sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Peça-me o que quiser Capítulo 31

Capítulo 31

Caiu uma grande nevasca na Alemanha e faz um frio dos diabos. Na chegada um carro escuro nos espera. Emma cumprimenta o motorista e, depois de apresentá-lo a mim como Norbert, embarcamos. 
Observo as ruas nevadas e vazias, enquanto Emma fala por telefone com sua mãe e promete ir a sua casa pela manhã. Ninguém brinca com a neve nem passeia de mãos dadas. Quando o carro, meia hora depois, para diante de uma imensa grade cor de aço, intuo que já chegamos. O portão se abre e vejo uma pequena casinha perto dela. Emma me diz que é ali que mora o casal de caseiros. O carro continua através de um jardim bonito e gelado. Fico muito admirada quando me deparo com a enorme e maravilhosa mansão. O carro para, Emma me ajuda a descer e, ao ver como olho ao redor, diz:
 
— Seja bem-vinda.
 
Sua voz, sua fisionomia e a maneira como me olha fazem com que eu fique toda arrepiada. Me pega pela mão, decidida, e me puxa. Eu a sigo. Quando uma mulher de uns 50 anos nos abre a porta rapidamente, Emma a cumprimenta e me apresenta:
 
— Regina, esta é Simona. Ela e o marido cuidam da casa.
 
A mulher sorri, e eu também. Entramos no vestíbulo enorme quando vem até nós o homem que nos pegou no aeroporto.
 
— Norbert é o marido dela — explica Emma.
 
Sem pensar duas vezes, tasco dois beijos nas bochechas deles, o que os deixa desconcertados, e digo em meu alemão perfeito:
 
— Muito prazer em conhecê-los.
 
O casal, muito espantado com tanta expansividade, troca olhares.
 
— O prazer é nosso, senhorita.
 
Emma sorri.
 
— Simona, Norbert, podem ir descansar. É tarde.
 
— Antes levaremos a bagagem a seu quarto, senhora — diz Norbert.
 
Logo que saem com nossa bagagem, Emma me lança um olhar gozador e cochicha:
 
— Na Alemanha não somos tão beijoqueiros, você os surpreendeu.
 
— Poxa, sinto muito!
 
Com um sorriso angelical, pousa os bonitos olhos em mim e murmura, enquanto acaricia com delicadeza a curva do meu rosto:
 
— Tudo bem, Regi. Tenho certeza de que vão gostar do seu jeito tanto quanto eu.
 
Dou um passo atrás para me afastar um pouco, ou não respondo por mim.
 
Olho ao redor em busca de uma saída e, ao ver a escada dupla por onde o casal subiu, sussurro, enquanto ela me pega pela mão:
 
— Impressionante.
 
— Gosta? — pergunta, inquieta.
 
— Minha nossa, Emma! Como não vou gostar? Isto... isto é alucinante. Enorme. Maravilhoso.
 
— Venha, vou te mostrar a casa — diz sem me soltar a mão. — Estamos sozinhas, a não ser por Simona e Norbert, mas eles já estão indo embora. Flyn está com minha mãe. Amanhã a gente pega ele.
 
Gosto do contato de sua mão, e sentir sua felicidade rompe pouco a pouco a couraça de frieza que há em meu coração. Entramos numa sala magnífica, onde uma grande e imponente lareira acesa convida a me aquecer numa poltrona marrom-café. Presto atenção em tudo. Móveis escuros e sobriedade.
 
De mãos dadas, ela me mostra todos os aposentos do térreo: dois banheiros sensacionais, uma cozinha com design incrível, uma lavanderia. Caminho a seu lado, surpresa com tudo o que vejo. Percorremos um corredor, e Emma abre uma porta, que dá para uma garagem enorme e limpíssima.
 
Santo Deus, o sonho de meu pai!
 
Estão estacionados um SUV Mitsubishi azul-escuro, um Maybach Exelero cinza- claro, um Audi A6 preto e uma moto BMW 1.100 cinza-escura.
 
Olho tudo atônita, e quando penso que não posso me espantar mais, ao voltar pelo corredor, Emma abre outra porta e surge à minha frente uma espetacular piscina retangular que me deixa totalmente sem palavras.
 
Piscina interior, que luxo!
 
Emma sorri.
 
Parece se divertir ao ver minhas expressões de surpresa. Tento me conter, mas não consigo. Sou uma exagerada mesmo!
 
Depois de sairmos do cômodo azulado onde está a piscina, seguimos pelo corredor e entramos num escritório. O escritório de Emma. É todo de carvalho escuro e há uma enorme estante com uma escadinha móvel dessas que sempre se veem nos filmes.
 
Que bacana!
 
Sobre a mesa está um laptop de 20 polegadas e, numa mesa auxiliar, uma impressora e vários outros acessórios. À direita da mesa, há uma lareira acesa e, à esquerda, um armário envidraçado com várias pistolas.
 
— São suas mesmo? — pergunto depois de me aproximar do armário.
 
— São.
 
Observo as pistolas com um calafrio.
 
— Nunca gostei de armas. — E, antes que diga qualquer coisa, continuo: — Sabe usá-las?
Como sempre, me olha... me olha e por fim, diz:
 
— Um pouco. Pratico tiro olímpico.
 
Sem deixar que eu pergunte mais nada, me pega de novo pela mão, e saímos do escritório. Entramos num segundo aposento, onde há um monte de brinquedos e uma escrivaninha. Me explica que é a sala de jogos e estudos de Flyn. Está tudo impecavelmente arrumado. Não há nada fora de lugar, e isso me surpreende. Se minha sobrinha ou eu mesma dispuséssemos de uma sala de jogos, seria um verdadeiro caos.
 
Não digo nada do que penso, e saímos da sala para entrar em outra. Esta se encontra parcialmente vazia, com uma esteira de corrida e caixas, muitas caixas.
 
— É para você. Para as suas coisas — diz de repente.
 
— Para mim?
 
Emma faz um gesto confirmando:
 
— Aqui poderá ter seu próprio espaço, algo que sei que gosta e que quer. — Vou dizer algo, quando ela acrescenta: — Como viu, Flyn tem seu espaço e eu tenho o meu. É justo que você também tenha um.
Diante disso, não sei o que responder. Estou tão petrificada que prefiro me calar a dizer alguma coisa de que, sei, logo vou me arrepender. Emma me dá um beijo na testa e murmura:
 
— Venha. Vamos ver o resto da casa.
 
Chocada com toda essa amplidão e luxo, subo pela impressionante escada de carvalho do vestíbulo. Emma me diz que este andar tem sete suítes. Impressionante também o quarto de Emma. Enorme! É em tons azulados e tem, no centro, uma cama gigante, o que faz meu coração e a tensão dispararem ao mesmo tempo. O banheiro é outra maravilha: jacuzzi, ducha de hidromassagem. Luxo e mais luxo.
 
Ao voltar ao quarto, reparo na luminária que há numa das mesas de cabeceira e sorrio. É o abajur que compramos em El Rastro, com a marca de batom dos meus lábios. Não combina de jeito nenhum com este aposento. Informal demais.
 
Sem olhar para Emma, sei que está me observando e fico nervosa. Com dissimulação, olho para o outro lado do quarto e vejo minha bagagem. Isso me deixa agitada demais, mas disfarço como posso.
 
Saímos do quarto de Emma e entramos no de Flyn. Aviões e carros perfeitamente guardados. Este garoto é tão organizado assim? Outra vez isso me surpreende. O quarto é bonito, mas impessoal. Não me parece que uma criança viva aqui. Saímos, e Emma me mostra os cinco quartos restantes. São grandes e bonitos, mas sem vida. Nota-se que ninguém os usa. Vistos os quartos, ela me pega de novo pela mão e me puxa escada abaixo. Entramos na incrível cozinha cor de aço e madeira com uma bancada central. Abre uma geladeira, tira uma Coca-Cola geladinha para mim e uma cerveja para ela.
— Espero que tenha gostado da casa.
 
