Durante estes dias minha alemã tem trabalhado em casa, nem fala em ir ao escritório. Gostaria de conhecer o lugar. Mas prefiro que seja ela a propor a visita.
Flyn continua sem me dar trégua. Tudo o que faço o incomoda, e isso faz com que eu e Emma tenhamos alguns atritos. Reconheço, porém, que é sempre ela a dar o braço a torcer para que a discussão não desande. Sabe que o menino não está se comportando direito e tenta me entender.
Com Susto as coisas só melhoraram. Ele já não foge quando me vê. Viramos amigos: ele entendeu que sou de confiança e deixa que o acaricie. Está com uma tosse horrível que não me agrada, e fiz um cachecol para proteger o pescoço dele. Ficou muito fofo!
Susto é uma graça. Tem uma cara de bonzinho que me derrete, e cada vez que saio para refazer sua casinha e levar comida — sem que Emma perceba — o pobre me agradece do jeito que sabe: rabo abanando, lambidas e piruetas.
À noite, quando chegamos à casa de Cora, Marta nos recebe com um sorriso maravilhoso.
— Que bom, vocês chegaram!
Emma fecha a cara. Não gosta desse tipo de festinhas que a mãe organiza, mas sabe que não deve faltar. Não por ela, mas por Flyn.
Emma me apresenta às pessoas que estão na sala como sua namorada. Vejo orgulho em seu olhar e em como me segura, possessiva.
Minutos depois, começa a falar com várias pessoas sobre negócios e decido procurar Marta. Mas quando vou me afastando, um cara me cumprimenta.
— Oi. Sou Jurgen. Você é Regina, né? Sou primo de Emma. — E cochichando: — O que faz motocross.
Minha cara se ilumina. Empolgada, começamos a conversar. Menciona vários lugares para praticar o esporte, e prometo aparecer. Me incentiva a usar a moto de Hannah. Cora comentou com ele que pratico motocross, o que o entusiasmou. Com o canto do olho vejo que Emma me observa e, pela cara, deve imaginar sobre o que estamos falando. Em dois segundos, já está do meu lado.
— Jurgen, há quanto tempo! — diz Emma, enquanto me agarra pela cintura de novo.
O primo sorri.
— Não será porque você não costuma dar as caras?
— Estive muito ocupada.
Jurgen não volta a mencionar o lance do motocross, e quase de imediato eles mergulham numa conversa muito chata. Outra vez decido procurar Marta. Está na cozinha, fumando. Me oferece um cigarro. Não costumo fumar, mas, com ela, sempre tenho vontade e aceito.
Assim, todas glamorosas para a festa, fumamos e conversamos.
— Como vai com Flyn?
— Nossa! Me declarou guerra — zombo, fazendo piada.
Marta cochicha, aproximando-se de mim:
— Se te serve de consolo, declarou guerra a todas nós, mulheres. Exceto, claro, Emma. A sua expetacular tia.
— Mas por quê?
Ela sorri.
— Segundo o psicólogo, é por ter perdido a mãe. Flyn pensa que nós, mulheres, somos pessoas que estamos só de passagem na sua vida. Por isso tenta não demonstrar afeto. Com mamãe e comigo se comporta do mesmo jeito. A única que ele aceita e venera, é Emma. Foi assim desde de que ela pegou sua guarda. Diz o psicólogo que ele a vê como uma heroína, que segundo ele, quando todos o rejeitaram, ela o salvou. Por isso só respeita à ela. Nunca é carinhoso comigo ou mamã e, se pode, nos rejeita. Mas, enfim, já nos acostumas com isso. A única pessoa que ele ama acima de todas é Emma mesmo. Sente um amor especial por ela. Às vezes, para meu gosto, doentio.
Nos calamos por uns segundos, até que já não me seguro mais:
— Marta, gostaria de comentar uma coisa sobre isso, mas talvez te chateie. Não sou ninguém pra dar opinião num assunto desses, mas é que, se não falo, vou explodir!
— Continue — responde, sorrindo. — Prometo que não fico chateada.
Antes dou uma tragada no cigarro e solto a fumaça:
— Acho que o menino é agarrado demais a Emma porque é realmente a única que nunca o abandona. E antes que me diga qualquer coisa, já sei que você e sua mãe não o abandonaram, mas Emma talvez seja a única que briga com ele e tenta fazer com que raciocine e, nas datas importantes, como por exemplo no Natal, não vai embora. Flyn é uma criança, e as crianças só querem carinho. E se para ele, por causa do que aconteceu com a mãe, é difícil gostar de vocês, mulheres que estão presentes em sua vida, são vocês que têm que fazer todo o possível pra que ele se dê conta de que a mãe dele partiu, mas que vocês continuam aqui. Que não vão abandoná-lo.
— Regina, te garanto que eu e mamãe fizemos de tudo.
— Não tenho dúvida, Marta. Mas talvez devessem mudar de tática. Não sei... Se uma coisa não funciona, podiam tentar algo diferente.
O silêncio que se forma me deixa arrepiada.
— A morte de Hannah partiu o coração de todos nós — diz finalmente Marta.
— Imagino.
Deve ter sido terrível. Seus olhos se enchem de lágrimas, e pego Marta pelo braço.
Ela sorri.
— Ela era o motor e o centro da família. Era cheia de energia, alegre e...
Vejo uma lágrima escorrer pelo seu rosto.
— Marta...
— Você a teria adorado, Regina. Tenho certeza de que vocês teriam se dado muito bem.
— Claro que sim.
Fumamos.
— Nunca esquecerei a cara de Emma naquela noite. Ela não só viu Hannah morrer como também perdeu o pai e a namorada.
— Tudo no mesmo dia? — pergunto, curiosa.
Nunca falei muito sobre esse assunto com Emma. Não consigo. Não quero obrigá-la a lembrar.
— Sim. A pobre, quando não conseguiu falar com o pai pra contar o que tinha acontecido, foi na casa dele e o encontrou na cama com aquela imbecil. Foi terrível. Terrível.
Me arrepio.
