Capítulo 2
No dia seguinte, quando chego ao
escritório, todos parecem felizes. Cruzo com Killian e não posso deixar de
sorrir. Ele e a chefe. Se eles soubessem que os vi...mas, como não quero pensar
nisso, vou até minha mesa e, enquanto ligo o computador, vejo que ele vem
vindo.
– Bom dia, Regina.
– Bom dia.
Killian, além de ser meu colega, é um sujeito muito simpático. Desde meu primerio dia no escritório, ele tem sido um amor comigo e nos damaos muito bem. Quase todas no trabalho babam por ele, mas, não sei por quê, em mim ele não surte o mesmo efeito. Será qua não gosto de caras meiguinhos e sorridentes? Mas, claro, agora, sabendo o que sei e tendo visto como é bem dotado, não posso deixar de olhá-lo de outra forma enquanto tento não gritar: "Garanhão!"
– Está sabendo que hoje á tarde tem reunião geral?
– Aham.
Como era de se esperar, ele sorri, segura meu braço e diz:
– Vem, vamos tomar um café. Sei que você adora um cafezinho e uma torrada da cafeteria.
Sorrio também. Como me conhece, esse desgraçado... Além de simpático e gato, o cara não deixa passar uma. Isso, somando a seu sorriso constante, é o grande atrativo de Killian. Sempre gentil. É assim que ele enrola todas na conversa.
Quando chegamos à cafeteria do nono andar, vamos ao balcão, fazemos os pedidos e nos dirigimos à nossa mesa. Digo "nossa mesa" porque sempre sentamos ali. Paco e Raul se juntam a nós. Um casalzinho gay com o qual me dou muito bem. Como sempre, me dão um beijinho no pescoço e me fazem rir. Começamos a conversar e eu logo me lembro do que vi na noite anterior no estacionamento. Killian e a chefe! Que trepada insana, e bem na minha frente. Que menino-prodígio, esse meu colega!
– O que houve? Você parece distraída - pergunta Killian.
Sua abordagem me desperta. Olho para ele e respondo, tentando esquecer as imagens que surgiam na minha mente:
– Estou meio fora do ar, eu sei. Meu gato está cada dia mais fraquinho e...
– Que pena, o trampinho - murmura Paco, e Raul faz uma cara compreensiva.
– Ah, sintou muito, querida - responde Killian, enquanto segura minha mão.
– Bom dia, Regina.
– Bom dia.
Killian, além de ser meu colega, é um sujeito muito simpático. Desde meu primerio dia no escritório, ele tem sido um amor comigo e nos damaos muito bem. Quase todas no trabalho babam por ele, mas, não sei por quê, em mim ele não surte o mesmo efeito. Será qua não gosto de caras meiguinhos e sorridentes? Mas, claro, agora, sabendo o que sei e tendo visto como é bem dotado, não posso deixar de olhá-lo de outra forma enquanto tento não gritar: "Garanhão!"
– Está sabendo que hoje á tarde tem reunião geral?
– Aham.
Como era de se esperar, ele sorri, segura meu braço e diz:
– Vem, vamos tomar um café. Sei que você adora um cafezinho e uma torrada da cafeteria.
Sorrio também. Como me conhece, esse desgraçado... Além de simpático e gato, o cara não deixa passar uma. Isso, somando a seu sorriso constante, é o grande atrativo de Killian. Sempre gentil. É assim que ele enrola todas na conversa.
Quando chegamos à cafeteria do nono andar, vamos ao balcão, fazemos os pedidos e nos dirigimos à nossa mesa. Digo "nossa mesa" porque sempre sentamos ali. Paco e Raul se juntam a nós. Um casalzinho gay com o qual me dou muito bem. Como sempre, me dão um beijinho no pescoço e me fazem rir. Começamos a conversar e eu logo me lembro do que vi na noite anterior no estacionamento. Killian e a chefe! Que trepada insana, e bem na minha frente. Que menino-prodígio, esse meu colega!
