quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Peça-me o que quiser Capítulo 4

Capítulo 4


Chego em casa às sete e meia. Dou oi para o meu gato Trampo, que vem bem devagar me receber. Largo a bolsa no sofá cor de berinjela, vou até a cozinha, pego seu remédio, abro a boca de Trampo e lhe dou umas gotas. O coitadinho nem se perturba mais. 
Após dar sua cota diária de carinho, abro a geladeira para pegar uma Coca-Cola. Sou viciada em Coca-Cola... é desesperador! Sem pensar em mais nada, vejo a pilha de roupas para passar que estão em cima da cadeira. Embora viver sozinha e ser independente tenha lá suas vantagens, se eu estivesse morando com meu pai essa roupa toda com certeza estaria passadinha e pendurada no armário.
 
Depois de terminar a lata de Coca, corro para o banho. Antes, ponho um CD do Guns’n’Roses. Adoro essa banda. E Axl, o vocalista, com esse cabelo e essa cara de gringo, e com seu jeito de mexer os quadris. Fico louca! Entro no banheiro. Tiro a roupa enquanto cantarolo Sweet Child O’Mine.
Que maravilha! Que voz esse homem tem! Instantes depois, suspiro ao sentir a água quente caindo sobre minha pele. Faz com que eu me sinta limpa. Mas, de repente, a senhora Swan e seu jeito de falar comigo surgem em minha mente, e minhas mãos, escorregadias por causa do sabonete, descem pelo meu corpo. Abro as pernas e me toco. Ah, sim, Swan!
Pensar em sua boca, em como percorreu meus lábios com sua língua, me excita. Lembrar de seus olhos e dela toda me deixa a mil. Calor de novo! Minhas mãos deslizam sobre mim, e uma delas se detém no meu seio direito, enquanto a voz penetrante do vocalista do Guns’n’Roses continua a ecoar. Toco o mamilo direito com o polegar, fazendo-o ficar duro. Mais calor!
 
Fecho os olhos e imagino que é Swan quem o toca, quem o endurece. Não a conheço. Não sei nada sobre ela. Mas sei, sim, que sua proximidade me enche de tesão. Solto um gemido bem no instante em que ouço o toque do meu telefone. Deixo tocar. Não quero interromper esse momento. Mas no sexto toque abro os olhos, saio da minha bolha de prazer, pego a toalha e corro até o quarto para atender.
 
— Por que demorou tanto pra atender? É minha irmã. Como sempre, na hora errada e fazendo mil perguntas.
 
— Eu estava no banho, Mary. Algum problema? Sua risadinha me faz rir também.
 
— Como está o Trampo? Dou de ombros e suspiro.
 
— Igual a ontem. Sem muita novidade.
— Maninha, você tem que estar preparada. Lembra o que o veterinário disse.
 
— Eu sei, eu sei.
 
— O Robin te ligou? — me pergunta após um breve silêncio.
 
— Não.
 
— E você vai ligar pra ele?
 
— Não. Minha irmã não se contenta com minha resposta e insiste:
 
— Regina, esse cara é ideal pra você. Tem um trabalho estável, é bonito, gentil e...
 
— Então fica você com ele.
 
— Regina! — protesta minha irmã.
 
Robin é o típico amigo da vida toda. Nós dois somos de Jerez. Meu pai e o pai dele vivem nessa cidade linda e a gente se conhece desde pequenos. Na adolescência começamos um rolo que continuou quando já éramos adultos. Ele mora em Valência, e eu em Madri. É inspetor de polícia, e nos vemos nas férias de verão e inverno quando nós dois vamos a Jerez ou em viagenzinhas relâmpago que ele faz a Madri com qualquer pretexto para me ver.
 
