quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Peça-me o que Quiser Capítulo 35

Hoje é dia 5, véspera do Dia de Reis. A ceia será na casa da mãe de Emma.
     Durante estes dias minha alemã  tem trabalhado em casa, nem fala em ir ao escritório. Gostaria de conhecer o lugar. Mas prefiro que seja ela a propor a visita.
    Flyn continua sem me dar trégua. Tudo o que faço o incomoda, e isso faz com que eu e Emma tenhamos alguns atritos. Reconheço, porém, que é sempre ela a dar o braço a torcer para que a discussão não desande. Sabe que o menino não está se comportando direito e tenta me entender.
    Com Susto as coisas só melhoraram. Ele  já não foge quando me vê. Viramos amigos: ele entendeu que sou de confiança e deixa que o acaricie. Está com uma tosse horrível que não me agrada, e fiz um cachecol para proteger o pescoço dele. Ficou muito fofo!
    Susto é uma graça. Tem uma cara de bonzinho que me derrete, e cada vez que saio para refazer sua casinha e levar comida — sem que Emma perceba — o pobre me agradece do jeito que sabe: rabo abanando, lambidas e piruetas.
    À noite, quando chegamos à casa de Cora, Marta nos recebe com um sorriso maravilhoso.
    — Que bom, vocês chegaram!
    Emma fecha a cara. Não gosta desse tipo de festinhas que a mãe organiza, mas sabe que não deve faltar. Não por ela, mas por Flyn.
    Emma me apresenta às pessoas que estão na sala como sua namorada. Vejo orgulho em seu olhar e em como me segura, possessiva.
    Minutos depois, começa a falar com várias pessoas sobre negócios e decido procurar Marta. Mas quando vou me afastando, um cara me cumprimenta.
    — Oi. Sou Jurgen. Você é Regina, né? Sou primo de Emma. — E cochichando: — O que faz motocross.
    Minha cara se ilumina. Empolgada, começamos a conversar. Menciona vários lugares para praticar o esporte, e prometo aparecer. Me incentiva a usar a moto de Hannah. Cora comentou com ele que pratico motocross, o que o entusiasmou. Com o canto do olho vejo que Emma me observa e, pela cara, deve imaginar sobre o que estamos falando. Em dois segundos, já está do meu lado.
    — Jurgen, há quanto tempo! — diz Emma, enquanto me agarra pela cintura de novo.
    O primo sorri.
    — Não será porque você não costuma dar as caras?
    — Estive muito ocupada.
    Jurgen não volta a mencionar o lance do motocross, e quase de imediato eles mergulham numa conversa muito chata. Outra vez decido procurar Marta. Está na cozinha, fumando. Me oferece um cigarro. Não costumo fumar, mas, com ela, sempre tenho vontade e aceito.
    Assim, todas glamorosas para a festa, fumamos e conversamos.
    — Como vai com Flyn?
    — Nossa! Me declarou guerra — zombo, fazendo piada.
    Marta cochicha, aproximando-se de mim:
    — Se te serve de consolo, declarou guerra a todas nós, mulheres. Exceto, claro, Emma. A sua expetacular tia.
    — Mas por quê?
    Ela sorri.
    — Segundo o psicólogo, é por ter perdido a mãe. Flyn pensa que nós, mulheres, somos pessoas que estamos só de passagem na sua vida. Por isso tenta não demonstrar afeto. Com mamãe e comigo se comporta do mesmo jeito. A única que ele aceita e venera, é Emma. Foi assim desde de que ela pegou sua guarda. Diz o psicólogo  que ele a vê como uma heroína, que segundo ele, quando todos o rejeitaram, ela o salvou.  Por isso só respeita à ela. Nunca é carinhoso comigo ou mamã e, se pode, nos rejeita. Mas, enfim, já nos acostumas com isso. A única pessoa que ele ama acima de todas é Emma mesmo. Sente um amor especial por ela. Às vezes, para meu gosto, doentio.
    Nos calamos por uns segundos, até que já não me seguro mais:
    — Marta, gostaria de comentar uma coisa sobre isso, mas talvez te chateie. Não sou ninguém pra dar opinião num assunto desses, mas é que, se não falo, vou explodir!
    — Continue — responde, sorrindo. — Prometo que não fico chateada.
    Antes dou uma tragada no cigarro e solto a fumaça:
    — Acho que o menino é agarrado demais a Emma porque é  realmente a única que nunca o abandona. E antes que me diga qualquer coisa, já sei que você e sua mãe não o abandonaram, mas Emma talvez seja a única que briga com ele e tenta fazer com que raciocine e, nas datas importantes, como por exemplo no Natal, não vai embora. Flyn é uma criança, e as crianças só querem carinho. E se para ele, por causa do que aconteceu com a mãe, é difícil gostar de vocês, mulheres que estão presentes em sua vida, são vocês que têm que fazer todo o possível pra que ele se dê conta de que a mãe dele partiu, mas que vocês continuam aqui. Que não vão abandoná-lo.
    — Regina, te garanto que eu e mamãe fizemos de tudo.
    — Não tenho dúvida, Marta. Mas talvez devessem mudar de tática. Não sei... Se uma coisa não funciona, podiam tentar algo diferente.
    O silêncio que se forma me deixa arrepiada.
    — A morte de Hannah partiu o coração de todos nós — diz finalmente Marta.
    — Imagino.
    Deve ter sido terrível. Seus olhos se enchem de lágrimas, e pego Marta pelo braço.
    Ela sorri.
    — Ela era o motor e o centro da família. Era cheia de energia, alegre e...
    Vejo uma lágrima escorrer pelo seu rosto.
    — Marta...
    — Você a teria adorado, Regina. Tenho certeza de que vocês teriam se dado muito bem.
    — Claro que sim.
    Fumamos.
    — Nunca esquecerei a cara de Emma naquela noite. Ela não só viu Hannah morrer como também perdeu o pai e a namorada.
    — Tudo no mesmo dia? — pergunto, curiosa.
    Nunca falei muito sobre esse assunto com Emma. Não consigo. Não quero obrigá-la a lembrar.
    — Sim. A pobre, quando não conseguiu falar com o pai pra contar o que tinha acontecido, foi na casa dele e o encontrou na cama com aquela imbecil. Foi terrível. Terrível.
    Me arrepio.
    — Juro que pensei que Emma nunca ia se recuperar, Regina. Muitas coisas ruins demais em tão poucas horas. Depois do enterro de Hannah, durante duas semanas não soubemos dela. Desapareceu. Ficamos muito preocupadas. Quando voltou, sua vida era um caos. Teve que enfrentar o pai e Rebeca. Foi terrível. E pra completar, Leo, o homem que vivia com minha irmã Hannah e Flyn, claro, outro imbecil!, nos disse que não queria tomar conta dele. Assim, de um dia pro outro, não o considerava mais seu filho. O menino sofreu muito. Foi então que Emma retomou as rédeas de sua vida. Disse que ela se encarregaria de Flyn e, como você tem visto, é o que ela faz. Quanto ao Natal, sei que você tem razão, mas quem quebrou a tradição foi Emma, levando Flyn ao Caribe no primeiro ano. No ano seguinte, disse à mamãe e a mim que preferia que não fizéssemos muita festa nessa noite, e assim foram correndo os anos. Por isso, mamãe e eu fazemos nossos próprios planos.
    — Sério?
    Estou surpresa.
    Justo nesse momento, a porta da cozinha se abre e Flyn nos observa com olhar acusador. Instantes depois, se vai.
    — Merda! — protesta Marta. — Prepare-se.
    — Como assim?
    Sorri, apoiada no marco da porta de vidro.
    — Vai nos dedurar pra Emma. Estamos fumando.
    Começo a rir. Dedurar? Por favor, somos adultas.
    Mas antes que possa contar até dez, a porta se abre outra vez, e Emma, seguido pelo sobrinho, pergunta, enquanto se aproxima com um jeito intimidador:
    — Estão fumando?
    Marta não responde, mas eu faço que sim com a cabeça. Como e por que mentir? Emma olha minha mão. Fecha a cara e me tira o cigarro. Isso me irrita e digo, num tom de voz nada calmo:
    — Que seja a última vez que você faz isso.
   A frieza dos olhos de Emma me perfuram. ,
    Dá para cortar o ar com uma faca.
    Espanha versus Alemanha. Isto vai acabar mal.
    Não compreendo a irritação de Emma, mas entendo muito bem minha indignação.
    Ninguém me trata assim. Então, sem pensar duas vezes, pego na mesinha o maço de cigarros, tiro um e acendo. Insolência? É comigo mesma!
    Atônita, Emma me olha enquanto Marta e Flyn nos observam. Instantes depois, ela de novo me tira o cigarro das mãos e o joga na pia. Mas não, essa não. Não vou deixar barato. Pego outro cigarro e acendo. Emma o pega de novo.
    — Bom, querem acabar com todos os meus cigarros? — protesta Marta e pega o maço.
    — Tia, Regina fez uma coisa errada — insiste o menino.
    Sua voz como de uma criança fantasma me encolhe o coração, e ao ver que nem Marta nem Emma dizem nada, eu o olho, irritada.
    — E você, por que é dedo-duro?
    — Fumar é errado — diz.
    — Olhe, Flyn. Você é uma criança e deveria fechar essa boquinha. E...
    Emma me corta:
    — Não se meta com o menino, Regina. Ele só fez o que tinha de fazer.
    — Dedurar era o que tinha de fazer?
    — Era — responde sem hesitar. E depois, voltando-se para Marta, declara: — Acho o cúmulo que você fume e incentive Regina a fumar. Ela não fuma.
    Ah, não, essa não! Eu fumo quando me dá na telha, e incapaz de ficar calada, atraio o olhar de Emma e, muito puta da vida, deixo claro:
    — Está muito enganada, Emma. Você não sabe se fumo ou não.
    — Pois nunca vi você fumar em todo esse tempo — garante, mal-humorada.
    — Se não me viu fumar é porque não fumo muito. Mas te garanto que em certos momentos gosto de fumar um cigarrinho. Este não é o primeiro de minha vida e com certeza não será o último, queira você ou não.
    Ela me olha. Eu a olho. Ela me desafia. Eu a desafio.
    — Tia, você disse que ninguém pode fumar, e ela e Marta estavam fumando — insiste o pequeno monstrinho.
    — Para com isso, Flyn! — protesto, diante da passividade de Marta.
    Com o olhar muito sério, Swan, nada latina, explica:
    — Regina, você não vai fumar mais. Eu não permito.
    Uau, olha só o que ela acaba de dizer!
    Meu coração bate num ritmo que anuncia que isso não vai acabar bem.
   — Chega, cara, não enche! Você não é minha mãe nem eu tenho 10 anos.
   — Regina... não me irrite!
    Esse “não me irrite!” me faz sorrir. Nesse instante meu sorriso avisa, como um grande cartaz luminoso: CUIDADO! Em tom de gozação, olho Emma e respondo diante da cara de incredulidade da Marta:
    — Emma, você já me irritou.
    Então aparece a mãe de Emma, que pergunta:
    — Que está acontecendo, hein? — De repente vê o maço de cigarro nas mãos da filha e exclama: — Ai, Marta, que bom! Me dê um cigarrinho, querida. Estou louca pra fumar.
    — Mamãe! — protesta Emma.
    Mas Cora ergue a sobrancelha e, olhando a filha, diz:
    — Ora, filhinha, um pouco de nicotina vai me relaxar.
    — Mamãe! — protesta Emma de novo.
    Um sorriso me escapa, quando Cora explica:
     — A insuportável da mulher de Vichenzo, minha filha, está me tirando do sério.
    — Cora, fumar é proibido! — recrimina Flyn.
    Marta e Cora trocam um olhar. Por fim, Marta, sem vontade de continuar ali na cozinha, pega a mãe pelo braço e sugere, enquanto puxa Flyn, que não quer ir com elas:
    — Vamos beber alguma coisa. Precisamos.
    Já a sós, Emma e eu, estou disposta a encarar a batalha:
    — Nunca mais fale comigo dessa maneira na frente das pessoas.
    — Regina...
    — Nunca me proíba nada de novo.
    — Regina...
    — Regina, Regina. Que Regina que nada! — explodo, furiosa. — Fez eu me sentir uma garotinha diante da tua irmã e do dedo-duro. Quem você pensa que é pra me falar assim? Não percebe que entra no jogo do Flyn pra que a gente brigue? Pelo amor de Deus, Emma, teu sobrinho é um pequeno demônio. Se você não o deter, amanhã será uma pessoa insuportável.
    — Não passe da conta, Regina.
    — Não estou passando, Emma. Pra quem tem só 9 anos, esse menino é um velho prematuro. Eu... eu é que, no fim...
    Ela se aproxima de mim, pega meu rosto entre as mãos e diz:
    — Escute, querida, eu não quero que você fume. É só isso.
    — Tudo bem, Emma, isso eu posso entender. Mas por que não me diz isso quando estamos sozinhas em nosso quarto? Ou é preciso deixar Flyn ver que briga comigo porque ele decidiu assim? Que merda, Emma, sendo tão esperta como é, parece mentira que às vezes você seja tão trouxa.
    Viro e olho pela porta de vidro, chateada, muito chateada. Durante uns segundos estou irritada com todo mundo, até que Emma fica atrás de mim e me pega pela cintura e me abraça, pousando seu queixo no meu ombro.
    — Sinto muito.
    — Sinta por ter se comportado como uma babaca!
    Essa palavra faz Emma rir.
    — Adoro ser a tua babaca.
    Tenho vontade de rir, mas me seguro.
   — Sinto ter sido tão idiota e não ter me dado conta do que você disse. Tem razão, agi mal, me deixei levar pelo Flyn. Me perdoa?
    Essas palavras e principalmente seu jeito de me abraçar me acalmam. Me dominam. Tudo bem, sou mesmo mole demais, mas é que amo tanto Emma que sentir que precisa que a perdoe acaba com minha irritação e tudo o mais.
