A
vida com Icewoman vai de vento em popa apesar das nossas discussões. Quando
estamos a sós, vivemos momentos loucos, doces e apaixonados, e, sempre que
visitamos Helena, os encontros são calientes, com muitos joguinhos. Emma me
entrega a sua amiga, e eu aceito, morrendo de tesão. Não há ciúme. Não há
reprovação. Apenas sexo, brincadeira e loucura. Nós três fazemos um trio
maravilhoso e curtimos nossa sexualidade plenamente a cada encontro. Nada é
sujo. Nada é obscuro. Tudo é absolutamente sensual.
Flyn é outra história. O garoto não facilita minha vida. A cada dia que passa ele se mostra mais resistente a ser amável comigo e a aceitar minha felicidade com Emma. Nós duas só discutimos por causa da criança. Ela é a fonte de nossas brigas, e parece gostar disso.
Agora tenho acompanhado Norbert algumas manhãs ao colégio. O que Flyn não sabe é que, quando o motorista dá a partida no carro e vai embora, eu o observo sem ser vista. Não entendo o que acontece. Não consigo compreender por que Flyn é motivo de piada para seus supostos amigos. Eles batem nele, o empurram, e a criatura nem reage. Sempre acaba no chão. Preciso dar um jeito nisso. Quero que ele sorria, que tenha confiança em si mesmo, mas não sei o que fazer.
Uma tarde, estou no meu quarto cantando Tanto, de Pablo Alborán, e vejo pela janela que voltou a nevar. Mais neve em cima da camada que já caiu e isso me deixa alegre. Que linda é a neve! Empolgada, vou ao quarto de brinquedos onde Flyn faz os deveres e abro a porta.
— Quer brincar na neve?
O menino olha para mim e responde, com sua cara séria de sempre:
— Não.
Seu lábio está machucado. Isso me enfurece. Eu o pego pelo queixo e pergunto:
— Quem fez isso contigo?
O moleque me olha e, mal-humorado, responde:
— Não te interessa.
Penso duas vezes antes de responder e decido ficar quieta. Fecho a porta e vou atrás de Simona, que está na cozinha preparando uma sopa.
— Simona.
A mulher seca as mãos no avental e me olha.
— Diga, senhorita.
— Aiiii, Simona, por favor, me chama pelo nome, Regina!
Simona sorri.
— Eu bem que tento, senhorita, mas é difícil me acostumar com isso.
Compreendo que realmente não deve ser nada fácil para ela.
— Há algum trenó na casa? — pergunto.
A mulher pensa um pouco e diz:
— Sim. Tem um guardado na garagem.
— Ótimo! — digo, animada. E olhando para ela acrescento: — Preciso te pedir um favor.
— Fique à vontade.
— Preciso que você vá lá fora comigo e a gente brinque de atirar bolas de neve.
Incrédula, arregala os olhos, sem entender nada. E eu, achando graça, seguro suas mãos e cochicho:
— Quero que Flyn veja o que está perdendo. É uma criança e deveria brincar com a neve e com o trenó. Vem, vamos mostrar pra ele como existem coisas divertidas além do videogame.
De início, a mulher fica reticente. Não sabe o que fazer, mas, ao ver que estou esperando, ela tira o avental.
— Me dê uns segundinhos pra eu calçar minhas botas. Com o sapato que estou usando, não dá pra ir lá fora.
— Ótimo!
Já na porta de casa, visto meu casaco vermelho e as luvas, e logo Simona aparece e pega seu casaco azul e um gorro.
— Vamos brincar! — digo, puxando seu braço.
Saímos de casa. Caminhamos pela neve até chegar em frente ao quarto de brinquedos de Flyn, e ali começamos nossa guerra de bolas de neve. No início, Simona fica um pouco tímida, mas acaba se animando depois que eu a acerto algumas vezes. Pegamos montinhos de neve e, em meio a risadas, atiramos uma na outra.
Surpreso com o que estamos fazendo, Norbert vem até nós. Primeiro resiste um pouco a participar, mas alguns minutos depois ele acaba brincando conosco. Flyn nos observa. Vejo pelo vidro que ele está olhando e grito:
— Vamos, Flyn... Vem brincar com a gente!
O garoto nega com a cabeça, e nós três continuamos. Peço a Norbert para pegar o trenó na garagem: é vermelho. Empolgada, subo nele e deslizo por uma ladeira coberta de neve. Dou uma derrapada de respeito, mas a neve acumulada acaba me detendo e solto uma gargalhada. A próxima a se aventurar no trenó é Simona, e depois vamos as duas juntas. Terminamos a brincadeira cobertas de neve, mas felizes, apesar da expressão contrariada de Norbert. Não confia em nós duas. De repente, e quando menos esperávamos, vejo Flyn saindo da casa e nos olhando.
— Vamos, Flyn, vem!
O menino se aproxima e eu o chamo para sentar no trenó. Me olha com receio, então digo:
— Vem, eu sento na frente e você atrás, tá bom?
Incentivado por Simona e Norbert, o menino obedece e com extremo cuidado deslizo pela ladeira. Dou gritinhos de empolgação, e eles logo fazem o mesmo. Quando o trenó para, Flyn me pergunta, radiante:
— Podemos repetir?
Feliz por ver nele uma expressão que eu nunca tinha visto, concordo logo. Nós dois corremos até Simona e repetimos a descida.
A partir desse momento, é só diversão. Pela primeira vez desde que estou na Alemanha, Flyn se comporta como uma criança. Quando consigo convencê-lo a ir sozinho no trenó e ele enfim vai, sua cara de satisfação me enche de alegria.
Ele está sorrindo!
Seu sorriso é envolvente, encantador e maravilhoso, até que de repente ele muda a cara e, assim que olho na mesma direção, vejo Susto correndo até nós. Norbert deixou a garagem aberta e, ao ouvir nossos gritos, o bicho não se conteve e quis vir brincar também. Apavorado, o menino para e eu assobio. Susto vem até mim, afago a cabeça dele e murmuro:
— Não se assuste, Flyn.
— Cachorros mordem — sussurra, paralisado.
Me lembro do que o menino contou aquele dia na cama e, acariciando Susto, tento acalmar Flyn:
— Não, meu amor, nem todos os cachorros mordem. E tenho certeza de que Susto não vai te machucar. — Mas o garoto não se convence e insisto enquanto estendo a mão para ele. — Vem. Confia em mim. Susto não vai te morder.
Não se aproxima. Apenas me olha. Simona o incentiva, Norbert também, e Flyn dá um passo à frente mas logo para. Está com medo. Sorrio e digo outra vez:
— Te prometo, querido, que ele não vai fazer nada de mau.
O menino me olha com receio, até que de repente Susto se atira na neve e põe as patas para cima. Achando graça, Simona faz carinho na barriga do cão.
— Tá vendo, Flyn? Susto só quer que a gente faça cosquinha. Vem...
Faço o mesmo que Simona, e o cachorro põe a língua para fora num sinal de alegria. De repente, o menino chega mais perto, se agacha e, morrendo de medo, toca o cãozinho com um dedo. Tenho certeza de que é a primeira vez em muitos anos que ele encosta num animal. Como Susto continua sem se mexer, Flyn se anima e toca nele de novo.
— E aí, o que achou?
— Macio e molhado — diz o garoto, que já encosta nele com a palma da mão.
Meia hora depois, Susto e Flyn já estão amigos e, quando entramos no trenó e deslizamos pela neve, Susto corre ao nosso lado enquanto gritamos e rimos. Todos estamos cobertos de neve e nos divertindo à beça, até que ouvimos um carro se aproximar. Emma. Eu e Simona nos olhamos. Ao ver que é sua tia, Flyn fica imóvel. Isso me espanta. Não corre na direção dela. Quando o veículo chega ainda mais perto, percebo que Emma está nos observando e, pela cara, parece estar de mau humor. Ok, nenhuma novidade. Sem conseguir evitar, murmuro perto de Simona:
— Oh, oh! Ela pegou a gente no flagra!
A mulher faz que sim. Emma para o carro. Desce e bate a porta com força, e isso é mais uma prova de que ela está atacada hoje. Caminha na nossa direção de um jeito que intimida.
Meu Deus! Que recaída minha Icewoman está tendo!
Quando quer fazer cara feia, é imbatível. Deixa todo mundo assustado. Olho para ela. Ela me olha de volta. E, quando já está perto de nós, grita num tom de reprovação:
— O que esse cachorro está fazendo aqui?
Flyn não diz nada. Norbert e Simona estão paralisados. Todos olham para mim e eu respondo:
— Estávamos brincando na neve, e ele estava com a gente.
Emma puxa Flyn pela mão e diz, rosnando:
— Eu e você precisamos ter uma conversa séria. O que você aprontou no colégio?
O tom de voz que ela usa com a criança me deixa revoltada. Por que tem que falar com ele assim? Mas, quando penso em dizer alguma coisa, eu a ouço dizer:
— Me ligaram de novo do colégio. Pelo visto, você voltou a se meter em encrenca, e dessa vez foi das brabas!
— Tia, eu...
— Cala a boca! — grita. — Você vai direto pra um colégio interno. No fim das contas, é o que vai acabar acontecendo. Entra no meu escritório e me espera lá.
Após o olhar duro que Emma lhes dirige, Simona, Norbert e o garoto vão embora.