É alto, bonito e bem divertido. Com ele eu consigo passar horas rindo, porque tem um humor e um encanto irresistíveis. O problema é que não estou tão envolvida por ele quanto eu sei que ele está por mim. Gosto dele. É meu casinho de verão e trocamos fluidos quando vem me ver. Nada além disso. Não quero mais nada, embora vez ou outra minha irmã, meu pai e todos os nossos amigos de Jerez se empenhem em fazer a gente ficar juntos.
 
— Escuta, Regina, não seja idiota. Liga pra ele. Disse que iria te ver antes de ir a Jerez e com certeza vai fazer isso.
— Ai, Mary, como você é chata! Minha irmã sempre faz a mesma coisa: me enche o saco e, quando percebe que vou falar alguma besteira, muda de assunto.
 
— Quer vir jantar aqui?
 
— Não, tenho um encontro. Ouço-a bufar.
 
— E posso saber com quem? — pergunta.
 
— Com um amigo — minto. Do jeito que ela é puritana, se eu disser que é com minha chefe ela vai desmaiar.
 
— E agora, irmãzinha, chega de perguntas.
 
— Tá bom, você sabe o que faz. Mas continuo achando que está enrolando o Robin e ele vai acabar se cansando de você. Espera só!
 
— Mary!
 
— Tá bom, tá bom, maninha, não digo mais nada. Aliás, hoje voltei a receber flores do Whale. O que você acha disso?
 
— Caraca, Mary, o que você quer que eu ache? — respondo irritada. — É um gesto carinhoso da parte dele.
— Sim. Mas ele nunca tinha me dado dois buquês de flores num intervalo de três semanas. Aí tem. Alguma coisa tá rolando, eu sei. Eu o conheço e sei que ele não é tão gentil assim.
Olho o relógio digital sobre a mesinha: são oito e cinco. Mas, disposta a aguentar as paranoias da minha irmã, levo o telefone pro banheiro, deixo-a esperando na linha e enrolo o cabelo numa toalha.
 
— Vamos lá, o que houve? Como já está virando rotina, Mary me conta a última briga com o marido. Estão casados há dez anos, e a vida deles deixou de ser emocionante quando nasceu Grace, minha sobrinha. Suas contínuas crises conjugais são o assunto preferido dela, mas me cansam.
 
— A gente já não sai juntos. Não anda de mãos dadas. Ele nunca me convida pra jantar. E agora, do nada, me manda dois buquês de flores. Não acha que ele está se sentindo culpado por alguma coisa? Minha cabeça quer gritar: “Sim! Acho que seu marido está te traindo!” Mas minha irmã é uma sofredora nata, então respondo rapidamente:
 
— Não acho. Talvez ele tenha visto as flores e se lembrou de você. Qual é o problema? Após meia hora de papo com ela, finalmente consigo desligar o telefone sem falar do meu estranho encontro com a senhora Swan. Gostaria de contar a ela, mas minha irmã logo me diria: “Você está louca? É sua chefe?” Ou quem sabe: “E se for uma assassina louca?” Então prefiro ficar quieta. Não quero pensar que ela pode ter razão.
 
Às 20h40, fico histérica ao revirar meu armário.
 
Não sei o que vestir.
Quero estar linda como ela me pediu, mas a questão é que minhas roupas são bem básicas e funcionais. Terninhos para o trabalho e jeans para sair com os amigos. Acabo escolhendo um vestido verde que tem um corte bonito e se ajusta às minhas curvas, e resolvo estrear um par bem provocante de sapatos altos. Minha última extravagância. Volto a consultar o relógio, nervosa. Já são 20h50.
 
Sem tempo a perder, ligo o secador e seco meu cabelo mecha por mecha. Para meu espanto, o resultado me agrada. Como não sou de me maquiar muito, passo delineador, rímel e batom. Odeio usar muita maquiagem; isso eu deixo para minha chefe.
 
Toca o interfone. Olho as horas. Nove em ponto. Pontualidade alemã. Atendo nervosa e, antes de abrir a boca, ouço uma voz:
 
— Senhorita Mills, estou esperando aqui embaixo. Desça.
 
