o que você quer me perguntar?
Abro um sorriso. Impressionante como ela me conhece cada vez mais. Chego mais perto e digo:
— Você já fez girlbang?
— Já.
— Sério? Uau!
Emma ri.
— amor, estou há mais de catorze anos fazendo um tipo de sexo que pra você agora é novidade. Fiz muitas coisas e pode ter certeza de que muitas delas eu não gostaria que você fizesse. — Vendo minha cara de espanto e curiosidade, continua: — Sado.
— Ah, não! Isso eu não quero mesmo — digo. Emma dá uma risada e eu pergunto: — O que você acha de gangbang?
Emma me olha, me olha, me olha... e, quando estou quase perdendo a paciência, responde:
— São homens demais entre nós duas. Acho melhor não.
Seu comentário me faz rir e, antes que eu diga algo, ela muda de assunto.
— Estou com sede. Quer beber alguma coisa?
Eufórica, segurando meu buquê, caminho de mãos dadas com Emma pelo enorme corredor da casa. Assim que chegamos à cozinha, Simona me olha sorrindo e grito diante do que vejo:
— Susto!
O bichinho corre na minha direção e Emma o detém, preocupada que me machuque. Mas o cachorro está radiante de alegria, e eu mais ainda. Dou um abraço em Susto e faço carinho nele. Depois me viro para minha mulher de olhos verdes e, sem me importar com a presença de Simona, me jogo nos braços dela e digo:
— Gangband ou girlband que nada! Você é a coisa mais linda do mundo e juro que eu casava contigo agorinha e de olhos fechados.
Emma sorri. Está agitada. Me beija.
— Você que é a coisa mais linda. E quando quiser a gente pode casar.
Ai, meu Deus! O que foi que eu disse?! Eu realmente a pedi em casamento? Merda, vou me matar!
Susto dá pulinhos ao nosso redor. Emma tenta pará-lo e comenta, divertindo-se:
— Como você pode ver, coloquei nele o cachecol que você fez. Por falar nisso, ele está afônico.
— Ai, Icewoman, você não existe! — exclamo, rindo, e lhe dou um beijo.
Emocionada, faço carinho em Susto, que não para de se mexer de tão contente que está. Até que vejo algo nas mãos de Simona. É um filhote branco.
— E essa fofura? — pergunto, olhando para ela toda boba.
Sem soltar minha cintura, Emma comenta:
— Estava na mesma gaiola que Susto. Pelo visto é o único da ninhada que sobreviveu, e me disseram que deve ter um mês e meio. Susto não queria vir comigo se eu não trouxesse o filhote junto. Você tinha que ver como ele o segurou pela boca e saiu da jaula quando o chamei. Então não consegui devolver o cãozinho.
— A senhora é muito humana, senhora Swan — Simona murmura comovida.
— Ela é maravilhosa — confirmo, feliz. E em seguida, olhando para Susto, afirmo: — E você, um paizão.
Minha Icewoman sorri com nossos comentários e diz, olhando para o filhote:
— Só não sei qual é a raça.
Com cuidado, pego o cãozinho. É gordinho e macio. Uma graça.
— É um vira-lata.
— Um vira-lata? Como assim? — pergunta Simona.
Emma entendeu o que eu disse e sorri. E eu, com o filhote nas mãos, explico a Simona:
— É um cachorro que tem um pouco de todas as raças e nenhuma em especial.
Nós três rimos. Simone sai para contar a novidade a Norbert. Deixo o bichinho no chão, e Emma diz enquanto segura Susto para que não avance em mim:
— Gostou dos presentes?
Radiante de alegria e apaixonada, dou um beijo nela e digo:
— São os melhores presentes do mundo, querida. Você é maravilhosa.
Emma está feliz. Percebo em seu olhar.
— Por enquanto eles podem ficar na garagem, até a gente construir uma casinha do lado de fora.
Olho para ela. Ela está falando sério?!
— Tá bom... hoje eles podem ficar aqui dentro. Está muito frio.
— Aqui dentro?
— É.
Nesse exato momento, o filhote se mija. Que bela mijada ele dá! Emma me olha e pergunta, com cara séria:
— Aqui dentro?
Dou uma piscada para ela e cochicho:
— Fique sabendo que você acaba de aumentar a família. Já somos cinco.
Minha alemã fecha os olhos e entende perfeitamente o que acabo de dizer. Antes que ela solte alguma de suas pérolas, eu me antecipo:
— Vem, Emma — digo, pegando o cãozinho. — Vamos fazer uma surpresa a Flyn.
— Ele não vai ter medo do Susto?
Faço que não com a cabeça.
Sem fazer barulho, andamos até o quarto de brinquedos. Abro a porta com cuidado e faço o bichinho entrar.
— Susto! — grita o menino e o abraça.
As risadas de Flyn são maravilhosas. Uma delícia! E o cachorro deita de barriga para cima para Flyn acariciá-lo. Por um tempo o garoto fica eufórico de tanta alegria, até que me vê segurando algo que chama sua atenção. Com os olhos arregalados, pergunta:
— E esse, quem é?
Todo orgulhoso e principalmente surpreso com a felicidade do sobrinho, Emma explica:
— Quando fui buscar Susto, estava com ele na gaiola. Susto não quis deixá-lo sozinho e ele veio com a gente.
O garoto olha espantado para a tia. Dois cachorrinhos. Dois! E eu, radiante, deixo o filhote nas suas mãos.
— Esse bichinho vai ser seu superamigo e seu supermascote. Então você é que vai escolher o nome dele.
Flyn olha para a tia e, quando a vê acenando com a cabeça num gesto afirmativo, sorri. Em seguida olha para o filhote branco e diz, depois de piscar para mim:
— Vai se chamar Calamar.
Uma enxurrada de emoções invade a minha garganta ao escutar isso. Abro um enorme sorriso. Flyn encosta o polegar no meu e fazemos nossa saudação. Emma beija meu pescoço e sussurra no meu ouvido ao ver seu sobrinho feliz:
— Quando quiser, já sabe... caso contigo.