– O que houve? Você parece distraída - pergunta Killian.
Sua abordagem me desperta. Olho para ele e respondo, tentando esquecer as imagens que surgiam na minha mente:
– Estou meio fora do ar, eu sei. Meu gato está cada dia mais fraquinho e...
– Que pena, o trampinho - murmura Paco, e Raul faz uma cara compreensiva.
– Ah, sintou muito, querida - responde Killian, enquanto segura minha mão.
Por alguns instantes conversamos sobre
meu gato e isso me deixa ainda mais triste. Adoro o Trampo e, inevitalvelmente,
a cada dia que passa, cada hora, cada minuto, seu tempo de vida diminui. É algo
que aprendi a admitir desde que o veterinário me alertou, mas ainda assim me
dói. Me dói muito.
Logo minha chefe chega , rodeada por vários homens, como sempre. É uma galinha! Killian a vê e sorri. Eu fico quieta. Minha chefe é uma mulher muito atraente. Cá entre nós, ela é uma gostosona poderosa, uma ruiva cheia de si, solteira mas não solitária, e que dizem ter vários casos na empresa. Cuida-se como ninguém e vai todo dia à academia. Ou seja, ela gosta... que gostem dela.
– Regina - me interrompe Killian. - Falta muito?
Volto a mim e deixo de olhar minha chefe para olhar meu café da manhã. Bebo um gole de café e respondo:
– Terminei!
Nos quatro nos levantamos e saímos da cafeteria. Temos de começar a trabalhar.
Uma hora mais tarde, após tirar umas cópias e finalizar um documento, me dirijo à sala da minha chefe. Bato na porta e entro.
– Aqui está o contrato pronto para a sucursal de Albacete.
– Obrigada - responde secamente enquanto passa os olhos pelo documento.
Como de hábito, fico parada diante dela à espera de suas ordens. O cabelo da minha chefe é lindo. tão ondulado, tão cuidado. Nada a ver com meu cabelo preto e liso que costumo prender num coque no alto da cabeça. O telefone toca e antes que ela me olhe eu atendo.
– Sala da senhora Zelena Mader. Quem fala é a secretária, senhorita Mills. Em que posso ajudá-la?
– Bom dia, senhorita Mills - responde uma voz profunda de uma mulher com leve sotaque estraneiro. - Aqui é Emma Swan. Eu gostaria de falar com sua chefe.
Ao reconhecer aquele nome, reajo depressa.
– Um momento, senhora Swan.
Minha chefe, ao escutar aquele sobrenome, larga os papéis que até então segurava e, a pós literalmente arrancar o telefone das minhas mãos, diz com um sorriso encantador nos lábios:
– Emma...que bom você ter ligado! - Depois de um breve silêncio, continua: - Claro, claro. Ah! Mas você já chegou a Madri?... - Então solta uma gargalhada superfalsa e sussura: - Claro, Emma. Te espero às duas na recepção pra almoçar. E após dizer isso, desliga e olha pra mim.
– Marque um horário pra mim no cabeleireiro para dentro de meia hora. Depois, uma reserva pra dois no restaurante da Gemma.
Logo minha chefe chega , rodeada por vários homens, como sempre. É uma galinha! Killian a vê e sorri. Eu fico quieta. Minha chefe é uma mulher muito atraente. Cá entre nós, ela é uma gostosona poderosa, uma ruiva cheia de si, solteira mas não solitária, e que dizem ter vários casos na empresa. Cuida-se como ninguém e vai todo dia à academia. Ou seja, ela gosta... que gostem dela.
– Regina - me interrompe Killian. - Falta muito?
Volto a mim e deixo de olhar minha chefe para olhar meu café da manhã. Bebo um gole de café e respondo:
– Terminei!
Nos quatro nos levantamos e saímos da cafeteria. Temos de começar a trabalhar.