— Juro que pensei que Emma nunca ia se recuperar, Regina. Muitas coisas ruins demais em tão poucas horas. Depois do enterro de Hannah, durante duas semanas não soubemos dela. Desapareceu. Ficamos muito preocupadas. Quando voltou, sua vida era um caos. Teve que enfrentar o pai e Rebeca. Foi terrível. E pra completar, Leo, o homem que vivia com minha irmã Hannah e Flyn, claro, outro imbecil!, nos disse que não queria tomar conta dele. Assim, de um dia pro outro, não o considerava mais seu filho. O menino sofreu muito. Foi então que Emma retomou as rédeas de sua vida. Disse que ela se encarregaria de Flyn e, como você tem visto, é o que ela faz. Quanto ao Natal, sei que você tem razão, mas quem quebrou a tradição foi Emma, levando Flyn ao Caribe no primeiro ano. No ano seguinte, disse à mamãe e a mim que preferia que não fizéssemos muita festa nessa noite, e assim foram correndo os anos. Por isso, mamãe e eu fazemos nossos próprios planos.
— Sério?
Estou surpresa.
Justo nesse momento, a porta da cozinha se abre e Flyn nos observa com olhar acusador. Instantes depois, se vai.
— Merda! — protesta Marta. — Prepare-se.
— Como assim?
Sorri, apoiada no marco da porta de vidro.
— Vai nos dedurar pra Emma. Estamos fumando.
Começo a rir. Dedurar? Por favor, somos adultas.
Mas antes que possa contar até dez, a porta se abre outra vez, e Emma, seguido pelo sobrinho, pergunta, enquanto se aproxima com um jeito intimidador:
— Estão fumando?
Marta não responde, mas eu faço que sim com a cabeça. Como e por que mentir? Emma olha minha mão. Fecha a cara e me tira o cigarro. Isso me irrita e digo, num tom de voz nada calmo:
— Que seja a última vez que você faz isso.
A frieza dos olhos de Emma me perfuram. ,
Dá para cortar o ar com uma faca.
Espanha versus Alemanha. Isto vai acabar mal.
Não compreendo a irritação de Emma, mas entendo muito bem minha indignação.
Ninguém me trata assim. Então, sem pensar duas vezes, pego na mesinha o maço de cigarros, tiro um e acendo. Insolência? É comigo mesma!
Atônita, Emma me olha enquanto Marta e Flyn nos observam. Instantes depois, ela de novo me tira o cigarro das mãos e o joga na pia. Mas não, essa não. Não vou deixar barato. Pego outro cigarro e acendo. Emma o pega de novo.
— Bom, querem acabar com todos os meus cigarros? — protesta Marta e pega o maço.
— Tia, Regina fez uma coisa errada — insiste o menino.
Sua voz como de uma criança fantasma me encolhe o coração, e ao ver que nem Marta nem Emma dizem nada, eu o olho, irritada.
— E você, por que é dedo-duro?
— Fumar é errado — diz.
— Olhe, Flyn. Você é uma criança e deveria fechar essa boquinha. E...
Emma me corta:
— Não se meta com o menino, Regina. Ele só fez o que tinha de fazer.
— Dedurar era o que tinha de fazer?
— Era — responde sem hesitar. E depois, voltando-se para Marta, declara: — Acho o cúmulo que você fume e incentive Regina a fumar. Ela não fuma.
Ah, não, essa não! Eu fumo quando me dá na telha, e incapaz de ficar calada, atraio o olhar de Emma e, muito puta da vida, deixo claro:
— Está muito enganada, Emma. Você não sabe se fumo ou não.
— Pois nunca vi você fumar em todo esse tempo — garante, mal-humorada.
— Se não me viu fumar é porque não fumo muito. Mas te garanto que em certos momentos gosto de fumar um cigarrinho. Este não é o primeiro de minha vida e com certeza não será o último, queira você ou não.
Ela me olha. Eu a olho. Ela me desafia. Eu a desafio.
— Tia, você disse que ninguém pode fumar, e ela e Marta estavam fumando — insiste o pequeno monstrinho.
— Para com isso, Flyn! — protesto, diante da passividade de Marta.
Com o olhar muito sério, Swan, nada latina, explica:
— Regina, você não vai fumar mais. Eu não permito.
Uau, olha só o que ela acaba de dizer!
Meu coração bate num ritmo que anuncia que isso não vai acabar bem.
— Chega, cara, não enche! Você não é minha mãe nem eu tenho 10 anos.
— Regina... não me irrite!
Esse “não me irrite!” me faz sorrir. Nesse instante meu sorriso avisa, como um grande cartaz luminoso: CUIDADO! Em tom de gozação, olho Emma e respondo diante da cara de incredulidade da Marta:
— Emma, você já me irritou.
Então aparece a mãe de Emma, que pergunta:
— Que está acontecendo, hein? — De repente vê o maço de cigarro nas mãos da filha e exclama: — Ai, Marta, que bom! Me dê um cigarrinho, querida. Estou louca pra fumar.
— Mamãe! — protesta Emma.
Mas Cora ergue a sobrancelha e, olhando a filha, diz:
— Ora, filhinha, um pouco de nicotina vai me relaxar.
— Mamãe! — protesta Emma de novo.
Um sorriso me escapa, quando Cora explica:
— A insuportável da mulher de Vichenzo, minha filha, está me tirando do sério.
— Cora, fumar é proibido! — recrimina Flyn.
Marta e Cora trocam um olhar. Por fim, Marta, sem vontade de continuar ali na cozinha, pega a mãe pelo braço e sugere, enquanto puxa Flyn, que não quer ir com elas:
— Vamos beber alguma coisa. Precisamos.
Já a sós, Emma e eu, estou disposta a encarar a batalha:
— Nunca mais fale comigo dessa maneira na frente das pessoas.
— Regina...
— Nunca me proíba nada de novo.
— Regina...
— Regina, Regina. Que Regina que nada! — explodo, furiosa. — Fez eu me sentir uma garotinha diante da tua irmã e do dedo-duro. Quem você pensa que é pra me falar assim? Não percebe que entra no jogo do Flyn pra que a gente brigue? Pelo amor de Deus, Emma, teu sobrinho é um pequeno demônio. Se você não o deter, amanhã será uma pessoa insuportável.