A mulher olha para mim com expressão de tristeza. Pisco um olho para ela, apesar de saber que vai sobrar para mim nessa história. Já estou até vendo a bronca que vou levar dessa alemã. Quando ficamos a sós, Emma repara no trenó e nas marcas na ladeira e reclama:
— Quero esse cachorro fora da minha casa, está me ouvindo?
— Mas Emma... escuta...
— Não, não vou escutar, Regina.
— Mas deveria — insisto.
Nos encaramos por um tempo, até que ela grita:
— Eu disse “fora”!
— Olha só, se você se aborreceu com alguma coisa no escritório, não vá descontar em mim. É o fim da picada!
Solta o ar bufando, passa a mão pelos cabelos e diz:
— Já tinha te falado que não queria ver esse cão aqui e, que eu saiba, não te dei permissão pra que meu sobrinho subisse num trenó, e menos ainda ao lado desse animal.
Fico surpresa com o surto de mau humor, mas, como estou disposta a entrar na briga, protesto:
— Não sabia que tinha que te pedir permissão pra brincar na neve, ou tinha? Se você me disser que é assim, a partir de hoje vou pedir sua autorização até pra respirar.
Que merda, só me faltava essa!
Emma não responde, e continuo, mal-humorada:
— Quanto a Susto, quero que fique aqui. Essa casa é grande o suficiente pra que você não o veja se não quiser. Tem um jardim que é quase um parque. Posso construir uma casinha pra ele morar dentro dela e ao mesmo tempo proteger nossa casa. Não sei por que você insiste em botá-lo pra fora, mesmo com o frio que está fazendo. Você não percebe? Não tem pena? Tadinho, deve sentir o maior frio. Está nevando, e você quer deixá-lo na rua. Ah, Emma, por favor.
Minha Icewoman, que está linda com seu terninho e seu sobretudo azul, olha para Susto. O cachorro abana o rabo para ela. Fofinho!
— Mas, Regina, você acha que sou idiota? — diz, surpreendendo-me.
Não respondo e ela continua:
— Esse animal mora na garagem há um tempão.
Meu coração quase para de bater. Será que ela também viu a moto?
— Você sabia?
— Acha que sou tão imbecil a ponto de não me dar conta de uma coisa dessas? Claro que eu sabia.
Fico sem palavras e, antes que eu possa responder, ela insiste:
— Eu te disse que não o queria na minha casa, mas mesmo assim você o trouxe pra dentro e...
— Se você voltar com essa história de sua casa..., vou me irritar — digo, sem mencionar a moto. Já que ela não disse nada, o melhor é não tocar no assunto por enquanto. — Você vive me dizendo pra considerar essa casa como minha, e agora, só porque dei abrigo a um pobre animal na sua maldita garagem pra ele não morrer de frio nem de fome na rua, você está se comportando como uma... uma...
— Babaca — ela completa.
— Isso — confirmo. — Você mesmo já disse: uma babaca!
— Você e meu sobrinho estão aprontando...
— O que houve com Flyn no colégio? — interrompo.
— Ele se meteu numa briga, e o outro garoto teve que levar pontos na cabeça.
Isso me espanta. Não imagino Flyn envolvido numa situação dessas, apesar de estar com o lábio machucado. Furiosa, Emma, novamente passa a mão pela cabeça, olha para Susto e grita:
— Quero ele fora daqui!
Tensão. O frio que faz nem se compara com o frio que sinto em meu coração e, antes que ela volte a dizer alguma coisa, ameaço:
— Se Susto for embora, eu vou junto.
Emma levanta as sobrancelhas com frieza e, deixando-me com a boca aberta, diz antes de dar meia-volta:
— Faz o que você quiser. No fim das contas, sempre faz.
E, sem dizer mais nada, sai. Me deixa ali plantada, com cara de idiota e vontade de discutir mais. Dez minutos passam e continuo fora da casa ao lado do cachorro. Emma não aparece. Não sei o que fazer. Por um lado, entendo que errei ao colocar Susto na garagem, mas por outro não posso deixar na rua esse pobre animalzinho.
Vejo Flyn se aproximar pela porta de vidro do quarto de brinquedos e aceno para ele. O garoto acena de volta e me parte o coração. Ele gostou de brincar, de andar de trenó e de fazer carinho em Susto, mas não posso deixar o cachorro dentro dessa casa. Sei que isso traria mais problemas.
Simona sai e vem em minha direção.
— A senhorita vai se resfriar. Está ensopada e...
— Simona, preciso encontrar um lar para Susto. Emma não quer que ele fique aqui.
A mulher fecha os olhos e, triste, balança a cabeça num gesto afirmativo.
— Sabe que eu o levaria pra minha casa, mas a senhora Swan não iria gostar. A senhorita sabe disso, né? — Faço que sim e ela acrescenta: — Se quiser, podemos ligar pra associação protetora de animais. Eles com certeza arrumarão um abrigo pra ele.
Peço para ela descobrir o telefone deles. Não há outra saída.
Não entro na casa. Me recuso. Se eu ver Emma, vou partir para cima dela, no mau sentido. Caminho com Susto pela trilha até chegar ao enorme portão. Saio para a rua e brinco com o bichinho, que está feliz ao meu lado. Meus olhos se enchem de lágrimas e eu as deixo rolarem. Tentar segurá-las seria pior. Então choro. Choro copiosamente enquanto jogo pedrinhas ao cachorro para ele ir pegar. Tadinho!
Vinte minutos depois, Simona aparece e me entrega um papel com um telefone anotado.
— Norbert disse pra ligarmos pra esse número. Pra mandarmos chamar Henry e dizer que estamos falando da parte dele.
Agradeço e pego meu celular do bolso. Com o coração apertado, faço o que Simona sugere. Falo com o tal de Henry e ele diz que em uma hora vão passar para buscar o animal. Já é noite. Obrigo Simona a entrar na casa para que Emma e Flyn possam jantar, e eu fico do lado de fora com Susto. Estou congelando. Mas isso não é nada comparado ao frio que o coitado do bicho deve ter passado esse tempo todo. Emma liga para o meu celular, mas rejeito a ligação. Não quero falar com ela. Sem chance!
Dez minutos depois, algumas luzes aparecem no fundo da rua e sei que é o carro que vem buscar o animal. Começo a chorar. Susto olha para mim. Um furgão se aproxima e para bem na nossa frente. Me lembro de Trampo. Ele foi embora e agora Susto também está indo. Por que a vida é tão injusta?
Desce um homem que se identifica como Henry, olha para o bichinho e afaga sua cabeça. Assino uns papéis e, enquanto abre as portas traseiras do furgão, ele diz:
— Despeça-se dele, senhorita. Já estamos indo. E, por favor, tire isso do pescoço dele.
— É um cachecol que fiz pra ele. Está resfriado.
O homem olha para mim e insiste:
— Por favor, retire. É melhor assim.
Resmungo. Fecho os olhos, tiro o cachecol e suspiro fundo. Uffff, que momento mais triste! Contemplo Susto, que me olha com seus olhões esbugalhados. Me agacho e murmuro, tocando sua cabeça ossuda:
— Desculpa, querido, mas essa casa não é minha. Se fosse, pode ter certeza de que ninguém tiraria você daqui. — O cão aproxima seu focinho úmido, me dá uma lambida e continuo: — Vão achar um lar maravilhoso pra você, um abrigo quentinho onde você vai ser muito bem tratado.
Não consigo dizer mais nada. Fico desfigurada de tanto chorar. É como se eu estivesse me despedindo de Trampo outra vez. Dou um beijo na cabeça de Susto, e Henry o pega e o mete no furgão. O bichinho resiste, mas Henry está acostumado e é mais forte do que ele. Em seguida fecha as portas, despede-se e vai embora.
Sem me mover, vejo o furgão se afastando, com Susto dentro dele. Tapo o rosto com o cachecol e caio no choro novamente. Por um momento, sozinha nessa rua escura e gelada, eu choro como havia tempo não chorava. Tudo é difícil em Munique. Flyn não facilita minha vida, e Emma às vezes é fria como gelo.
Quando me viro para entrar em casa, me surpreendo ao perceber Emma parada atrás do portão. A escuridão não me permite ver seu olhar, mas sei que está me observando. Estou com frio. Começo a andar e ela abre a porta. Passo a seu lado e não digo nada.
— Regina...
Com raiva, me viro na direção dela.
— Pronto. Não se preocupe. Susto não está mais na sua maldita casa.
— Escuta, Regina...
— Não, não quero escutar. Me deixa em paz.
Sem dizer mais nada, volto a caminhar. Ela me segue, mas andamos em silêncio. Entramos na casa, tiramos nossos sobretudos e ela pega minha mão. Me solto depressa e subo as escadas. Não quero falar com ela. Lá em cima, topo com Flyn. O menino me olha, mas passo por ele e entro no quarto, batendo a porta com força. Tiro as botas e minha calça jeans molhada e me meto no chuveiro. Estou congelada e preciso de um pouco de calor. A água quente me faz recuperar a energia, mas logo estou chorando de novo.
— Merda de vida! — grito.
Um gemido escapa de dentro de mim e caio em prantos. Estou muito chorona hoje. Ouço a porta do banheiro se abrindo e, pelo vidro do boxe, vejo que é Emma. Por alguns minutos nós nos olhamos, até que ela sai do banheiro e me deixa sozinha. Sou grata por isso.