— É sensacional, Emma. Sorri e toma um gole da cerveja. — É tão grande que... Ufa! — digo, olhando ao redor e tocando a testa. — Poxa, que casa você tem. Se meu pai a vê, vai ter um troço. Mas, se minha casa é menor que um dos banheiros daqui... — Emma sorri. — Por que nunca me falou nada?
 
Encolhe os ombros, dando uma olhada em volta.
 
— Sei lá. Você nunca me perguntou pela minha casa.
 
Sorrio. Pareço uma idiota, mas é impossível não sorrir.
 
Gosto de Emma. Gosto da casa. Gosto de estar aqui com ela. Gosto de tudo, de absolutamente tudo o que tenha a ver com ela. E, antes que me retire, sinto suas mãos em minha cintura me levantando até a bancada. Mete-se entre minhas pernas e pergunta em tom meloso, perto de meus lábios:
 
— Já me tirou do castigo?
 
Essa pergunta e sua repentina proximidade me pegam tão de surpresa, que mais uma vez não sei o que dizer. Por um lado, devo ser a mulher durona que sei que sou e fazê-la pagar os dias horríveis que me fez passar; mas, por outro, preciso tanto dela, que sou capaz de lhe perdoar absolutamente tudo pelo resto de sua vida e lhe gritar que me coma aqui mesmo. Durante o que parece uma eternidade, nos olhamos.
 
Nos excitamos.
 
Nos beijamos com o olhar.
 
E, como é natural em mim, começo a delirar. Então, perdoo Emma? Ou não a perdoo? Mas, cansada de esperar, ela pousa sua boca tentadora sobre a minha. Sinto seus lábios arderem nos meus, quando diz:
 
— Me beije...
 
Não me mexo.
 
Não a beijo.
 
Estou tão paralisada pelo desejo que mal posso respirar.
 
— Me beije, Regina — insiste.
 
Ao ver que não faço nada, pousa suas mãos em minha cabeça e faz o que me deixa louca: lambe meu lábio superior, depois o inferior, terminando o momento com uma mordidinha deliciosa. Sua respiração se acelera. A minha parece uma locomotiva. E então ela não espera mais: me beija. Sua boca me possui de tal maneira, que já estou disposta a fazer absolutamente tudo o que ela me pedir.
 
Enquanto me beija, sinto como uma de suas mãos desce de minha cabeça para o pescoço e em seguida chega às minhas costas. Seus dedos se afundam em minha carne, e Emma me puxa para ela. Deus do céu! Ainda bem que estou de jeans; se não fosse assim, Emma já teria me arrancado a calcinha, ou melhor dito, eu mesma a teria arrancado. Inconscientemente, fecho os olhos e jogo a cabeça para trás. Ela, ao ver meu prazer e minha respiração alterada, primeiro me morde o queixo e, descendo sua língua por meu pescoço, murmura:
 
— Vamos pro quarto, amor. Preciso te despir e te possuir como há dias estou desejando. Quero abrir tuas pernas e, depois de te saborear, mergulhar em você uma vez depois da outra até que teus gemidos acalmem a ânsia viva que sinto por você.
 
Ouvir isso me deixa tonta. “Ânsia viva!”
 
Instantaneamente, me sinto bêbada dela e, como sempre, quero mais. Mas não, não devo. Estou determinada a lutar contra meu desejo e minha excitação e, com as forças que ainda me restam, me jogo para trás, me afastando e, sabendo o que virá depois, consigo falar:
 
— Não. Você não está perdoada.
 
— Regina, eu te desejo.
 
— Não, não deve.
 
— Amor... — protesta.
 
— Me diga qual é meu quarto e...
 
Sem acabar a frase, vejo sua frustração quando se separa de mim. Seu corpo todo está completamente tenso. Fecha os olhos e se apoia na bancada. Os nós de seus dedos estão brancos, e sem me olhar, Emma afinal sussurra:
 
— Tudo bem, vamos continuar com seu jogo. Me siga.
 
Desta vez, sem me dar a mão, começa a andar até a escada. Eu a sigo. Olho suas costas, suas pernas firmes e seu bumbum. Emma é uma tentação, pura tentação! Ai ai ai ai, sei muito bem ao que eu disse não.
 
Ao chegar ao primeiro andar, caminha decidida para seu quarto, abre a porta, pega minha bagagem e sai de novo para o corredor.
 
— Em que quarto quer dormir?
 
— Em... um que esteja livre — consigo responder.
 
Emma, furiosa e decidida, caminha até o fundo do corredor e abre uma porta, a mais distante de seu quarto. Ambas entramos. Ela deixa minha bagagem ao lado da cama e, depois de me dizer “boa-noite” sem me olhar nem me beijar, fecha a porta e se vai.
 
Durante uns segundos, fico como uma imbecil, contemplando a porta enquanto meu peito sobe e desce, tamanha a excitação do momento.
 
O que fui fazer?
 
Por acaso virei uma louca varrida?
 
Mas incapaz de fazer ou dizer mais nada, tiro a roupa, boto um pijama e me deito na bela cama. Não quero pensar, de modo que conecto meu iPod e cantarolo:
 
“Convença-me a ser feliz, convença-me.”
 
Por fim apago a luz. Será melhor que durma.
Mas meu subconsciente me trai.
 
Sonho. E no meu sonho, molhado e excitante, Emma me beija enquanto abre minhas pernas e permite que outra me penetre. Levanto os quadris em busca de mais profundidade, e a mulher de quem não vejo o rosto, acelera o ritmo, até que não se aguenta mais e goza. Ofegante, suplico por mais. A desconhecida se afasta, e Emma, minha Icewoman, cheia de tesão, sexy e charmosa, toma seu lugar.
 
Me toca as coxas... Oh, sim!
 
Me abre as pernas... Sim!
 
Fixa seu olhar impressionante em mim para que eu também a olhe e diz, num tom sensual: “Peça-me o que quiser.” E, antes que eu possa responder, meu amor, minha mulher, minha Icewoman, de uma só vez me preenche, certeira e ardente, e me faz gritar de prazer. Emma!
 
Ela e somente ela me dá o que verdadeiramente preciso.
 
Ela e somente ela sabe do que eu gosto.
 
Uma... duas... três... vinte vezes entra em mim disposta a me deixar louca. Grito, arquejo, arranho suas costas, enquanto a mulher que amo me come até me levar ao mais doce, maravilhoso e devastador dos orgasmos.
 
Acordo sobressaltada. Estou sozinha na cama, suando, com uma lembrança vívida do sonho. Não sei até quando vou poder continuar com o terrível castigo, mas o que sei, sem dúvida nenhuma, é que preciso de Emma e morro de vontade de estar em seus braços.
Quando acordo, não sei que horas são. Olho o relógio. Cinco para as dez.
 
Salto da cama. Os alemães são muito madrugadores e não quero parecer um urso dorminhoco.
 
Tomo uma chuveirada rápida e, depois de pôr um vestido preto de lã e minhas botas de cano alto, desço para a sala. Ninguém está lá, e vou para a cozinha. Emma está lendo sentada a uma mesa redonda. Ao me ver, fecha o livro.
 
— Bom dia, dorminhoca — diz ela sem sorrir.
 
Simona, que está cozinhando, me olha e me cumprimenta. Sem dúvida, dei uma de preguiçosa.
 
— Bom dia — respondo.
 