    — Claro que perdoo. Mas repito: não me proíba mais nada, e muito menos na frente dos outros. Entendido?
    Ela mexe o rosto em meu pescoço e então sou eu que viro e a beijo. Beijo com ardor, paixão, loucura. Emma me levanta em seus braços e me prende contra o vidro da porta, enquanto as mãos procuram a barra do meu vestido. Quero que continue. Sim, quero que continue, mas, quando vou me desintegrar de prazer, me afasto uns milímetros e murmuro pertinho de sua boca:
    — Querida, estamos na cozinha da sua mãe e ali do outro lado estão os convidados. Acho que não é hora nem lugar pra continuar a fazer o que estamos pensando.
    Emma sorri. Me solta. Ajeito a barra do meu bonito vestido de festa e, enquanto nos dirigimos para a sala de mãos dadas, cochicha, me fazendo sorrir:
    — Pra mim qualquer lugar é bom, se estou com você.
    Voltamos de madrugada para casa. Chove, troveja. E apesar da vontade incessante de transar com Emma, me contenho. Sei que o menino, aquele velhinho prematuro, dormirá com a gente. Diante disso, não posso fazer nada.
    Acordo às nove. Bem, o despertador me acorda. Botei o despertador porque sou do tipo que dorme até o meio-dia, se ninguém me chama. Como sempre, estou sozinha na cama, mas sorrio ao lembrar que é a manhã do feriado de Reis.
    Que bela manhã!
    Vestida com o pijama e um roupão, pego meus presentes, que estão guardados no armário, e desço a escada pronta para distribuí-los.
    Vivam os Reis Magos!
    Passo pela cozinha e convido Simona e Norbert para ficarem conosco. Tenho presentes para eles também. Quando entro na sala de jantar, Emma e Flyn jogam Wii. O menino, quando me vê, fecha a cara. Eu, feliz como uma criança, paro a música com o controle de Emma, olho para eles e anuncio feliz:
    — Os Reis Magos deixaram presentes pra vocês.
    Emma sorri e Flyn diz:
   — Espere que a gente acabe a partida.
    Puta que pariu!
    A falta de alegria desse menino me leva a nocaute. Puxa, igualzinho à minha Grace, que com certeza está gritando e pulando de felicidade ao ver os presentes embaixo da árvore! Mas decidida a não dar bola para ele, levanto Emma da poltrona quando Norbert e Simona entram.
    — Vamos, vamos nos sentar perto da árvore. Tenho que dar os presentes de vocês.
    Flyn protesta de novo, mas desta vez Emma o repreende. O menino se cala e vem sentar com a gente perto da árvore. Então Emma tira quatro envelopes do bolso de sua calça e dá um para cada um de nós.
    — Feliz Natal!
    Simona e Norbert agradecem e guardam os envelopes no bolso sem abrir. Eu não sei o que fazer com o meu e observo Flyn abrir o dele.
    — Dois mil euros! Obrigado, tia!
    Incrédula, alucinada, estupefata e boquiaberta, olho Emma e pergunto:
   — Está dando um cheque de dois mil euros a uma criança no Dia de Reis?
   Emma balança a cabeça concordando.
    — Esse negócio de presentes é uma besteira — diz o menino. — Eu já sei quem são os Reis Magos.
    Essa explicação não me convence e, olhando a babaca, protesto.
   — Pelo amor de Deus, Emma! Como pode fazer isso?
   — Sou prática, meu amor.
    Neste instante, Simona entrega a Flyn uma pequena caixa. O menino a abre e grita com entusiasmo ao encontrar um novo jogo do Wii. Fico animada com sua felicidade, embora seja por outro joguinho que o manterá preso à televisão. Dou a Simona e a Norbert meus presentes. São uma jaqueta de lã para ela e um par de luvas e cachecol para ele. Ambos me olham com alegria e não param de me agradecer, enquanto se desculpam por não terem nenhum presente para mim. Coitados, como ficam constrangidos!
    Continuo tirando pacotes da minha enorme sacola. Entrego um a Emma e vários a Flyn. Emma rapidamente abre o seu e sorri ao ver o cachecol azul e a linda jaqueta vermelha. Adorou! Flyn nos observa com seus pacotes na mão. Decidida a assinar o tratado de paz com o menino, olho para ele com carinho.
    — Vamos, querido. Abra tudo. Espero que goste.
    Durante uns instantes, o menino contempla os pacotes e a caixa que deixei diante dele. Se fixa na caixa enorme embrulhada com papel vermelho. Olha para mim e para a caixa alternadamente, mas não a toca.
    — Garanto que não morde — digo afinal em tom cômico.
    Receoso como sempre, Flyn pega a caixa. Simona e Norbert incentivam-no a abrir logo. Por uns segundos, ele fica olhando como se não soubesse o que fazer com ela.
    — Rasgue o papel. Vamos, puxe — digo. Em seguida começa a desembrulhar o presente. Emma e eu sorrimos. Quando, por fim, tira o papel bonito, dá com a caixa fechada.
   — Vamos, abra!
    Ele obedece. Quando vê o que há na embalagem, exclama:
    — Nossa!
   Sim, sim, sim, ele gostou!
   Eu sei. Dá para perceber.
   Sorrio triunfal e olho Emma. Mas a expressão dela mudou. Já não sorri. Simona e Norbert também não. Todos olham o skate verde com seriedade.
   — O que foi? — pergunto.
    Emma tira o skate das mãos do garoto e o mete na caixa.
   — Devolva isso, Regina.
   Então lembro o que Marta me disse. Problemas! Mas me recuso a tentar entender o que há de errado e respondo:
    — Devolver? Por quê?
   Ninguém responde. Pego de novo o skate verde da caixa e o mostro a Flyn.
   — Não gosta?
   O menino, pela primeira vez desde que o conheço, me olha ansioso. O presente o impressionou. Sei que ele gostou. Seus olhos me dizem, mas, claro, Flyn não quer admitir isso por causa da expressão séria de Emma. Decidida a brigar pela causa, deixo o skate de lado e peço que Flyn abra os outros presentes. Em seguida, surgem o capacete, as joelheiras e as cotoveleiras. Então pego de novo o skate e me dirijo a minha  Icewoman:
     — Qual o problema com o skate?
    Emma, sem olhar para o que tenho nas mãos, diz:
   — É perigoso. Flyn não sabe usar. Em vez de se divertir com ele, vai é se machucar.
   Norbert e Simona concordam com a cabeça, mas não vou dar o braço a torcer:
    — Comprei todos os acessórios para que Flyn tenha o mínimo de problema até que aprenda. Não se preocupe, Emma. Vai ver que em quatro dias ele será um craque.
   — Regina — diz com voz muito tensa —, Flyn não vai andar nessa coisa.
    Incrédula, respondo:
   — Tenha dó, vamos, é apenas um brinquedo. Eu posso ensinar Flyn.
   — Não.
   — Ensinei Grace a andar. Precisa ver como ela anda.
   — Já disse que não.
   — Meu amor, escuta, não é difícil aprender. Basta pegar o jeito e manter o equilíbrio. Flyn é um menino esperto, tenho certeza de que aprenderá rapidamente.
   Emma se levanta, pega o skate de minhas mãos e explica, alto e claro:
   — Quero isto longe de Flyn, entendido?
    Santo Deus, tenho vontade de matá-la, quando fica assim!
   Me levanto, pego de volta o skate e resmungo:
   — É o meu presente para Flyn. Não acha que deveria ser ele quem diz se quer ou não?
   O menino só nos observa. Mas, finalmente, diz:
   — Não quero. É perigoso.
   Simona, com o olhar, pede que me cale. Que pare de insistir. Mas me recuso!
   — Olha, Flyn...
   — Regina — intervém Emma, pegando de novo o skate —, ele acaba de dizer que não quer. O que mais você precisa ouvir?
    Irritada, arranco a droga do skate das mãos dela.
   — O que ouvi é o que você queria que ele dissesse. Deixe que ele responda.
   — Não quero — insiste o menino.
   Me aproximo dele com o skate e me agacho.
   — Flyn, se você quiser, eu posso te ensinar. Prometo que você não vai se machucar, porque não vou deixar e...
   — Chega! Já disse que não e é não — grita Emma. — Simona, Norbert, levem Flyn daqui. Tenho que falar com Regina.
    Quando os outros saem da sala, Emma sussurra:
    — Escuta, Regi, se não quer que discutamos diante do menino ou dos empregados, fique calada. Já disse que não ao skate. Por que insiste?
    — Porque é uma criança, merda! Não viu os olhos dele quando abriu o pacote? Ele adorou. Você não reparou?
   — Não.
   Louca para xingá-la de tudo, protesto:
   — Ele não pode ficar o dia todo jogando Wii e Play ou sei lá o quê. Que tipo de criança você está educando? Não vê que Flyn vai acabar um menino retraído e medroso?
   — Prefiro que seja assim a acontecer alguma coisa.
   — Claro, alguma coisa vai acontecer com ele com a educação que você está dando. Não pensou que chegará o momento em que ele vai querer sair com os amigos ou com uma garota, e não saberá fazer nada, fora jogar Wii e obedecer a tia? Vocês dois, hein? Tal tia, tal sobrinho.
    Emma me olha, me olha e me olha, antes de responder:
   — Você morar comigo e Flyn nesta casa é a melhor coisa que me aconteceu em anos, mas não vou pôr o garoto em perigo porque você acha que ele deve ser diferente. Aceitei que você armasse essa árvore pavorosa na sala, obriguei o menino a escrever os desejos absurdos como enfeites, mas não vou ceder no que se refere à educação dele. Você é minha namorada, se ofereceu pra cuidar do meu sobrinho quando eu não estiver, mas Flyn é minha responsabilidade, não sua. Não se esqueça disso.
    Essas palavras duras numa manhã tão bonita como é a do Dia de Reis me apertam o coração. Quanta babaquice! Sua casa. Seu sobrinho. Mas estou determinada a não chorar como uma imbecil. Recorro ao meu mau gênio e digo, enquanto junto todos os presentes do menino e os guardo na sacola:
    — Muito bem. Farei um cheque pro seu sobrinho. Com certeza ele vai gostar mais.
    Sei que minhas palavras e em especial meu tom de voz incomodam Emma, mas estou disposta a incomodá-la muito, muito mesmo.
    — Disse que o quarto vazio deste andar era pra mim, não?
    Emma concorda, e eu saio. Abro a porta da sala e me deparo com Simona, Norbert e Flyn. Olho a criança e, com os presentes dele ainda em minhas mãos, digo:
    — Já pode voltar. O que sua tia e eu tínhamos pra falar já falamos.
    Apressada, me encaminho para o quarto e deixo cair no assoalho o skate e todos os acessórios. Com a mesma determinação, volto para a sala. Simona e Norbert desapareceram. Emma e Flyn me olham. Meio sem jeito, digo ao menino, que me observa:
    — Depois te dou um cheque. Agora, não espere que seja uma quantia tão alta como a da tua tia, pois, em primeiro lugar, não estou de acordo com dar tanto dinheiro a uma criança, e em segundo, eu não sou rica.
    O menino não responde. O clima na sala de jantar está péssimo, e não serei eu a mudar. Por isso, pego o envelope que Emma deu e o abro. Ao ver um cheque em branco, eu o devolvo.
    — Obrigada, mas não. Não preciso de dinheiro. Além do mais, me dou por bem presenteada com todas as coisas que você me comprou outro dia.
    Ela não responde. Me olha. Ambos me olham, e, como um furacão arrasador, aponto a árvore, disposta a encerrar o “momento Natal”.
    — Vamos, continuemos esta bela manhã. Que tal lermos os desejos em nossa árvore? Talvez algum tenha se realizado.
    Sei que os estou levando ao limite. Sei que faço mal, mas não me importo. Emma e Flyn me tiraram do sério em poucos dias. De repente, o menino grita:
    — Não quero ler esses desejos idiotas!
    — E por que não?
    — Porque não — insiste.
    Emma me olha. Compreende que estou muito chateada e se desconcerta por não saber como me parar. Mas estou enlouquecida de raiva por estar aqui com esses dois babacas e tão longe da minha família.
    — Vamos, quem é o primeiro a ler um desejo?
    Ninguém fala nada. Então, comicamente, pego um papel.
    — Muito bem, eu serei a primeira e lerei um de Flyn!
    Tiro a fita verde e, quando estou desdobrando o papel, o menino se lança sobre mim e o pega. Olho surpresa para ele.
    — Odeio Natal, odeio esta árvore e odeio esses desejos! — exclama. — Você chateou minha  tia e por sua culpa o dia de hoje está sendo horrível.
    Olho Emma em busca de ajuda, mas nada, ela nem se mexe.
    Quero gritar, desencadear a terceira guerra mundial na sala, mas por fim faço a única coisa que posso: agarro a droga da árvore de Natal e a arrasto para enfiá-la no quarto onde já tinha acabado de deixar o skate.
    — Tudo bem, senhorita Regina? — pergunta Simona, toda atrapalhada.
    Pobre mulher!
   Que péssimo momento está passando!
   — Calma — continua antes que eu possa responder, e me segura as mãos. — A senhora Swan, às vezes, é meia rígida com as coisas do menino. Mas age assim pelo bem dele. Não se chateie, senhorita.
    Dou um beijo no seu rosto. Coitada! Enquanto subo a escada, digo:
    — Não se preocupe, Simona. Está tudo bem. Vou dar uma espairecida, ou isto vai terminar pior que a Loucura esmeralda.
    Sorrimos.
   Quando chego a meu quarto e fecho a porta, meu pescoço coça. Droga, a alergia! Me olho no espelho. Meu pescoço está todo empipocado. Merda!
     Com vontade de dar o fora agora mesmo, seja como for, tiro o pijama. Me visto, coloco o casacão e tudo e volto à sala, onde os dois estão jogando Wii. Que legal! Com grandes passadas, me aproximo e tiro o cabo do Wii, desconectando-o. A música para. Ambos me olham.