Saio do banho, me enrolo numa toalha e enxugo o cabelo. Depois visto o pijama e me enfio na cama. Estou sem fome. Pego no sono rapidamente, mas acordo sobressaltada ao sentir que alguém me toca. Emma. Mas estou chateada com ela e me limito a murmurar:
— Me deixa. Não encosta em mim. Quero dormir.
Suas mãos se afastam da minha cintura e eu me viro. Não quero que me toque.
Flyn é outra história. O garoto não facilita minha vida. A cada dia que passa ele se mostra mais resistente a ser amável comigo e a aceitar minha felicidade com Emma. Nós duas só discutimos por causa da criança. Ela é a fonte de nossas brigas, e parece gostar disso.
Agora tenho acompanhado Norbert algumas manhãs ao colégio. O que Flyn não sabe é que, quando o motorista dá a partida no carro e vai embora, eu o observo sem ser vista. Não entendo o que acontece. Não consigo compreender por que Flyn é motivo de piada para seus supostos amigos. Eles batem nele, o empurram, e a criatura nem reage. Sempre acaba no chão. Preciso dar um jeito nisso. Quero que ele sorria, que tenha confiança em si mesmo, mas não sei o que fazer.
Uma tarde, estou no meu quarto cantando Tanto, de Pablo Alborán, e vejo pela janela que voltou a nevar. Mais neve em cima da camada que já caiu e isso me deixa alegre. Que linda é a neve! Empolgada, vou ao quarto de brinquedos onde Flyn faz os deveres e abro a porta.
— Quer brincar na neve?
O menino olha para mim e responde, com sua cara séria de sempre:
— Não.
Seu lábio está machucado. Isso me enfurece. Eu o pego pelo queixo e pergunto:
— Quem fez isso contigo?
O moleque me olha e, mal-humorado, responde:
— Não te interessa.
Penso duas vezes antes de responder e decido ficar quieta. Fecho a porta e vou atrás de Simona, que está na cozinha preparando uma sopa.
— Simona.
A mulher seca as mãos no avental e me olha.
— Diga, senhorita.
— Aiiii, Simona, por favor, me chama pelo nome, Regina!
Simona sorri.
— Eu bem que tento, senhorita, mas é difícil me acostumar com isso.
Compreendo que realmente não deve ser nada fácil para ela.
— Há algum trenó na casa? — pergunto.
A mulher pensa um pouco e diz:
— Sim. Tem um guardado na garagem.
— Ótimo! — digo, animada. E olhando para ela acrescento: — Preciso te pedir um favor.
— Fique à vontade.
— Preciso que você vá lá fora comigo e a gente brinque de atirar bolas de neve.
Incrédula, arregala os olhos, sem entender nada. E eu, achando graça, seguro suas mãos e cochicho:
— Quero que Flyn veja o que está perdendo. É uma criança e deveria brincar com a neve e com o trenó. Vem, vamos mostrar pra ele como existem coisas divertidas além do videogame.
De início, a mulher fica reticente. Não sabe o que fazer, mas, ao ver que estou esperando, ela tira o avental.
— Me dê uns segundinhos pra eu calçar minhas botas. Com o sapato que estou usando, não dá pra ir lá fora.
— Ótimo!
Já na porta de casa, visto meu casaco vermelho e as luvas, e logo Simona aparece e pega seu casaco azul e um gorro.
— Vamos brincar! — digo, puxando seu braço.
Saímos de casa. Caminhamos pela neve até chegar em frente ao quarto de brinquedos de Flyn, e ali começamos nossa guerra de bolas de neve. No início, Simona fica um pouco tímida, mas acaba se animando depois que eu a acerto algumas vezes. Pegamos montinhos de neve e, em meio a risadas, atiramos uma na outra.
Surpreso com o que estamos fazendo, Norbert vem até nós. Primeiro resiste um pouco a participar, mas alguns minutos depois ele acaba brincando conosco. Flyn nos observa. Vejo pelo vidro que ele está olhando e grito:
— Vamos, Flyn... Vem brincar com a gente!
O garoto nega com a cabeça, e nós três continuamos. Peço a Norbert para pegar o trenó na garagem: é vermelho. Empolgada, subo nele e deslizo por uma ladeira coberta de neve. Dou uma derrapada de respeito, mas a neve acumulada acaba me detendo e solto uma gargalhada. A próxima a se aventurar no trenó é Simona, e depois vamos as duas juntas. Terminamos a brincadeira cobertas de neve, mas felizes, apesar da expressão contrariada de Norbert. Não confia em nós duas. De repente, e quando menos esperávamos, vejo Flyn saindo da casa e nos olhando.
— Vamos, Flyn, vem!
O menino se aproxima e eu o chamo para sentar no trenó. Me olha com receio, então digo:
— Vem, eu sento na frente e você atrás, tá bom?
Incentivado por Simona e Norbert, o menino obedece e com extremo cuidado deslizo pela ladeira. Dou gritinhos de empolgação, e eles logo fazem o mesmo. Quando o trenó para, Flyn me pergunta, radiante:
— Podemos repetir?
Feliz por ver nele uma expressão que eu nunca tinha visto, concordo logo. Nós dois corremos até Simona e repetimos a descida.
A partir desse momento, é só diversão. Pela primeira vez desde que estou na Alemanha, Flyn se comporta como uma criança. Quando consigo convencê-lo a ir sozinho no trenó e ele enfim vai, sua cara de satisfação me enche de alegria.
Ele está sorrindo!
Seu sorriso é envolvente, encantador e maravilhoso, até que de repente ele muda a cara e, assim que olho na mesma direção, vejo Susto correndo até nós. Norbert deixou a garagem aberta e, ao ouvir nossos gritos, o bicho não se conteve e quis vir brincar também. Apavorado, o menino para e eu assobio. Susto vem até mim, afago a cabeça dele e murmuro:
— Não se assuste, Flyn.
— Cachorros mordem — sussurra, paralisado.
Me lembro do que o menino contou aquele dia na cama e, acariciando Susto, tento acalmar Flyn:
— Não, meu amor, nem todos os cachorros mordem. E tenho certeza de que Susto não vai te machucar. — Mas o garoto não se convence e insisto enquanto estendo a mão para ele. — Vem. Confia em mim. Susto não vai te morder.
Não se aproxima. Apenas me olha. Simona o incentiva, Norbert também, e Flyn dá um passo à frente mas logo para. Está com medo. Sorrio e digo outra vez:
— Te prometo, querido, que ele não vai fazer nada de mau.
O menino me olha com receio, até que de repente Susto se atira na neve e põe as patas para cima. Achando graça, Simona faz carinho na barriga do cão.
— Tá vendo, Flyn? Susto só quer que a gente faça cosquinha. Vem...
Faço o mesmo que Simona, e o cachorro põe a língua para fora num sinal de alegria. De repente, o menino chega mais perto, se agacha e, morrendo de medo, toca o cãozinho com um dedo. Tenho certeza de que é a primeira vez em muitos anos que ele encosta num animal. Como Susto continua sem se mexer, Flyn se anima e toca nele de novo.
— E aí, o que achou?
— Macio e molhado — diz o garoto, que já encosta nele com a palma da mão.
Meia hora depois, Susto e Flyn já estão amigos e, quando entramos no trenó e deslizamos pela neve, Susto corre ao nosso lado enquanto gritamos e rimos. Todos estamos cobertos de neve e nos divertindo à beça, até que ouvimos um carro se aproximar. Emma. Eu e Simona nos olhamos. Ao ver que é sua tia, Flyn fica imóvel. Isso me espanta. Não corre na direção dela. Quando o veículo chega ainda mais perto, percebo que Emma está nos observando e, pela cara, parece estar de mau humor. Ok, nenhuma novidade. Sem conseguir evitar, murmuro perto de Simona:
— Oh, oh! Ela pegou a gente no flagra!
A mulher faz que sim. Emma para o carro. Desce e bate a porta com força, e isso é mais uma prova de que ela está atacada hoje. Caminha na nossa direção de um jeito que intimida.
Meu Deus! Que recaída minha Icewoman está tendo!
Quando quer fazer cara feia, é imbatível. Deixa todo mundo assustado. Olho para ela. Ela me olha de volta. E, quando já está perto de nós, grita num tom de reprovação:
— O que esse cachorro está fazendo aqui?
Flyn não diz nada. Norbert e Simona estão paralisados. Todos olham para mim e eu respondo:
— Estávamos brincando na neve, e ele estava com a gente.
Emma puxa Flyn pela mão e diz, rosnando:
— Eu e você precisamos ter uma conversa séria. O que você aprontou no colégio?
O tom de voz que ela usa com a criança me deixa revoltada. Por que tem que falar com ele assim? Mas, quando penso em dizer alguma coisa, eu a ouço dizer:
— Me ligaram de novo do colégio. Pelo visto, você voltou a se meter em encrenca, e dessa vez foi das brabas!
— Tia, eu...
— Cala a boca! — grita. — Você vai direto pra um colégio interno. No fim das contas, é o que vai acabar acontecendo. Entra no meu escritório e me espera lá.
Após o olhar duro que Emma lhes dirige, Simona, Norbert e o garoto vão embora.