Emma não mostra intenção de se levantar nem de me beijar. Isso mexe comigo, mas reprimo meus instintos, enquanto fico remoendo minha tristeza por não receber meu beijo de bom-dia.
 
Simona me oferece frios, queijo e mel. Mas como recuso e só peço café, tira do forno um plum-cake feito por ela mesma e depois me empurra para que me sente à mesa perto de Emma.
 
— Dormiu bem? — pergunta ela.
 
Faço um gesto afirmativo e tento não lembrar meu sonho erótico. Se ela soubesse... Dois minutos depois, Simona deixa um fumegante café com leite sobre a mesa e um bom pedaço do bolo. Faminta, boto um pedaço na boca e, ao perceber o sabor de manteiga e baunilha, exclamo:
 
— Mmm, está ótimo, Simona!
 
A mulher concorda, toda satisfeita, e sai da cozinha.
 
Continuo meu café da manhã. Emma não fala, só me observa. Quando já não aguento mais, eu a olho e pergunto:
 
— O que foi? Por que está me olhando desse jeito?
 
Sem sorrir, ela se estica para trás na cadeira e responde:
 
— Ainda não acredito que você esteja sentada na cozinha da minha casa. — E antes que eu possa dizer qualquer coisa, muda de assunto: — Quando terminar, iremos à casa de minha mãe. Tenho de pegar o Flyn. Almoçaremos lá. Depois, tenho um compromisso, uma partida de basquete.
 
— Você joga basquete? — pergunto, surpresa.
 
— Jogo.
 
— Pra valer?
 
— Sim.
 
— Com quem?
— Com umas amigas.
 
— E por que não tinha me dito que jogava basquete?
 
Emma me olha, me olha, me olha e, finalmente, murmura:
 
— Ora, porque nunca me perguntou. Mas agora estamos na Alemanha, em meu território, e pode ser que muitas coisas minhas te surpreendam.
 
Concordo como uma boba. Achava que a conhecia e de repente fico sabendo que faz tiro olímpico, joga basquete e provavelmente vai me surpreender com mais coisas.
 
Continuo meu delicioso café da manhã. Ver de novo sua mãe e conhecer o menino são coisas que me deixam nervosa, de modo que comento o que me inquieta:
 
— Quando me disse que aqui não são muito extrovertidos quer dizer também que não vai haver beijos de bom-dia?
 
Noto que minha pergunta a pega de surpresa, mas responde enquanto abre de novo o livro:
 
— Sempre haverá os beijos que nós duas quisermos.
 
Essa é boa, acaba de me dizer que agora é ela que não quer.
 
Meeeerrrrdddaaaa! Está me fazendo provar do meu próprio veneno, e eu detesto isso. Continuo comendo o plum-cake, mas alguma coisa deve ter mudado na minha cara, porque Emma diz:
 
— Alguma pergunta mais?
 
Nego com a cabeça, e ela volta ao livro, mas com o canto do olho vejo que esboça um sorrisinho. Safada!
 
Quando termino com todo o maravilhoso café da manhã, vamos até a entrada e, depois de abrir um armário, pegamos nossos casacos. Emma me olha.
 
— O que foi agora? — digo ao ver sua expressão.
 
— Você está pouco agasalhada. Aqui não é a Espanha.
 
Aliso meu simples casaco preto e explico:
 
— Calma, é mais quente do que parece.
 
Com o cenho franzido, ela ajeita a gola de seu casaco e, depois de me pegar pela mão, diz enquanto caminhamos para a garagem pelo interior da casa:
 
— Vai ser preciso te comprar alguma coisa, porque não quero te ver doente.
 
Suspiro e não respondo. Não vou ficar aqui tanto tempo que justifique fazer compras. Embarcamos no Mitsubishi, e Emma aciona um controle que abre a porta da garagem. Enquanto isso, a calefação do carro aquece o ambiente em décimos de segundos. Que bárbaro o Mitsubishi!
 
Emma liga o rádio, e sorrio ao reconhecer a música de Maroon 5. Emma dirige séria. Ou melhor, está como sempre. E, sem necessidade de que eu pergunte, começa a explicar por onde vamos passando.
 
Sua casa, conforme diz, está no distrito de Trudering, um lugar bonito onde, à luz do dia, vejo que há mais casas como a dela. E que casas, cada uma mais impressionante que a outra! Ao entrar numa estrada, diz que, um pouco mais ao sul, há plantações e pequenos bosques. Isso me emociona. Para mim, é essencial ter a natureza perto, como em Jerez.
 
Pelo caminho passamos pelo distrito de Riem, até chegar a um elegante bairro chamado Bogenhausen. Aqui mora a mãe dela. Depois de percorrer ruas com casarões de ambos os lados, paramos diante de uma grade escura, e fico tensa. Conheço Cora e sei que é um amor, mas é a mãe de Emma, e isso me deixa nervosa.
 
Após estacionar na bela garagem, Emma me olha e sorri. Começa a me conhecer, sabe que quando estou muito calada é porque estou tensa. Quando vou soltar uma das minhas besteiras para relaxar o ambiente, a porta da casa se abre, e Cora aparece na nossa frente.
 
— Que alegria! Que alegria ter vocês aqui! — diz, feliz.
 
Sorrio; não posso fazer outra coisa. E quando Cora me dá um abraço e eu o retribuo, ela sussurra em meu ouvido:
 
— Bem-vinda à Alemanha e à minha casa, querida. Vamos te amar muito aqui.
 
— Obrigada — murmuro como posso.
 
Emma vai dar um beijo em sua mãe; depois, me pega firme pela mão e juntas entramos na casa, onde o ambiente agradável rapidamente me aquece. No entanto, o barulho é atroz. Toca uma música repetitiva.
 
— Flyn está na sala com um desses seus jogos infernais — nos explica Cora. E, olhando para sua filha, continua: — Está me deixando louca. Não sabe brincar sem essa bendita musiquinha. — Emma sorri. — Aliás, tua irmã Marta acaba de ligar. Disse que a esperemos para o almoço. Quer ver Regina.
 
— Ótimo — diz Emma, enquanto estou a ponto de ficar louca com a música estridente que vem da sala.
 
Durante uns minutos, Emma e sua mãe falam sobre a babá de Flyn. Ambas estão decepcionadas com ela. Pensam em contratar alguém para que os ajude com o menino. Fico surpresa que o barulho infernal de fundo não seja um problema para elas. Mais ainda: dá a impressão de que estão acostumadas. Logo que terminam de conversar, uma jovem se aproxima de nós e diz alguma coisa a Cora. Esta, se desculpando, sai com ela.
 
De repente, Emma me dá a mão.
 
— Preparada pra conhecer Flyn?
 
Digo que sim com um gesto. Sempre gostei de crianças.
 
Vamos juntos para a sala. Emma abre a enorme porta corrediça branca e os decibéis da música sobem irremediavelmente. Será que Flyn é surdo? Observo o aposento. É grande e espaçoso. Cheio de luz, fotografias e flores. Mas o barulho é insuportável.
 
À frente vejo uma televisão de plasma enorme, onde uns guerreiros lutam sem piedade. Reconheço o jogo, Mortal Kombat: Armageddon. É o jogo de que tanto gosta meu amigo Graham e que ficamos jogando por horas e horas. Vicia você rapidinho.
Na tela, os lutadores pulam e lutam, e observo que no belo sofá vinho na frente da tevê se agita um gorro vermelho. Será de Flyn?
Emma fecha a cara. A música não poderia estar mais alta. Ela solta a minha mão, caminha até o sofá e, sem dizer nada, se agacha, pega um controle e baixa o volume.
 
— Tia Emma! — grita uma vozinha.
 