    — Vou dar uma volta. Preciso dar uma volta! — Quando Emma vai responder, digo com o dedo na cara dela: — Nem pense em me proibir. Pro seu próprio bem, nem pense nisso!
    Saio da casa.
    Ninguém me segue. A pobre Simona tenta me convencer a ficar, mas, sorrindo, explico que estou bem, que não se preocupe. Quando chego à grade e saio pelo pequeno portão lateral, Susto vem me fazer festinha. Caminho um pouco com ele a meu lado. Conto meus problemas, minhas frustrações, e o pobre animal me olha com seus olhos grandões como se entendesse algo.
    Depois de um longo passeio, quando volto à frente da grade da casa, não tenho vontade de entrar e ligo para Marta. Ela vem em vinte minutos. Quase já não sinto mais meus pés quando entro no seu carro. Me despeço de Susto — preciso falar com alguém que me responda, ou vou ficar doida.
    Quase passando mal de tão tensa que estou, bebo uma cerveja diante da cara séria de Marta. Por minhas palavras e meu jeito irritado, ela faz uma ideia do que aconteceu.
    — Calma, Regina. Vai ver, quando voltar, tudo vai estar mais tranquilo.
    — Sim, claro! Claro que vai estar mais tranquilo. Não vou dizer uma palavra a nenhum dos dois. Eles se merecem. Smurf Ranzinza e Smurf Bipolar. Se um é cabeça- dura, o outro é mais ainda. Mas, por Deus, como Emma pode dar um cheque de presente de Natal a uma criança de 9 anos? E como uma criança de 9 anos pode ser um velho antes do tempo?
    — Eles são assim — zomba Marta.
    Toca o celular dela. Marta fala com alguém e, quando desliga, me diz:
    — Era mamãe. Comentou que meu primo Jurgen ligou pra ela e disse que vai ter uma corrida de motocross não muito longe daqui, caso você queira ir... Vamos lá?
    — Claro!
    Pouco mais de meia hora depois, em um descampado cheio de neve, estamos rodeadas de motos. Eu me sinto com toda a corda, a mil. Quero saltar, correr. Mas Marta me freia. Assisto à corrida entusiasmada. Aplaudo como louca. No final, vamos falar com Jurgen. Ele me recebe todo animado.
    — Liguei pra tia Cora porque não tinha o seu telefone. Não queria ligar pra casa de Emma. Sei que ela não gosta nada de motocross. Eu a entendo.
    Trocamos os números de nossos celulares. Depois olho a moto.
    — Como ela se sai com os pneus cheios de pregos?
    Jurgen não pensa. Me entrega o capacete.
    — Faça um teste.
    Marta não quer, fica preocupada que me aconteça alguma coisa. Mas insisto. Boto o capacete de Jurgen e ligo a moto.
    Uau! Adrenalina.
    Feliz, entro na pista gelada e dou uma volta. É uma agradável surpresa notar a aderência na neve dos pneus com pregos. Mas não abuso. Não estou com as proteções necessárias e sei que se cair vou me machucar. Quando volto, Marta respira. Devolvo o capacete pra Jurgen:
    — Obrigada. Foi muito legal.
    Jurgen me apresenta a vários pilotos, e todos eles me olham surpresos. Rapidamente todos dizem aquele negócio de “olé, touros e sangrias” ao saberem que sou espanhola. Como assim, que ideia os estrangeiros fazem dos es​panhóis?
    Depois da corrida, nos despedimos, e Marta e eu vamos beber alguma coisa. Ela escolhe o lugar. Quando nos sentamos, ainda estou emocionada pela voltinha com a moto. Sei que, se Emma ficar sabendo, vai armar o maior barraco, mas para mim tanto faz. Eu me diverti. De repente, me dou conta de como Marta olha disfarçadamente o garçom. Esse loiro já veio várias vezes nos trazer os pedidos e, sem dúvida, é muito gentil.
    — Então, Marta, o que há entre você e o garçom bonitão? — pergunto, rindo.
    Ela se surpreende.
    — Nada. Por que, hein?
    Certa de que minha intuição não me engana, me estico confortavelmente na cadeira.
    — Primeiro: o garçom sabe seu nome, e você o dele. Segundo: pra mim perguntou que tipo de cerveja eu queria, e pra você trouxe sem perguntar nada. Terceiro, ponto de vital importância: notei como vocês se olham e sorriem.
    Marta ri. Olha de novo para ele e me diz baixinho:
    — A gente se viu umas duas vezes. Arthur é muito legal. Fomos beber e...
    — Hum, já vi tudo — zombo, e Marta cai na risada.
    Examino o tal de Arthur. É jovem, da minha idade, alto, bonitinho, usa óculos. Ao perceber que o olho, me sorri, mas seu olhar voa de novo para Marta, enquanto recolhe uns copos da mesa ao lado.
    — Ele gosta muito de você — cochicho.
    — Estou sabendo, mas não pode ser — Marta ri.
    — E não pode ser por quê? — pergunto, curiosa.
    Primeiro Marta toma um gole da cerveja.
    — Tá na cara, né? É mais jovem que eu. Arthur tem só 25 anos. É uma criança.
   — Olha, essa coisa de idade, não está com nada. Você, quantos anos tem?
    — Vinte e nove.
    A gargalhada que dou chama atenção de várias pessoas.
    — E você desiste assim por quatro anos? Por favor, Marta, tem dó. Eu achava que você fosse mais moderna e não se preocupasse com uma besteira dessas. Desde quando o amor tem idade? Não, não me diga nada. Quero que saiba que se tua irmã fosse mais nova ou mais velha que eu e eu gostasse dela, nada ia me impedir. Absolutamente nada. Porque, como diz meu pai, a vida é pra ser vivida!
     Rimos. Quando Marta vai me responder, ouvimos por trás da gente:
    — Marta, que bom ver você por aqui.
    Viramos e nos deparamos com dois homens e uma mulher. Eles, muito simpáticos, aliás. Marta sorri, se levanta e os abraça. Depois, olhando para mim, diz:
    — Regina, estes são Anita, Reinaldo e Klaus. Eles trabalham comigo no hospital. E Anita tem uma maravilhosa e exclusiva loja de roupas. Sentam com a gente. Esquecendo dos meus problemas, me concentro em conhecer esses rapazes, que rapidamente nos fazem rir. Reinaldo é cubano e adoro suas expressões, tão latinas.
    Meu celular toca. É Emma. Sem querer evitá-la, atendo e, o mais séria que posso, falo:
     — Diga, Emma.
    — Onde você está?
    Como não sei realmente onde estou, respondo:
    — Estou com Marta e uns amigos num bar.
    — Que amigos? — pergunta Emma com impaciência.
    — Sei lá, Emma. Um pessoal aí .
    Ouço que respira fundo. Isso de não controlar onde estou e principalmente com quem estou chateia Emma, mas quero que me deixe curtir o momento.
    — O que você quer?
    — Volte pra casa.
    — Não.
    — Regina,  não sei onde está nem com quem está — insiste, a voz tensa. — Estou preocupada com você. Por favor, me diga onde está e vou aí buscar você, pequena.
    Silêncio — um silêncio sepulcral. Mas antes que ela me diga mais alguma coisa que me faça fraquejar, falo:
    — Vou desligar. Quero curtir o belo Dia de Reis e acho que com essas pessoas aqui vou conseguir. Com certeza, espero que você também curta em companhia do teu sobrinho. Foram feitos um pro outro. Tchau.
    Dito isso, desligo.
    Nossa, o que acabo de fazer!
    Desliguei na cara de Emma!
    Isto deve tê-la irritado muito.
    O celular toca mais uma vez. Emma. Corto a ligação e, quando insiste, desligo o aparelho. Não me importo que fique furiosa. Por mim, pode bater a cabeça na parede. Entro na conversa e tento esquecer de Emma.
    Os amigos de Marta são divertidíssimos, e do bar vamos para um restaurante. Como sempre, tudo é muito bom. Ou, como sempre, minha fome é atroz. Na saída do restaurante, Reinaldo propõe ir a um lugar cubano, e vamos logo.
    No Guantanamera, Reinaldo nos apresenta a muitos conterrâneos que vivem em Munique também. Minha nossa, a quantidade de cubanos que vivem aqui! Meia hora depois, já sou cubana com sotaque e tudo, e digo isso de ya tú sabes mi amol.
    Marta e eu nos encharcamos de mojitos. Que figura, Marta! É o oposto da irmã em matéria de diversão. É mais espanhola que a tortilha de batatas, e me demonstra isso pelo seu jeito tão animado de ser. Ela é das minhas, e juntas formamos um belo time. Anita também não fica atrás. Quando tocam Quimbara, da maravilhosa Celia Cruz, Reinaldo me convida para dançar, e aceito.
       

 Quimbara quimbara quma quimbambá.
 Quimbara quimbara quma quimbambá.
 Ai, si quieres gozar, quieres bailar. Azúcar!
 Quimbara quimbara quma quimbambá.
 Quimbara quimbara quma quimbambá.


    Minha nossa, que batida maravilhosa!
    Reinaldo dança superbem, e eu me deixo levar. Requebro. Levanto os braços. Passinho pra frente. Passinho pra trás. Dou piruetas. Mexo os braços e grito “azúcar”!
    As horas passam, e meu humor melhora a cada instante! Viva Cuba! Pelas 11 da noite, Marta, mais pra lá do que pra cá com tudo que já bebemos, me olha e diz, me entregando seu celular:
    — É Emma. Tenho mil chamadas não atendidas. Quer falar com você.
    Suspiro e, diante do olhar dela, atendo.
    — Diga, sua chatinha, o que você quer?
    — Chatinha? Você me chamou de chatinha?
    — Sim, mas, se quiser, posso te chamar de outra coisa — respondo com uma risadinha.
    — Por que desligou o celular?
    — Pra que você não me enchesse.
    — Você bebeu? — pergunta sem entender bem do que estou falando.
    Sabendo que nesse momento tenho mais mojitos que sangue no corpo, exclamo com sotaque cubano:
    — Você já sabe, mi amol!
    — Regina! Está bêbada?
    — Nãoooooooooo! — zombo.
    A fim de continuar com a gozação:
   — E então, Icewoman, o que quer?
   — Regina, quero que me diga onde está pra eu ir te buscar.
   — Nem pensar, que já está me cortando o barato — respondo, divertida.
    — Pelo amor de Deus! Você saiu de manhã e já são 11 da noite, e...
   — Câmbio e desligo, sua metida.
    Passo o celular para Marta, que, depois de ouvir alguma coisa que a irmã diz, desliga. Me afastando do grupo, cochicha:
    — Olha, minha irmã me deu duas opções. A primeira: que te leve de volta pra casa. A segunda: se a irritar mais, quando voltarmos, o mundo virá abaixo.
    Acho graça e respondo, só querendo continuar me divertindo:
    — Então que o mundo venha abaixo, mi amol!
    Marta dá uma risadinha. Sem mais, nós vamos dançar Bemba Colorá, enquanto gritamos:
    — “Azúcar”!
    Voltamos de madrugada, um tantinho bem bêbadas. Quando Marta para diante da grade preta, pergunto baixinho:
    — Quer entrar? Com certeza a Smurf Ranzinza tem alguma coisa a dizer.
    — Nem pensar — ri Marta. — Vou fazer as malas agora mesmo e fugir do país. Se Emma me pega, vai me escalpelar.
     — Que eu não saiba, senão a mato! — exclamo rindo.
     Mal desço do carro, a grade preta se abre e surge Emma com uma cara daquelas horrorosas. Em grandes passadas, se dirige ao carro e, debruçando-se na janela para ver sua irmã, sussurra:
    — Já venho falar com você, irmãzinha.
    Marta concorda e, sem mais, arranca e vai embora. Nós ficamos no meio da rua, sozinhas, cara a cara. Emma me agarra pelo braço, me apressando.
    — Vamos pra casa.
     De repente, um grunhido corta o silêncio da rua, e antes que aconteça algo que possamos lamentar, me solto de Emma e digo com tranquilidade:
    — Calma, Susto. Está tudo bem.
     O animal se aproxima de mim e anda à minha volta. Emma pergunta:
    — Conhece esse vira-lata?
    — Sim, é Susto.
    — Susto? Você o chama de Susto?
    — Pois é. Ele não é mesmo muito simpático?
    Sem acreditar no que vê, Emma fecha a cara.
    — O que ele tem no pescoço?
     — Fiz um cachecol pra ele. O coitado está resfriado— esclareço, animada.
    O cachorro pousa sua cabeça ossuda em minha perna. Faço um carinho nele.
    — Não toque nele. Vai te morder! — grita Emma, zangada.
    Começo a rir. Tenho certeza de que Emma o morderia antes dele.
     — Não toque nesse bicho sujo, Regina, pelo amor de Deus!
    Um ruidozinho sai da garganta do animal. Achando graça, me abaixo.
    — Não dê bola pro que essa aí diz, Susto. Ok? E agora vamos, vá dormir. Tá tudo bem.
     O cachorro, depois de dar uma última olhada a uma Emma deslocada, se afasta e entra na casinha desmantelada. Emma, sem dizer mais nada, começa a andar, e pergunto:
    — Posso levar Susto pra casa?
    — Não, nem pensar.
    Eu sabia. Mas insisto:
    — Pobrezinho, Emma. Não vê o frio que está fazendo?
    — Esse bicho não vai entrar na minha casa.
    Estou por aqui com sua casa.
    — Anda, mi amol. Pleaseee!
    Não responde. Por fim, decido segui-la. Outra hora insisto de novo. Enquanto caminho atrás de Emma, deslizo meu olhar por sua bunda e suas pernas definidas.
     Uau! Essa bunda firme e essas pernas  me fazem sorrir. Sem poder me conter, zás!, lhe dou um tapa.
     Emma para, me olha com uma raiva daquelas, não diz nada e continua andando. Sorrio. Não me dá medo. Não me assusta, eu estou a fim de fazer graça. Me abaixo, pego um punhado de neve e atiro bem no meio de sua bela bunda . Emma para. Xinga algo em alemão e continua andando.