A mulher olha para mim com expressão de tristeza. Pisco um olho para ela, apesar de saber que vai sobrar para mim nessa história. Já estou até vendo a bronca que vou levar dessa alemã. Quando ficamos a sós, Emma repara no trenó e nas marcas na ladeira e reclama:
— Quero esse cachorro fora da minha casa, está me ouvindo?
— Mas Emma... escuta...
— Não, não vou escutar, Regina.
— Mas deveria — insisto.
Nos encaramos por um tempo, até que ela grita:
— Eu disse “fora”!
— Olha só, se você se aborreceu com alguma coisa no escritório, não vá descontar em mim. É o fim da picada!
Solta o ar bufando, passa a mão pelos cabelos e diz:
— Já tinha te falado que não queria ver esse cão aqui e, que eu saiba, não te dei permissão pra que meu sobrinho subisse num trenó, e menos ainda ao lado desse animal.
Fico surpresa com o surto de mau humor, mas, como estou disposta a entrar na briga, protesto:
— Não sabia que tinha que te pedir permissão pra brincar na neve, ou tinha? Se você me disser que é assim, a partir de hoje vou pedir sua autorização até pra respirar.
Que merda, só me faltava essa!
Emma não responde, e continuo, mal-humorada:
— Quanto a Susto, quero que fique aqui. Essa casa é grande o suficiente pra que você não o veja se não quiser. Tem um jardim que é quase um parque. Posso construir uma casinha pra ele morar dentro dela e ao mesmo tempo proteger nossa casa. Não sei por que você insiste em botá-lo pra fora, mesmo com o frio que está fazendo. Você não percebe? Não tem pena? Tadinho, deve sentir o maior frio. Está nevando, e você quer deixá-lo na rua. Ah, Emma, por favor.
Minha Icewoman, que está linda com seu terninho e seu sobretudo azul, olha para Susto. O cachorro abana o rabo para ela. Fofinho!
— Mas, Regina, você acha que sou idiota? — diz, surpreendendo-me.
Não respondo e ela continua:
— Esse animal mora na garagem há um tempão.
Meu coração quase para de bater. Será que ela também viu a moto?
— Você sabia?
— Acha que sou tão imbecil a ponto de não me dar conta de uma coisa dessas? Claro que eu sabia.
Fico sem palavras e, antes que eu possa responder, ela insiste:
— Eu te disse que não o queria na minha casa, mas mesmo assim você o trouxe pra dentro e...
— Se você voltar com essa história de sua casa..., vou me irritar — digo, sem mencionar a moto. Já que ela não disse nada, o melhor é não tocar no assunto por enquanto. — Você vive me dizendo pra considerar essa casa como minha, e agora, só porque dei abrigo a um pobre animal na sua maldita garagem pra ele não morrer de frio nem de fome na rua, você está se comportando como uma... uma...
— Babaca — ela completa.
— Isso — confirmo. — Você mesmo já disse: uma babaca!
— Você e meu sobrinho estão aprontando...
— O que houve com Flyn no colégio? — interrompo.
— Ele se meteu numa briga, e o outro garoto teve que levar pontos na cabeça.
Isso me espanta. Não imagino Flyn envolvido numa situação dessas, apesar de estar com o lábio machucado. Furiosa, Emma, novamente passa a mão pela cabeça, olha para Susto e grita:
— Quero ele fora daqui!
Tensão. O frio que faz nem se compara com o frio que sinto em meu coração e, antes que ela volte a dizer alguma coisa, ameaço:
— Se Susto for embora, eu vou junto.
Emma levanta as sobrancelhas com frieza e, deixando-me com a boca aberta, diz antes de dar meia-volta:
— Faz o que você quiser. No fim das contas, sempre faz.
E, sem dizer mais nada, sai. Me deixa ali plantada, com cara de idiota e vontade de discutir mais. Dez minutos passam e continuo fora da casa ao lado do cachorro. Emma não aparece. Não sei o que fazer. Por um lado, entendo que errei ao colocar Susto na garagem, mas por outro não posso deixar na rua esse pobre animalzinho.
Vejo Flyn se aproximar pela porta de vidro do quarto de brinquedos e aceno para ele. O garoto acena de volta e me parte o coração. Ele gostou de brincar, de andar de trenó e de fazer carinho em Susto, mas não posso deixar o cachorro dentro dessa casa. Sei que isso traria mais problemas.
Simona sai e vem em minha direção.
— A senhorita vai se resfriar. Está ensopada e...
— Simona, preciso encontrar um lar para Susto. Emma não quer que ele fique aqui.
A mulher fecha os olhos e, triste, balança a cabeça num gesto afirmativo.
— Sabe que eu o levaria pra minha casa, mas a senhora Swan não iria gostar. A senhorita sabe disso, né? — Faço que sim e ela acrescenta: — Se quiser, podemos ligar pra associação protetora de animais. Eles com certeza arrumarão um abrigo pra ele.
Peço para ela descobrir o telefone deles. Não há outra saída.
Não entro na casa. Me recuso. Se eu ver Emma, vou partir para cima dela, no mau sentido. Caminho com Susto pela trilha até chegar ao enorme portão. Saio para a rua e brinco com o bichinho, que está feliz ao meu lado. Meus olhos se enchem de lágrimas e eu as deixo rolarem. Tentar segurá-las seria pior. Então choro. Choro copiosamente enquanto jogo pedrinhas ao cachorro para ele ir pegar. Tadinho!
Vinte minutos depois, Simona aparece e me entrega um papel com um telefone anotado.
— Norbert disse pra ligarmos pra esse número. Pra mandarmos chamar Henry e dizer que estamos falando da parte dele.
Agradeço e pego meu celular do bolso. Com o coração apertado, faço o que Simona sugere. Falo com o tal de Henry e ele diz que em uma hora vão passar para buscar o animal. Já é noite. Obrigo Simona a entrar na casa para que Emma e Flyn possam jantar, e eu fico do lado de fora com Susto. Estou congelando. Mas isso não é nada comparado ao frio que o coitado do bicho deve ter passado esse tempo todo. Emma liga para o meu celular, mas rejeito a ligação. Não quero falar com ela. Sem chance!
Dez minutos depois, algumas luzes aparecem no fundo da rua e sei que é o carro que vem buscar o animal. Começo a chorar. Susto olha para mim. Um furgão se aproxima e para bem na nossa frente. Me lembro de Trampo. Ele foi embora e agora Susto também está indo. Por que a vida é tão injusta?
Desce um homem que se identifica como Henry, olha para o bichinho e afaga sua cabeça. Assino uns papéis e, enquanto abre as portas traseiras do furgão, ele diz:
— Despeça-se dele, senhorita. Já estamos indo. E, por favor, tire isso do pescoço dele.
— É um cachecol que fiz pra ele. Está resfriado.
O homem olha para mim e insiste:
— Por favor, retire. É melhor assim.
Resmungo. Fecho os olhos, tiro o cachecol e suspiro fundo. Uffff, que momento mais triste! Contemplo Susto, que me olha com seus olhões esbugalhados. Me agacho e murmuro, tocando sua cabeça ossuda:
— Desculpa, querido, mas essa casa não é minha. Se fosse, pode ter certeza de que ninguém tiraria você daqui. — O cão aproxima seu focinho úmido, me dá uma lambida e continuo: — Vão achar um lar maravilhoso pra você, um abrigo quentinho onde você vai ser muito bem tratado.
Não consigo dizer mais nada. Fico desfigurada de tanto chorar. É como se eu estivesse me despedindo de Trampo outra vez. Dou um beijo na cabeça de Susto, e Henry o pega e o mete no furgão. O bichinho resiste, mas Henry está acostumado e é mais forte do que ele. Em seguida fecha as portas, despede-se e vai embora.
Sem me mover, vejo o furgão se afastando, com Susto dentro dele. Tapo o rosto com o cachecol e caio no choro novamente. Por um momento, sozinha nessa rua escura e gelada, eu choro como havia tempo não chorava. Tudo é difícil em Munique. Flyn não facilita minha vida, e Emma às vezes é fria como gelo.
Quando me viro para entrar em casa, me surpreendo ao perceber Emma parada atrás do portão. A escuridão não me permite ver seu olhar, mas sei que está me observando. Estou com frio. Começo a andar e ela abre a porta. Passo a seu lado e não digo nada.
— Regina...
Com raiva, me viro na direção dela.
— Pronto. Não se preocupe. Susto não está mais na sua maldita casa.
— Escuta, Regina...
— Não, não quero escutar. Me deixa em paz.
Sem dizer mais nada, volto a caminhar. Ela me segue, mas andamos em silêncio. Entramos na casa, tiramos nossos sobretudos e ela pega minha mão. Me solto depressa e subo as escadas. Não quero falar com ela. Lá em cima, topo com Flyn. O menino me olha, mas passo por ele e entro no quarto, batendo a porta com força. Tiro as botas e minha calça jeans molhada e me meto no chuveiro. Estou congelada e preciso de um pouco de calor. A água quente me faz recuperar a energia, mas logo estou chorando de novo.
— Merda de vida! — grito.
Um gemido escapa de dentro de mim e caio em prantos. Estou muito chorona hoje. Ouço a porta do banheiro se abrindo e, pelo vidro do boxe, vejo que é Emma. Por alguns minutos nós nos olhamos, até que ela sai do banheiro e me deixa sozinha. Sou grata por isso.