— Não passe da conta, Regina.
— Não estou passando, Emma. Pra quem tem só 9 anos, esse menino é um velho prematuro. Eu... eu é que, no fim...
Ela se aproxima de mim, pega meu rosto entre as mãos e diz:
— Escute, querida, eu não quero que você fume. É só isso.
— Tudo bem, Emma, isso eu posso entender. Mas por que não me diz isso quando estamos sozinhas em nosso quarto? Ou é preciso deixar Flyn ver que briga comigo porque ele decidiu assim? Que merda, Emma, sendo tão esperta como é, parece mentira que às vezes você seja tão trouxa.
Viro e olho pela porta de vidro, chateada, muito chateada. Durante uns segundos estou irritada com todo mundo, até que Emma fica atrás de mim e me pega pela cintura e me abraça, pousando seu queixo no meu ombro.
— Sinto muito.
— Sinta por ter se comportado como uma babaca!
Essa palavra faz Emma rir.
— Adoro ser a tua babaca.
Tenho vontade de rir, mas me seguro.
— Sinto ter sido tão idiota e não ter me dado conta do que você disse. Tem razão, agi mal, me deixei levar pelo Flyn. Me perdoa?
Essas palavras e principalmente seu jeito de me abraçar me acalmam. Me dominam. Tudo bem, sou mesmo mole demais, mas é que amo tanto Emma que sentir que precisa que a perdoe acaba com minha irritação e tudo o mais.
— Claro que perdoo. Mas repito: não me proíba mais nada, e muito menos na frente dos outros. Entendido?
Ela mexe o rosto em meu pescoço e então sou eu que viro e a beijo. Beijo com ardor, paixão, loucura. Emma me levanta em seus braços e me prende contra o vidro da porta, enquanto as mãos procuram a barra do meu vestido. Quero que continue. Sim, quero que continue, mas, quando vou me desintegrar de prazer, me afasto uns milímetros e murmuro pertinho de sua boca:
— Querida, estamos na cozinha da sua mãe e ali do outro lado estão os convidados. Acho que não é hora nem lugar pra continuar a fazer o que estamos pensando.
Emma sorri. Me solta. Ajeito a barra do meu bonito vestido de festa e, enquanto nos dirigimos para a sala de mãos dadas, cochicha, me fazendo sorrir:
— Pra mim qualquer lugar é bom, se estou com você.
Voltamos de madrugada para casa. Chove, troveja. E apesar da vontade incessante de transar com Emma, me contenho. Sei que o menino, aquele velhinho prematuro, dormirá com a gente. Diante disso, não posso fazer nada.
Acordo às nove. Bem, o despertador me acorda. Botei o despertador porque sou do tipo que dorme até o meio-dia, se ninguém me chama. Como sempre, estou sozinha na cama, mas sorrio ao lembrar que é a manhã do feriado de Reis.
Que bela manhã!
Vestida com o pijama e um roupão, pego meus presentes, que estão guardados no armário, e desço a escada pronta para distribuí-los.
Vivam os Reis Magos!
Passo pela cozinha e convido Simona e Norbert para ficarem conosco. Tenho presentes para eles também. Quando entro na sala de jantar, Emma e Flyn jogam Wii. O menino, quando me vê, fecha a cara. Eu, feliz como uma criança, paro a música com o controle de Emma, olho para eles e anuncio feliz:
— Os Reis Magos deixaram presentes pra vocês.
Emma sorri e Flyn diz:
— Espere que a gente acabe a partida.
Puta que pariu!
A falta de alegria desse menino me leva a nocaute. Puxa, igualzinho à minha Grace, que com certeza está gritando e pulando de felicidade ao ver os presentes embaixo da árvore! Mas decidida a não dar bola para ele, levanto Emma da poltrona quando Norbert e Simona entram.
— Vamos, vamos nos sentar perto da árvore. Tenho que dar os presentes de vocês.
Flyn protesta de novo, mas desta vez Emma o repreende. O menino se cala e vem sentar com a gente perto da árvore. Então Emma tira quatro envelopes do bolso de sua calça e dá um para cada um de nós.
— Feliz Natal!
Simona e Norbert agradecem e guardam os envelopes no bolso sem abrir. Eu não sei o que fazer com o meu e observo Flyn abrir o dele.
— Dois mil euros! Obrigado, tia!
Incrédula, alucinada, estupefata e boquiaberta, olho Emma e pergunto:
— Está dando um cheque de dois mil euros a uma criança no Dia de Reis?
Emma balança a cabeça concordando.
— Esse negócio de presentes é uma besteira — diz o menino. — Eu já sei quem são os Reis Magos.
Essa explicação não me convence e, olhando a babaca, protesto.
— Pelo amor de Deus, Emma! Como pode fazer isso?
— Sou prática, meu amor.
Neste instante, Simona entrega a Flyn uma pequena caixa. O menino a abre e grita com entusiasmo ao encontrar um novo jogo do Wii. Fico animada com sua felicidade, embora seja por outro joguinho que o manterá preso à televisão. Dou a Simona e a Norbert meus presentes. São uma jaqueta de lã para ela e um par de luvas e cachecol para ele. Ambos me olham com alegria e não param de me agradecer, enquanto se desculpam por não terem nenhum presente para mim. Coitados, como ficam constrangidos!
Continuo tirando pacotes da minha enorme sacola. Entrego um a Emma e vários a Flyn. Emma rapidamente abre o seu e sorri ao ver o cachecol azul e a linda jaqueta vermelha. Adorou! Flyn nos observa com seus pacotes na mão. Decidida a assinar o tratado de paz com o menino, olho para ele com carinho.
— Vamos, querido. Abra tudo. Espero que goste.
Durante uns instantes, o menino contempla os pacotes e a caixa que deixei diante dele. Se fixa na caixa enorme embrulhada com papel vermelho. Olha para mim e para a caixa alternadamente, mas não a toca.