Após balbuciar um tímido “Estou indo”, desligo. Em seguida pego minha bolsa, beijo a cabeça de Trampo e me despeço dele. Dois minutos depois, ao passar pela portaria, vejo-a apoiada num impressionante BMW cor de vinho. Porém o mais impressionante é ela própria, em seu longo e justo vestido vermelho. Ao me ver, Swan vem e me dá um beijo educado na bochecha.
— A senhorita está muito bonita — observa.
 
Tenho duas opções: sorrir e agradecer ou ficar quieta. Opto pela segunda. Estou tão nervosa e desconcertada que, se eu disser algo, nem sei o que pode sair da minha boca.
 
Ela abre a porta de trás do carro, e eu me surpreendo ao ver que temos um motorista.
Uau, que luxo!
 
Eu o cumprimento. Ele retribui.
 
— Tomás, tenho reserva no Moroccio — diz Swan assim que entra no carro.
Dito isso, aperta um botão e um vidro opaco se interpõe entre nós e o motorista.
Olha para mim e eu não sei o que dizer. Minhas mãos suam e eu sinto que meu coração vai pular do meu peito.
 
— Está tudo bem?
 
— Sim.
 
— Então por que está tão calada?
Olho para ela e encolho os ombros sem saber o que responder.
 
— Nunca tive um encontro como este, senhora Swan — consigo dizer. — Em geral, quando saio para jantar com alguém, eu...
 
Sem me deixar terminar a frase, me encara com seus penetrantes olhos verdes.
 
— Sai para jantar com muitos homens, ou mulheres?
 
Aquela pergunta me surpreende. Por acaso essa mulher se acha a última fêmea do planeta? Respiro fundo e me contenho para não responder com alguma grosseria.
 
— Sempre que tenho vontade — esclareço.
Levanto o queixo com orgulho e, quando penso que não vou dizer mais nada, eu solto:
 
— O que eu não entendo é o que faço aqui, em seu carro, com a senhora e indo jantar. Isso é algo que ainda não consigo entender. Ela não responde. Apenas me olha... me olha... me olha e me deixa perturbada com seu olhar.
— O senhora vai falar alguma coisa ou pretende passar todo o tempo me olhando?
 
— Olhar a senhorita é muito agradável.
 
Xingo e suspiro. Em que furada eu fui me meter? Mas, como não consigo ficar quieta, pergunto:
 
— Qual é o motivo desse jantar?
 
— Sua companhia me agrada.
 
— E por que perguntou se saio com muitos homens ou mulheres?
 
— Só por curiosidade.
 
— Curiosidade? — repito, coçando o pescoço, desconfiada. — Por acaso uma mulher como o senhora leva uma vida solitária?
 
— Não, senhorita.
 
— Fico feliz em saber, porque eu também não.
 
— Pare de coçar o pescoço, senhorita Mills — ela sussurra, curvando os lábios.
 
— As brotoejas...
Cansada de tanta formalidade e levando em conta tudo o que já foi dito, eu protesto. Vamos parar com isso logo de uma vez!
 
— Por favor... Pode me chamar de Regina ou Regi. Deixemos a formalidade para o horário do expediente. Tudo bem, a senhora é minha chefe e eu lhe devo respeito, mas me incomoda jantar com alguém que fica me chamando pelo meu sobrenome.
 
Ela faz que sim. Parece ter ficado satisfeita com minhas palavras. Seus lábios me lançam um sorriso, e seu rosto se aproxima do meu.
 
— Acho ótimo, desde que a senhorita me chame de Emma — sussurra — É desagradável e muito impessoal jantar com uma mulher que se dirige a mim pelo meu sobrenome.
Após suspirar novamente, aceito e lhe estendo a mão.
 
— Combinado, Emma, prazer em te conhecer.
 
Ela pega minha mão e, para minha surpresa, dá um beijo nela.
 