Saio do banho, me enrolo numa toalha e enxugo o cabelo. Depois visto o pijama e me enfio na cama. Estou sem fome. Pego no sono rapidamente, mas acordo sobressaltada ao sentir que alguém me toca. Emma. Mas estou chateada com ela e me limito a murmurar:
— Me deixa. Não encosta em mim. Quero dormir.
Suas mãos se afastam da minha cintura e eu me viro. Não quero que me toque.
De manhã, quando me levanto, Emma está
tomando café na cozinha. Flyn está com ela. Assim que entro, os dois olham para
mim.
— Bom dia, Regi— diz Emma.
— Bom dia — respondo.
Não vou até ela. Não lhe dou um beijo de bom-dia, e Flyn nos observa. Simona me oferece um café e sorrio ao ver que ela fez churros para mim. Feliz com seu gesto, agradeço e me sento para comer. O silêncio na cozinha é sepulcral, já que em geral sou eu quem e tento puxar conversa com os outros.
Emma me olha, me olha e me olha; sei que está aborrecida com minha atitude. Mas não estou nem aí. Quero mesmo é fique aborrecida, tanto quanto ela me aborrece ou até mais.
Norbert entra na cozinha e diz a Flyn para se apressar ou então chegará tarde ao colégio. Meu celular toca. É Marta. Sorrio, me levanto e saio da cozinha. Subo as escadas e entro no meu quarto.
— Oi, doida! — eu a cumprimento. Marta ri.
— Como estão as coisas por aí?
Respiro fundo, olho pela janela e respondo:
— Tudo bem. Sabe como é, né? Estou com vontade de matar sua irmã.
Ouço a risada de Marta outra vez.
— Então isso significa que está tudo bem.
Marta fica de passar para me pegar. Quer que eu vá com ela fazer compras. Quando fecho o celular, me viro e vejo Emma bem atrás de mim.
— Combinou alguma coisa com minha irmã?
— Combinei.
Passo por ela, e Emma, estendendo a mão, me para.
— Regina... você não vai mais falar comigo?
Olho para ela e respondo com cara séria:
— Que eu saiba, estou falando.
Emma sorri. Eu não. Então ela fica séria também. E eu rio por dentro. Me agarra pela cintura.
— Escuta, querida. Sobre o que aconteceu ontem...
— Não quero falar disso.
— Você me ensinou a falar dos problemas. Agora não pode mudar de opinião.
— Olha só — respondo desaforada —, desta vez sou eu que não quero falar de problema nenhum. Você me cansou.
Silêncio. Tensão.
— Amor, desculpa. Ontem não foi um dia bom pra mim e...
— E você descontou no coitado do Susto, né? E de quebra ainda fez questão de me lembrar que esta é sua casa e que Flyn é seu sobrinho. Quer saber, Emma? Vai à merda!
Eu a encaro. Ela me encara de volta. Ficamos assim um tempo, até que ela murmura:
— Regina, essa é sua casa e...
— Não, lindinha, não. É sua casa. Minha casa é na Espanha, um lugar de onde eu nunca deveria ter saído.
Me puxa para si e sussurra:
— Não diz isso, por favor.
— Então cala a boca e não fala mais sobre o que aconteceu ontem.
Tensão. O ar está tão pesado que dá para cortar com uma faca. Penso na moto. Quando descobrir, ela vai me matar. Nos olhamos e, por fim, minha alemã diz:
— Vou ter que viajar. Eu ia te contar ontem, mas...
— O quê? Você vai viajar?
— É.
— Quando?
— Agora.
— Pra onde?
— Londres. Preciso resolver uns assuntos, mas volto depois de amanhã.
Londres. Isso me deixa preocupada. Amanda!!
— Vai ver a Amanda? — pergunto, incapaz de me controlar.
Emma faz que sim, e me desvencilho dela com raiva. Sou dominada pelo ciúme. Não gosto dessa bruxa e não quero que elas fiquem sozinhas. Mas Emma, sabendo muito bem o que estou pensando, me puxa para si novamente.
— É uma viagem de negócios. Amanda trabalha pra mim e...
— E com Amanda você também brinca? Com ela você satisfaz seus vícios nessas viagens, e é isso que você vai fazer agora, né?
— Regina, não... — sussurra.
Mas meu ciúme é mais forte e grito, fora de mim:
— Ah, que ótimo! Pode ir, e que vocês se divirtam muito juntas! E não tenta negar isso, porque não sou otária. Meu Deus, Emma, a gente se conhece! Mas tudo bem, não se preocupa, vou estar te esperando na sua casa quando você voltar.
— Regina...
— Quê?! — berro, totalmente descontrolada.
Emma me pega nos braços, me deita na cama e diz, segurando meu rosto:
— Por que você acha que vou fazer alguma coisa com ela? Ainda não se deu conta de que só desejo você e só quero você?
— Mas ela...
— Mas ela nada — me corta. — Preciso viajar a trabalho, e ela trabalha comigo. E, querida, isso não significa que tenha que rolar alguma coisa entre a gente. Vem comigo. Arruma uma mala e me acompanha. Se você realmente não confia em mim, faz isso, mas não me acusa de coisas que não faço nem vou fazer.
De repente me sinto ridícula. Estou tão chateada com a história de Susto, que não consigo raciocinar direito. Sei que Emma não mentiria para mim e, após suspirar, eu digo:
— Desculpa, mas eu...
Não chego a completar a frase. Emma me agarra e beija minha boca. Me devora, e então eu a abraço de um jeito desesperado. Não quero continuar chateada. Odeio quando a gente não se entende. Aproveito seu beijo. Aperto Emma contra mim até minha boca pedir...
— Me come.
Emma se levanta. Passa o trinco que coloquei na porta e, enquanto se desfaz de sua blusa, murmura:
— Com prazer, senhorita Mills. Tire a roupa.
Sem perder tempo, tiro o roupão e o pijama. Quando estou completamente nua, e Emma também, ela senta na cama e diz:
— Vem...
Chego mais perto dela. Emma põe a cara no meu púbis e beija. Passa as mãos pelo meu corpo, depois sussurra enquanto me sento sobre ela e com as mãos abre os lábios da minha vagina:
— Você... é a única mulher que eu quero.
Ela com seus dedos entra em mim até o fundo.
— Você... é a coisa mais importante da minha vida.
Me mexo em busca do meu prazer e, quando vejo que ela respira ofegante, eu acrescento:
— Você... é a mulher que eu amo e em quem quero confiar.
Meus quadris vão para a frente e para trás. Quando solto um gemido, Emma se levanta, me coloca na cama, deita em cima de mim e volta a me penetra fundo.
— Você... é minha como eu sou sua. Não duvida disso, pequena.
Um movimento forte faz seus dedos entrar até meu útero e eu me contorço.
— Olha pra mim — ordena.
Obedeço e, enquanto se move cada vez mais fundo e solto gemidos, Emma diz:
— Só com você eu posso transar desse jeito, só desejo você e só quero brincar com você.
Calor... tesão... empolgação.
Emma me agarra pela cintura, me come e diz coisas maravilhosas. Excitada, gosto de ouvi-las enquanto ela está dentro de mim. Por vários minutos ela entra e sai, forte... rápido... intenso, até que pede:
— Diz que confia em mim tanto quanto eu em você.
Entra de novo e me dá um tapa, esperando minha resposta. Olho para ela. Não respondo, e ela volta a se enfiar enquanto com a mão livre segura meu ombro para o movimento ser mais forte.
— Diz! — exige.
Seus quadris sobre os meus me imobiliza, antes que ela me penetre outra vez. Quando me contraio de prazer, Emma me aperta ainda mais contra ela. Enlouquecida, eu murmuro:
— Confio em você... sim... confio em você.
Ela abre um sorriso malicioso. Me pega pela cintura e me levanta. Me tem a seu bel- prazer. Adoro isso! Me apoia contra a parede e, cheia de tesão , agora com três de seus dedos, entra com força várias vezes, enquanto cruzo minhas pernas na sua cintura e me arqueio para recebê-la. Isso, assim, assim, assim!
Controlo meu gemido ao morder a pele alva de seu ombro, mas Emma percebe meu orgasmo chegando e então, só então, ela goza também. Nuas e suadas, nos abraçamos, ainda coladas à parede. Amo Emma. De todo o coração.
— Te amo, Regina... — afirma, me trazendo para o chão. — Por favor, não duvida disso, amor.
Cinco minutos depois estamos debaixo do chuveiro. Transamos de novo. Somos insaciáveis. O sexo entre nós duas é maravilhoso. Incrível.
Quando Emma vai embora, eu dou tchauzinho com a mão. Confio nela. E preciso disso. Sei o quanto sou importante na sua vida e tenho certeza de que ela não vai me decepcionar.
Marta passa para me buscar. Sorrio ao vê-la. Entro no carro e mergulhamos no trânsito de Munique. Paramos o carro em frente a uma loja superchique. Assim que entramos, vejo que é a loja de Anita, a amiga de Marta que estava com a gente no bar cubano. Marta escolhe vários vestidos, todos eles lindos e caríssimos. Entramos juntas no provador espaçoso e iluminado, e ela cochicha:
— Preciso comprar uma roupa bem sexy para o jantar de depois de amanhã.