De repente um garoto miúdo dá um pulo e abraça minha Icewoman particular. Emma sorri e, enquanto o abraça também, fecha os olhos.
 
Santo Deus, que momento lindo!
 
Fico toda arrepiada ao notar o amor que minha alemã sente pelo sobrinho. Durante uns segundos, observo os dois enquanto trocam confidências e o menino ri.
 
Antes de nos apresentar, Emma dá toda a sua atenção ao menininho, enquanto ele, emocionado com a presença da tia, conta alguma coisa sobre o jogo. Depois de uns minutos em que Flyn ainda não se deu conta de que estou ali, Emma o põe sobre o sofá e diz:
 
— Flyn, quero te apresentar a senhorita Regina.
 
Percebo como as costas do menino ficam tensas. Esse gesto de desconforto é tão típico de minha Icewoman que não estranho que o garoto faça o mesmo também. Mas, sem demora, vou até o sofá e, embora ele não me olhe, eu o cumprimento em alemão.
 
— Oi, Flyn!
 
De repente, vira sua carinha, seus olhos escuros e puxados me encaram, e responde, enquanto Emma lhe tira o gorro para deixar sua cabecinha morena descoberta:
 
— Oi, senhorita Regina!
 
Uau, que coisa! Chinês? Flyn é chinês?
 
Surpresa com os traços orientais da criança, quando eu esperava um típico menino branco, de olhos azuis, tento me recompor do choque inicial e, com o melhor de meus sorrisos, digo diante da expressão divertida de Emma:
 
— Flyn, pode me chamar só de Regi ou Regina, combinado?
 
Seus olhos escuros me examinam em profundidade, depois ele concorda. O olhar desconfiado é tão penetrante como o de sua tia, e isso me deixa arrepiada. Esses dois, poxa! Mas antes que possa dizer qualquer coisa, entra na sala a mãe de Emma, Cora:
 
— Deus do céu, que maravilha poder falar sem ser aos gritos. Vou acabar surda! Flyn, meu querido, não pode jogar com o volume mais baixo?
 
— Não, Cora — responde o menino sem parar de me olhar.
 
Cora?
 
Que impessoal. Por que não a chama de vó ou vovó?
 
Por uns instantes, observo que a mulher fala com o menino, até que seu celular toca. Ele se senta de novo no sofá, quando Cora atende.
 
— Jogamos uma partida, tia? — pergunta.
Emma olha sua mãe, mas esta sai apressada da sala. Por fim, se senta perto do sobrinho. Antes que comecem a jogar, me meto:
 
— E eu, posso jogar?
 
— Você não sabe jogar isso — responde Flyn sem me olhar.
 
Fico com cara de tacho e, ao desviar o olhar para Emma, intuo que dissimula um sorriso.
 
O que foi que esse baixinho disse?
 
Se há uma coisa que odiei toda a minha vida é que os sexos condicionem o que fazemos ou deixamos de fazer. Surpresa então, fico observando o pirralho, que continua sem me olhar.
 
— E por que você acha que eu não sei jogar isso?
 
— Porque esse é um jogo violento, você não me parece o tipo de mulher que saibar isso — responde o garoto, enquanto crava de novo seus olhos puxados e escuros em mim.
 
— Está muito enganado, Flyn — respondo com calma.
 
— Não, não estou enganado — insiste ele.
 
— Vocês meninas são desajeitadas nas brincadeiras de guerra. Vocês gostam mais de brinquedos de príncipes e modas. Menos minha tia. Né tia?!
— Fala sério mesmo?
 
— Sim.
 
— E se eu te mostrar que, eu, também sei jogar Mortal Kombat?
 
Pensa o que vai responder e por fim diz:
 
— Eu não jogo com desconhecidos.
 
Com os olhos arregalados, olho Emma em busca de ajuda e pergunto em espanhol:
 
— Mas que tipo de educação machista estão dando a este baixinho resmungão? — E antes que responda, continuo com um sorriso falso: — Olha, Emma, se não fosse teu sobrinho... Porque, se outro me diz isso, eu digo logo uns desaforos, por mais criança que seja.
 
Emma sorri como uma boba e responde, enquanto arrepia os cabelos do sobrinho:
 
— Não se assuste, pequena. Ele quer te impressionar. E aliás Flyn sabe falar espanhol perfeitamente.
 
Fico de boca aberta, e antes que possa dizer algo, o menino se adianta:
 
— Não sou nenhum baixinho resmungão e se não jogo com você é porque quero jogar só com minha tia.
 
— Flyn... — repreende Emma.
 
Convencida de que o começo com o menino não foi dos melhores, sorrio e murmuro:
 
— Retiro o “baixinho resmungão”. Não se preocupe, não jogarei, se você não quiser.
 
Sem mais, deixa de me olhar e aperta o play. A música atroz soa de novo; Emma me pisca um olho e começa a jogar com ele.
Durante vinte minutos, observo como jogam. Ambos são muito bons, mas me dou conta de que sei movimentos que eles desconhecem. E não estou disposta a revelar.
 
Cansada de olhar a tela e de estar de fora da brincadeira desses dois, começo a andar pela sala enorme. Vou até a grande lareira e olho as fotos que estão expostas.
 
Nelas se vê Emma com duas garotas. Uma é Marta. A outra, suponho, é Hannah, a mãe de Flyn. Eles sorriem, e me dou conta de como Emma e Hannah se pareciam: cabelos claros, olhos verdes e sorriso idêntico. Sem perceber, sorrio.
 
Há mais fotos. Cora com suas filhas. Flyn nos braços de sua mãe: bebê, com um macacãozinho que imita uma abóbora do dia das bruxas. Marta e Emma abraçadas. Me surpreende uma foto de Emma, muito mais jovem e com os cabelos curtos.
 
Uau, é linda de todo jeito minha Icewoman!
 
— Oi, Regina!
 
Ao ouvir meu nome, me viro e topo com o sorriso simpático de Marta. Com o barulho do jogo não a ouvi chegar. Nos abraçamos, e ela diz, tomando-me pela mão:
 
— Vejo que esses dois trocaram você pelo jogo.
 
Respondo na gozação:
 
— Segundo alguém, nós, meninas, não sabemos jogar. Exeto, claro, a tia boazona dele. Marta sorri, suspira:
 
— Meu sobrinho é um pequeno monstro em potencial. Com certeza foi ele que te disse isso, não? — concordo, e ela suspira de novo. — Vamos à cozinha tomar alguma coisa.
 
Sair da sala é, para mim, e especialmente para meus ouvidos, um alívio. Quando chegamos à cozinha, vejo uma mulher cozinhando. Ela nos cumprimenta. Marta apresenta-a a mim como Cristel e, quando esta volta aos seus afazeres, pergunta:
 
— Que quer tomar?
 
— Coca-Cola.
 
Marta pega duas latinhas na geladeira. Depois me faz um movimento com a cabeça para que a siga até uma bela sala de jantar ao lado da cozinha. Nos sentamos à mesa e, pela porta de vidro, observo que Cora, agasalhada, está fora da casa, falando ao telefone. Ao nos ver, sorri, e Marta murmura:
 
— Mamãe e seus namorados.
 
Isso me surpreende. Cora não é casada com o pai de Marta?
 
E quando quase não aguento mais de curiosidade, Marta toma um gole da Coca- Cola e me explica:
 
— Meu pai e ela se divorciaram quando eu tinha 8 anos. E, mesmo que eu ame meu pai, sei muito bem que é um homem muito chato. Mamãe é tão cheia de vitalidade que precisa de outro tipo de vida, uma vida mais agitada. — Concordo como uma boba; e ela, divertida, cochicha: — Olha pra ela, parece uma garota de 15 anos telefonando pro namoradinho. Presto atenção em Cora e percebo o que Marta disse. Nesse momento, Cora desliga o celular e dá um saltinho de emoção. Depois, abre a porta e, ao entrar e ver que estamos sozinhas, nos comunica enquanto tira o casaco:
 
— Garotas... acabam de me convidar para ir à Suíça. Disse que sim e vou amanhã.
 