— Garanto que não morde — digo afinal em tom cômico.
Receoso como sempre, Flyn pega a caixa. Simona e Norbert incentivam-no a abrir logo. Por uns segundos, ele fica olhando como se não soubesse o que fazer com ela.
— Rasgue o papel. Vamos, puxe — digo. Em seguida começa a desembrulhar o presente. Emma e eu sorrimos. Quando, por fim, tira o papel bonito, dá com a caixa fechada.
— Vamos, abra!
Ele obedece. Quando vê o que há na embalagem, exclama:
— Nossa!
Sim, sim, sim, ele gostou!
Eu sei. Dá para perceber.
Sorrio triunfal e olho Emma. Mas a expressão dela mudou. Já não sorri. Simona e Norbert também não. Todos olham o skate verde com seriedade.
— O que foi? — pergunto.
Emma tira o skate das mãos do garoto e o mete na caixa.
— Devolva isso, Regina.
Então lembro o que Marta me disse. Problemas! Mas me recuso a tentar entender o que há de errado e respondo:
— Devolver? Por quê?
Ninguém responde. Pego de novo o skate verde da caixa e o mostro a Flyn.
— Não gosta?
O menino, pela primeira vez desde que o conheço, me olha ansioso. O presente o impressionou. Sei que ele gostou. Seus olhos me dizem, mas, claro, Flyn não quer admitir isso por causa da expressão séria de Emma. Decidida a brigar pela causa, deixo o skate de lado e peço que Flyn abra os outros presentes. Em seguida, surgem o capacete, as joelheiras e as cotoveleiras. Então pego de novo o skate e me dirijo a minha Icewoman:
— Qual o problema com o skate?
Emma, sem olhar para o que tenho nas mãos, diz:
— É perigoso. Flyn não sabe usar. Em vez de se divertir com ele, vai é se machucar.
Norbert e Simona concordam com a cabeça, mas não vou dar o braço a torcer:
— Comprei todos os acessórios para que Flyn tenha o mínimo de problema até que aprenda. Não se preocupe, Emma. Vai ver que em quatro dias ele será um craque.
— Regina — diz com voz muito tensa —, Flyn não vai andar nessa coisa.
Incrédula, respondo:
— Tenha dó, vamos, é apenas um brinquedo. Eu posso ensinar Flyn.
— Não.
— Ensinei Grace a andar. Precisa ver como ela anda.
— Já disse que não.
— Meu amor, escuta, não é difícil aprender. Basta pegar o jeito e manter o equilíbrio. Flyn é um menino esperto, tenho certeza de que aprenderá rapidamente.
Emma se levanta, pega o skate de minhas mãos e explica, alto e claro:
— Quero isto longe de Flyn, entendido?
Santo Deus, tenho vontade de matá-la, quando fica assim!
Me levanto, pego de volta o skate e resmungo:
— É o meu presente para Flyn. Não acha que deveria ser ele quem diz se quer ou não?
O menino só nos observa. Mas, finalmente, diz:
— Não quero. É perigoso.
Simona, com o olhar, pede que me cale. Que pare de insistir. Mas me recuso!
— Olha, Flyn...
— Regina — intervém Emma, pegando de novo o skate —, ele acaba de dizer que não quer. O que mais você precisa ouvir?
Irritada, arranco a droga do skate das mãos dela.
— O que ouvi é o que você queria que ele dissesse. Deixe que ele responda.
— Não quero — insiste o menino.
Me aproximo dele com o skate e me agacho.
— Flyn, se você quiser, eu posso te ensinar. Prometo que você não vai se machucar, porque não vou deixar e...
— Chega! Já disse que não e é não — grita Emma. — Simona, Norbert, levem Flyn daqui. Tenho que falar com Regina.
Quando os outros saem da sala, Emma sussurra:
— Escuta, Regi, se não quer que discutamos diante do menino ou dos empregados, fique calada. Já disse que não ao skate. Por que insiste?
— Porque é uma criança, merda! Não viu os olhos dele quando abriu o pacote? Ele adorou. Você não reparou?
— Não.
Louca para xingá-la de tudo, protesto:
— Ele não pode ficar o dia todo jogando Wii e Play ou sei lá o quê. Que tipo de criança você está educando? Não vê que Flyn vai acabar um menino retraído e medroso?
— Prefiro que seja assim a acontecer alguma coisa.
— Claro, alguma coisa vai acontecer com ele com a educação que você está dando. Não pensou que chegará o momento em que ele vai querer sair com os amigos ou com uma garota, e não saberá fazer nada, fora jogar Wii e obedecer a tia? Vocês dois, hein? Tal tia, tal sobrinho.
Emma me olha, me olha e me olha, antes de responder:
— Você morar comigo e Flyn nesta casa é a melhor coisa que me aconteceu em anos, mas não vou pôr o garoto em perigo porque você acha que ele deve ser diferente. Aceitei que você armasse essa árvore pavorosa na sala, obriguei o menino a escrever os desejos absurdos como enfeites, mas não vou ceder no que se refere à educação dele. Você é minha namorada, se ofereceu pra cuidar do meu sobrinho quando eu não estiver, mas Flyn é minha responsabilidade, não sua. Não se esqueça disso.
Essas palavras duras numa manhã tão bonita como é a do Dia de Reis me apertam o coração. Quanta babaquice! Sua casa. Seu sobrinho. Mas estou determinada a não chorar como uma imbecil. Recorro ao meu mau gênio e digo, enquanto junto todos os presentes do menino e os guardo na sacola:
— Muito bem. Farei um cheque pro seu sobrinho. Com certeza ele vai gostar mais.
Sei que minhas palavras e em especial meu tom de voz incomodam Emma, mas estou disposta a incomodá-la muito, muito mesmo.
— Disse que o quarto vazio deste andar era pra mim, não?
Emma concorda, e eu saio. Abro a porta da sala e me deparo com Simona, Norbert e Flyn. Olho a criança e, com os presentes dele ainda em minhas mãos, digo:
— Já pode voltar. O que sua tia e eu tínhamos pra falar já falamos.