Uma hora mais tarde, após tirar umas cópias e finalizar um documento, me dirijo à sala da minha chefe. Bato na porta e entro.
– Aqui está o contrato pronto para a sucursal de Albacete.
– Obrigada - responde secamente enquanto passa os olhos pelo documento.
Como de hábito, fico parada diante dela à espera de suas ordens. O cabelo da minha chefe é lindo. tão ondulado, tão cuidado. Nada a ver com meu cabelo preto e liso que costumo prender num coque no alto da cabeça. O telefone toca e antes que ela me olhe eu atendo.
– Sala da senhora Zelena Mader. Quem fala é a secretária, senhorita Mills. Em que posso ajudá-la?
– Bom dia, senhorita Mills - responde uma voz profunda de uma mulher com leve sotaque estraneiro. - Aqui é Emma Swan. Eu gostaria de falar com sua chefe.
Ao reconhecer aquele nome, reajo depressa.
– Um momento, senhora Swan.
Minha chefe, ao escutar aquele sobrenome, larga os papéis que até então segurava e, a pós literalmente arrancar o telefone das minhas mãos, diz com um sorriso encantador nos lábios:
– Emma...que bom você ter ligado! - Depois de um breve silêncio, continua: - Claro, claro. Ah! Mas você já chegou a Madri?... - Então solta uma gargalhada superfalsa e sussura: - Claro, Emma. Te espero às duas na recepção pra almoçar. E após dizer isso, desliga e olha pra mim.
– Marque um horário pra mim no cabeleireiro para dentro de meia hora. Depois, uma reserva pra dois no restaurante da Gemma.
Dito e feito. Cinco minutos mais tarde,
ela sai voando do escritório e volta uma hora e meia depois com seu cabelo mais
brilhante e bonito e com a maquiagem retocada. Às 13h45, vejo Killian batendo
na sua porta e entrando. Olha isso! Não quero nem pensar no que estarão
fazendo. Passados cinco minutos, ouço gargalhadas. Às 13h55, a porta se abre,
os dois saem e minha chefe vem falar comigo.
— Regina , você já pode ir almoçar. E lembre-se: estarei com a senhorita Swan. Se às cinco eu não tiver voltado e você precisar de qualquer coisa, ligue pro meu celular. Quando a bruxa má e Killian vão embora, eu enfim respiro aliviada. Solto o cabelo e tiro os óculos. Depois pego minhas coisas e caminho até o elevador. Meu escritório fica no 17º andar. O elevador para em vários andares para pegar outros funcionários, e com isso ele sempre demora a chegar ao térreo. De repente, entre o quinto e o sexto andar, o elevador dá um tranco e para completamente. As luzes de emergência se acendem, e Belle , do almoxarifado, começa a gritar.
— Ai, minha Nossa Senhora! O que está acontecendo?
— Fique calma — respondo. — Acabou a luz, mas com certeza vai voltar daqui a pouco.
— E vai demorar quanto?
— Não sei, Belle. Mas, se você ficar nervosa, vai se sentir mal aqui dentro e esse tempo vai parecer uma eternidade. Então respire fundo e você vai ver como a luz volta num piscar de olhos. Mas, vinte minutos depois, a luz ainda não tinha voltado, e Belle, como várias meninas da contabilidade, entram em pânico. Percebo que tenho de fazer alguma coisa. Vejamos. Não gosto nada de estar presa num elevador. Fico agoniada e começo a suar. Se eu entrar em pânico, vai ser pior, então decido buscar soluções. Primeiro, junto o cabelo na nuca e prendo com uma caneta. Depois passo minha garrafinha d’água para Belle beber e tento brincar com as meninas da contabilidade enquanto distribuo chicletes de morango. Mas meu calor vai aumentando, então tiro um leque da minha bolsa e começo a me abanar. Que calor!
Nesse momento, uma das mulheres que estava apoiada num canto do elevador fica mais perto de mim e me segura pelo cotovelo.