    Aiii, que falta de senso de humor!
   Pego outro punhado de neve e, desta vez, atiro na cabeça dela. Pega bem na nuca, e caio na risada. Emma se vira, fixa seus olhos frios em mim e diz:
   — Regi, está me enchendo mais do que pode imaginar.
   Deus, meu Deus, que sexy! Olha como me deixa!
    Continua seu caminho, e eu a sigo. Não posso afastar meus olhos dela e nem me importo com o frio todo. Sorrio ao imaginar tudo o que faria com ela nesse exato instante. Quando entramos na casa, ela vai para o escritório sem me dizer nada. Está muito chateada. Um calorzinho maravilhoso toma todo o meu corpo. Agora sim me dou conta do frio que faz lá fora. Pobre Susto. Quando tiro o casaco, decido ir para o escritório também. Desejo Emma. Mas, antes de entrar, tiro as botas ensopadas e os jeans. Estico a camiseta, que vai até metade das minhas coxas, e abro a porta. Quando entro, Emma está sentada a sua mesa diante do computador. Não me olha.
    Vou até ela e então, sem me importar com sua cara fechada, sento no seu colo. Nesse momento, se dá conta de que tirei as calças. Seus olhos me dizem que não quer esse contato; mas eu quero, sim. Exigente, lhe beijo a boca. Ela não se mexe, não me devolve o beijo. Me castiga. Emma, justificando o apelido de Icewoman mais do que nunca, é um bloco de gelo; mas eu, com minha fúria espanhola, resolvi descongelá-la. Beijo-a de novo e, quando sinto que ela não corresponde, murmuro pertinho da sua boca:
    — Vou te foder agora. E vou te foder porque você é minha.
    Me olha, surpresa, piscando. Beijo-a de novo. Desta vez sua língua está mais receptiva, mas Emma segue sem querer colaborar. Mordo o lábio inferior dela, puxo-a e, olhando nos olhos, a solto. Depois, enfio meus dedos em seus cabelos e rebolo um pouco sobre suas pernas.
    — Eu quero você, querida, e você vai realizar minhas fantasias.
    — Regina, você bebeu...
    Rio e concordo, no meu cubano improvisado:
    — Claro que sim, tomei uns mojitos, mi amol, que estavam de muelte. Mas olha, sei muito bem o que faço, por que faço e com quem faço. Tá bom?
    Não fala, só me olha. Me levanto. Estou quase fazendo o que se fazem nos filmes: jogar no chão tudo que há sobre a mesa. Mas penso melhor e desisto. Acho que isso vai chatear Emma ainda mais. Por fim, empurro o laptop para um lado e me sento na escrivaninha. Emma me observa. O gato comeu a língua dela. Eu, disposta a conseguir o que quero, pego uma das suas mãos e a passo por cima da minha calcinha. Já estou molhada e sinto que Emma engole com dificuldade.
    — Quero que me chupe. Desejo que meta sua língua dentro de mim e me faça gemer, porque meu prazer é seu prazer. Nós somos donas dos nossos corpos.
     Quando acabo de falar, Emma respira de forma entrecortada. Está ficando excitada, sim. Mas como quero é deixá-la bem louca, tiro minha camiseta, enquanto ordeno:
    — Me acaricie. Vamos, Icewoman, você deseja tanto quanto eu. Vamos!
    Minha Icewoman descongela por uns segundos. Ótimo. Para de resistir e beija meus seios, me chupa.
    Ai, mi amol! Que coisa tão boa.
    Seus olhos frios agora são selvagens e provocadores. Emma continua cha​teada, mas o desejo que sente por mim é igual ao que sinto por ela. Quando abandona meu mamilo, se reclina na cadeira. O tesão toma conta dela.
    — Levante daí e se vire — murmura.
    Fico de pé e, vestida apenas com a calcinha, viro de costas para ela. Ela empurra a cadeira para trás, se levanta e com suas mãos firmes em minha cintura, me puxam para ela. Gemo. Me dá uma palmada. Me belisca. Depois me dá outra palmada. Quando estou quase protestando, Emma diz no meu ouvido:
    — Você tem sido uma menina muito má. No mínimo merece umas palmadas.
    Sorrio. Tudo bem, se ela quer brincar, brinquemos!
    Fico de frente pra ela e, sem deixar de olhar Emma bem nos olhos, meto a mão dentro das calças dela, pego em sua vagina, e enquanto estimulo seu clitóris, pergunto:
    — Quer que te mostre o que faço com as meninas más? Você também foi má esta manhã, meu amor. Muito, muito má.
    Isso a paralisa.
   — Regina...
   Com um puxão, baixo as calças e depois a calcinha. Sua excitação por mim é algo que me leva ao êxtase. Uau! Me ardo so de olha- la! Empurro Emma que cai sobre a cadeira. Volto a montar nela e peço:
    — Me arranque a calcinha.
   Dito e feito. Emma a puxa, rasgando-a, e minha vagina molhada descansa sobre seus esguios dedos. Não lhe dou tempo para pensar; me ergo sobre seus dedos e os meto dentro de mim. Estou tão molhada... tão excitada, que eles entram totalmente. Quando fico bem encaixada em Emma, exijo:
    — Olha pra mim.
    Ela obedece. Santo Deus, isso é demais!
   — Assim, assim... É assim que quero você. Assim sempre estamos de acordo.
   Meus quadris se contraem, e faço movimentos de sucção com minha vagina, enquanto Emma acaba de tirar as calças, que ficam largadas de qualquer maneira pelo chão. Emma geme depois de um novo movimento. Então a beijo. Dessa vez sua boca me devora e me exige que continue beijando-a. Paro de mexer. Apenas ficamos encaixadas, curtindo a excitação do momento, excitação que está no máximo. É plena. Então minha alemã se levanta comigo, seus dedos totalmente encaixados em mim, me leva até a escada das estantes e me encosta contra ela.
    — Segure no meu pescoço.
    Obedeço de imediato. Ela com o corpo me segura e com a mão livre se agarra a um dos degraus da escada acima de minha cabeça e mergulha brutamente seus dedos  em mim. Grito. Ela também.
    Uma, duas, três vezes. Tensão.
   Quatro, cinco, seis. Gemidos.
   Minha Icewoman me faz sua, enquanto eu a faço minha. Ambas temos prazer. Ambas gememos. Ambas nos possuímos.
    Várias vezes ela me penetra, e eu a recebo, até que meu grito de prazer lhe indica que cheguei ao clímax. Ela também goza, e  mete seus dedos  uma última e poderosa vez.
    Por uns segundos, permanecemos nessa posição, contra a escada, apertadas uma na outra, até que Emma solta o degrau e com a mão livre me pega pela cintura. Voltamos para a cadeira. Ela me beija, quando se senta, seus dedos ainda dentro de mim.
    — Ainda estou braba contigo — me diz.
    Sorrio.
    — Ótimo!
    — Ótimo?
    Está surpresa. Beijo-a. Olho-a. Pisco um olho.
   — Mmm! Essa brabeza vai fazer você ter uma noite interessante pela frente.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Peça-me o que quiser Capítulo 34

Capítulo 34


    Os dias passam — e estar com Emma é a melhor coisa que já me aconteceu. Ela me ama, me paparica e está atenta a tudo que necessito. Flyn é outra história. Rivaliza comigo em tudo, e eu tento fazer com que veja que não sou sua adversária. Se faço tortilhas de batata para ele, não gosta. Se danço e canto, me olha com desprezo. Se vejo alguma coisa na televisão, se queixa. Não me suporta de jeito nenhum e não disfarça. Isso me deixa mais preocupada a cada dia. 
    Falo com minha família em Jerez. Estão todos bem. Isso me conforta. Minha irmã conta de como está cansada com a gravidez e da trabalheira que minha sobrinha dá. Sorrio. Imagino Grace histérica à espera de que os Reis Magos a visitem. Que linda que é minha Grace!
    Uma manhã, chego à cozinha e encontro Simona assistindo à televisão. Está tão concentrada no que vê que não me ouve. Quando chego a seu lado, vejo que ela está angustiada, assustada.
    — Santo Deus, o que foi?
    A mulher seca os olhos com um guardanapo e diz, me olhando:
    — Estou vendo Loucura esmeralda, senhorita.
    Surpresa, olho a tevê e vejo que se trata de uma novela. Assistem a esses dramalhões mexicanos na Alemanha? Um sorriso me escapa, e Simona me imita.
    — Acho que a senhorita ia gostar também. Não conhecem esta novela na Espanha?
    — Não me lembro, mas não gosto dessas novelas.
    — Acredite, a mim também não, mas esta está causando furor aqui. Todo mundo vê Loucura esmeralda.
    Passada a surpresa, estou quase rindo. Então ela acrescenta:
    — É sobre a jovem Esmeralda Mendoza. Ela é uma bela moça que trabalha de empregada para os senhores Halcones de San Juan. Mas tudo se complica quando volta dos Estados Unidos o filho pródigo Carlos Alfonso Halcones de San Juan e se enrabicha por Esmeralda Mendoza. Mas ela ama em segredo Luis Alfredo Quiñones, o filho bastardo do senhor Halcones de San Juan. Santo Deus, é tudo tão difícil...
    Surpresa e achando graça, ouço com atenção o que a mulher vai me contando. Que xaropada! Minha irmã adoraria. Por fim, sem saber por quê, me sento com Simona e, de repente, estou mergulhada na história.
    Marta, a irmã de Emma, passa para me pegar no dia 2 de janeiro. Comentei com ela que preciso comprar uns presentes e ela, contente, se oferece para me acompanhar. Emma, animada por me ver sorrir, me dá um beijo na boca de despedida.
    — Divirta-se, querida.
    Faz um frio de rachar. Estamos com dois graus abaixo de zero às onze e meia da manhã. Mas me sinto feliz na companhia de Marta e sua conversa bem-humorada. Chegamos à praça central de Munique, Marienplatz, uma praça majestosa, rodeada de edifícios impressionantes. Aqui há um enorme e sensacional mercadinho de rua onde faço várias compras.
    — Tá vendo aquela sacada?
    — Estou.
    — É da prefeitura. Ali, todas as tardes, tocam música ao vivo.
    De repente, uma banca multicolorida com infinidade de árvores de Natal chama minha atenção. Há árvores vermelhas, azuis, brancas, verdes e de diferentes tamanhos. Em sua maioria estão decoradas com fotografias, bilhetes com desejos, tubinhos ou CD de plástico. Adoro! Olho Marta e pergunto:
    — O que acha que t
ua irmã vai pensar se boto uma árvore dessas na sala dela?
    Ela ri e acende um cigarro.
    — Vai ficar horrorizad
a.
    — Por quê?
    Aceito um cigarro enquanto Marta olha as árvores artificiais coloridas.
    — Porque estas árvores são modernas demais pra ela. Na verdade, nunca vi Emma botar uma árvore de Natal na casa dela.
    — Sério? — Estou perplexa e, ao mesmo tempo, convencida do que quero fazer. — Sinto por el
a, mas eu não posso viver sem ter minha árvore de Natal. Portanto, se horrorize ou não, terá que aguentar.
    Marta dá uma gargalhada. E eu me decido por uma árvore vermelha de 2 metros. Um escândalo! Compro também uma infinidade de fitas coloridas com sininhos pendurados. Quero decorar a casa como se deve. Afinal, para os espanhóis até o dia de reis ainda é Natal. Pago, e prometemos voltar no fim do dia para pegá-la.
    Durante mais de uma hora, compramos presentinhos e, quando estamos com os narizes vermelhos de frio, Marta me propõe ir beber alguma coisa. Aceito. Estou morta de frio, fome e sede. Deixo que ela me guie pelas bonitas ruas de Munique.
    — Vou te levar a um lugar muito especial. Outro dia que a gente sair iremos comer no restaurante da Torre Olímpica. É giratório. Você vai conhecer as vistas maravilhosas de Munique.
    Concordo, congelada, e observo que ali todos os táxis são de cor creme e a maioria Mercedes-Benz. É um luxo só, hein?! Poucos minutos depois, quando entramos num lugar enorme, Marta diz:
    —
Regina querida, como boa muniquense que sou, tenho o orgulho de dizer que você está na Hofbräuhaus, a cervejaria mais antiga do mundo. Olho ao redor, entusiasmada. O lugar é maravilhoso. Com tradição. Observo os tetos abobadados recobertos de pinturas curiosas e os bancos longos e grandes de madeira onde as pessoas se divertem bebendo e comendo.
    — Venha,
Regi. Vamos tomar alguma coisa — insiste Marta, me pegando pelo braço.
    Dez minutos depois, estamos sentadas num dos bancos de madeira junto com outras pessoas. Durante uma hora falamos e falamos enquanto curto uma cerveja Spatenbräu sensacional.
    A fome aperta. Decidimos comer antes de prosseguir com nossas compras. Deixo que Marta escolha, e ela pede leberkäs — um embutido quente —, almôndega de carne picada com bacon e uma rosquinha crocante salgada em forma de oito que pode ser mergulhada no molho. Tudo delicioso!
    — E aí, o que acha de Munique?
    Como um pedaço da rosquinha e respondo:
    — Pelo que vi até agora, majestosa. Acho que é uma cidade grandiosa.
    Marta sorri.
    — Sabia que nós, de Munique, somos conhecidos como os mediterrâneos da Europa?
    — Não.
    Rimos.
    — Veio pra ficar com E
mma?
    Nossa, sem enrolação, direto ao ponto, como gosto. Disposta a ser sincera, digo:
    — Sim. Somos como o fogo e o gelo, mas nos amamos e desejamos tentar.
    Marta aplaude, feliz. As pessoas ao nosso lado olham com estranheza. Mas sem se importar com os olhares, ela cochicha:
    — Ai, que bom, Regi! Espero que minha irmãozinha aprenda que a vida é algo mais que trabalho e seriedade. Acho que você vai abrir os olhos dela em muitos sentidos, mas sinto dizer que isso vai te trazer mais de um problema. Eu conheço Emma muito bem.