Apressada, me encaminho para o quarto e deixo cair no assoalho o skate e todos os acessórios. Com a mesma determinação, volto para a sala. Simona e Norbert desapareceram. Emma e Flyn me olham. Meio sem jeito, digo ao menino, que me observa:
— Depois te dou um cheque. Agora, não espere que seja uma quantia tão alta como a da tua tia, pois, em primeiro lugar, não estou de acordo com dar tanto dinheiro a uma criança, e em segundo, eu não sou rica.
O menino não responde. O clima na sala de jantar está péssimo, e não serei eu a mudar. Por isso, pego o envelope que Emma deu e o abro. Ao ver um cheque em branco, eu o devolvo.
— Obrigada, mas não. Não preciso de dinheiro. Além do mais, me dou por bem presenteada com todas as coisas que você me comprou outro dia.
Ela não responde. Me olha. Ambos me olham, e, como um furacão arrasador, aponto a árvore, disposta a encerrar o “momento Natal”.
— Vamos, continuemos esta bela manhã. Que tal lermos os desejos em nossa árvore? Talvez algum tenha se realizado.
Sei que os estou levando ao limite. Sei que faço mal, mas não me importo. Emma e Flyn me tiraram do sério em poucos dias. De repente, o menino grita:
— Não quero ler esses desejos idiotas!
— E por que não?
— Porque não — insiste.
Emma me olha. Compreende que estou muito chateada e se desconcerta por não saber como me parar. Mas estou enlouquecida de raiva por estar aqui com esses dois babacas e tão longe da minha família.
— Vamos, quem é o primeiro a ler um desejo?
Ninguém fala nada. Então, comicamente, pego um papel.
— Muito bem, eu serei a primeira e lerei um de Flyn!
Tiro a fita verde e, quando estou desdobrando o papel, o menino se lança sobre mim e o pega. Olho surpresa para ele.
— Odeio Natal, odeio esta árvore e odeio esses desejos! — exclama. — Você chateou minha tia e por sua culpa o dia de hoje está sendo horrível.
Olho Emma em busca de ajuda, mas nada, ela nem se mexe.
Quero gritar, desencadear a terceira guerra mundial na sala, mas por fim faço a única coisa que posso: agarro a droga da árvore de Natal e a arrasto para enfiá-la no quarto onde já tinha acabado de deixar o skate.
— Tudo bem, senhorita Regina? — pergunta Simona, toda atrapalhada.
Pobre mulher!
Que péssimo momento está passando!
— Calma — continua antes que eu possa responder, e me segura as mãos. — A senhora Swan, às vezes, é meia rígida com as coisas do menino. Mas age assim pelo bem dele. Não se chateie, senhorita.
Dou um beijo no seu rosto. Coitada! Enquanto subo a escada, digo:
— Não se preocupe, Simona. Está tudo bem. Vou dar uma espairecida, ou isto vai terminar pior que a Loucura esmeralda.
Sorrimos.
Quando chego a meu quarto e fecho a porta, meu pescoço coça. Droga, a alergia! Me olho no espelho. Meu pescoço está todo empipocado. Merda!
Com vontade de dar o fora agora mesmo, seja como for, tiro o pijama. Me visto, coloco o casacão e tudo e volto à sala, onde os dois estão jogando Wii. Que legal! Com grandes passadas, me aproximo e tiro o cabo do Wii, desconectando-o. A música para. Ambos me olham.
— Vou dar uma volta. Preciso dar uma volta! — Quando Emma vai responder, digo com o dedo na cara dela: — Nem pense em me proibir. Pro seu próprio bem, nem pense nisso!
Saio da casa.
Ninguém me segue. A pobre Simona tenta me convencer a ficar, mas, sorrindo, explico que estou bem, que não se preocupe. Quando chego à grade e saio pelo pequeno portão lateral, Susto vem me fazer festinha. Caminho um pouco com ele a meu lado. Conto meus problemas, minhas frustrações, e o pobre animal me olha com seus olhos grandões como se entendesse algo.
Depois de um longo passeio, quando volto à frente da grade da casa, não tenho vontade de entrar e ligo para Marta. Ela vem em vinte minutos. Quase já não sinto mais meus pés quando entro no seu carro. Me despeço de Susto — preciso falar com alguém que me responda, ou vou ficar doida.
Quase passando mal de tão tensa que estou, bebo uma cerveja diante da cara séria de Marta. Por minhas palavras e meu jeito irritado, ela faz uma ideia do que aconteceu.
— Calma, Regina. Vai ver, quando voltar, tudo vai estar mais tranquilo.
— Sim, claro! Claro que vai estar mais tranquilo. Não vou dizer uma palavra a nenhum dos dois. Eles se merecem. Smurf Ranzinza e Smurf Bipolar. Se um é cabeça- dura, o outro é mais ainda. Mas, por Deus, como Emma pode dar um cheque de presente de Natal a uma criança de 9 anos? E como uma criança de 9 anos pode ser um velho antes do tempo?
— Eles são assim — zomba Marta.
Toca o celular dela. Marta fala com alguém e, quando desliga, me diz:
— Era mamãe. Comentou que meu primo Jurgen ligou pra ela e disse que vai ter uma corrida de motocross não muito longe daqui, caso você queira ir... Vamos lá?
— Claro!
Pouco mais de meia hora depois, em um descampado cheio de neve, estamos rodeadas de motos. Eu me sinto com toda a corda, a mil. Quero saltar, correr. Mas Marta me freia. Assisto à corrida entusiasmada. Aplaudo como louca. No final, vamos falar com Jurgen. Ele me recebe todo animado.
— Liguei pra tia Cora porque não tinha o seu telefone. Não queria ligar pra casa de Emma. Sei que ela não gosta nada de motocross. Eu a entendo.
Trocamos os números de nossos celulares. Depois olho a moto.
— Como ela se sai com os pneus cheios de pregos?
Jurgen não pensa. Me entrega o capacete.
— Faça um teste.
Marta não quer, fica preocupada que me aconteça alguma coisa. Mas insisto. Boto o capacete de Jurgen e ligo a moto.