— Você está bem?
Sem olhar para ela e sem deixar de me abanar, respondo:
— Uf! Quer que eu minta ou diga a verdade?
— Prefiro a verdade.
Achando graça, me viro em sua direção e, de repente, meu nariz roça contra uma jaqueta cinza. Cheira muito bem. Perfume caro.
Mas o que ela faz tão perto de mim?
Imediatamente dou um passo pra trás e fixo o olhar nela pra ver quem é. Devo logo dizer que é alta — eu chego apenas à altura dos ombros. Também tem cabelos louros, é jovem e de olhos claros. Não me lembra ninguém, e, ao perceber que ela me observa à espera de uma resposta, eu cochicho para que só ela possa ouvir:
— Cá entre nós, jamais gostei de elevadores e, se as portas não se abrirem logo, vou ter um troço e...
— Um troço?
— Aham.
— O que é “ter um troço”?
— Isso, na minha língua, significa perder a compostura e ficar louca — respondo, sem parar de me abanar. — Pode acreditar. Você não ia gostar de me ver nessa situação. Inclusive, se eu não tomo cuidado, solto espuma pela boca e minha cabeça gira como a da menina de O exorcista. É um espetáculo e tanto! — Meu nervosismo aumenta e eu lhe pergunto, numa tentativa de me acalmar:
— Quer um chiclete de morango?
— Obrigado — responde ela e pega um.
Mas o engraçado é que ela abre e coloca o chiclete na minha boca. Aceito, surpresa, e, sem saber por quê, abro outro chiclete e faço a operação inversa. Ela, divertindo-se, também aceita.
Olho para Belle e para as outras. Continuam histéricas, suadas e pálidas. Então, decidida a não deixar minha própria histeria aumentar, tento puxar conversa com a desconhecida.
— Você é da empresa?
— Não.
O elevador se move e todas começam a gritar. Eu não fico atrás. Seguro no braço da mulher e torço a manga de sua jaqueta. Quando volto a mim, eu a solto em seguida.
— Perdão... perdão — me desculpo.
— Fique calma, não foi nada.
Mas não consigo ficar calma. Como vou ficar calma presa num elevador? De repente sinto uma coceira no pescoço. Abro minha bolsa e tiro um espelhinho da nécessaire. Me observo nele e começo a xingar.
— Merda, merda! Estou me enchendo de brotoejas!
Percebo que a mulher me olha com espanto. Afasto o cabelo do pescoço e mostro a ela.
— Quando fico nervosa, minha pele se enche de brotoejas, está vendo?
Ela faz que sim e eu me coço.
— Não — diz, segurando minha mão. — Se você fizer isso, vai piorar.
E sem pensar duas vezes se inclina e sopra meu pescoço. Ai, Deus! Como ela é cheirosa e como é gostoso sentir esse ventinho! Dois segundos mais tarde, me vejo caindo no ridículo ao soltar um pequeno gemido.
O que estou fazendo?
Tapo o pescoço e tento desviar o assunto.
— Tenho duas horas para almoçar e, como ainda estamos aqui, hoje não almoço!
— Suponho que seu chefe entenderá a situação e te deixará chegar um pouco mais tarde.
Isso me faz sorrir. Ela não conhece minha chefe.
— Acho que você supõe demais. — Cheia de curiosidade, digo: — Pelo sotaque você é...
— Alemã.
Não me espanta. Minha empresa é alemã, e gringos como aquela aparecem todos os dias por aqui. Mas, sem conseguir evitar, eu a olho com um sorrisinho malicioso.
— Boa sorte na Eurocopa! Com expressão séria, ela dá de ombros.
— Não me interesso por futebol.
— Não?
— Não.
Surpresa com o fato dela não gostar, já que os alemãos são uns viciados em futebol, me encho de orgulho ao pensar na nossa seleção e sussurro para mim mesma:
— Pois você não sabe o que está perdendo.