— Digo o mesmo, Regi — acrescenta numa voz dócil.

Nesse instante, o carro para e, já do lado de fora, Tomás abre a porta para nós. A senhora Swan... digo, Emma desce e me oferece sua mão para sair. Quando já estamos as duas na rua, o motorista entra de novo no BMW e vai embora. Então Emma me segura pela cintura e eu leio um letreiro que diz “Moroccio”.
 
Entrar naquele restaurante bonito e iluminado me deixa de bom humor. Sempre quis ir ali. Além disso, estou faminta; quase não comi nada na hora do almoço e estou com uma fome absurda. Ao entrarmos, observo as mesas do lugar e, em especial, os pratos que os garçons servem. “Meu Deus, esses pratos estão com uma cara maravilhosa!” Ao avistar Emma, o maître sorri e se dirige a nós.
— Acompanhem-me — ele diz após nos cumprimentar. Emma me segura pela mão e eu me deixo levar. Vejo algumas mulheres olhando para ela, o que me enche de orgulho por ser eu quem está a seu lado, e não elas. Ao atravessar o salão onde as pessoas estão jantando, chegamos a um espaço reservado com divisórias em tecido de cetim dourado. Não consigo esconder a surpresa, e, quando o maître abre uma dessas cortinas e nos convida a entrar, quase pulo de felicidade.
 
É um lugar luxuoso e iluminado por velas. Num canto há uma poltrona que parece confortável e, no centro, uma mesa redonda e arrumada para dois. Emma sorri do meu espanto, e percebo que ela dirige um olhar ao maître para nos deixar a sós. Chega perto de mim e, num gesto de cavalheirismo, puxa uma das cadeiras para eu me sentar.
 
— Gostou?
 
— Gostei...
 
Enquanto me acomodo na cadeira, ela dá a volta na mesa e senta na minha frente.
 
— Nunca jantou aqui?
 
— Já passei mil vezes pela porta, mas nunca tinha entrado. Só de olhar do lado de fora, já dá pra saber que os preços são proibitivos para uma assalariada modesta como eu.
 
Em resposta ao que digo, Emma torce o nariz e estende sua mão sobre a mesa até alcançar a minha. Começa a acariciar meu pulso, desenhando com o dedo suaves movimentos circulares.
 
— Para você, poucas coisas são proibitivas — murmura.
 
Isso me faz rir.
 
— Mais do que você imagina.
 
— Duvido, pequena. Tenho certeza de que é você quem impõe os limites.
 
Seu olhar, sua voz rouca e seu jeito de me chamar de “pequena” me cativam. Meu corpo inteiro fica arrepiado. Ela. A senhora Swan, minha chefe, me fascina a cada segundo que passa.
Aperta um botão verde que fica na lateral da mesa e, após alguns segundos, aparece um garçom com uma garrafa de vinho. Enquanto serve a bebida, leio no rótulo “Flor de Pingus. Ribera del Duero”. Cara, eu detesto vinho! E estou doida por uma Coca-Cola bem gelada. Emma pega a taça que o garçom serviu, chacoalha um pouco, aproxima do nariz e toma um pequeno gole.
 
— Excelente.
 
O garçom enche o restante da taça e depois dá a volta na mesa e me serve também. E agora? Instantes depois, ele se retira, nos deixando a sós.
 
— Prova o vinho, Regi. É maravilhoso.
 
Pego a taça e faço cara de séria. Mas, quando vou levá-la à minha boca, sinto a mão dela sobre a minha.
 
— O que houve? — ela pergunta.
 
— Nada. Emma inclina a cabeça.
 
— Regi, eu te conheço pouco, mas já estou vendo as brotoejas aparecendo no seu pescoço — diz, surpreendendo-me.
 
— Você mesma me falou sobre isso. O que aconteceu?
 
Sem conseguir me conter, abro um sorriso. Essa Emma Swan não perde uma.
 