Uau! Adrenalina.
Feliz, entro na pista gelada e dou uma volta. É uma agradável surpresa notar a aderência na neve dos pneus com pregos. Mas não abuso. Não estou com as proteções necessárias e sei que se cair vou me machucar. Quando volto, Marta respira. Devolvo o capacete pra Jurgen:
— Obrigada. Foi muito legal.
Jurgen me apresenta a vários pilotos, e todos eles me olham surpresos. Rapidamente todos dizem aquele negócio de “olé, touros e sangrias” ao saberem que sou espanhola. Como assim, que ideia os estrangeiros fazem dos espanhóis?
Depois da corrida, nos despedimos, e Marta e eu vamos beber alguma coisa. Ela escolhe o lugar. Quando nos sentamos, ainda estou emocionada pela voltinha com a moto. Sei que, se Emma ficar sabendo, vai armar o maior barraco, mas para mim tanto faz. Eu me diverti. De repente, me dou conta de como Marta olha disfarçadamente o garçom. Esse loiro já veio várias vezes nos trazer os pedidos e, sem dúvida, é muito gentil.
— Então, Marta, o que há entre você e o garçom bonitão? — pergunto, rindo.
Ela se surpreende.
— Nada. Por que, hein?
Certa de que minha intuição não me engana, me estico confortavelmente na cadeira.
— Primeiro: o garçom sabe seu nome, e você o dele. Segundo: pra mim perguntou que tipo de cerveja eu queria, e pra você trouxe sem perguntar nada. Terceiro, ponto de vital importância: notei como vocês se olham e sorriem.
Marta ri. Olha de novo para ele e me diz baixinho:
— A gente se viu umas duas vezes. Arthur é muito legal. Fomos beber e...
— Hum, já vi tudo — zombo, e Marta cai na risada.
Examino o tal de Arthur. É jovem, da minha idade, alto, bonitinho, usa óculos. Ao perceber que o olho, me sorri, mas seu olhar voa de novo para Marta, enquanto recolhe uns copos da mesa ao lado.
— Ele gosta muito de você — cochicho.
— Estou sabendo, mas não pode ser — Marta ri.
— E não pode ser por quê? — pergunto, curiosa.
Primeiro Marta toma um gole da cerveja.
— Tá na cara, né? É mais jovem que eu. Arthur tem só 25 anos. É uma criança.
— Olha, essa coisa de idade, não está com nada. Você, quantos anos tem?
— Vinte e nove.
A gargalhada que dou chama atenção de várias pessoas.
— E você desiste assim por quatro anos? Por favor, Marta, tem dó. Eu achava que você fosse mais moderna e não se preocupasse com uma besteira dessas. Desde quando o amor tem idade? Não, não me diga nada. Quero que saiba que se tua irmã fosse mais nova ou mais velha que eu e eu gostasse dela, nada ia me impedir. Absolutamente nada. Porque, como diz meu pai, a vida é pra ser vivida!
Rimos. Quando Marta vai me responder, ouvimos por trás da gente:
— Marta, que bom ver você por aqui.
Viramos e nos deparamos com dois homens e uma mulher. Eles, muito simpáticos, aliás. Marta sorri, se levanta e os abraça. Depois, olhando para mim, diz:
— Regina, estes são Anita, Reinaldo e Klaus. Eles trabalham comigo no hospital. E Anita tem uma maravilhosa e exclusiva loja de roupas. Sentam com a gente. Esquecendo dos meus problemas, me concentro em conhecer esses rapazes, que rapidamente nos fazem rir. Reinaldo é cubano e adoro suas expressões, tão latinas.
Meu celular toca. É Emma. Sem querer evitá-la, atendo e, o mais séria que posso, falo:
— Diga, Emma.
— Onde você está?
Como não sei realmente onde estou, respondo:
— Estou com Marta e uns amigos num bar.
— Que amigos? — pergunta Emma com impaciência.
— Sei lá, Emma. Um pessoal aí .
Ouço que respira fundo. Isso de não controlar onde estou e principalmente com quem estou chateia Emma, mas quero que me deixe curtir o momento.
— O que você quer?
— Volte pra casa.
— Não.
— Regina, não sei onde está nem com quem está — insiste, a voz tensa. — Estou preocupada com você. Por favor, me diga onde está e vou aí buscar você, pequena.
Silêncio — um silêncio sepulcral. Mas antes que ela me diga mais alguma coisa que me faça fraquejar, falo:
— Vou desligar. Quero curtir o belo Dia de Reis e acho que com essas pessoas aqui vou conseguir. Com certeza, espero que você também curta em companhia do teu sobrinho. Foram feitos um pro outro. Tchau.
Dito isso, desligo.
Nossa, o que acabo de fazer!
Desliguei na cara de Emma!
Isto deve tê-la irritado muito.
O celular toca mais uma vez. Emma. Corto a ligação e, quando insiste, desligo o aparelho. Não me importo que fique furiosa. Por mim, pode bater a cabeça na parede. Entro na conversa e tento esquecer de Emma.
Os amigos de Marta são divertidíssimos, e do bar vamos para um restaurante. Como sempre, tudo é muito bom. Ou, como sempre, minha fome é atroz. Na saída do restaurante, Reinaldo propõe ir a um lugar cubano, e vamos logo.
No Guantanamera, Reinaldo nos apresenta a muitos conterrâneos que vivem em Munique também. Minha nossa, a quantidade de cubanos que vivem aqui! Meia hora depois, já sou cubana com sotaque e tudo, e digo isso de ya tú sabes mi amol.
Marta e eu nos encharcamos de mojitos. Que figura, Marta! É o oposto da irmã em matéria de diversão. É mais espanhola que a tortilha de batatas, e me demonstra isso pelo seu jeito tão animado de ser. Ela é das minhas, e juntas formamos um belo time. Anita também não fica atrás. Quando tocam Quimbara, da maravilhosa Celia Cruz, Reinaldo me convida para dançar, e aceito.
Quimbara quimbara quma quimbambá.
Quimbara quimbara quma quimbambá.
Ai, si quieres gozar, quieres bailar. Azúcar!