Sua alegria me faz sorrir.
 
— Com quem, mamãe? — pergunta Marta. Cora se senta com a gente e, com ares confidenciais, murmura: — Com o gostosão do Trevor Gerver.
 
— Trevor Gerver?! — gesticula Marta.
 
— Ele mesmo, filhinha! — confirma Cora.
 
— Puxa, mamãe! Trevor é um gato.
 
Ajeitando os cabelos, Cora nos explica:
 
— Olha, filha, já te falei, esse homem olha para as minhas pernas mais do que o normal, lá no curso. Mais, no dia em que saltei com ele de paraquedas, notei que...
 
— Saltou de paraquedas? — pergunto espantada.
 
Mãe e filha me mandam ficar quieta com um gesto e, por fim, Marta me avisa:
 
— Nenhuma palavra disso com Emma, ok? Ou vai ser um deus nos acuda.
 
Admirada, concordo com a cabeça. Emma não deve achar a menor graça nesse esporte radical.
 
— Se minha filha sabe que nós duas fazemos esse curso, não haverá quem a aguente — me informa Cora. — É muito rigorosa com a segurança desde que aconteceu o acidente fatal com minha querida Hannah.
 
— Eu sei, eu sei... Eu faço motocross. No dia em que me viu, quase...
 
— Faz motocross? — pergunta Marta, surpresa
Digo que sim, e Marta aplaude.
 
— Puxa vida! — intervém Cora. — Era isso que minha filha fazia com Jurgen, seu primo. E minha Emma não virou uma fera quando ficou sabendo?
 
— Sim — respondo, sorrindo —, mas já ficou claro que o motocross é parte de minha vida e ela não pode fazer nada.
 
Marta e sua mãe sorriem.
 
— Ainda tenho a moto de Hannah na garagem — comenta Cora. — Quando quiser pode levar. Pelo menos você a usa.
 
— Mamãe! — protesta Marta.
 
— Quer provocar Emma?
Cora suspira e, olhando para sua filha, responde:
 
— Emma se chateia só de olharem pra ela, querida.
 
— Isso é verdade, mãe — zomba Marta.
 
— Embora se empenhe em nos fazer viver numa redoma de vidro, para que nada nos aconteça — prossegue Cora —, tem de entender que a vida está aí pra ser vivida e que não é por andar de moto ou saltar de paraquedas que vai te acontecer algo horrível. Se Hannah estivesse viva, diria a mesma coisa. Portanto, querida — insiste, me olhando —, se você quiser a moto, já é sua.
 
— Obrigada. Vou pensar no caso — sorrio, encantada.
 
Por fim, nós três rimos. Está claro que Emma nunca ficará tranquila com a gente por perto. Entre risadas e confidências, fico sabendo que o tal Trevor é o dono da escola de paraquedismo que fica nos arredores de Munique. Isso desperta bastante minha atenção. Eu adoraria fazer um curso de queda livre. Mas em seguida, enquanto as ouço falando sobre aquela viagem à Suíça, me dou conta de que em dois dias é o Ano- Novo! E, incapaz de ficar quieta, pergunto:
 
— Vai voltar pro réveillon?
 
Ambas me olham, e Cora responde:
 
— Por Deus, não. Vou passar com Trevor na Suíça.
 
— Emma e Flyn vão passar sozinhos? — pergunto, espantada.
 
As duas confirmam.
 
— Sim — esclarece Marta. — Eu já tenho planos e mamãe também.
 
Devo estar com cara de tacho, porque Cora se vê obrigada a dizer:
 
— Desde que minha filha Hannah morreu, essa noite deixou de ser especial para nós, principalmente pra mim. Emma entende e é ela quem fica com Flyn. — E mudando rapidamente de assunto, cochicha: — Marta, Marta, o que levo pra Suíça?!
 
Durante um instante, continuo ouvindo-as, enquanto penso que meu pai nunca na vida, nem nos mais remotos sonhos, deixaria minha irmã ou eu com minha sobrinha, sozinhas numa noite tão especial.
 
Marta, de repente, diz algo engraçado que me faz sorrir, e nossa conversa se interrompe, quando Emma aparece com o menino pela mão. Ela, que não é boba, olha para nós três. É evidente que falávamos alguma coisa que não queremos que saiba. Marta, para disfarçar, se levanta para cumprimentá-la justo no momento em que Cora me olha e murmura:
 
— Nem uma palavra sobre o que se falou aqui a minha emburrada filha. Guarde segredo, ok, querida?
 
Respondo com um sinal afirmativo quase imperceptível, enquanto observo que Emma sorri por causa de algo que Flyn acabou de dizer.
 
Vinte minutos depois, nós cinco, reunidos em volta da mesa da sala de jantar, saboreamos um maravilhoso almoço alemão. Está tudo ótimo.
 
Às três e meia, estamos todos sentados na sala, batendo papo. Então noto que Emma olha o relógio, vem se agachar ao meu lado e me diz, me olhando atento:
 
— Querida, em uma hora tenho de estar no estádio de Oberföhring. Não sei se você gosta de basquete, mas gostaria que viesse comigo e assistisse à partida.
Sua voz, sua proximidade e a forma de dizer “querida” fazem as mil borboletas que vivem dentro de mim levantar voo.
 
Desejo beijá-la.
 
Desejo que me beije.
 
Mas não é o melhor lugar para extravasar nossa paixão tão contida. Emma, sem necessidade de que eu fale, sabe o que penso. Intui. Por fim, concordo com entusiasmo, e ela sorri.
 
— Eu também quero ir — diz Flyn.
 
Emma deixa de me olhar. Nosso momento se rompeu. Emma presta atenção à criança.
 
— Claro. Bote o casaco.
Quinze minutos depois, no Mitsubishi de Emma, nós três vamos para o estádio de Oberföhring.
 
Na chegada, quando Emma desliga o motor, Flyn sai a toda e desaparece.
 
Olho preocupada para Emma, mas ela, pegando a bolsa esportiva, diz:
 
— Não se preocupe, Flyn conhece o estádio muito bem.
 
Um pouco mais tranquila, pergunto enquanto caminhamos.
 
— Você notou como Flyn me olha?
 
— Lembra como Grace me olhava no começo? — Isso me faz sorrir. — Flyn é uma criança. Você tem de conquistá-lo como conquistei a Grace.
 
— Tudo bem, tem razão. Mas, não sei por quê, acho que teu sobrinho é como a tia dele, um osso duro de roer.
Emma solta uma gargalhada. Então para, me olha e, pertinho de mim, se abaixa para ficar na minha altura.
 
— Se eu não estivesse de castigo — murmura —, eu te beijaria agora mesmo, louca de paixão. Depois te meteria no carro, te arrancaria a roupa e transaria com você com verdadeira devoção. Mas, pra minha infelicidade, você me botou de castigo, e sem a menor chance de fazer nada do que desejo.
 
Meu coração quase sai pela boca. Tum-tum, tum-tum...
 
Santo Deus, como me deixou o que ela acaba de dizer!
Quando estou disposta a beijá-la, ouço:
 
— Regina! Emma!
 
Olho à minha direita e vejo Maura e Jane com Logan. Nem preciso dizer: nos abraçamos efusivamente.
 
— Você também joga basquete? — pergunto a Jane.
 
A médica me pisca um olho, achando graça.
 
— Sou a melhor do time — cochicha, e todas sorrimos.
 