— Tem um encontro?
— Tenho — diz Marta, rindo.
— Uau! E posso saber com quem?
Achando graça, Marta murmura:
— Com Arthur.
— Arthur, o garçom gato?
— É.
— Que beleza, hein! — digo.
— Resolvi seguir seu conselho e dar uma chance a ele. Talvez dê certo, talvez não, mas pelo menos assim não vou poder dizer que nunca tentei.
— Isso aí! É assim que se fala, garota! — exclamo.
Prova um monte de vestidos e acaba se decidindo por um azul. Marta fica linda com ele. De repente, uma voz chama minha atenção. Onde foi que já ouvi essa voz? Saio do provador e fico sem palavras. A poucos metros de mim, vejo a pessoa que nesses meses todos eu gostaria de ter esganado: Betta. Está conversando com uma mulher. Meu sangue ferve e sou dominada pela sede de vingança.
Sem poder controlar meus impulsos mais violentos, vou até Betta e, antes que ela possa reagir, já estou segurando seu pescoço e dizendo bem na sua cara:
— Oi, Rebeca! Ou prefere que eu te chame de Betta?
Ela fica branca como papel, e sua amiga mais ainda. Está assustada. Não esperava me ver aqui, e muito menos que eu a tratasse dessa forma. Sou pequena, mas estou pronta para uma briga, e essa idiota vai saber direitinho com quem está lidando. Ao nos ver, Anita se aproxima. Mas, como não estou a fim de largar minha presa, eu a enfio num provador.
— Tenho que falar com ela. Você nos dá um minutinho?
Fecho a porta do provador, e Betta me olha horrorizada. Não tem escapatória. Sem pensar duas vezes, dou uma bofetada nela que faz seu rosto virar para o lado.
— Isso é pra você aprender, e isso — digo, dando-lhe outro tapa com a mão bem aberta — é só por precaução, para o caso de você ainda não ter aprendido.
Betta grita. Anita grita. A amiga de Betta grita. Todas gritam e batem na porta. E eu, disposta a dar a essa sem-vergonha o que ela merece, torço seu braço e ela cai de joelhos na minha frente. Em seguida digo:
— Não sou uma pessoa agressiva nem má, mas, quando agem assim comigo, eu retribuo em dobro. Viro um bicho muito... muito feroz. E sinto muito, sua idiota, mas você sozinha conseguiu despertar o monstro que há dentro de mim.
— Me solta... me solta que você está me machucando — grita Betta, do chão.
— Machucando? — repito com sarcasmo. — Isso não é machucar, sua nojenta! Isso é apenas um aviso de que comigo não se brinca. Essa foi a última vez que você levou vantagem na brincadeira. Você sabia quem eu era, mas eu, em compensação, nem te conhecia. Jogou sujo comigo, e eu, boba, não percebi. Mas repito: comigo não se brinca. E, se você fizer isso, vai ter troco.
Assustada pelos gritos, Marta se junta às outras e começa a esmurrar a porta. Não entende o que está acontecendo. Não entende por que estou me comportando desse jeito. Isso me deixa agoniada, me desconcerta e, antes de soltar Betta, sussurro em seu ouvido:
— Que seja a última vez que você se aproxima de mim ou de Emma, porque te juro que, se você fizer isso outra vez, não vou ficar só no aviso. Pelo seu bem, fica bem longe de Emma. Não se esqueça.
Em seguida eu a solto, mas dou um chute no seu traseiro e ela cai de bruços no chão. Ai, meu Deus! Surtei! Depois abro a porta e saio. Marta me olha assustada. Não entende nada, e então vê Betta e aí sim compreende tudo. Assim que a outra se levanta, Marta chega perto dela e, cheia de raiva, lhe dá uma bofetada.
— Essa é pelo minha irmã. Como você foi capaz de dormir com o pai dela, sua vadia? Nesse momento, Anita para de pedir explicações e entende do que Marta está falando. Horrorizada, a amiga de Betta a ajuda.
— Chama a polícia, por favor.
— Por quê?
— Essas mulheres atacaram Rebeca, você não viu?
Anita nega com a cabeça.
— Desculpa, mas não vi nada. Só vi uma cadela no chão.
Radiante com o que acabo de fazer, me apoio na lateral da porta e olho para Betta. Me controlo. Eu queria mesmo era lhe dar uma boa surra, mas me seguro, por mais que ela mereça. Betta está desorientada, não sabe o que fazer. Por fim, de braços dados com sua amiga, diz:
— Vamos.
Quando as duas somem da loja, Anita e Marta olham para mim.
— Sinto muito. Desculpa, meninas, mas eu tinha que fazer isso. Essa mulher trouxe muitos problemas pra Emma e pra mim. Quando a vi, não consegui me controlar. Meu gênio explosivo me dominou e eu, eu...
Anita faz que sim com a cabeça e Marta responde:
— Não precisa se desculpar. Ela merecia.
Segundos depois, nós três já estamos rindo, enquanto minha mão ainda dói pelas bofetadas que dei em Betta. Ah, mas como foi bom!
Quando saímos da loja, decidimos parar num lugar para beber umas cervejas. Estamos precisando. Topar com Betta foi algo que ninguém esperava e nos tirou um pouco dos eixos. Quando enfim conseguimos relaxar, Marta me fala do seu encontro.
— Depois de amanhã é Dia dos Namorados?
— É — responde Marta. — Não sabia?
— Não... Estou com tanta coisa na cabeça que sinceramente me esqueci disso. Se bem que, conhecendo sua irmã, sei que ela também não vai dar a menor importância. Se ela esquece o Natal, nem imagino o que deve pensar de um dia tão romântico e consumista.
— Mulher, de cara ela te disse que vai voltar de viagem bem nesse dia.
— Sim, mas não mencionou que faríamos nada de especial. Se bem que há pouco tempo sugeri a ela que a gente colocasse um cadeado na ponte dos namorados e ela concordou.
— Minha irmã?
— Ahaaaaam.
— Emma? A Senhora Resmungona aceitou colocar um cadeado do amor?
— Foi o que ela disse — confirmei, rindo. — Comentei com ela que os cadeados tinham chamado minha atenção e ela disse que, quando eu quisesse, podíamos colocar o nosso. Mas também não é assim, vai, ela nem voltou a falar disso.
Damos umas risadas incrédulas e Marta cochicha:
— Cá entre nós, minha irmã nunca foi muito romântica pra essas coisas. E, que eu me lembre, quando ela estava com a vaca da Betta, nunca fizeram nada especial no Dia dos Namorados.
Tocar no nome dela nos deixa irritadas novamente.
— Imagino que você ficou assim por alguma coisa além do que essa sem-vergonha fez com minha irmã, né? — pergunta Marta.
— É.
— Pode me contar?
Minha cabeça começa a funcionar a mil por hora. Não posso lhe contar a verdade, porque ela não sabe dos nossos jogos eróticos.
— Na Espanha ela se meteu na nossa relação, e eu e sua irmã discutimos e terminamos.
— Minha irmã terminou contigo por causa dessa nojenta? — pergunta Marta, boquiaberta.
— Bom... é algo complicado.
— Ela quis voltar com ela? Porque, se foi isso, eu mato a Emma!
— Não... não foi isso. Foi um mal-entendido que essa maldita acabou gerando, e ela acreditou mais nela do que em mim.
— Jura? Minha irmã é idiota?
— É, além de babaca.
Nós duas rimos, decidimos encerrar o assunto e comer alguma coisa. Emma me liga. Já chegou a Londres. Não conto o episódio com Betta. Melhor assim.
Marta me deixa na casa de Emma. Simona avisa que Flyn está fazendo os deveres no quarto de brinquedos e que ela vai ao supermercado com Norbert. Gravou o capítulo de Loucura esmeralda e mais tarde vamos assistir. Subo para o quarto e troco de roupa. Visto uma camiseta e uma calça de algodão cinza de ficar em casa e decido ir ver como está o menino.
Quando abro a porta, ele olha na minha direção. Está sempre emburrado. Vou até ele e mexo no seu cabelo.
— Como foi hoje na escola?
O garoto move a cabeça para se desvencilhar de mim e responde:
— Bem.
Reparo que seu lábio está melhor que ontem. Balanço a cabeça de um lado para outro, num gesto de desaprovação. Isso não pode continuar assim. Agachando-me para ficar da sua altura, murmuro:
— Flyn, você não pode deixar que os meninos continuem fazendo o que fazem contigo. Tem que se defender.
— É, mas quando eu me defendo minha tia fica brava comigo — responde ele, furioso. Me lembro do que Emma me contou e faço que sim com a cabeça.
— Olha, Flyn, entendo o que você diz. Não sei bem o que aconteceu ontem para aquele menino precisar levar pontos.
Flyn não me olha, mas pela tensão do seu corpo dá para perceber que o que digo o incomoda.
— Escuta, você não pode permitir que...
— Cala a boca! — grita enfurecido. — Você não sabe de nada!
— Ok. Vou ficar quieta. Mas quero que você saiba que sei o que está acontecendo. Eu vi. Vi como esses seus supostos amiguinhos te empurram e debocham de você quando Norbert vai embora.
— Não são meus amigos.
— Isso você nem precisa me dizer — digo, brincando. — Já percebi. O que não entendo é por que você não conta tudo isso pra sua tia.