Calmamente ela parece ler meus pensamentos e se aproxima de novo de minha orelha, provocando-me arrepios.
— De qualquer forma, ganhando ou perdendo, aceitaremos o resultado — ela me sussurra.
Ao dizer isso, dá um passo atrás e volta a seu lugar.
Será que meu comentário a irritou?
Eu a imito e viro pro lado para não ter de vê-la. Olho no relógio: 14h15. Merda! Já perdi 45 minutos do meu almoço e não dá mais tempo de chegar ao Vips. Com a vontade que eu tinha de comer um Vips Club... Enfim! Vou parar no bar de Almudena e engolir um sanduíche. Não tenho tempo para mais nada.
Logo as luzes se acendem, o elevador retoma seu movimento e todos nós aplaudimos.
E eu sou a primeira!
Movida pela curiosidade, volto a olhar para a desconhecida que se preocupou comigo e vejo que ela continua me observando. Uau, com as luzes acesas ela é ainda mais alta e mais sexy!
Quando o elevador chega ao térreo e as portas se abrem, Belle e as moças da contabilidade saem como cavalos desenfreados entre gritinhos e gestos de histeria. Como me alegro por não ser assim. A verdade é que sou meio moleca. Meu pai me criou desse jeito. Porém, quando saio, me vejo diante da minha chefe.
— Emma, pelo amor de Deus! — eu a ouço dizer. — Quando desci para te encontrar e irmos almoçar e recebi seu Whatsapp avisando que você estava presa no elevador, quase morri! Que angústia! Você está bem?
— Estou ótima— responde a voz da mulher que falou comigo apenas uns momentos antes.
Na hora minha cabeça rebobina. Emma. Almoço. Chefe. Emma Swan, a chefona, foi a ela que eu disse que sou como a menina de O exorcista e em quem enfiei um chiclete de morango na boca? Fico vermelha como um tomate e me recuso a olhá-la na cara.
Meu Deus! Como sou ridícula!
Gostaria de escapar daqui o quanto antes, mas então sinto que alguém me segura pelo cotovelo.
— Obrigado pelo chiclete... senhorita?
— Regina — responde minha chefe. — Ela é minha secretária.
O agora identificada como senhora Emma Swan, faz que sim com a cabeça e, sem se importar com a expressão no rosto da minha chefe, porque não olha para ela mas para mim, diz:
— Então é a senhorita Regina Mills, certo?
— Sim — respondo como uma boba. Como uma idiota completa!
Minha chefe, que fica entediada quando não é a protagonista do momento, a agarra possessivamente pelo braço, puxando-a.
— Que tal irmos almoçar, Emma? Já está supertarde!
Sentindo que elas vão embora, levanto a cabeça e sorrio. Instantes depois, aquela mulher incrível de olhos claros se afasta, embora, antes de passar pela porta, se vira e me olhe. Quando por fim desaparece, suspiro e penso: “Por que não fiquei quietinha no elevador?”
— Regina , você já pode ir almoçar. E lembre-se: estarei com a senhorita Swan. Se às cinco eu não tiver voltado e você precisar de qualquer coisa, ligue pro meu celular. Quando a bruxa má e Killian vão embora, eu enfim respiro aliviada. Solto o cabelo e tiro os óculos. Depois pego minhas coisas e caminho até o elevador. Meu escritório fica no 17º andar. O elevador para em vários andares para pegar outros funcionários, e com isso ele sempre demora a chegar ao térreo. De repente, entre o quinto e o sexto andar, o elevador dá um tranco e para completamente. As luzes de emergência se acendem, e Belle , do almoxarifado, começa a gritar.
— Ai, minha Nossa Senhora! O que está acontecendo?
— Fique calma — respondo. — Acabou a luz, mas com certeza vai voltar daqui a pouco.
— E vai demorar quanto?