Quando chegamos aos vestiários, Maura e Jane se beijam. Que bonitinhas!
 
Emma me olha com desejo, mas não vem para o meu lado.
 
— Vá ficar com Maura, meu amor. Te vejo depois da partida.
 
Deus meu, quero que me beiiiiiijeeee! Mas não. Não beija. Desaparece atrás da porta. E quando ela se fecha, minha cara de idiota deve ser tamanha que Maura pergunta:
 
— Não me diga que ela ainda está de castigo?
 
Como a boba que sou, confirmo, e minha amiga dá uma risadinha.
— Anda, vamos pra arquibancada torcer pelas nossas garotas. Olha, adorei suas botas. São sensacionais, muito sexy!
 
Mergulhada em meus pensamentos, sigo Maura. Passamos por uma porta, e me deparo com uma bela quadra de basquete. Aí está Flyn, sentado numa arquibancada amarela, brincando com seu PSP. Ao nos ver, vem direto até Logan, sem falar com a gente. Gosta do bebê. Nos sentamos, e Flyn pede a Maura que deixe o bebê com ele. Ela deixa, e por uns minutos observo como faz caretas para que Logan sorria.
 
A quadra vai se enchendo de gente. De repente, Flyn devolve o bebê para a mãe e vai se sentar mais embaixo. Maura me olha:
 
— Como tá se saindo com Flyn?
 
Encolho os ombros.
 
— Sinceramente, acho que não foi com minha cara. Não quis jogar comigo e quase não fala comigo. É sempre assim ou é pessoal?
 
Maura ri.
 
— É um bom menino, mas não é muito comunicativo. Imagine que eu o conheço desde que nasceu e não troquei mais de dez palavras com ele. É louco pelas maquininhas e jogos. Agora, quando vê Logan, é todo sorrisos. — Então se cala um instante, depois murmura: — Credo, que horror! Vou ao banheiro trocar as fraldas deste gambazinho ou morreremos todos com este fedor.
 
— Não quer que te acompanhe?
 
— Não, Regina. Fique aqui. Não demoro.
 
Quando Maura sai, noto que Flyn se deu conta de que fiquei sozinha. Sorrio, convidando-o a se sentar comigo, mas ele resiste, nem se mexe. Me dou por vencida. Cinco minutos depois, entra um grupo de mulheres da minha idade, todas elegantérrimas e perfumadas até não poder mais. Sentam justamente na minha frente e parecem muito animadas enquanto falam do salão de um cabeleireiro. Aí entram as jogadoras para o aquecimento, e fico admirada ao reconhecer com quem Emma e jane falam. É Helena!
 
Me dá um calorão de morte. Na quadra, a poucos metros, está a mulher que eu adoro com toda a minha alma com outras duas com quem me compartilhou na cama.
 
Ufa, que vergonha!
 
Dissimulo e me abano com a mão, enquanto não sei para onde olhar.
 
Quando consigo que meu coração deixe de bater a 2 mil por hora, olho a quadra e fico vermelha de novo ao ver que as três mulheres me olham e acenam. Com timidez, levanto uma das mãos como resposta. As mulheres que estão na minha frente acham que é para elas que se dirigem e cacarejam como galinhas, enquanto acenam entusiasmadas.
 
Sei que não posso afastar o olhar da minha Icewoman. É tão sexy... Ela me olha, quica a bola, me pisca um olho, e eu sorrio como uma boba. Santo Deus, ela está tão sensacional no uniforme de basquete que tenho vontade de gritar: “Linda, linda, linda!”
 
Flyn vai até a tia, que, contente, lhe joga a bola. O menino ri, e Helena o pega e rodopia com ele. Por uns segundos, ele é o centro da brincadeira e está feliz. Seu rosto muda e, pela primeira vez, eu o vejo sorrir como uma criança de verdade.
 
Quando Flyn se retira e se senta no banco dos reservas, observo orgulhosa como Emma se move na quadra. Nunca a tinha imaginado no papel de atleta e estou adorando!
 
Por uns minutos, fico curtindo a cena, e involuntariamente ouço uma das mulheres que está sentada à minha frente dizer:
 
— Que sorte, hoje joga a mulher que desejo ter na minha cama.
 
— E eu na minha — diz logo outra.
 
Todas riem, e eu também, disfarçando. Este tipo de comentário entre amigas íntimas é dos mais normais. Tudo é divertido, e curto o momento, até que outra exclama:
 
— Meu Deus! Emma está melhor a cada dia. Olha lá as pernas dela. — Todas riem de novo, e a loira idiota, porque não há outra palavra para ela, acrescenta: — Ainda lembro da noite que passei com ela. Foi sensacional.
 
Meu sangue ferve.
 
Toc, toc — o ciúme bate na minha porta.
 
Não acho a menor graça em pensar que Emma compartilhou uma noite de sexo com essa fulana. Pior ainda, me pergunto se isso foi há pouco tempo.
 
— Mas isso faz mais de um ano, Lora, como pode se lembrar ainda?
 
Ufa, quase aplaudo ao ouvir isso. Emma teve algo com ela antes de me conhecer. Nada a reclamar então. Eu também tive minhas histórias com outros antes de ficar com ela.
 
— Anna, só vou te dizer que Emma é uma mulher que deixa marcas — responde a tal Lora, e todas riem, eu inclusive.
 
Por um tempo ouço como as mulheres revelam o que pensam de todas as mulheres que estão se aquecendo na quadra. Para todos têm palavras de admiração, inclusive para a mulher de Anna. Quando a tal Lora menciona Jane e depois Helena, me dou conta de que para ela tanto faz uma como outra. Sua maneira de falar sobre elas me permite deduzir que só se interessa por sexo.
 
— Lora — ri Anna —, se quer repetir com Emma, só tem que conquistar o chinesinho. Todas nós sabemos que esse monstrinho é seu ponto fraco. Lora torce o nariz ao olhar para Flyn. Tira sua cabeleira loira do rosto e, se espreguiçando, murmura: — Para o que eu quero de Emma, não preciso conquistar ninguém a não ser ela.
 
Minha indignação chegou ao auge. Estão falando da minha mulher e eu estou aqui, ouvindo tudinho.
 
De repente aparece Maura com Logan e ela se senta ao meu lado.
— Oi, garotas!
 
As quatro mulheres olham para trás, sorriem, se beijam, até que Maura decide me incluir no grupo.
 
— Pessoal, esta é Regina, a namorada de Emma.
 
A cara das mulheres, em especial a da cabeluda loira, é um espetáculo.
 
Uma surpresa e tanto!
 
Maura disse que sou a namorada, coisa que proibi Emma de mencionar, mas que neste momento quero que isso fique bem claro para estas fulanas. Sou a namorada, sim! Ela é minha!
 
Disposta a começar com o pé direito com elas, apesar dos comentários, decido me fazer de surda e, feliz da vida, digo um oi. A partir deste instante, nenhuma menciona Emma de novo.
 
Enfim, a partida começa, e eu decido me concentrar no meu amor. Eu me emociono ao vê-la jogar, mas basquete não é o meu forte. Entendo o básico apenas, e Maura me dá umas dicas. Jane joga como armador e Emma, como lateral, e rapidamente me dou conta de que sua posição é importante devido à combinação de altura e velocidade. Aplaudo cada vez que faz uma cesta de três pontos e inicia algum contra-ataque. Minha nossa, como minha Swan é sexy!
 
Durante o intervalo, observo disfarçadamente como a tal Lora a olha. Busca sua atenção, mas em nenhum momento a encontra. Emma está concentrada no que fala com suas companheiras. Gosto disto. Me arrebata ver como se entrega a uma coisa que de repente sei que a fascina.
 