Flyn se levanta. Me empurra para que eu saia do quarto e me expulsa. Quando fecha a porta na minha cara, minha vontade é abri-la e lhe dar uma bela de uma bronca, mas penso melhor e acabo desistindo. Já o avisei de que estou a par de tudo. Agora é só esperar que ele me peça ajuda.
— Bom dia, Regi— diz Emma.
— Bom dia — respondo.
Não vou até ela. Não lhe dou um beijo de bom-dia, e Flyn nos observa. Simona me oferece um café e sorrio ao ver que ela fez churros para mim. Feliz com seu gesto, agradeço e me sento para comer. O silêncio na cozinha é sepulcral, já que em geral sou eu quem e tento puxar conversa com os outros.
Emma me olha, me olha e me olha; sei que está aborrecida com minha atitude. Mas não estou nem aí. Quero mesmo é fique aborrecida, tanto quanto ela me aborrece ou até mais.
Norbert entra na cozinha e diz a Flyn para se apressar ou então chegará tarde ao colégio. Meu celular toca. É Marta. Sorrio, me levanto e saio da cozinha. Subo as escadas e entro no meu quarto.
— Oi, doida! — eu a cumprimento. Marta ri.
— Como estão as coisas por aí?
Respiro fundo, olho pela janela e respondo:
— Tudo bem. Sabe como é, né? Estou com vontade de matar sua irmã.
Ouço a risada de Marta outra vez.
— Então isso significa que está tudo bem.
Marta fica de passar para me pegar. Quer que eu vá com ela fazer compras. Quando fecho o celular, me viro e vejo Emma bem atrás de mim.
— Combinou alguma coisa com minha irmã?
— Combinei.
Passo por ela, e Emma, estendendo a mão, me para.
— Regina... você não vai mais falar comigo?
Olho para ela e respondo com cara séria:
— Que eu saiba, estou falando.
Emma sorri. Eu não. Então ela fica séria também. E eu rio por dentro. Me agarra pela cintura.
— Escuta, querida. Sobre o que aconteceu ontem...
— Não quero falar disso.
— Você me ensinou a falar dos problemas. Agora não pode mudar de opinião.
— Olha só — respondo desaforada —, desta vez sou eu que não quero falar de problema nenhum. Você me cansou.
Silêncio. Tensão.
— Amor, desculpa. Ontem não foi um dia bom pra mim e...
— E você descontou no coitado do Susto, né? E de quebra ainda fez questão de me lembrar que esta é sua casa e que Flyn é seu sobrinho. Quer saber, Emma? Vai à merda!
Eu a encaro. Ela me encara de volta. Ficamos assim um tempo, até que ela murmura:
— Regina, essa é sua casa e...
— Não, lindinha, não. É sua casa. Minha casa é na Espanha, um lugar de onde eu nunca deveria ter saído.
Me puxa para si e sussurra:
— Não diz isso, por favor.
— Então cala a boca e não fala mais sobre o que aconteceu ontem.
Tensão. O ar está tão pesado que dá para cortar com uma faca. Penso na moto. Quando descobrir, ela vai me matar. Nos olhamos e, por fim, minha alemã diz:
— Vou ter que viajar. Eu ia te contar ontem, mas...
— O quê? Você vai viajar?
— É.
— Quando?
— Agora.
— Pra onde?
— Londres. Preciso resolver uns assuntos, mas volto depois de amanhã.
Londres. Isso me deixa preocupada. Amanda!!
— Vai ver a Amanda? — pergunto, incapaz de me controlar.
Emma faz que sim, e me desvencilho dela com raiva. Sou dominada pelo ciúme. Não gosto dessa bruxa e não quero que elas fiquem sozinhas. Mas Emma, sabendo muito bem o que estou pensando, me puxa para si novamente.
— É uma viagem de negócios. Amanda trabalha pra mim e...
— E com Amanda você também brinca? Com ela você satisfaz seus vícios nessas viagens, e é isso que você vai fazer agora, né?
— Regina, não... — sussurra.
Mas meu ciúme é mais forte e grito, fora de mim:
— Ah, que ótimo! Pode ir, e que vocês se divirtam muito juntas! E não tenta negar isso, porque não sou otária. Meu Deus, Emma, a gente se conhece! Mas tudo bem, não se preocupa, vou estar te esperando na sua casa quando você voltar.
— Regina...
— Quê?! — berro, totalmente descontrolada.
Emma me pega nos braços, me deita na cama e diz, segurando meu rosto:
— Por que você acha que vou fazer alguma coisa com ela? Ainda não se deu conta de que só desejo você e só quero você?
— Mas ela...
— Mas ela nada — me corta. — Preciso viajar a trabalho, e ela trabalha comigo. E, querida, isso não significa que tenha que rolar alguma coisa entre a gente. Vem comigo. Arruma uma mala e me acompanha. Se você realmente não confia em mim, faz isso, mas não me acusa de coisas que não faço nem vou fazer.
De repente me sinto ridícula. Estou tão chateada com a história de Susto, que não consigo raciocinar direito. Sei que Emma não mentiria para mim e, após suspirar, eu digo:
— Desculpa, mas eu...
Não chego a completar a frase. Emma me agarra e beija minha boca. Me devora, e então eu a abraço de um jeito desesperado. Não quero continuar chateada. Odeio quando a gente não se entende. Aproveito seu beijo. Aperto Emma contra mim até minha boca pedir...
— Me come.
Emma se levanta. Passa o trinco que coloquei na porta e, enquanto se desfaz de sua blusa, murmura:
— Com prazer, senhorita Mills. Tire a roupa.
Sem perder tempo, tiro o roupão e o pijama. Quando estou completamente nua, e Emma também, ela senta na cama e diz:
— Vem...
Chego mais perto dela. Emma põe a cara no meu púbis e beija. Passa as mãos pelo meu corpo, depois sussurra enquanto me sento sobre ela e com as mãos abre os lábios da minha vagina:
— Você... é a única mulher que eu quero.
Ela com seus dedos entra em mim até o fundo.
— Você... é a coisa mais importante da minha vida.
Me mexo em busca do meu prazer e, quando vejo que ela respira ofegante, eu acrescento:
— Você... é a mulher que eu amo e em quem quero confiar.
Meus quadris vão para a frente e para trás. Quando solto um gemido, Emma se levanta, me coloca na cama, deita em cima de mim e volta a me penetra fundo.
— Você... é minha como eu sou sua. Não duvida disso, pequena.
Um movimento forte faz seus dedos entrar até meu útero e eu me contorço.
— Olha pra mim — ordena.
Obedeço e, enquanto se move cada vez mais fundo e solto gemidos, Emma diz:
— Só com você eu posso transar desse jeito, só desejo você e só quero brincar com você.
Calor... tesão... empolgação.
Emma me agarra pela cintura, me come e diz coisas maravilhosas. Excitada, gosto de ouvi-las enquanto ela está dentro de mim. Por vários minutos ela entra e sai, forte... rápido... intenso, até que pede:
— Diz que confia em mim tanto quanto eu em você.
Entra de novo e me dá um tapa, esperando minha resposta. Olho para ela. Não respondo, e ela volta a se enfiar enquanto com a mão livre segura meu ombro para o movimento ser mais forte.
— Diz! — exige.
Seus quadris sobre os meus me imobiliza, antes que ela me penetre outra vez. Quando me contraio de prazer, Emma me aperta ainda mais contra ela. Enlouquecida, eu murmuro:
— Confio em você... sim... confio em você.
Ela abre um sorriso malicioso. Me pega pela cintura e me levanta. Me tem a seu bel- prazer. Adoro isso! Me apoia contra a parede e, cheia de tesão , agora com três de seus dedos, entra com força várias vezes, enquanto cruzo minhas pernas na sua cintura e me arqueio para recebê-la. Isso, assim, assim, assim!
Controlo meu gemido ao morder a pele alva de seu ombro, mas Emma percebe meu orgasmo chegando e então, só então, ela goza também. Nuas e suadas, nos abraçamos, ainda coladas à parede. Amo Emma. De todo o coração.
— Te amo, Regina... — afirma, me trazendo para o chão. — Por favor, não duvida disso, amor.
Cinco minutos depois estamos debaixo do chuveiro. Transamos de novo. Somos insaciáveis. O sexo entre nós duas é maravilhoso. Incrível.
Quando Emma vai embora, eu dou tchauzinho com a mão. Confio nela. E preciso disso. Sei o quanto sou importante na sua vida e tenho certeza de que ela não vai me decepcionar.
Marta passa para me buscar. Sorrio ao vê-la. Entro no carro e mergulhamos no trânsito de Munique. Paramos o carro em frente a uma loja superchique. Assim que entramos, vejo que é a loja de Anita, a amiga de Marta que estava com a gente no bar cubano. Marta escolhe vários vestidos, todos eles lindos e caríssimos. Entramos juntas no provador espaçoso e iluminado, e ela cochicha:
— Preciso comprar uma roupa bem sexy para o jantar de depois de amanhã.
— Tem um encontro?
— Tenho — diz Marta, rindo.
— Uau! E posso saber com quem?
Achando graça, Marta murmura:
— Com Arthur.
— Arthur, o garçom gato?
— É.
— Que beleza, hein! — digo.