Quimbara quimbara quma quimbambá.
Quimbara quimbara quma quimbambá.
Minha nossa, que batida maravilhosa!
Reinaldo dança superbem, e eu me deixo levar. Requebro. Levanto os braços. Passinho pra frente. Passinho pra trás. Dou piruetas. Mexo os braços e grito “azúcar”!
As horas passam, e meu humor melhora a cada instante! Viva Cuba! Pelas 11 da noite, Marta, mais pra lá do que pra cá com tudo que já bebemos, me olha e diz, me entregando seu celular:
— É Emma. Tenho mil chamadas não atendidas. Quer falar com você.
Suspiro e, diante do olhar dela, atendo.
— Diga, sua chatinha, o que você quer?
— Chatinha? Você me chamou de chatinha?
— Sim, mas, se quiser, posso te chamar de outra coisa — respondo com uma risadinha.
— Por que desligou o celular?
— Pra que você não me enchesse.
— Você bebeu? — pergunta sem entender bem do que estou falando.
Sabendo que nesse momento tenho mais mojitos que sangue no corpo, exclamo com sotaque cubano:
— Você já sabe, mi amol!
— Regina! Está bêbada?
— Nãoooooooooo! — zombo.
A fim de continuar com a gozação:
— E então, Icewoman, o que quer?
— Regina, quero que me diga onde está pra eu ir te buscar.
— Nem pensar, que já está me cortando o barato — respondo, divertida.
— Pelo amor de Deus! Você saiu de manhã e já são 11 da noite, e...
— Câmbio e desligo, sua metida.
Passo o celular para Marta, que, depois de ouvir alguma coisa que a irmã diz, desliga. Me afastando do grupo, cochicha:
— Olha, minha irmã me deu duas opções. A primeira: que te leve de volta pra casa. A segunda: se a irritar mais, quando voltarmos, o mundo virá abaixo.
Acho graça e respondo, só querendo continuar me divertindo:
— Então que o mundo venha abaixo, mi amol!
Marta dá uma risadinha. Sem mais, nós vamos dançar Bemba Colorá, enquanto gritamos:
— “Azúcar”!
Voltamos de madrugada, um tantinho bem bêbadas. Quando Marta para diante da grade preta, pergunto baixinho:
— Quer entrar? Com certeza a Smurf Ranzinza tem alguma coisa a dizer.
— Nem pensar — ri Marta. — Vou fazer as malas agora mesmo e fugir do país. Se Emma me pega, vai me escalpelar.
— Que eu não saiba, senão a mato! — exclamo rindo.
Mal desço do carro, a grade preta se abre e surge Emma com uma cara daquelas horrorosas. Em grandes passadas, se dirige ao carro e, debruçando-se na janela para ver sua irmã, sussurra:
— Já venho falar com você, irmãzinha.
Marta concorda e, sem mais, arranca e vai embora. Nós ficamos no meio da rua, sozinhas, cara a cara. Emma me agarra pelo braço, me apressando.
— Vamos pra casa.
De repente, um grunhido corta o silêncio da rua, e antes que aconteça algo que possamos lamentar, me solto de Emma e digo com tranquilidade:
— Calma, Susto. Está tudo bem.
O animal se aproxima de mim e anda à minha volta. Emma pergunta:
— Conhece esse vira-lata?
— Sim, é Susto.
— Susto? Você o chama de Susto?
— Pois é. Ele não é mesmo muito simpático?
Sem acreditar no que vê, Emma fecha a cara.
— O que ele tem no pescoço?
— Fiz um cachecol pra ele. O coitado está resfriado— esclareço, animada.
O cachorro pousa sua cabeça ossuda em minha perna. Faço um carinho nele.
— Não toque nele. Vai te morder! — grita Emma, zangada.
Começo a rir. Tenho certeza de que Emma o morderia antes dele.
— Não toque nesse bicho sujo, Regina, pelo amor de Deus!
Um ruidozinho sai da garganta do animal. Achando graça, me abaixo.
— Não dê bola pro que essa aí diz, Susto. Ok? E agora vamos, vá dormir. Tá tudo bem.
O cachorro, depois de dar uma última olhada a uma Emma deslocada, se afasta e entra na casinha desmantelada. Emma, sem dizer mais nada, começa a andar, e pergunto:
— Posso levar Susto pra casa?
— Não, nem pensar.
Eu sabia. Mas insisto:
— Pobrezinho, Emma. Não vê o frio que está fazendo?
— Esse bicho não vai entrar na minha casa.
Estou por aqui com sua casa.
— Anda, mi amol. Pleaseee!
Não responde. Por fim, decido segui-la. Outra hora insisto de novo. Enquanto caminho atrás de Emma, deslizo meu olhar por sua bunda e suas pernas definidas.
Uau! Essa bunda firme e essas pernas me fazem sorrir. Sem poder me conter, zás!, lhe dou um tapa.
Emma para, me olha com uma raiva daquelas, não diz nada e continua andando. Sorrio. Não me dá medo. Não me assusta, eu estou a fim de fazer graça. Me abaixo, pego um punhado de neve e atiro bem no meio de sua bela bunda . Emma para. Xinga algo em alemão e continua andando.
Aiii, que falta de senso de humor!
Pego outro punhado de neve e, desta vez, atiro na cabeça dela. Pega bem na nuca, e caio na risada. Emma se vira, fixa seus olhos frios em mim e diz:
— Regi, está me enchendo mais do que pode imaginar.
Deus, meu Deus, que sexy! Olha como me deixa!
Continua seu caminho, e eu a sigo. Não posso afastar meus olhos dela e nem me importo com o frio todo. Sorrio ao imaginar tudo o que faria com ela nesse exato instante. Quando entramos na casa, ela vai para o escritório sem me dizer nada. Está muito chateada. Um calorzinho maravilhoso toma todo o meu corpo. Agora sim me dou conta do frio que faz lá fora. Pobre Susto. Quando tiro o casaco, decido ir para o escritório também. Desejo Emma. Mas, antes de entrar, tiro as botas ensopadas e os jeans. Estico a camiseta, que vai até metade das minhas coxas, e abro a porta. Quando entro, Emma está sentada a sua mesa diante do computador. Não me olha.