   — Problema?
    — Ahã!
    — Pois eu não quero problemas. — Ao dizer isso, lembro da canção de David de María e inevitavelmente sorrio. — Por que acha que vou ter problemas com E
mma?
    Marta passa o guardanapo nos lábios e responde.
    — E
mma nunca viveu com ninguém, exceto nestes últimos anos com Flyn. Ela se tornou independente muito cedo, e se há uma coisa que não suporta é que se metam em sua vida e em suas decisões. Ah, eu adoraria ver a cara dela quando você chegar com a árvore vermelha de Natal e as fitas coloridas que comprou. — Rimos. — Conheço essa cabeça-dura muito bem e tenho certeza de que você vai discutir com ela. Aliás, quanto à educação de Flyn, é péssima. Ermma superprotege o garoto. Só falta colocar numa caixa de vidro.
    Rio.
    — Não ria. Você mesma vai comprovar. E olha bem o que estou te dizendo: minha irmã não aprovará o presente que você comprou pro Flyn.
    Vejo a sacola que Marta está apontando e, surpresa, pergunto:
    — Como? Não aprovará o skate?
    — Não.
    — Por quê? — pergunto, pensando em como me divirto com minha sobrinha e seu skate.
    — Emma só verá os perigos. Você vai ver.
    — Mas comprei capacete, joelheiras e cotoveleiras! Se cair, não vai se machucar.
    — Tanto faz,
Regina. Emma só verá perigo nesse presente e o proibirá.
    Meia hora depois, saímos da cervejaria e nos dirigimos à rua Maximilianstrasse, considerada o trecho de ouro de Munique. Entramos na loja da D & G, e Marta vai direto ver uns jeans. Enquanto ela está no provador, compro rapidamente uma camiseta que vi que tinha gostado. Visitamos uma infinidade de lojas exclusivas, cada uma mais cara que a outra, e, quando entramos na Victoria Secrets, decido comprar uma camisola  de ceda branca  para Emma. Ela vai ficar linda.
    Acabadas as compras, voltamos à praça da prefeitura para pegar minha bela árvore de Natal. Marta ri. Eu também, embora já comece a ter dúvidas se fiz bem em comprar.
    Um temporal toma o céu de Munique, e decidimos pôr um fim ao dia de compras. Quando, às seis da tarde, Marta me deixa em casa, Emma não está. Simona me diz que ela foi para o escritório, mas que não demora a chegar. Rapidamente subo as compras para o quarto e as escondo no fundo do armário. Não quero que Emma veja. Mas antes de mudar de roupa, olho pela janela. Chove forte. Me lembro de ter visto o cachorro abandonado perto das latas de lixo.
    Sem pensar duas vezes, vou ao quarto de hóspedes e pego um cobertor. Depois comprarei outro. Desço à cozinha, pego um pouco de refogado de carne na geladeira, ponho num recipiente plástico e esquento no microondas. Depois, toda feliz, saio de casa e ando entre as árvores até o portão, que abro. Me aproximo das latas de lixo.
    — Susto... — Eu batizei o cachorro com esse nome. — Susto, onde você está?
    A cabeça fina de um galgo caramelo e branco aparece atrás das latas. Treme. Está assustado e, pelo jeito, com fome e muito, muito frio. O animal, receoso, não se aproxima, e deixo a comida no chão enquanto o chamo para comer.
    — Vem, Susto, coma. Está delicioso.
    Mas o cachorro se esconde e, antes que eu o possa tocar, foge apavorado. Isso me entristece. Pobrezinho. Que medo tem dos humanos. Mas sei que ele vai voltar. Já são muitas as vezes que o vi perto das latas de lixo, e, disposta a fazer algo por ele, com umas madeiras e umas caixas, levanto uma espécie de casinha num lado. No centro da caixa, meto o cobertor que trouxe e a comida. Depois vou embora. Espero que o cachorro volte logo e coma.
     Em casa, subo de novo para meu quarto, troco de roupa e vou para a sala com a caixa da árvore de Natal. Flyn está jogando PlayStation. Me sento a seu lado e deixo a enorme e colorida caixa diante de minhas pernas. Com certeza isso chamará a atenção dele.
    Durante mais de vinte minutos eu o observo jogar sem dizer uma só palavra, enquanto a desgraçada da música estrondosa do videogame me arrebenta os tímpanos. Por fim, fraquejo e pergunto aos gritos:
    — Que tal me ajudar a armar a árvore de Natal?
    Flyn finalmente me olha. Para a música. Oh, que paz! Depois observa a caixa.
    — A árvore está aí? — pergunta, surpreso.
   — Sim. É desmontável. Que tal? — abro a caixa, puxando um pedaço.
   Faz uma cara sem expressão.
    — Não gosto — afirma rapidamente.
    Sorrio ou lhe dou uns cascudos? Decido sorrir.
    — Pensei em criar nossa própria árvore de Natal. E pra sermos originais e ter uma coisa que ninguém tem, podemos decorar com desejos que leremos quando desmontarmos a árvore. Cada um de nós escreverá cinco desejos. Que acha?
    Flyn pestaneja. Consegui atrair sua atenção e, mostrando a ele um caderno, duas esferográficas e uma fita colorida, acrescento:
    — Montamos a árvore e depois escreveremos os desejos em pedaços pequenos de papel. Aí os enrolamos e os atamos com as fitas coloridas. Não é uma boa ideia?
    O pequeno olha o caderno. Depois me encara com seus olhões escuros.
    — É uma ideia horrível. Além do mais, as árvores de Natal são verdes, não vermelhas.
    Me contraio toda. Que falta de imaginação! Se esse baixinho diz isso, o que dirá sua tia? Ele volta ao jogo, a música nas alturas de novo. Mas disposta a montar a árvore e me divertir com isso, me levanto e, com segurança, grito para que me ouça:
    — Vou botá-la aqui, perto da janela — digo, enquanto observo que continua chovendo. Espero que Susto tenha voltado e esteja comendo na sua casinha. — O que acha?
    Flyn não responde. Nem me olha. Assim, decido pôr mãos à obra.
    Mas a música estridente me mata e opto por contorná-la da melhor forma possível. Ligo o iPod que carrego no bolso de meus jeans, ponho os fones e, segundos depois, cantarolo:
                            
Euphoria
An everlasting piece of art
A beating love within my heart.
We’re going up-up-up-up-up-up-up



    Animada com minha musiquinha, me sento no assoalho, tiro a árvore da caixa, esparramo-a ao meu redor e olho as instruções. Sou a rainha da bricolagem, daí que em dez minutos a árvore já está montada. Ficou muito bacana. Vermelha, vermelha brilhante. Olho Flyn. Continua jogando diante da televisão.
    Pego a caneta e o caderno e começo a escrever pequenos desejos. Quando tenho uma porção, arranco as folhas e as corto com cuidado. Faço desenhozinhos natalinos ao redor do texto. Preciso me entreter com alguma coisa. Quando estou satisfeita, enrolo meus desejos e os ato com a fita colorida. Fico nessa por mais de uma hora, até que de repente vejo uns pés ao meu lado, levanto a cabeça e me deparo com a cara fechada de minha Icewoman.
    Caraca! Que coisa!
    Me levanto rapidamente e tiro os fones.
    — O que é isso? — diz, enquanto aponta a árvore vermelha.
    Vou responder quando o baixinho de olhos puxados se aproxima da tia e, com a mesma expressão séria dela, responde:
    — Segundo ela, uma árvore de Natal. Segundo eu, uma porcaria.
    — Que você ache uma porcaria minha linda árvore não significa que sua tia tenha que achar também — respondo ríspida. Depois olho Emma e continuo: — Tudo bem, talvez não combine com tua sala, mas eu vi esta árvore e não pude resistir. Não é bonita?
    — Por que não ligou pra me consultar? — diz minha alemã favorita.
    — Pra consultar você?
    Estou surpresa.
    — Sim. Sobre a compra da árvore.
    Tô chocada! Mando Emma à merda ou só a insulto? Por fim, decido respirar antes de dizer o que penso, mas, chateada, digo:
    — Nunca pensei que tivesse que pedir permissão pra comprar uma árvore de Natal.
    Emma me olha, me olha e então se dá conta de que estou ficando puta da vida. Para tentar me acalmar, pega a minha mão.
    — Olha, Regi, o Natal não é minha época preferida do ano. Não gosto das árvores nem dos enfeites que nestas datas todo mundo coloca em casa. Mas se você queria tanto uma árvore, eu podia ter encomendado um belo pinheiro.
     Nós três olhamos de novo minha árvore vermelha e, antes que Emma diga qualquer coisa, respondo:
    — Sinto que não goste da época natalina, mas eu adoro. E com certeza não gosto que se corte um pinheiro pelo simples fato de que seja Natal. São seres vivos, que levam muitos anos pra crescer, pra morrer só porque a gente gosta de decorar nossa sala com um pinheiro no Natal. — Tia e sobrinho me olham. — Sei que algumas dessas árvores são replantadas. Tudo bem, mas a maioria delas acaba seca, na lata do lixo. Eu tô fora. Prefiro uma árvore artificial, que uso e que, quando não preciso, guardo para o ano seguinte. Pelo menos sei que enquanto está guardada não morre nem seca.
    Os lábios de Emma se arqueiam. Acha graça de minha defesa dos pinheiros. Aproveito o momento e pergunto:
    — Não acha mesmo linda e original esta árvore?
    Com sua habitual sinceridade, levanta as sobrancelhas e diz:
   — Não.
    — É horrível — resmunga Flyn.
    Não me rendo. Evito responder ao menino e, toda carinhosa, olho minha menina grande.
    — Nem gosta se eu disser que é nossa árvore dos desejos?
    — Árvore dos desejos? — pergunta Emma.
    Faço um gesto afirmativo, e Flyn responde, enquanto toca um dos desejos que eu já pendurei na árvore:
    — Ela quer que a gente escreva cinco desejos pra pendurar aí. Depois, no fim das festas, que a gente leia pra que aconteçam. Mas eu não quero fazer isso. Isso é coisa de gente fresca.
    — Seria novidade se você quisesse — falo demasiado alto.
    Emma me repreende o comentário com um olhar. O menino, disposto a chamar a atenção, grita:
    — Além do mais, as árvores de Natal são verdes e são decoradas com bolas. Não são vermelhas nem são enfeitadas com desejos bobos.
    — Pois eu gosto dela vermelha e enfeitada com desejos, veja só.
    Emma e Flyn se olham. Em seus olhos vejo que se comunicam. Desgraçados! Mas, consciente de que quero minha árvore vermelha e do quanto vou ter de lutar com estes dois resmungões, tento ser positiva:
    — Olha, gente, é Natal, e um Natal sem árvore não é um Natal!
    Emma me olha. Eu a olho e faço um biquinho. Por fim, ela sorri.
    Ponto pra Espanha!
    Flyn, emburrado, vai se afastar quando Emma o pega pelo braço e diz, apontando o caderno:
    — Escreva cinco desejos, como Regi pediu.
    — Não quero.
   — Flyn...
    — Droga, tia! Não quero.
    Emma se agacha. Fica cara a cara com a criança.
    — Por favor, eu gostaria muito que fizesse isso. Este Natal é especial pra todos nós e seria um bom começo com Regi aqui em casa, né?
    — Detesto que ela tenha de cuidar de mim e me mandar fazer coisas.
    — Flyn... — insiste Emma com dureza.
    A batalha de olhares entre eles é velada. Por fim minha Icewoman vence. O menino, furioso, pega o caderno, rasga uma folha e agarra uma das canetas. Quando está para sair, digo:
    — Flyn, pegue a fita verde pra amarrar na árvore.
    Sem me olhar, pega a fita e vai até a mesinha em frente à tevê, onde começa a escrever. Com discrição me aproximo de Emma e, ficando na ponta dos pés, cochicho:
    — Obrigada.
   Minha alemã me olha. Sorri e me beija.
   Ponto pra Alemanha!
   Por um momento falamos sobre a árvore e tenho que rir com seus comentários. Emma é tão clássica para certas coisas que é impossível não rir. Um tempo depois, Flyn volta, pendura na árvore os desejos que escreveu e, sem nos olhar, vai para a poltrona. Pega o comando do Play, e a música barulhenta começa a soar. Emma, que não tira os olhos de mim, pega o caderno no assoalho e a caneta e pergunta em meu ouvido:
    — Posso anotar qualquer desejo?
    Sei onde quer chegar. Sei o que quer dizer. Melosa, murmuro mais pertinho dela:
   — Sim, senhora Swan, mas lembre que no fim da festa leremos os desejos todos juntos. Emma me observa por uns instantes, e eu só penso em sexo... sexo... sexo. Deus meu! Olhar para Emma me excita tanto que estou me transformando numa escrava do sexo! Por fim, a gata da minha namorada concorda com um gesto, se afasta uns metros e sorri.
    Uau! Como me deixa, quando me olha assim. Adoro essa mistura de desejo, intimidação e mau-humor. Sou pra lá de masoquista!
    Fico olhando Emma escrever apoiada na mesinha da sala de jantar. Gostaria de saber seus desejos, mas não me aproximo. Devo esperar até o dia marcado para ler.
    Quando Emma acaba, dobra o papel e pega a fita prateada que lhe estendo. Depois de pendurá-lo na árvore, me olha com malícia e vem pôr alguma coisa no bolso da frente de meu moletom. Me beija na ponta do nariz, dizendo:
    — Não vejo a hora de realizar este desejo.
    Sorrio, feliz, excitada. Deus meu, que tesão! Ficando na ponta dos pés, dou um beijo na boca de Emma enquanto meu coração vai a trocentos por hora. Depois de uma palmadinha cúmplice no meu traseiro, que me faz perceber o quanto ela me deseja, ela se senta com seu sobrinho. Eu aproveito, tiro a pequena caixa que pôs em meu bolso junto com um papel e leio:
    — Meu desejo é ter você nua esta noite em minha cama pra usar este brinquedo.