— Resolvi seguir seu conselho e dar uma chance a ele. Talvez dê certo, talvez não, mas pelo menos assim não vou poder dizer que nunca tentei.
— Isso aí! É assim que se fala, garota! — exclamo.
Prova um monte de vestidos e acaba se decidindo por um azul. Marta fica linda com ele. De repente, uma voz chama minha atenção. Onde foi que já ouvi essa voz? Saio do provador e fico sem palavras. A poucos metros de mim, vejo a pessoa que nesses meses todos eu gostaria de ter esganado: Betta. Está conversando com uma mulher. Meu sangue ferve e sou dominada pela sede de vingança.
Sem poder controlar meus impulsos mais violentos, vou até Betta e, antes que ela possa reagir, já estou segurando seu pescoço e dizendo bem na sua cara:
— Oi, Rebeca! Ou prefere que eu te chame de Betta?
Ela fica branca como papel, e sua amiga mais ainda. Está assustada. Não esperava me ver aqui, e muito menos que eu a tratasse dessa forma. Sou pequena, mas estou pronta para uma briga, e essa idiota vai saber direitinho com quem está lidando. Ao nos ver, Anita se aproxima. Mas, como não estou a fim de largar minha presa, eu a enfio num provador.
— Tenho que falar com ela. Você nos dá um minutinho?
Fecho a porta do provador, e Betta me olha horrorizada. Não tem escapatória. Sem pensar duas vezes, dou uma bofetada nela que faz seu rosto virar para o lado.
— Isso é pra você aprender, e isso — digo, dando-lhe outro tapa com a mão bem aberta — é só por precaução, para o caso de você ainda não ter aprendido.
Betta grita. Anita grita. A amiga de Betta grita. Todas gritam e batem na porta. E eu, disposta a dar a essa sem-vergonha o que ela merece, torço seu braço e ela cai de joelhos na minha frente. Em seguida digo:
— Não sou uma pessoa agressiva nem má, mas, quando agem assim comigo, eu retribuo em dobro. Viro um bicho muito... muito feroz. E sinto muito, sua idiota, mas você sozinha conseguiu despertar o monstro que há dentro de mim.
— Me solta... me solta que você está me machucando — grita Betta, do chão.
— Machucando? — repito com sarcasmo. — Isso não é machucar, sua nojenta! Isso é apenas um aviso de que comigo não se brinca. Essa foi a última vez que você levou vantagem na brincadeira. Você sabia quem eu era, mas eu, em compensação, nem te conhecia. Jogou sujo comigo, e eu, boba, não percebi. Mas repito: comigo não se brinca. E, se você fizer isso, vai ter troco.
Assustada pelos gritos, Marta se junta às outras e começa a esmurrar a porta. Não entende o que está acontecendo. Não entende por que estou me comportando desse jeito. Isso me deixa agoniada, me desconcerta e, antes de soltar Betta, sussurro em seu ouvido:
— Que seja a última vez que você se aproxima de mim ou de Emma, porque te juro que, se você fizer isso outra vez, não vou ficar só no aviso. Pelo seu bem, fica bem longe de Emma. Não se esqueça.
Em seguida eu a solto, mas dou um chute no seu traseiro e ela cai de bruços no chão. Ai, meu Deus! Surtei! Depois abro a porta e saio. Marta me olha assustada. Não entende nada, e então vê Betta e aí sim compreende tudo. Assim que a outra se levanta, Marta chega perto dela e, cheia de raiva, lhe dá uma bofetada.
— Essa é pelo minha irmã. Como você foi capaz de dormir com o pai dela, sua vadia? Nesse momento, Anita para de pedir explicações e entende do que Marta está falando. Horrorizada, a amiga de Betta a ajuda.
— Chama a polícia, por favor.
— Por quê?
— Essas mulheres atacaram Rebeca, você não viu?
Anita nega com a cabeça.
— Desculpa, mas não vi nada. Só vi uma cadela no chão.
Radiante com o que acabo de fazer, me apoio na lateral da porta e olho para Betta. Me controlo. Eu queria mesmo era lhe dar uma boa surra, mas me seguro, por mais que ela mereça. Betta está desorientada, não sabe o que fazer. Por fim, de braços dados com sua amiga, diz:
— Vamos.
Quando as duas somem da loja, Anita e Marta olham para mim.
— Sinto muito. Desculpa, meninas, mas eu tinha que fazer isso. Essa mulher trouxe muitos problemas pra Emma e pra mim. Quando a vi, não consegui me controlar. Meu gênio explosivo me dominou e eu, eu...
Anita faz que sim com a cabeça e Marta responde:
— Não precisa se desculpar. Ela merecia.
Segundos depois, nós três já estamos rindo, enquanto minha mão ainda dói pelas bofetadas que dei em Betta. Ah, mas como foi bom!
Quando saímos da loja, decidimos parar num lugar para beber umas cervejas. Estamos precisando. Topar com Betta foi algo que ninguém esperava e nos tirou um pouco dos eixos. Quando enfim conseguimos relaxar, Marta me fala do seu encontro.
— Depois de amanhã é Dia dos Namorados?
— É — responde Marta. — Não sabia?
— Não... Estou com tanta coisa na cabeça que sinceramente me esqueci disso. Se bem que, conhecendo sua irmã, sei que ela também não vai dar a menor importância. Se ela esquece o Natal, nem imagino o que deve pensar de um dia tão romântico e consumista.
— Mulher, de cara ela te disse que vai voltar de viagem bem nesse dia.
— Sim, mas não mencionou que faríamos nada de especial. Se bem que há pouco tempo sugeri a ela que a gente colocasse um cadeado na ponte dos namorados e ela concordou.
— Minha irmã?
— Ahaaaaam.
— Emma? A Senhora Resmungona aceitou colocar um cadeado do amor?
— Foi o que ela disse — confirmei, rindo. — Comentei com ela que os cadeados tinham chamado minha atenção e ela disse que, quando eu quisesse, podíamos colocar o nosso. Mas também não é assim, vai, ela nem voltou a falar disso.
Damos umas risadas incrédulas e Marta cochicha:
— Cá entre nós, minha irmã nunca foi muito romântica pra essas coisas. E, que eu me lembre, quando ela estava com a vaca da Betta, nunca fizeram nada especial no Dia dos Namorados.
Tocar no nome dela nos deixa irritadas novamente.
— Imagino que você ficou assim por alguma coisa além do que essa sem-vergonha fez com minha irmã, né? — pergunta Marta.
— É.
— Pode me contar?
Minha cabeça começa a funcionar a mil por hora. Não posso lhe contar a verdade, porque ela não sabe dos nossos jogos eróticos.
— Na Espanha ela se meteu na nossa relação, e eu e sua irmã discutimos e terminamos.
— Minha irmã terminou contigo por causa dessa nojenta? — pergunta Marta, boquiaberta.
— Bom... é algo complicado.
— Ela quis voltar com ela? Porque, se foi isso, eu mato a Emma!
— Não... não foi isso. Foi um mal-entendido que essa maldita acabou gerando, e ela acreditou mais nela do que em mim.
— Jura? Minha irmã é idiota?
— É, além de babaca.
Nós duas rimos, decidimos encerrar o assunto e comer alguma coisa. Emma me liga. Já chegou a Londres. Não conto o episódio com Betta. Melhor assim.
Marta me deixa na casa de Emma. Simona avisa que Flyn está fazendo os deveres no quarto de brinquedos e que ela vai ao supermercado com Norbert. Gravou o capítulo de Loucura esmeralda e mais tarde vamos assistir. Subo para o quarto e troco de roupa. Visto uma camiseta e uma calça de algodão cinza de ficar em casa e decido ir ver como está o menino.
Quando abro a porta, ele olha na minha direção. Está sempre emburrado. Vou até ele e mexo no seu cabelo.
— Como foi hoje na escola?
O garoto move a cabeça para se desvencilhar de mim e responde:
— Bem.
Reparo que seu lábio está melhor que ontem. Balanço a cabeça de um lado para outro, num gesto de desaprovação. Isso não pode continuar assim. Agachando-me para ficar da sua altura, murmuro:
— Flyn, você não pode deixar que os meninos continuem fazendo o que fazem contigo. Tem que se defender.
— É, mas quando eu me defendo minha tia fica brava comigo — responde ele, furioso. Me lembro do que Emma me contou e faço que sim com a cabeça.
— Olha, Flyn, entendo o que você diz. Não sei bem o que aconteceu ontem para aquele menino precisar levar pontos.
Flyn não me olha, mas pela tensão do seu corpo dá para perceber que o que digo o incomoda.
— Escuta, você não pode permitir que...
— Cala a boca! — grita enfurecido. — Você não sabe de nada!
— Ok. Vou ficar quieta. Mas quero que você saiba que sei o que está acontecendo. Eu vi. Vi como esses seus supostos amiguinhos te empurram e debocham de você quando Norbert vai embora.
— Não são meus amigos.
— Isso você nem precisa me dizer — digo, brincando. — Já percebi. O que não entendo é por que você não conta tudo isso pra sua tia.
Flyn se levanta. Me empurra para que eu saia do quarto e me expulsa. Quando fecha a porta na minha cara, minha vontade é abri-la e lhe dar uma bela de uma bronca, mas penso melhor e acabo desistindo. Já o avisei de que estou a par de tudo. Agora é só esperar que ele me peça ajuda.
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