— Quer saber a verdade?
 
— Sempre — insiste.
 
— Não gosto de vinho e estou morrendo de vontade de tomar uma Coca geladinha.
Chocada e irônica, olha para mim como se eu tivesse dito que os Teletubbies são meu seriado favorito e que Bob Esponja é meu namorado.
 
— Você vai gostar desse vinho cor de rubi escuro — murmura com uma voz rouca porém gentil. — Faça isso por mim e prove. Se não gostar, é claro que eu peço uma Coca pra você.
Sem dizer nada, eu tomo um gole depressa.
 
— Que tal? — pergunta sem tirar de mim seus olhos penetrantes.
 
— Uma delícia. Melhor do que eu imaginava.
 
— Quer que eu peça a Coca? Sorrio e digo que não com a cabeça. Instantes depois, a cortina se abre de novo e surgem dois garçons com vários pratos.
— Tomei a liberdade de fazer o pedido para nós duas. Tudo bem? Faço que sim. Não me resta alternativa. E pouco depois saboreio um delicioso coquetel de camarões, uma sofisticada pasta de berinjela e, em seguida, um ótimo salmão ao molho de laranja. Enquanto isso, nós duas conversamos. Emma Swan se tornou de repente uma mulher com grande senso de humor, e isso me atrai muito. Então me dou conta de que uma luz alaranjada se acende no canto direito da sala.
 
— O que é isso? Sem precisar olhar, Emma sabe a que me refiro.
 
— Talvez depois da sobremesa eu te mostre.
 
Isso me faz sorrir e eu tomo um gole do vinho que, por sinal, acho cada vez mais saboroso.
— Por que só depois da sobremesa? Minha pergunta parece diverti-la. Ela me encara e se recosta em sua cadeira.
 
— Porque primeiro eu quero jantar.
 
Não pergunto mais e, quando termino o salmão, os garçons entram para recolher os pratos. Segundos depois, entra outro garçom e deixa à minha frente uma fatia de torta de chocolate acompanhada de uma bola cor-de-rosa.
— Hummmm, que delícia. — E, ao ver que não lhe servem, pergunto:
 
— Você não vai comer sobremesa?
Não me responde. Limita-se a levantar, pegar sua cadeira e se acomodar a meu lado. Fico meio nervosa. É tão sexy que é impossível não pensar em mil safadezas nesse momento. Pega a colherzinha, parte um pedaço da torta, coloca um pouco de sorvete e diz:
 
— Abre a boca. Pisco os olhos, surpresa.
 
— Quê?
 
Não repete o que disse. Me aponta a colher e, automaticamente, abro a boca. Me sinto extasiada. Enfia a colher devagar na minha boca e eu logo fecho os lábios. Me olha. Fico excitada e sorrio com timidez. Após engolir essa iguaria, tento dizer alguma coisa, mas ela me interrompe:
 
— Está gostoso? Com meu paladar ainda adocicado pelo chocolate e o sorvete de morango, faço que sim com a cabeça. Ela chega mais pra perto:
 
— Posso provar?
Digo que sim, e minha surpresa é enorme quando o que ela prova na verdade são os meus lábios. Minha boca. Encosta seus lábios suculentos nos meus e os saboreia. Como fez de manhã no arquivo, primeiro põe a língua para fora, lambe meu lábio superior, em seguida o inferior, depois dá uma mordidinha e, por fim, sua língua sensual me invade e eu fecho os olhos esperando mais. Quando sinto sua mão sobre meu joelho, minha respiração se acelera, mas eu não me mexo. Quero mais. Lentamente ela vai subindo com a mão até chegar à parte interna das minhas coxas, e fica massageando. Sua mão sobe até minha calcinha e eu sinto seu dedo ali. Mas, de repente, ela se afasta de mim e volta à sua posição na cadeira.
 