Alegre, aplaudo como uma louca quando o jogo recomeça e, com Maura, entro totalmente na partida, de modo que quando dou por mim já acabou e nossas garotas ganharam por 12 pontos. Olê, olê, olê, olá!
 
Feliz da vida, observo como Flyn corre para abraçar a tia e como ele sorri, encantado, levantando-o num abraço. Todo mundo começa a sair de seus lugares.
 
— Vem — diz Maura—, vamos.
 
Convencida do que quero fazer, vou até a quadra com o resto das mulheres e observo que Emma se senta, ensopada de suor. Amarra seus longos cabelos num rabo de cavalo e bota uma jaqueta esportiva. A habitual expressão séria voltou a seu rosto, e isso agita meu coração. Definitivamente, sou masoquista!
 
Então me dou conta de que Lora e a que está perto dela cochicham e olham minha Icewoman. E, incapaz de não fazer nada, decido entrar em ação para deixar as coisas bem claras para elas de uma vez por todas. Vou até Emma e, sem mais nem menos, sento no colo dela. Diante de sua surpresa, eu a beijo — eu a beijo com desespero, com paixão, com prazer. Ela, confusa no começo, me deixa beijar e, por fim, sussurra com voz rouca, pertinho da minha boca:
 
— Ora, ora, pequena, se sei disso, teria te trazido antes a uma quadra de basquete.— Sorrio, excitada. — Isto quer dizer que o castigo acabou?
 
Digo que sim. Ela fecha os olhos, respira fundo e me beija de novo.
No fim da partida, as mulheres que jogavam vão tomar uma ducha. Eu, com Maura e as outras mulheres, vamos esperá-las numa salinha. Aqui me divirto ouvindo seus comentários. Lora não disse mais nada que possa me chatear. Mas me olha com uma cara esquisita. É óbvio que saber que sou a namorada de Emma cortou sua onda. Meia hora depois, a mulherada do basquete começa a sair dos vestiários tadas limpinhas e reluzentes. A primeira que vem até mim, curiosa e sorridente, é uma mulher tão loira que parece albina.
 
— Oi. Você é Regina? A espanhola?
 
Quase digo “Olé!”.
 
— Sim, sou Regina.
 
— Olé, toro, paella! — diz uma outra, e eu rio.
Outras duas, desta vez morenas, se aproximam de nós, curiosas a meu respeito. Aqui sou a novidade, a espanhola! Acho graça e converso com elas. De repente vejo Emma sair do vestuário e ela me olha. Sorrio — ela se incomoda ao me ver rodeada por todas. Gosto deste ciumezinho bobo dela e mais ainda quando vejo que fica com Maura, Jane e o bebê, e espera que a iniciativa seja minha. Nossos olhares se cruzam, e então ela faz uma coisa que me faz rir. Com um movimento de cabeça me chama.
 
Não dou a mínima ao seu comando. Não quero começar a segui-la como um cachorrinho. Não, definitivamente não vou voltar a ser tão bobalhona com ela como fui meses atrás. Por fim, ela vem e, me pegando de maneira possessiva pela cintura, me beija na boca e diz na frente das colegas:
 
— Pessoal, esta é minha namorada, Regina. Portanto, cuidado!
Suas amigas riem, e eu também. Bem aí, aparece Helena, que pega minha mão, a beija e me cumprimenta. Inexplicavelmente, fico nervosa, mas relaxo logo que vejo que Helena não faz nem diz nada inconveniente. Pelo contrário, é totalmente correta. Emma me beija na testa e combina com a amiga de irmos jantar juntas no Jokers, o restaurante dos pais de Helena.
 
Olho meu relógio. São sete e vinte da noite. Minha nossa, que horror!
 
Vou jantar no horário de gringo!
 
Mas disposta a seguir a corrente, deixo que Emma me segure firme pela cintura. Com a outra mão, noto, ela pega Flyn. No carro, emocionado com a partida, o menino não para de falar com a tia. Em momento algum me inclui na conversa, mas mesmo assim dou um jeito de participar. Por fim, não lhe resta outra saída a não ser responder algumas das perguntas que faço, e isso me faz sorrir.
Estacionamos o Mitsubishi no Jokers, seguidos por Maura e Jane, depois por Helena.
 
Faz um frio dos diabos, e entramos direto no restaurante. Um alemão um tanto desajeitado vem nos receber e Helena me diz que é seu pai. Ele se chama Klaus e é um sujeito muito simpático. No instante em que sabe que sou espanhola, diz “paella”, “olé” e “torero”. Sorrio. Que brincalhão!
Depois que nos servem umas cervejas, chega o resto do grupo, e em seguida uma moça do restaurante nos leva a uma sala à parte, onde nos acomodamos. Deixo que Emma peça por mim. Preciso me atualizar em matéria das comidas alemãs.
 
Entre risos, começamos a refeição. Tento compreender tudo o que dizem, mas ouvir tantas pessoas ao mesmo tempo em alemão me confunde. Como são bruscos falando! Enquanto estou concentrada na tentativa de entender bem o que estão contando, Emma diz no meu ouvido:
 
— Desde que você suspendeu o castigo, não vejo a hora de chegar em casa, Regina. — Sorrio. — E você, também?
 
Digo que sim, e Emma pergunta de novo em meu ouvido, enquanto faz pequenos círculos com um dedo em minha coxa embaixo da mesa:
 
— Você me deseja?
 
Com uma expressão maliciosa, levanto uma sobrancelha, me concentrando nela:
 
— Sim, muito.
 
Emma sorri, feliz. Depois, me surpreende:
 
— Em uma escala de um a dez, quanto me deseja?
 
Convencida de que minha libido está nas nuvens, respondo:
 
— Dez é pouco. Digamos, cinquenta?
 
Minha resposta a deixa mais feliz ainda. Pega uma batata frita em seu prato, dá uma mordidinha e depois a bota em minha boca. Alegre, mastigo. Durante uns minutos, continuamos comendo, até que Emma diz:
 
— Vamos, Flyn, coma ou quem vai comer sou eu. Estou faminta. Terrivelmente faminta. O menino concorda, e de repente Helena dá uma gargalhada.
 
— Emma, quando falei pra nova cozinheira de meu pai que Regina é espanhola, ela me exigiu que a apresentasse.
 
Ambas sorriem. Sem perder tempo, Emma se levanta, toca com cumplicidade o punho de Helena, pega minha mão e diz:
 
— Vamos atender a cozinheira ou não poderemos voltar aqui.
 
Espantada, me levanto diante do olhar de todos. Quando Flyn vai se levantar para nos acompanhar, Helena atrai a atenção da criança:
 
— Se você for, eu como todas as suas batatas.
 
O garoto defende sua propriedade, enquanto nos afastamos do grupo. Saímos da sala, caminhamos por um corredor amplo e, de repente, Emma para diante de uma porta, mete uma chave na fechadura, me faz entrar e, depois de fechar a porta, murmura, desabotoando a jaqueta:
 
— Não posso aguentar mais, Regina. Tenho fome, e não é da comida que ficou na mesa. Eu a olho desconcertada.
 
— Mas não íamos falar com a cozinheira?
 
Emma se aproxima, o olhar devorador.
— Vamos, querida, tire a roupa. Escala cinquenta, lembra?
 
Ainda espantada, vou responder quando Emma, impetuosa, me pega pela cintura e me senta sobre a mesa do escritório. Mas não disse pra eu tirar a roupa?
 
Ela passa a língua em meu lábio superior, depois no inferior. Quando termina esse contato excitante com uma mordidinha, sou eu que se lança sobre sua boca e a devora. Calor.
 
Excitação.
 
Loucura instantânea.
 