    Sorrio. SEXO!
    Curiosa, abro a caixinha e observo algo metálico com uma pedra verde. Que incrível! Para que será? Minha cara é de espanto quando leio no papel: “Joia anal Rosebud”.
    Puxa, não sabia que havia joias para o cu!
    Desato a rir.
    Alegre, vou até a janela, o rosto afogueado, e continuo lendo: “Joia anal de aço cirúrgico com cristal de Swarovski. Ideal para enfeitar o ânus e estimular a região anal.”
    Que diferente!
    Excitada, percebo que Emma me olha com expressão sacana. Comicamente, levanto o polegar em sinal de que gostei, e ambas rimos. Esta noite vai ser o máximo!
    Depois do jantar, proponho uma partida de Monopoly da Wii. Lance a lance vamos nos entusiasmando. Por fim, deixamos que Flyn ganhe e ele vai dormir todo prosa. Quando ficamos sozinhas na sala, Emma me olha. Seu olhar diz tudo: impaciência. Beijo-a e murmuro em seu ouvido:
    — Quero você em cinco minutos no quarto.
    — Chegarei em dois — responde autoritária.
    — Melhor!
    Dito isto, saio da sala. Corro escada acima, entro em nosso quarto, tiro o edredom, me dispo, deixo a joia anal ao lado do lubrificante sobre o travesseiro e me atiro na cama para esperá-la. Não há tempo para mais nada.
    A porta se abre, e meu coração bate com força. Excitação. Emma entra, fecha a porta, e seus olhos já estão sobre mim. Caminha até a cama, e a observo tirar a blusa cinza.
    — Teu desejo está esperando onde você o queria.
    — Perfeito — responde com voz rouca.
    Me olha como uma leoa faminta. Vejo que dá uma olhada na joia anal e sorri. O desejo me consome. Ela joga a blusa no assoalho e fica  de top aos pés da cama.
    — Dobra e abre as pernas.
    Meu Deus, meu Deus, que calor!
    Faço o que me pede e sinto que começo a respirar com dificuldade. Emma sobe na cama e leva sua boca até a parte interna das minhas coxas. Beija-as — beija-as com delicadeza, e eu me desmancho toda. Ela, com seu erotismo costumeiro, continua sua corrente de beijos. Agora sobe. Me beija o quadril, depois o umbigo, depois um dos seios, e quando sua boca está sobre a minha e me olha nos olhos, sussurra com voz carregada de desejo e erotismo:
    — Peça-me o que quiser.
    Meu Deus! Ai, meu Deus!
    Minha respiração se acelera. A vagina se contrai e sinto frio na barriga. Emma, minha Emma, chupa o lábio superior, depois o inferior. Antes de me beijar, dá sua mordidinha característica no lábio, o que me faz abrir a boca para lhe facilitar o acesso. Adoro seus beijos. Adoro sua exigência. Adoro como me toca. Eu a adoro. Depois do beijo, me olha à espera de que lhe peça algo. Então, como sei o que desejo, murmuro:
    — Me chupa.
    Sua corrente de beijos agora desce pelo meu corpo. Quando beija o púbis, passa com sensualidade seu dedo na tatuagem.
    — Vamos, querida, se abra com as mãos. Feche os olhos e fantasie. Sim, se ofereça como quando estivemos com outras pessoas.
    “Se ofereça! Outras pessoas!” Deus do céu, que tesão!
    Suas palavras provocam uma tremenda excitação, e minhas mãos se apressam. Me abro, me expondo totalmente a Emma, ansiosa para que me lamba enquanto imagino que não estamos apenas nós duas neste quarto. Sem demora, sua língua toca meu clitóris.
    Minha nossa, eu morro de prazer!
    O fogo abrasador de minhas fantasias e a excitação que Emma provoca me deixam sem forças. Deitada nua na cama, as lambidas ávidas me deixam louca, e suas mãos sobem por meu traseiro. Minha mulher, cheio de tesão, me agarra pelos quadris para chegar mais fácil dentro de mim.
    — Vamos, Regi,  se ofereça.
    Instigada, provocada, estimulada e louca pelo que imagino e pelo que ela me diz, aproximo minha vagina molhada de sua boca. Sem nenhum pudor, me aperto contra ela e me ofereço extasiada, desejosa de sentir e dar todo o prazer. Sua boca me chupa rapidamente, seus dentes se lançam ao meu clitóris, e eu, ofegante, quero mais e mais.
   Minha pele arde e um prazer louco e selvagem toma meu corpo. Me retorço em sua boca a cada toque de sua língua e exijo mais.
    Meu clitóris, inchado, está a ponto de explodir. Isso provoca Emma. Eu sei. Quando ela ergue a cabeça para me olhar, levanto rápido e beijo seus lábios molhados com meus fluidos. Seu gosto é meu gosto. Meu gosto é seu gosto.
    — Me fode — exijo.
    Emma sorri, morde o queixo e volta a me dominar. Me deita com brutalidade, e dessa vez meu corpo cai pela lateral da cama enquanto abre de novo minhas pernas, me dá uma palmadinha e continua seu ataque devastador. Noto algo úmido em meu ânus. Sim, o lubrificante. Emma me abre com um dedo, e instantes depois sinto que ela introduziu o brinquedinho. Aquela joia.
    — Lindo — diz Emma enquanto beija minha bunda.
    De minha posição, não posso ver seu rosto. Mas sua respiração e sua voz rouca me indicam que gosta do que vê e do que faz. Durante vários minutos, as paredes de meu ânus se contraem. Que delícia! Depois, Emma mete primeiro um dedo na vagina e depois dois.
    — Olha pra mim, Regina. 
   Com a cabeça virada de lado, viro os olhos para ela, que murmura, a voz rouca de emoção:
    — A joia é bonita, mas tua bunda é espetacular.
    Isso me faz sorrir.
    — Prefiro algo maior em  vez desse pequeno aço cirúrgico.
    — É mesmo?
    Confirmo.
    — Prefere que eu te coma com outras pessoas?
    Confirmo de novo. Seus dedos mergulham em mim. Que loucura! Arrebatada de paixão, insiste:
     — Tem certeza, pequena?
    — Sim — digo ofegante.
    Seus dedos entram e saem de mim, enquanto com a outra mão aperta a joia. E eu fico louca. Após um gemido, abro os olhos, e Emma está me olhando.
    — Logo seremos duas a te foder, pequena. Primeiro uma, depois a outra, e depois as duas. Vou te prender entre meus braços e abrir tuas coxas. Deixarei que a outra te foda enquanto eu te olho, e só permitirei que você goze pra mim, certo?
    — Sim, sim — digo ofegante de novo, extasiada com o que diz.
    Emma sorri, e eu tenho um espasmo de prazer. Minha vagina se contrai, e seus dedos percebem. Muito rápido,  sai de dentro de mim.  Vai ao banheiro e com uma rapidez absurda , volta usando o enorme dildo. Sobe em cima de mim, me enfia dois dedos e num piscar de olhos, os troca  pelo dildo, e sufoco um grito ao sentir o impressionante joguete.
    Santo Deus, como é bom!
   Com mãos experientes, me agarra pela cintura e me levanta. Me senta sobre ela na cama, me abraça e diz baixinho, perto da minha boca:
    — Seremos três na próxima vez.
     Aceno que sim, entre gemidos.
    — Sim, sim, sim...
    Emma me beija. Sentir sua respiração descontrolada me deixa louca.
    — Se mexa, pequena.
    Meus quadris obedecem com um ritmo lento e profundo. Acho que vou explodir. A fricção do brinquedo anal é tremenda. Emma e eu nos olhamos nos olhos, enquanto afundo cada vez mais.
    — Me beije — peço.
    Minha Icewoman me satisfaz, e eu aumento o ritmo, deixando-a louca. Uma vez depois da outra, entro e saio até que ela me para. Com um movimento, me deita na cama, faz eu me virar e me bota de quatro.
    — Tá fazendo o quê? — pergunto.
    Emma não responde, apenas mete seu "pênis" em mim, e depois de duas enfiadas que me fazem gemer, sussurra em meu ouvido:
    — Querida, quero teu cuzinho lindo. Posso?
    Tesão, muito tesão.
    Excitada ao extremo, mostro o anel em minha mão.
    — Sou toda sua.
    Com cuidado, ela  pega a joia e me passa mais lubrificante. Estou impaciente e ansiosa por sexo. Quero mais. Preciso de mais. Emma, ao ver minha impaciência, enquanto passa o lubrificante no dildo, me morde as costas. Nervosismo. Meus sentimentos são contraditórios. Não fiz mais sexo anal desde aquele último dia com ela e aquela mulher. Mas Emma sabe o que faz e, pouco a pouco, entra em mim. Me dilato. Minha mente fica louca, e o tesão toma conta de mim quando sinto que Emma me preenche:
    — Fundo, fundo, querida.
    Mas ela não obedece. Não quer me machucar. Mete devagarinho, e quando está totalmente dentro de mim, se agacha sobre minhas costas e, me abraçando com amor, sussurra em meu ouvido:
    — Minha nossa, pequena, como você é apertadinha!
    Me acostumo à nova situação, feliz com o prazer que sinto, enquanto ela entra e sai de mim. Eu gemo. Ardo. Queimo. Mas curto, entregue à delícia do sexo anal. Me sinto depravada. Praticar sexo selvagem com Emma me torna depravada. Louca. Desinibida. Estou de quatro para ela, com a bunda empinada, desesperada para que me foda, para que me faça sua infinitas vezes.
     — Emma... eu gosto — afirmo, enquanto empurro meu corpo contra o seu, desejando que Emma entre mais fundo.
     Continuamos nossa brincadeira por vários minutos. Ela me penetra, me agarra pela cintura, e eu me mostro receptiva. Uma, duas, três vezes. Paixão! Quatro, cinco, seis. Prazer! Sete, oito, nove. Desejo! Dez, onze, doze. Emma!
    Mas minha Icewoman já não pode mais se conter e seu lado selvagem faz com que penetre mais fundo ainda, enquanto caio com o rosto na cama. Deixo escapar um grito sufocado pelo colchão, e minha alemã sabe que meu prazer foi ao máximo. Então, ela crava seus dedos em meus quadris e me come por trás num ataque infernal.
    Oh, sim! Oh, sim!
    — Mais, mais, Emma! — suplico, estimulada.
    O prazer que isso me dá e o desejo que ela vê em mim a deixam louca. Quando não pode mais, dá um gemido selvagem e cai sobre mim.
    Ficamos assim por uns segundos. Unidas, alegres, excitadas. O sexo entre nós é eletrizante, e gostamos disso.
    Um pouco depois, Emma sai de dentro de mim. Nos permitimos ficar na cama, felizes, cansadas e suadas.
    — Minha nossa, Regina! Você vai me matar de prazer.
    Seu comentário me faz rir. Abraço Emma, e ela me abraça. Não precisamos falar — nosso abraço diz tudo. Lá fora, chove com vontade. De repente se ouve um trovão, e Emma se mexe.
    — Vamos levantar e nos vestir, amor.
   — Nos vestir?
    — Sim, botar qualquer coisa, um pijama, sei lá.
    — Por quê? — pergunto, querendo continuar brincando com ela.
    Mas Emma parece ter pressa.
    — Vamos, pegue a calcinha na mesinha — exige.
    Penso em protestar, mas desisto. Pego minha calcinha e um pijama. Mas não quero me vestir. Que coisa mais brochante!
    Emma, ao ver minha cara amarrada, me beija toda animada, guarda o lubrificante na mesinha e pega a joia anal. Depois, se levanta, e justamente aí, quando me pega pelo braço, a porta do quarto se abre pouco a pouco. Flyn, de pijama listrado e com cara de sono, nos olha boquiaberto. Me cubro com minha roupa do jeito que posso e resmungo:
    — Ei, não sabe bater na porta?
    O menino não sabe o que responder.
    — Flyn, já voltamos — diz Emma.
    Na hora, entramos no banheiro. Olho para Emma, à espera de uma explicação. Ela diz baixo:
     — Desde pequeno tem medo de trovão, mas não diga que te contei. — Me beija. — Sabia que ia vir pra nossa cama quando ouvi o trovão. Sempre faz isso.
    Agora quem a beija sou eu. Minha nossa, como amo e gosto dela! Quando abandono sua boca, com preguiça, pergunto:
    — Vem sempre pra tua cama?
    — Sempre — garante, brincalhona.
    Sua expressão me faz rir. Que linda que é a  minha alemã!
   Um novo trovão nos traz de volta à realidade. Emma me solta, deixa a joia no balcão do banheiro e se lava. Depois, se seca, veste uma calcinha e diz, antes de sair:
    — Não demore, Regi.
    Quando fico sozinha, pego a joiazinha e abro a torneira para lavá-la. Penso no Susto. Pobrezinho. Toda esta chuva e ele na rua. Depois me lavo, boto o pijama e olho no espelho. Enquanto penteio minha cabeleira rebelde, sorrio.
    Que viagem essa história em que estou me metendo!
    Então, segundos depois, lembro que eu era igual a Flyn quando era pequena. Os trovões me davam medo, esses barulhos infernais me faziam pensar que demônios feios e de unhas longas percorriam os céus para levar as crianças. Foram muitas noites dormindo na cama dos meus pais, embora, no final, minha mãe tenha conseguido me tirar o medo, com paciência e alguma ajuda extra.
    Quando saio do banheiro, Emma  está deitada na cama falando com Flyn. O menino me segue com o olhar; disfarçadamente, guardo a joia na gaveta da mesinha. Depois, quando me meto na cama, o baixinho pergunta a tia:
    — Ela tem que dormir com a gente?
    Emma faz um gesto afirmativo, e eu digo, me tapando com o edredom:
    — Mas é claro. Eu tenho medo de temporais, principalmente dos trovões. Vocês gostam de cachorros, né?
    — Não — respondem em uníssono.
    Vou dizer alguma coisa, mas Flyn explica:
    — São sujos, mordem, cheiram mal e têm pulgas.