Minhas bochechas estão pegando fogo. Ardem, assim como meu corpo inteiro está ardendo. Aquele contato íntimo me deixou a mil. O que está havendo comigo? Um beijo e um simples roçar de sua mão quase me levaram ao orgasmo, e isso acelera minhas pulsações. Emma me observa. Vejo seus olhos ardendo de desejo.
 
— Eu tiraria sua roupa todinha aqui mesmo — murmura.
 
Estou tremendo. Meu Deus! Vou ter um troço!
 
Quero mais e desta vez sou eu que começo a beijá-la. Ela aceita meus lábios mas, quando vou agarrá-la pelo pescoço, segura minhas mãos e se afasta um pouco de mim.
 
— Até onde está disposta a ir? — pergunta, bem perto dos meus lábios.
 
Essa frase me tira dos eixos. Ela está se referindo a quê? Mas o desejo que sinto por ela agora é tão forte e tão safado que respondo completamente enfeitiçada:
 
— Até onde a gente for.
 
— Tem certeza?
 
— Bem — murmuro, extasiada. — Só não aceito sado.
 
Emma sorri. Passa as mãos por baixo das minhas pernas e por minha cintura e me senta sobre seu colo. Vou explodir. Estou no colo da minha chefe! Esfrega seu nariz no meu pescoço e eu a ouço aspirar meu cheiro. Meu perfume. Aire de Loewe. Fecho os olhos e, quando os abro, vejo que está me olhando.
— Quer mesmo saber o que significa essa luz laranja?
 
Desloco meu olhar em direção à luz, que continua acesa, e faço que sim com a cabeça. Emma mexe a mão e aperta um dos botões que ficam na lateral da mesa. As cortinas de cetim que estão sob a luz laranja se abrem e um vidro escuro aparece. O que é isso? Emma me observa. Instantes depois, o vidro se ilumina e vejo com toda a nitidez duas mulheres em cima de uma mesa fazendo sexo oral. Alucinada, desconcertada e incrédula, assisto ao espetáculo que aquelas desconhecidas nos oferecem quando, de repente, Emma aperta outro botão e os gemidos das mulheres ecoam em nosso ambiente privativo. Não sei o que fazer. Nem sei para onde olhar.
 
— Está preparada para isso? — me pergunta.
 
Minha pele arde enquanto sinto seus dedos firmes acariciando minha cintura. Eu a encaro, confusa.
 
— Por que estamos vendo isso?
 
— Gosto de assistir. Isso não te excita?
Não respondo. Não consigo. Estou tão paralisada que nem mesmo sei se continuo respirando.
 
— Todo mundo tem seu lado voyeur. Ver algo supostamente proibido, bizarro ou excitante nos atrai, nos estimula e nos faz querer mais.
Volto a dirigir meu olhar ao vidro enquanto a respiração das duas mulheres ressoa pela sala, e então vejo Emma apertando outro botão e as cortinas do lado esquerdo se abrindo. Ali havia uma luz verde. Segundos depois, o vidro se ilumina e vejo dois homens e uma mulher. Ela está deitada num divã. Um homem a penetra e o outro chupa seus seios enquanto ela, deliciada, curte o momento.
 
— Cenas como essa merecem ser vistas — prossegue Emma. — As expressões da mulher enquanto permite que desfrutem de seu corpo e de sua feminilidade são enlouquecedoras. Olha como ela está excitada... Hummmm.... Está adorando o que fazem com ela. Entrega-se extasiada a eles, não acha?
— Não... sei.
 
— As mulheres são uma contínua fonte de excitação para mim. Vocês são deliciosas.
 
Com o coração a mil, pego a taça de vinho e bebo tudo de um gole só. Estou sedenta quando a ouço dizer:
 
— Fique calma. Eles não podem nos ver. Mas se deixam ser observados. A luz laranja permite ver, e a luz verde convida a participar. Você gostaria?
 
— De quê?
 
— De participar.
 
— Não — balbucio, supernervosa.
— Por quê?
 