— Não sei, Belle. Mas, se você ficar nervosa, vai se sentir mal aqui dentro e esse tempo vai parecer uma eternidade. Então respire fundo e você vai ver como a luz volta num piscar de olhos. Mas, vinte minutos depois, a luz ainda não tinha voltado, e Belle, como várias meninas da contabilidade, entram em pânico. Percebo que tenho de fazer alguma coisa. Vejamos. Não gosto nada de estar presa num elevador. Fico agoniada e começo a suar. Se eu entrar em pânico, vai ser pior, então decido buscar soluções. Primeiro, junto o cabelo na nuca e prendo com uma caneta. Depois passo minha garrafinha d’água para Belle beber e tento brincar com as meninas da contabilidade enquanto distribuo chicletes de morango. Mas meu calor vai aumentando, então tiro um leque da minha bolsa e começo a me abanar. Que calor!
Nesse momento, uma das mulheres que estava apoiada num canto do elevador fica mais perto de mim e me segura pelo cotovelo.
— Você está bem?
Sem olhar para ela e sem deixar de me abanar, respondo:
— Uf! Quer que eu minta ou diga a verdade?
— Prefiro a verdade.
Achando graça, me viro em sua direção e, de repente, meu nariz roça contra uma jaqueta cinza. Cheira muito bem. Perfume caro.
Mas o que ela faz tão perto de mim?
Imediatamente dou um passo pra trás e fixo o olhar nela pra ver quem é. Devo logo dizer que é alta — eu chego apenas à altura dos ombros. Também tem cabelos louros, é jovem e de olhos claros. Não me lembra ninguém, e, ao perceber que ela me observa à espera de uma resposta, eu cochicho para que só ela possa ouvir:
— Cá entre nós, jamais gostei de elevadores e, se as portas não se abrirem logo, vou ter um troço e...
— Um troço?
— Aham.
— O que é “ter um troço”?
— Isso, na minha língua, significa perder a compostura e ficar louca — respondo, sem parar de me abanar. — Pode acreditar. Você não ia gostar de me ver nessa situação. Inclusive, se eu não tomo cuidado, solto espuma pela boca e minha cabeça gira como a da menina de O exorcista. É um espetáculo e tanto! — Meu nervosismo aumenta e eu lhe pergunto, numa tentativa de me acalmar:
— Quer um chiclete de morango?
— Obrigado — responde ela e pega um.
Mas o engraçado é que ela abre e coloca o chiclete na minha boca. Aceito, surpresa, e, sem saber por quê, abro outro chiclete e faço a operação inversa. Ela, divertindo-se, também aceita.
Olho para Belle e para as outras. Continuam histéricas, suadas e pálidas. Então, decidida a não deixar minha própria histeria aumentar, tento puxar conversa com a desconhecida.
— Você é da empresa?
— Não.
O elevador se move e todas começam a gritar. Eu não fico atrás. Seguro no braço da mulher e torço a manga de sua jaqueta. Quando volto a mim, eu a solto em seguida.
— Perdão... perdão — me desculpo.
— Fique calma, não foi nada.
Mas não consigo ficar calma. Como vou ficar calma presa num elevador? De repente sinto uma coceira no pescoço. Abro minha bolsa e tiro um espelhinho da nécessaire. Me observo nele e começo a xingar.
— Merda, merda! Estou me enchendo de brotoejas!
Percebo que a mulher me olha com espanto. Afasto o cabelo do pescoço e mostro a ela.
— Quando fico nervosa, minha pele se enche de brotoejas, está vendo?
Ela faz que sim e eu me coço.
— Não — diz, segurando minha mão. — Se você fizer isso, vai piorar.
E sem pensar duas vezes se inclina e sopra meu pescoço. Ai, Deus! Como ela é cheirosa e como é gostoso sentir esse ventinho! Dois segundos mais tarde, me vejo caindo no ridículo ao soltar um pequeno gemido.
O que estou fazendo?
Tapo o pescoço e tento desviar o assunto.