    Boquiaberta, respondo:
    — Você se engana, Flyn. Os cachorros não costumam morder e com certeza não fedem nem têm pulgas se são bem cuidados.
    — Nunca tivemos animais em casa — explica E
mma.
    — Pois isso é muito ruim — cochicho, e vejo que Emma sorri. — Ter animais em casa dá outra perspectiva da vida, em especial às crianças. Olha, sinceramente, acho que um animalzinho de estimação cairia muito bem a vocês dois.
    — Nem pensar — se nega E
mma.
    — O cachorro do Leo me mordeu e doeu — diz o menino.
    — Um cachorro te mordeu?
    O menino confirma, levanta a manga do pijama e me mostra a cicatriz no braço. Guardo a informação e imagino o pavor que deve ter dos animais. Preciso acabar com isso.
    — Nem todos os cachorros mordem, Flyn — digo com carinho.
    — Não quero um cachorro — insiste.
    Sem dizer mais nada, me deito de lado para olhar Emma nos olhos. Flyn está entre nós e rapidamente me dá as costas. Só faltava essa! Emma me pede desculpa com o olhar, e eu lhe pisco um olho. Minutos depois, minha grande menina  apaga a luz e, mesmo na escuridão, sei que sorri e me olha. Eu sei.

Peça-me o que quiser Capítulo 33

Capítulo 33    
Ao despertar de manhã, custo a reconhecer onde estou, mas o cheiro de Emma está em tudo. Quando abro totalmente os olhos, ela está deitada a meu lado.
    — Bom dia,
linda.
     Sorrio, encantada com sua presença na cama a estas horas.
    — Bom dia,
amor.
    Emma chega mais perto para me beijar na boca, mas a detenho. Ela fica toda sem jeito, então digo:
    — Me deixe escovar os dentes, pelo menos. Ao acordar, tenho nojo de mim mesma.
    Sem esperar resposta, saio da cama, vou para o banheiro escovar os dentes correndo. Sem me preocupar com meu cabelo, volto para a cama e abraço Emma.
    — Agora sim. Me beije agora.
    Ela não se faz de rogada. Me beija, enquanto suas mãos tocam meu corpo, e eu, entusiasmada, me aninho no seu. Vários beijos depois, digo:
    — Olha, querid
a, estive pensando...
    — Hum, que perigo! — zomba Emma.
    Achando graça, dou um beliscão na sua bunda, e Emma sorri.
    — Como estou aqui, pensei que não precisa mais contratar ninguém pra ficar com o Flyn, quando você sai. O que acha?
    E me olha, me olha, me olha.
    — Tem certeza, pequena?
   — Sim, grandalhona. Tenho certeza.
    Durante um bom tempo, falamos, abraçadas na cama, até que de repente a porta se abre. Adeus, intimidade!
    Flyn aparece com a cara amarrada. Não se surpreende ao me ver. Imagino que Emma já lhe disse que eu estava aqui. Sem me olhar, se aproxima da cama.
    — Ti
a, seu celular tá tocando.
    Emma me solta, pega o celular e, levantando-se da cama, vai até a janela. Flyn continua sem me olhar, mas estou disposta a conquistá-lo.
    — Oi, Flyn, você tá todo bonitão hoje.
    O menino me olha. Sim, sim, passeia os olhos puxados pela minha cara e diz:
    — Você tá com cabelo de louca.
    Aí se vira e vai embora. Eita, chinesinho! Ai, não, coreano-alemão.
    Não há dúvida, o baixinho vai ser duro na queda. Levanto e, no espelho do banheiro, comprovo: realmente tenho um cabelo de louca! Molhou ontem à noite e agora não está nem ondulado nem liso: está todo desgrenhado.
    Emma entra no banheiro, me abraça por trás e, enquanto a observo pelo espelho, ela apoia o queixo sobre minha cabeça.
    — Precisa se vestir, pequena. Estão nos esperando.
    — Como? — digo espantada. — Quem está nos esperando?
    Mas Emma não responde e me dá um novo beijo na cabeça antes de sair.
    — Te espero na sala. Anda logo.
    Sozinha, me olho no espelho. Emma e seus segredinhos! Por fim, decido tomar uma chuveirada. Ao entrar de novo no quarto, sorrio ao ver que Emma deixou sobre a cama meus jeans secos e minha camisa. Que fofo! Me visto e prendo o cabelo num rabo de cavalo. Quando chego à sala, Emma se levanta e me entrega um casaco azulão que não é meu, mas é do meu número.
    — Teu casaco continua úmido. Vista este. Vamos.
    Não tenho tempo de perguntar aonde vamos. Flyn surge de casaco, gorro e luvas. Sem abrir a boca, vou para a garagem de mãos dadas com Emma. Embarcamos no Mitsubishi e saímos. Ao passarmos pelas latas de lixo, na rua, olho com curiosidade e vejo um cachorro deitado numa delas, que está caída na neve. Me dá peninha.
    Pobrezinho, que frio deve estar sentindo!
    Ligamos o rádio. Mas, para o meu azar, não conheço essas canções nem esses grupos alemães.
    Meia hora depois, após deixarmos o carro num estacionamento privado, pegamos um elevador. As portas se abrem no quinto andar. Um homem alto, de aspecto impecável, grita, abrindo os braços:
   — Eric! Flyn!
   O menino se joga em seus braços, e Emma lhe dá a mão, sorrindo. Segundos depois, os três me olham. Emma me apresenta:
   — Orson, esta é Regina, minha namorada.
   O tal Orson é um armário loiro e descolorido. Sim, um alemão, alemão, desses que no verão ficam cor de melancia. Ele bota Flyn no chão e vem até mim.
    — Prazer em conhecê-la.
    — O prazer é meu — digo toda educada.
   O homem me observa e sorri.
    — Espanhola? — pergunta a Emma. Meu amor confirma, e o outro diz: — Oh, Espanha! Olé, touro, castanholas!
   Agora sou eu que sorrio. Acho engraçado ouvir essas coisas.
   — Que espanhola mais bonita!
   — É maravilhosa, entre muitas outras coisas — garante Emma, sorridente, fundindo seu olhar com o meu. Vou dizer alguma coisa quando Orson me segura pela cintura.
   — Esta casa é sua desde este instante. — E, sem me deixar responder, prossegue: — Agora já sabe, relaxe e aproveite. Tire a roupa, e eu providenciarei tudo o que você precisar.
   Sem entender nada, olho para Emma. Tirar a roupa?
   Emma ri da minha cara. Pelo amor de Deus, Flyn está com a gente!
   Quero falar, protestar, mas minha gigante se aproxima e com cumplicidade me beija na boca.
   — Desejo que se divirta, pequena. Vamos... Tire a roupa e se esbalde.
   Vou ter um troço. Caraca, ficou louca? Que pretende que eu faça?
  — Vamos, minha linda, me siga — me apressa Orson. E olhando E
mma e Flyn, diz:
  — Se vocês quiserem, podem ir. Eu me ocupo dela e de todas as suas necessidades.
   Me dá um calorão. Sim, vou ter um troço. Estou indignada. Vou gritar, explodir como uma possessa. Então aparece uma jovem com um cabide cheio de roupas. Fica vermelha ao ver Emma. Depois me olha e pergunta:
   — Você é a cliente que vem provar a roupa, não é?
   Emma solta uma gargalhada, e eu, ao compreender de repente o mal-entendido que eu mesma criei, dou um murro nela  e rio. Emma pega a mão do sobrinho e me beija de novo.
    — Precisa de roupa, fofinha. Vamos, veja com Orson e Ariadna, e compre tudo, absolutamente tudo, o que quiser. Flyn e eu temos coisas a fazer.
    Feliz da vida, devolvo o beijo e sigo Orson e a moça do cabide. Entramos numa sala com grandes espelhos e muitas araras com todo tipo de roupa. Surpresa, olho ao redor.
    — E
mma me disse que você precisa de tudo — informa Orson. — Portanto, divirta-se. Prove tudo o que quiser e, se não gostar de nada, me avise, que traremos mais.
    Estou perplexa. O homem se vai. A jovem me olha e sorri.
    — Vamos começar! — exclama.
   Durante mais de duas horas, experimento todo tipo de calças, vestidos, camisas, botas, sapatos, casacos e conjuntos de lingerie. É tudo maravilhoso, mas, claro, a preços exorbitantes!
    Soam umas batidas na porta. Instantes depois entra Emma. Estou com um vestido sexy, de gaze preto — muito parecido ao que a Shakira usa quando canta Gitana. Adoro o vestido e, pela cara del
a, vejo que gosta também. Isso me faz sorrir. Ariadna, ao ver Emma entrar, desaparece da sala. Ficamos só nós duas. Com graça, dou uma voltinha diante dela.
   — Que acha?
   Emma se aproxima e me agarra pela cintura. Sorri.
   — Não vejo a hora de arrancá-lo, pequena.
   Vou protestar, mas ela me beija. Minha nossa, como gosto de seus beijos!
   — Está linda com este vestido — afirma, quando se afasta de mim. — Compre-o.
   Num gesto automático, olho a etiqueta e me escandalizo.
   — Emma, é um... Santo Deus! Olha, custa dois mil e seiscentos euros! Nem louca! Vamos, por favor, eu não ganho isso nem fazendo mais de cem mil horas extras.
   Ela sorri e me segura o queixo.
   — Você sabe que o dinheiro não é problema pra mim. Compre.
   — Mas...
   — Você precisa de um vestido pra festa da minha mãe, dia 5. E com este você está incrivelmente bonita.
   A porta abre de novo. Entram Ariadna e Orson. Ele me olha e dá um assobio de aprovação.
   — Este vestido foi feito pra você, Regina.
   Sorrio. Emma sorri.
   — Bom, Regina, gostou de alguma coisa? — pergunta Orson.
   Admirada, olho ao redor. Tudo é fantástico.
   — Acho que gosto de tudo — respondo em tom de brincadeira.
   Orson e Emma me olham, e minha Icewoman diz:
   — Envie tudo pra minha casa.
   Fico horrorizada.
   — Emma, pelo amor de Deus, nem pense nisso! A troco de que vai comprar tudo isto? Achando graça com minhas reações, a mulher pela qual me apaixonei completamente aproxima seu rosto do meu e sussurra:
   — Pois se não quer que enviem tudo pra casa, escolha alguma coisa. E quando digo alguma coisa, me refiro a... várias peças, incluindo sapatos e botas! Você precisa de tudo até que as suas coisas cheguem da Espanha, certo?
    Uau! Isso pode me deixar louca. Adoro as roupas. Mas insisto:
   — Tem certeza, Emma?
   — Certeza absoluta, pequena.
   — Emma, você me deixa sem jeito. É muito dinheiro.
   Meu Icewoman sorri e me beija a ponta do nariz.
   — Você vale muito mais, querida. Vamos, me dê o prazer de ver você usar essas roupas. Pegue absolutamente tudo o que quiser sem olhar o preço. Sabe que posso bancar. Por favor, me faça feliz.
   Olho de relance para Orson, que sorri. Puxa, que comprinha Emma vai fazer. Finalmente, fraquejo. Estou vivendo o sonho que qualquer mulher da Terra gostaria de viver. Comprar sem olhar o preço! Respiro fundo, me viro para as coisas de que gostei, disposta a dar esse prazer a Emma, embora, para dizer a verdade, quem vai ter um prazer enorme sou eu. Nossa, eu sou um perigo!
    Ariadna fica ao meu lado para que eu vá lhe entregando as peças escolhidas. Então começo. Sem pensar no preço, pego vários jeans, camisetas, vestidos, saias longas e curtas, sapatos, botas, meias, bolsas, roupa íntima, um casaco comprido, gorros, mantas, luvas, um casaco acolchoado e vários pijamas. Quando acabo de separar tudo isso, olho para Emma com o coração acelerado.
   — Quero tudo isso, incluindo o vestido que estou usando.
   Emma sorri. Está encantada, feliz.
   — Desejo concedido.
   Com um lindo vestido vermelho que comprei esta tarde, me olho no espelho do quarto. Fiz um coque alto, e minha aparência é sofisticada.
   Chove horrores. Está caindo um temporal tremendo, e os trovões fazem eu me encolher. Não sou medrosa, mas nunca gostei dos trovões.
   Ligo para meu pai em Jerez e falo com ele e com minha irmã. Ouço, ao fundo, as risadinhas de minha sobrinha, e meu coração se aperta. Enquanto falamos, todos parecem felizes, apesar de sabermos que morremos de saudade. Muita saudade.
   Depois de desligar, um tanto emocionada, decido retocar a maquiagem. Chorei, meu nariz está igual a um tomate. Preciso dar uma arrumada geral. Quando acho que já estou totalmente apresentável, vou para a sala, descendo a escada presidencial. É a última noite do ano e quero me sentir feliz com Emma e Flyn. Emma, ao me ver, se levanta e caminha até mim. Está maravilhosa com seu vestido longo azul escuro. O cabelo, está solto de forma natural. Está elegante e linda!  
   — Você está linda, Regi. Linda.
   Me beija, e seu beijo tem sabor de desejo e amor. Durante uma fração de segundos, nos olhamos nos olhos, até que uma vozinha protesta.
   — Parem já com esses beijos! Que nojo!
   Flyn não suporta nossas demonstrações de afeto, e isso nos faz sorrir, embora o menino não ache graça nenhuma.
   Flyn está vestido com roupas sociais. Um homenzinho. Mas que gracinha!
   Faço um gesto de aprovação.
   — Flyn, vestido assim, você parece um galã de cinema. Está muito bonito.
   O menino me olha e esboça um sorrisinho. Gostou do meu comentário, mas, mesmo assim, me apressa para jantar.
   — Vamos de uma vez. Você está atrasada, e estou com fome.
   Olho o relógio. Não são nem sete!
   Santo Deus, como podem jantar tão cedo?