Meu coração quase sai pela boca, e tudo o que consigo responder é:
 
— Eu... Eu não faço coisas desse tipo.
 
Ela franze as sobrancelhas e pergunta:
 
— Você é virgem?
 
— Nãããããooo! — respondo com extrema efusividade. — Mas eu...
 
— Tá bom. Entendo. Você faz sexo tradicional, né?
 
Como uma idiota, balanço a cabeça afirmativamente e ela segura meu queixo para que eu veja o trio, que continua com sua brincadeira voluptuosa.
 
— Eles também fazem sexo tradicional — acrescenta. — Mas às vezes brincam e experimentam algo diferente. É sério que isso não te atrai?
 
Sem conseguir tirar os olhos, eu os observo e um gemido acaba saindo instintivamente de dentro de mim quando vejo o tesão daquela mulher. Estou excitada.
 
— Não... eu... — respondo.
 
— Te incomoda falar de sexo?
 
Eu a encaro surpresa. Aonde ela quer chegar com essa pergunta?
 
— Seus olhos mostram que está nervosa, mas sua boca denuncia seu desejo — insiste.
— Você não pode negar que o que está vendo te deixa excitada e muito, certo?
 
Não respondo. Me recuso. E ela, no controle da situação, murmura perto do meu ouvido:
 
— Você se sairia muito bem. Muito bem, Regina. Eu iria te proporcionar todo o prazer que você quisesse. É só me pedir e eu te darei.
 
Como uma boba, faço que sim. Nunca pude imaginar algo assim na minha vida. Não sei para onde olhar. Estou tão excitada que sinto até vergonha de admitir. O lugar, o momento e a mulher que está a meu lado não me deixam continuar pensando.
 
— Nessas salinhas privativas, quem quiser pode assistir a uma cena deliciosa e algo mais. Apenas um seleto grupo de pessoas pode entrar aqui. E, se depois de assistir à cena você quiser participar, é só apertar esse botão e os vidros desaparecerão.
De repente fico histérica. Muito nervosa. Não quero nada do que ela está me oferecendo. Tento me levantar, mas Emma me segura. Não permite que eu me mexa, e, com a respiração superacelerada, eu sussurro:
— Quero ir embora.
 
— Ainda são onze horas.
 
— Não importa... quero sair daqui.
 
— Por quê, Regina? — Ao ver que não respondo, acrescenta:
 
— Pelo que eu me lembre, você disse que estava disposta a tudo.
 
— Não me referia a isto. Eu... eu não faço essas coisas. Segurando-me com mais força, Emma me obriga a olhar para ela e, após cravar seus olhos claros em mim, murmura perto da minha boca:
 
— Você se surpreenderia se experimentasse.
 
— Emma, eu não...
 
— Regina, sexo é um jogo muito divertido. Só precisa ter coragem de experimentar.
 
Nego com a cabeça, desconcertada. Não quero experimentar. O sexo normal, que conheço, é mais que suficiente e me satisfaz. Após alguns segundos que me parecem uma eternidade, Emma aperta os botões, e os gemidos somem. Instantes depois, os vidros se tornam escuros e as cortinas se fecham.
 
— Obrigada — consigo balbuciar.
 
Me levanta de seu colo e me olha com expressão séria.
 
— Vamos, Regi. Vou te levar pra casa.
 
Meia hora mais tarde e após um estranho mas não incômodo silêncio, rompido apenas por sua conversa ao telefone com uma mulher, chegamos à minha rua. Ela desce do carro comigo e me acompanha. Sua atitude volta a ser fria e distante. Tomamos o elevador. Quando estamos diante da minha porta, quero convidá-la a entrar, mas ela me interrompe:
 
— Foi um jantar muito agradável, senhorita Mills. Obrigado por sua companhia. Dito isso, beija minha mão e vai embora. Estou excitada e sem palavras às onze e meia da noite. Voltei a ser a senhorita Mills?

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