— Tenho duas horas para almoçar e, como ainda estamos aqui, hoje não almoço!
— Suponho que seu chefe entenderá a situação e te deixará chegar um pouco mais tarde.
Isso me faz sorrir. Ela não conhece minha chefe.
— Acho que você supõe demais. — Cheia de curiosidade, digo: — Pelo sotaque você é...
— Alemã.
Não me espanta. Minha empresa é alemã, e gringos como aquela aparecem todos os dias por aqui. Mas, sem conseguir evitar, eu a olho com um sorrisinho malicioso.
— Boa sorte na Eurocopa! Com expressão séria, ela dá de ombros.
— Não me interesso por futebol.
— Não?
— Não.
Surpresa com o fato dela não gostar, já que os alemãos são uns viciados em futebol, me encho de orgulho ao pensar na nossa seleção e sussurro para mim mesma:
— Pois você não sabe o que está perdendo.
Calmamente ela parece ler meus pensamentos e se aproxima de novo de minha orelha, provocando-me arrepios.
— De qualquer forma, ganhando ou perdendo, aceitaremos o resultado — ela me sussurra.
Ao dizer isso, dá um passo atrás e volta a seu lugar.
Será que meu comentário a irritou?
Eu a imito e viro pro lado para não ter de vê-la. Olho no relógio: 14h15. Merda! Já perdi 45 minutos do meu almoço e não dá mais tempo de chegar ao Vips. Com a vontade que eu tinha de comer um Vips Club... Enfim! Vou parar no bar de Almudena e engolir um sanduíche. Não tenho tempo para mais nada.
Logo as luzes se acendem, o elevador retoma seu movimento e todos nós aplaudimos.
E eu sou a primeira!
Movida pela curiosidade, volto a olhar para a desconhecida que se preocupou comigo e vejo que ela continua me observando. Uau, com as luzes acesas ela é ainda mais alta e mais sexy!
Quando o elevador chega ao térreo e as portas se abrem, Belle e as moças da contabilidade saem como cavalos desenfreados entre gritinhos e gestos de histeria. Como me alegro por não ser assim. A verdade é que sou meio moleca. Meu pai me criou desse jeito. Porém, quando saio, me vejo diante da minha chefe.
— Emma, pelo amor de Deus! — eu a ouço dizer. — Quando desci para te encontrar e irmos almoçar e recebi seu Whatsapp avisando que você estava presa no elevador, quase morri! Que angústia! Você está bem?
— Estou ótima— responde a voz da mulher que falou comigo apenas uns momentos antes.
Na hora minha cabeça rebobina. Emma. Almoço. Chefe. Emma Swan, a chefona, foi a ela que eu disse que sou como a menina de O exorcista e em quem enfiei um chiclete de morango na boca? Fico vermelha como um tomate e me recuso a olhá-la na cara.
Meu Deus! Como sou ridícula!
Gostaria de escapar daqui o quanto antes, mas então sinto que alguém me segura pelo cotovelo.
— Obrigado pelo chiclete... senhorita?
— Regina — responde minha chefe. — Ela é minha secretária.
O agora identificada como senhora Emma Swan, faz que sim com a cabeça e, sem se importar com a expressão no rosto da minha chefe, porque não olha para ela mas para mim, diz:
— Então é a senhorita Regina Mills, certo?
— Sim — respondo como uma boba. Como uma idiota completa!
Minha chefe, que fica entediada quando não é a protagonista do momento, a agarra possessivamente pelo braço, puxando-a.
— Que tal irmos almoçar, Emma? Já está supertarde!
Sentindo que elas vão embora, levanto a cabeça e sorrio. Instantes depois, aquela mulher incrível de olhos claros se afasta, embora, antes de passar pela porta, se vira e me olhe. Quando por fim desaparece, suspiro e penso: “Por que não fiquei quietinha no elevador?”
Nenhum comentário:
Postar um comentário