Durante vários minutos, nos beijamos num verdadeiro delírio, enquanto nos acariciamos. Emma está tão excitante e tão intensa que sinto que vou derreter, mas quando, cheia de pressa, levanta meu vestido e bota as mãos na barra de minhas meias, digo:
 
— Stop. — Minha ordem a faz parar. — Não quero que rasgue as meias nem a calcinha. São novas e me custaram uma fortuna.
 
Eu tiro.
 
Sorri, sorri, sorri. Santo Deus! Quando sorri, meu coração bate selvagem.
 
Que rasgue o que quiser!
 
Emma dá um passo atrás. Percebo que seu desejo aumenta. Rápido, ponho um pé em sua barriga. Sem afastar os olhos dos meus, me tira a bota. Repetimos a operação com a outra bota.
 
Uau, que gostosa é minha Icewoman!
Quando as botas estão no chão, desço da mesa, e Emma dá um passo atrás. Eu tiro as meias e as deixo sobre a mesa.
 
A respiração de Emma é tão irregular quanto a minha. Quando ela se ajoelha na minha frente, sem que seja necessário me pedir o que quer, eu a faço. Me aproximo dela e ela encosta seu rosto em minha calcinha, fecha os olhos, murmura:
 
— Você não sabe quanta saudade senti.
 
Eu também senti saudade e, excitada, pouso minhas mãos em seus cabelos e desarrumo, enquanto ela, sem se mexer, esfrega sua face em meu púbis.
 
Então, com um dedo, abaixa um pouco a calcinha e passeia sua boca pela tatuagem. Ouço que murmura:
 
— Peça-me o que quiser, Regina. O que quiser.
Repetindo essa sua frase, tatuada no meu corpo, tira a calcinha e a deixa sobre a mesa. Levanta-se, me abraça e me senta sobre a mesa, depois abre minhas pernas e se põe entre elas. Quando observo seu rosto, vejo que umidece seus lábios, ela é tentadora. Emma sussurra, me deitando:
 
— Fico louca com esta frase em teu corpo, Regina. Eu ficaria horas te lambendo, te chupando, mas agora não há tempo para preliminares. Por isso vou te foder agora mesmo. Sem mais, aproxima-se de minha vagina molhada e com três dedos me penetra com um único e certeiro movimento.
 
Sim, sim, sim...
 
Oh, sim!
 
Ouvimos o zum-zum-zum das pessoas do outro lado da porta, e Emma me possui. Eu a olho e me delicio.
— Chega de segredos entre nós — murmuro. Emma concorda, sem parar de me comer. — Quero sinceridade em nossa relação — insisto, ofegante.
 
— Claro, Regina. Prometido, agora e sempre.
 
A música chega até nós, mas eu só consigo me concentrar no que sinto neste instante. Estou me saciando uma vez depois da outra com a mulher que mais desejo no mundo. Adoro isso. Sua mão esquerda me segura pela cintura, me guia, e eu me deixo guiar, feliz.
 
Emma me aperta contra ela uma vez depois da outra, os dentes cerrados.
 
Meu corpo se abre para receber seus maravilhosos dedos, e ofegante, estou disposta a me abrir mais e mais. De repente, Emma me puxa me levantando e me apoia contra a parede.
 
Oh, meu Deus, sim!
 
Emma, cada vez mais possessiva, entra em mim com mais intensidade. Uma, duas, três vezes. Sete, oito, nove... Eu gemo de prazer.
Sua mão me aperta a bunda, me imobiliza contra a parede. Só posso receber deliciada seus contínuos, maravilhosos e demolidores movimentos. Este é Emma. Esta é nossa maneira de nos amar. Esta é nossa paixão.
 
Calor. Tenho um calor terrível quando sinto que um orgasmo devastador está a ponto de me fazer gritar. Emma me olha e sorri. Contenho o grito e, como posso, sussurro em seu ouvido:
 
— Agora. Vamos, mais fundo agora.
 
Ela obedece, ela sabe como fazer. Emma mergulha fundo seus dedos em mim e eu me delicio e explodo de prazer. Emma me dá o que peço. É minha dona. Meu amor. Minha serva. Ela é tudo para mim, e quando a excitação entre nós parece que vai nos queimar, nasce em nossas gargantas um grito explosivo de libertação que calamos com um beijo. Instantes depois, Emma se arqueia sobre mim e eu, decidida a não deixar que saia pela noite toda, aperto minha Swan.
Quando os estremecimentos do orgasmo maravilhoso começam a desaparecer, nos olhamos nos olhos. Emma murmura, ainda dentro de mim:
 
— Não posso viver sem você. O que você fez comigo, Mills?
 
Isso me faz sorrir. Depois de lhe dar um beijo casto na boca, respondo:
 
— Fiz o mesmo que você fez comigo. Fiz você se apaixonar.
 
Durante uns segundos, minha Swan particular me olha com esse olhar tão seu, tão alemão e tão sedutora que me deixa louca. Eu adoraria estar em sua mente e saber o que passa por ela quando ela me olha desse jeito. Por fim, Emma me dá um beijo nos lábios e me solta de má vontade.
— Eu te comeria em cada canto deste lugar, mas acho que devemos voltar. O pessoal nos espera.
 
Concordo com entusiasmo. Vejo as meias e a calcinha na mesa. Me visto apressadamente, depois que Emma abre uma gaveta e pega uns guardanapos de papel para nos limparmos.
 
— Ora, ora, Swan — noto com um gesto malicioso —, parece que não é a primeira vez que você vem aqui satisfazer suas necessidades.
 
Emma sorri e, depois de vestir sua blusa, responde ajeitando sua calça preta:
 
— Não se engana, senhorita Mills. Este lugar é do pai de Helena. Visitamos este quartinho muitas vezes para nos divertir e compartilhar umas companhias femininas.
Acho graça de seu comentário, mas o ciúme espanhol tão característico da minha personalidade me faz ir além. Emma me olha.
 
— Espero que a partir de agora sempre conte comigo — digo, franzindo os olhos.
 
Emma sorri.
 
— Não tenha dúvidas, pequena. Já sabe que é o centro do meu desejo.
 
Fogo... Falar tão claramente sobre sexo com Emma me enlouquece. Ela, que me conhece, se aproxima e me pega pela cintura.
 
— Logo você vai abrir as pernas pra que outra te foda diante de mim, enquanto beijo teus lábios e bebo teus gemidos de prazer. Só de pensar nisso já fico molhada de novo.
 
Fico vermelha — talvez mais vermelha que um tomate-cereja. Só imaginar o que ela disse me deixa enlouquecida.
 
— Você quer mesmo isso, Regina?
Sem o menor pingo de vergonha, movo a cabeça afirmativamente. Se meu pai me visse, me deserdaria. Emma, divertida, sorri e me beija com carinho.
 
— Vamos fazer, sim, te prometo. Mas agora é melhor acabar de se vestir, minha linda. Há uma mesa cheia de gente nos esperando a poucos metros daqui. Se demorarmos mais, vão começar a suspeitar.
Afogueada pelo que aconteceu e por suas últimas promessas, boto as meias e depois, com a ajuda de Emma, ajeito as botas.
 
— Estou decente de novo? — digo, olhando para ela.
 
Emma me olha de alto a baixo e sussurra, antes de abrir a porta:
 
— Sim, querida. Mas quando chegarmos em casa, te quero totalmente indecente. — Rio. Ela continua, ofegante: — Vamos de uma vez, ou não sou capaz de me conter e rasgo essas tuas amadas meias e calcinha novas.
 
À noite, quando chegamos em casa e Emma coloca Flyn para dormir, fechamos a porta de nosso quarto e nos entregamos ao que mais gostamos: sexo selvagem, cheio de tesão, ardente.

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