   Este horário de gringo vai me matar. Emma sorri — parece ler meu pensamento. Quando me recomponho, contemplo a bela e enfeitada mesa que Simona e Norbert prepararam e pergunto, enquanto Emma me guia a uma das cadeiras:
   — Bom, e na Alemanha, o que se janta na última noite do ano?
   Mas antes que possam responder, a porta se abre e aparecem Simona e Norbert com duas sopeiras que deixam sobre a bonita mesa. Surpresa, observo que numa das sopeiras há lentilhas, e em outra, sopa.
   — Lentilhas? — digo rindo.
   — Eca! — careteia Flyn.
   — É uma tradição na Alemanha, como na Itália — responde Emma, feliz.
   — A sopa é de torresmo com salsichas, senhorita , e está muito saborosa — diz Simona. — Sirvo um pouquinho?
   — Sim, obrigada.
   Simona me serve, e todos ficam me olhando. Esperam que eu prove a sopa que realmente está muito boa. Sorrio, e todos os outros sorriem também.
    Sem conseguir ficar quieta, enquanto Norbert brinca com Flyn e Simona lhe enche o prato de sopa, olho Emma e cochicho:
   — Por que não diz a Simona e Norbert que se sentem com a gente pra jantar?
   Minha sugestão a surpreende, mas concorda, depois de entender o que pretendo.
  — Simona, Norbert, querem jantar com a gente?
   O casal se olha. Pela cara, imagino que é a primeira vez que Emma propõe algo assim.
   — Senhor — responde Norbert —, agradecemos muito, mas já jantamos.
   Emma me olha. Como estou disposta a atingir meu objetivo, digo sorridente:
   — Gostaria que se sentassem com a gente pra sobremesa, combinado?
   O casal se olha de novo e, por fim, diante de minha insistência, Simona sorri e concorda. Dez minutos depois, terminada a sopa, Simona e Norbert entram com mais pratinhos. Fico olhando um deles com atenção.
   — Isso é verdura. Se chama sauerkraut — explica Emma. — Chucrute, repolho avinagrado. Prove.
   — Sim. Tá sensacional — diz Flyn.
   Pela cara dele dá pra ver que não gosta, e a aparência do prato não me atrai. Decido recusar a oferta com o melhor dos meus sorrisos e pego um pãozinho com algo que parece uma salsicha branca.
   Logo, Norbert deixa umas bandejas sobre a mesa. Aplaudo. Lagostins, queijo e presunto ibérico. Olé! Emma, ao ver minha reação, pega minha mão.
   — Não esqueça que minha mãe é espanhola e temos muitos dos costumes que ela nos passou.
    — Nossa, adoro presunto! — exclama o baixinho.
   O presunto está de lamber os beiços. Santo Deus, que maravilha!
   E quando trazem o pato assado, já não me aguento. Mas como não quero fazer uma desfeita, me sirvo um pouquinho, e a verdade é que está delicioso!
   Também provo um queijo alemão fundido e repolho com cenoura. Me dizem que são comidas tradicionais para trazer estabilidade financeira, e como estou desempregada, fico vermelha!
   O jantar transcorre tranquilamente, embora perceba que levo a conversa sozinha. Emma se contenta em me olhar e sorrir. Flyn tenta me evitar, mas, como tenho mais experiência, falo de jogos como de Wii ou PlayStation, e o garoto acaba entrando na conversa. Emma sorri e sussurra:
    — Você é incrível, querida.
   Quando decido que não vou comer mais nada para não explodir, aparecem Simona e Norbert com a sobremesa que tem um aspecto maravilhoso. Só de ver, já dá vontade de devorar.
   — Bienenstich de Simona. Delícia!
   — aplaude Flyn, emocionado.
   Sem tirar os olhos da torta com a cara tão boa, pergunto:
   — O que é isso?
   — É um bolo típico alemão, senhorita — diz Norbert —, que minha Simona prepara que é uma maravilha.
   — Sim, sim! É o melhor bienenstich que você vai comer na sua vida — me garante Emma, achando graça.
    A mulher, emocionada por ser o centro das atenções, sorri e se dirige a mim: — É uma receita que minha avó passou pra minha mãe e minha mãe, pra mim. O bienenstich, ou “picada de abelha’, é feito por camadas. A de baixo é massa podre com fermento; a segunda é um recheio de açúcar, manteiga e creme de amêndoas trituradas, e a de cima é de novo massa podre com amêndoas caramelizadas.
    — Mmm, que delícia! — Determinada, levanto e digo: — Como é a sobremesa, agora têm que se sentar com a gente. — Simona e Norbert se olham, e antes que possam dizer alguma coisa, lembro: — Vocês prometeram!
   Emma segue meu exemplo; se levanta, puxa uma cadeira e diz à mulher:
   — Simona, tenha a gentileza de se sentar.
  A mulher, quase sem respirar, senta, e junto dela, seu marido. Eu me aproximo e pergunto:
   — A gente corta como se fosse uma torta, né?
   Simona confirma.
   — Muito bem, sou eu quem vai servir a todos este fantástico bienenstich. — Em seguida, olho o menino e peço a ele: — Flyn, poderia trazer dois pratinhos mais pra Simona e Norbert?
   O menino, feliz, corre à cozinha e volta com os dois pratos. Decidida, corto cinco pedaços e os distribuo. Quando sento em minha cadeira, Emma me olha, satisfeita.
   — Vamos atacar logo antes que eu coma tudo — murmuro, provocando uma risada geral. Entre risos e piadas, devoramos a sobremesa maravilhosa. Surpresa, observo como as pessoas à minha volta curtem o momento como algo único, e me sinto imensamente feliz. Então proponho que cantem uma canção de festa alemã, e rapidamente Norbert dispara com o tradicional O Tannenbaum.

O Tannenbaum, O Tannenbaum,
wie treu sind deine Blätter.
Du grünst nicht nur zur Sommerzeit,
nein auch im Winter, wenn es schneit.
O Tannenbaum, O Tannenbaum
wie grün sind deine Blätter!

   Ouço maravilhada. Emma, com seu sobrinho no colo, também canta essa canção tão alemã que me deixa arrepiada. Ver essas pessoas unidas pela música me lembra minha família. Com certeza, meu pai e minha irmã estarão fatiando o cordeiro, e minha sobrinha e meu cunhado rindo com as piadas. Isso me emociona, e meus olhos se enchem de lágrimas.
   Quando a canção termina, aplaudo. Flyn, que entrou no meu jogo, logo pede que eu cante uma canção espanhola. Minha mente voa, e tento pensar em alguma que ele já possa ter ouvido com Sonia e começo Los peces en el río. Acerto, e o menino e Emma me acompanham, e cantamos batendo palmas.


Pero mira cómo beben los peces en el río,
Pero mira cómo beben por ver a Dios nacido Beben,
y beben, y vuelven a beber,
Los peces en el río por ver a Dios nacer.


   Desta vez, quando acabamos, são Simona e Norbert que nos aplaudem, e nós acabamos aplaudindo também.
   Que momento tão bonito e familiar!
   Emma abre uma garrafa de champanhe e enche todas as taças. Para Flyn bota suco de abacaxi. Todos brindamos a São Silvestre.
   Quando Simona começa a tirar a mesa, quero ajudá-la. No começo, ela e Norbert se queixam, mas por fim desistem ao ouvir Emma dizer:
    — Simona, se
Regi disse que ia te ajudar, nada vai detê-la.
   A mulher se dá por vencida e eu ajudo com entusiasmo. Consigo que Norbert fique com Emma e Flyn na sala, conversando. Quando volto para tirar os últimos pratos, Simona me sussurra:
   — Não, senhorita Mills: esses pratos devem ficar sobre a mesa até de madrugada. Na Alemanha é tradição deixar as sobras do jantar na mesa. Isso nos garante que no ano que vem teremos a despensa bem cheia.
   Imediatamente solto os pratos com alegria.
   — Então está bem! Tudo pela despensa cheia!
   Por um instante, todos rimos, enquanto contamos piadas. Entre risos me falam de uma brincadeira tradicional chamada Bleigiessen, e surpresa ouço que se vendem kits de Bleigiessen com os significados.
    O Bleigiessen é um ritual para prever ou adivinhar o futuro. Se funde um pedaço de chumbo numa colher com o fogo de uma vela. Daí se derramam gotas de chumbo derretido num recipiente com água fria, que se deixam endurecer. Em seguida cada pessoa pega uma dessas formas e, com a ajuda do kit, prevê o futuro.
    — Se o chumbo tem forma de mapa — diz Flyn, alegre —, você vai viajar muito.
    — Se tem forma de flor — diz Norbert —, significa que fará novos amigos.
   — E se sai em forma de coração — explica Simona, sorrindo —, é porque o amor chegará logo.
    Emma está se divertindo. Vejo na cara dela, em seu jeito de sorrir. Por fim, ela se levanta e convida todos nós a sentar nas poltronas. Enquanto liga a televisão, diz:
    —
Regi, há outra tradição na Alemanha. É meio esquisita, mas é uma tradição.
    — Mesmo? E qual é? — pergunto curiosa.
   Todos sorriem, e Emma, depois de me dar um beijo meigo na bochecha, diz:
   — Os alemães, depois da ceia de Ano-Novo e antes de sair pra admirar os fogos de artifício, costumam ver um vídeo cômico, bastante antigo, em preto e branco, chamado Dinner for One. Veja, começa depois dos anúncios.
   Todos concordam e se acomodam. Emma, ao ver que estou rindo, diz:
   — Não ria, moreninha. É uma tradição! Todos os canais de televisão transmitem ano após ano, no dia 31 de dezembro. Mas o mais curioso de tudo é que é um esquete em inglês, embora, em alguns canais, botem legendas em alemão.
    — E é sobre o quê?
   Emma me acomoda entre seus braços e, enquanto começa o esquete, sussurra em minha orelha:
   — A senhora Sophie festeja seus 90 anos em companhia de James, seu mordomo, e vários amigos que já não estão porque morreram. O engraçado é ver como o mordomo, durante a noite, se faz passar por cada um dos amigos da senhora.
    De repente, para de falar porque começa a rir com o que vê na televisão. No tempo em que dura o vídeo, olho surpresa para todos. Se divertem tanto, que até Flyn desfaz sua cara fechada para rir abertamente diante das coisas que o mordomo faz.
    Quando acaba o esquete, Simona vai à cozinha e volta com cinco copinhos com uvas. Olho as uvas com espanto.
    — Lembre-se, minha mãe é espanhola — diz E
mma. — As uvas nunca faltaram numa noite dessas.
    Emocionada, abobada e feliz com simples uvas, grito quando Emma troca para o canal internacional que transmite direto da Puerta del Sol de Madri.
    Aiii, minha Espanha! Viva Espanha!
   Me sinto mais espanhola que nunca.
   Faltam quinze minutos para acabar o ano, e ver na televisão minha querida Madri faz com que me emocione.
    Flyn me olha surpreso, e Emma se aproxima para dizer em minha orelha:
   — Não chore, querida.
   Engulo o choro e sorrio.
   — Tenho de ir ao banheiro um segundinho.
    Desapareço o mais rápido que posso.
    Quando entro no banheiro e fecho a porta, minha boca se contrai, e choro. Mas minhas lágrimas são estranhas. Estou feliz porque sei que minha família está bem. Estou feliz porque Emma está a meu lado. Mas essas lágrimas malditas insistem em correr.
    Choro, choro e choro até que consigo me controlar e passo água no rosto. Alguns minutos depois, batem na porta. Saio e Emma, preocupada, me pergunta:
    — Tudo bem?
    — Tudo — afirmo com um fio de voz —, só que é a primeira vez que estou longe de minha família numa noite tão especial.
    Meu rosto e, principalmente, meus olhos lhe indicam o que aconteceu. Emma me abraça.
    — Sinto muito, querida. Sinto que, por estar aqui comigo, esteja passando um mau momento.
    Suas palavras me confortam, me fazem sorrir, e beijo Emma na boca.
   — Não sinta, meu amor. Está sendo uma noite mágica pra mim.
   Não muito convencida, crava seus impressionantes olhos em mim e, quando vai acrescentar algo mais, lhe dou um rápido beijo nos lábios.
    — Vamos, vamos voltar para a sala. Flyn, Simona e Norbert nos esperam.
    Quando o relógio da Puerta del Sol começa a tocar, digo a eles que esses são os quartos de hora. E quando começam as verdadeiras badaladas, digo a todos para irem engolindo as uvas. Para Flyn e Emma isso é algo que já fizeram outras vezes, mas para Norbert e Simona não, e rio ao ver suas caras.
    Uva a uva, meu ânimo melhora.
    Uma. Duas. Três. Papai, Mary, Grace e meu cunhado estão bem.
    Quatro. Cinco. Seis. Eu sou feliz.
    Sete. Oito. Nove. O que mais posso pedir?
    Dez. Onze. Doze. Feliz 2013!
    Depois da última badalada, Emma vai me abraçar, mas Flyn se mete entre nós duas e nos separa. Eu sorrio e pisco um olho. É normal. O menino quer ser o primeiro. Norbert e Simona, ao testemunharem o que aconteceu, me abraçam e dizem:
   — Gutes Neues Jahr!
    Incapaz de conter meus impulsos, beijo os dois e, entre risadas, faço com que repitam em espanhol:
   — Feliz Año Nuevo!
    O casal se diverte repetindo o que eu digo, rindo e demonstrando sua felicidade.
    Depois Norbert e Simona apertam a mão de Emma e desejam feliz fim de ano, enquanto Flyn se afasta do lado dela. Me agacho para ficar à sua altura e o beijo na bochecha, sem que ele proteste.
    — Feliz Ano-Novo, querido. Que este ano que começa seja maravilhoso e espetacular.
   O menino me beija também e, para meu espanto, sorri. Norbert o coloca entre os braços. E Emma me olha rapidamente, me abraça e, com todo o seu amor, murmura em meu ouvido, me deixando arrepiada:
    — Feliz Ano-Novo, meu amor. Obrigado por fazer desta noite algo muito especial para todos nós.