Vou até ela e então, sem me importar com sua cara fechada, sento no seu colo. Nesse momento, se dá conta de que tirei as calças. Seus olhos me dizem que não quer esse contato; mas eu quero, sim. Exigente, lhe beijo a boca. Ela não se mexe, não me devolve o beijo. Me castiga. Emma, justificando o apelido de Icewoman mais do que nunca, é um bloco de gelo; mas eu, com minha fúria espanhola, resolvi descongelá-la. Beijo-a de novo e, quando sinto que ela não corresponde, murmuro pertinho da sua boca:
— Vou te foder agora. E vou te foder porque você é minha.
Me olha, surpresa, piscando. Beijo-a de novo. Desta vez sua língua está mais receptiva, mas Emma segue sem querer colaborar. Mordo o lábio inferior dela, puxo-a e, olhando nos olhos, a solto. Depois, enfio meus dedos em seus cabelos e rebolo um pouco sobre suas pernas.
— Eu quero você, querida, e você vai realizar minhas fantasias.
— Regina, você bebeu...
Rio e concordo, no meu cubano improvisado:
— Claro que sim, tomei uns mojitos, mi amol, que estavam de muelte. Mas olha, sei muito bem o que faço, por que faço e com quem faço. Tá bom?
Não fala, só me olha. Me levanto. Estou quase fazendo o que se fazem nos filmes: jogar no chão tudo que há sobre a mesa. Mas penso melhor e desisto. Acho que isso vai chatear Emma ainda mais. Por fim, empurro o laptop para um lado e me sento na escrivaninha. Emma me observa. O gato comeu a língua dela. Eu, disposta a conseguir o que quero, pego uma das suas mãos e a passo por cima da minha calcinha. Já estou molhada e sinto que Emma engole com dificuldade.
— Quero que me chupe. Desejo que meta sua língua dentro de mim e me faça gemer, porque meu prazer é seu prazer. Nós somos donas dos nossos corpos.
Quando acabo de falar, Emma respira de forma entrecortada. Está ficando excitada, sim. Mas como quero é deixá-la bem louca, tiro minha camiseta, enquanto ordeno:
— Me acaricie. Vamos, Icewoman, você deseja tanto quanto eu. Vamos!
Minha Icewoman descongela por uns segundos. Ótimo. Para de resistir e beija meus seios, me chupa.
Ai, mi amol! Que coisa tão boa.
Seus olhos frios agora são selvagens e provocadores. Emma continua chateada, mas o desejo que sente por mim é igual ao que sinto por ela. Quando abandona meu mamilo, se reclina na cadeira. O tesão toma conta dela.
— Levante daí e se vire — murmura.
Fico de pé e, vestida apenas com a calcinha, viro de costas para ela. Ela empurra a cadeira para trás, se levanta e com suas mãos firmes em minha cintura, me puxam para ela. Gemo. Me dá uma palmada. Me belisca. Depois me dá outra palmada. Quando estou quase protestando, Emma diz no meu ouvido:
— Você tem sido uma menina muito má. No mínimo merece umas palmadas.
Sorrio. Tudo bem, se ela quer brincar, brinquemos!
Fico de frente pra ela e, sem deixar de olhar Emma bem nos olhos, meto a mão dentro das calças dela, pego em sua vagina, e enquanto estimulo seu clitóris, pergunto:
— Quer que te mostre o que faço com as meninas más? Você também foi má esta manhã, meu amor. Muito, muito má.
Isso a paralisa.
— Regina...
Com um puxão, baixo as calças e depois a calcinha. Sua excitação por mim é algo que me leva ao êxtase. Uau! Me ardo so de olha- la! Empurro Emma que cai sobre a cadeira. Volto a montar nela e peço:
— Me arranque a calcinha.
Dito e feito. Emma a puxa, rasgando-a, e minha vagina molhada descansa sobre seus esguios dedos. Não lhe dou tempo para pensar; me ergo sobre seus dedos e os meto dentro de mim. Estou tão molhada... tão excitada, que eles entram totalmente. Quando fico bem encaixada em Emma, exijo:
— Olha pra mim.
Ela obedece. Santo Deus, isso é demais!
— Assim, assim... É assim que quero você. Assim sempre estamos de acordo.
Meus quadris se contraem, e faço movimentos de sucção com minha vagina, enquanto Emma acaba de tirar as calças, que ficam largadas de qualquer maneira pelo chão. Emma geme depois de um novo movimento. Então a beijo. Dessa vez sua boca me devora e me exige que continue beijando-a. Paro de mexer. Apenas ficamos encaixadas, curtindo a excitação do momento, excitação que está no máximo. É plena. Então minha alemã se levanta comigo, seus dedos totalmente encaixados em mim, me leva até a escada das estantes e me encosta contra ela.
— Segure no meu pescoço.
Obedeço de imediato. Ela com o corpo me segura e com a mão livre se agarra a um dos degraus da escada acima de minha cabeça e mergulha brutamente seus dedos em mim. Grito. Ela também.
Uma, duas, três vezes. Tensão.
Quatro, cinco, seis. Gemidos.
Minha Icewoman me faz sua, enquanto eu a faço minha. Ambas temos prazer. Ambas gememos. Ambas nos possuímos.
Várias vezes ela me penetra, e eu a recebo, até que meu grito de prazer lhe indica que cheguei ao clímax. Ela também goza, e mete seus dedos uma última e poderosa vez.
Por uns segundos, permanecemos nessa posição, contra a escada, apertadas uma na outra, até que Emma solta o degrau e com a mão livre me pega pela cintura. Voltamos para a cadeira. Ela me beija, quando se senta, seus dedos ainda dentro de mim.
— Ainda estou braba contigo — me diz.
Sorrio.
— Ótimo!
— Ótimo?
Está surpresa. Beijo-a. Olho-a. Pisco um olho.
— Mmm! Essa brabeza vai fazer você ter uma noite interessante pela frente.