Capítulo 30
À tarde, quando chego a Jerez, meu
celular não para de tocar. Estou quase o arrebentando contra a parede. Emma
quer falar comigo. Desligo o celular. Liga para o telefone de meu pai. Mas me
recuso a atender.
No domingo, quando me levanto, minha irmã está plantada diante da tevê vendo a novela mexicana que adora, Sou tua dona. Cafonice pouca é bobagem!
Na cozinha, vejo um lindo buquê de rosas vermelhas de talos longos. Solto um palavrão. Dá para imaginar quem o mandou.
— Fofinha, olha que beleza que te mandaram! — diz Mary, atrás de mim.
Sem precisar perguntar quem mandou, agarro o buquê e jogo direto no lixo. Minha irmã grita como uma possessa.
— O que é isso?!
— O que você tá vendo.
Rapidamente, tira as rosas do lixo.
— Pelo amor de Deus! É um sacrilégio botar fora. Deve ter custado uma fortuna.
— Não tô nem aí! Se fossem do mercadinho da esquina o efeito seria o mesmo.
Não quero olhar minha irmã botar de novo as rosas no vaso.
— Não vai ler o cartão? — insiste.
— Não, e nem você — respondo, e o arranco das mãos dela e jogo no lixo.
De repente, aparecem meu cunhado e meu pai, e nos olham. Minha irmã impede que eu chegue perto das rosas de novo.
— Dá para acreditar numa coisa dessas? Quer atirar estas maravilhas no lixo.
— Acredito, sim — afirma meu pai.
Whale sorri e, aproximando-se da minha irmã, lhe dá um beijo no pescoço.
— Ainda bem que você está aqui pra resgatá-las, pombinha.
Não respondo. Não olho para eles. Deus me livre de ficar ouvindo isso de “pombinha” e “pombinho”. Como podem ser tão bobocas?
Esquento um café no micro-ondas, tomo e ouço que batem na porta. Que saco. Me levanto, pronta para fugir se for Emma. Meu pai, ao ver minha cara, vai abrir. Dois segundos depois, brincalhão, entra sozinho e deixa algo sobre a mesa.
— Isto é pra você, moreninha.
Todos me olham, à espera de que abra a enorme caixa branca e dourada. Por fim, me arrasto e a abro. Quando levanto a embalagem, minha sobrinha, que entra nesse momento na cozinha, exclama:
— Um estádio de futebol de chocolate! Que legaaaallllll!
— Acho que alguém quer adoçar tua vida, querida — brinca meu pai.
Boquiaberta, olho o enorme campo de futebol. Não falta um detalhe. Até arquibancada e público tem. E no marcador se lê “te amo” em alemão: Ich liebe dich. Meu coração bate descontrolado. Não estou acostumada a estas coisas e não sei o que dizer. Emma me desconcerta, me deixa louca! Mas, no final, resmungo, e minha irmã rapidamente se coloca a meu lado.
— Não vai jogar fora, não é mesmo? — diz.
— Acho que sim — respondo.
Minha sobrinha se mete no meio e levanta um dedo.
— Tiiiiiaaaaa, não pode jogar fora!
— E por que não? — pergunto, chateada.
— Porque é um presente muito bonito da titia e nós temos que comer. — Sorrio ao ver sua expressão malandrinha, mas meu sorriso se apaga quando ela acrescenta: — Além do mais, tem que perdoá-la. Ela merece. É muito boa e merece.
— Merece?
Grace faz um gesto afirmativo com a cabeça.
— Quando eu briguei com Alicia por causa do filme e ela me chamou de boba, fiquei muito chateada, não foi? — me lembra minha sobrinha, e eu concordo. — Ela me pediu desculpa, e você disse que devia pensar se minha mágoa era tão importante assim pra fazer perder minha melhor amiga. Pois agora, tia, eu digo a mesma coisa. Você tá tão chateada assim, que não pode perdoar a tia Emma?
Continuo olhando boquiaberta o projeto de gente que me disse isso, quando meu pai intervém:
— Moreninha, somos escravos de nossas palavras.
— Com certeza, papai, e Emma também é — digo ao lembrar as coisas que ela me disse.
Minha sobrinha me olha, à espera de uma resposta. Pestaneja como uma ursinha. É uma criança, não devo esquecer. Por isso, com a pouca paciência que ainda me resta, murmuro:
— Grace, se você quer, pode comer todo o campo de futebol. Te dou de presente, tá bem?
— Eba! — aplaude a menina.
Todos sorriem, e seus sorrisos me tiram do sério.
Por que ninguém entende minha mágoa? Sabem que Emma e eu rompemos, embora ninguém, fora minha irmã, saiba que é por causa de uma mulher, e nem mesmo a ela contei toda a verdade. Se Mary ou qualquer outro conhecesse todos os motivos de nossa discussão, não acreditaria na loucura toda!
Percebendo que minha angústia vai aumentando, aumentando e aumentando, vou ver minha amiga Rocío. Tenho certeza de que ela não falará de Emma. E não me engano. Volto para o almoço. O telefone não para de tocar e deixo desligado. Já chega, por faaaaavvvooorrr!
Às dez vou para o pub. Tenho de trabalhar. Mas quando estou na porta, falando com uns amigos, vejo passar um BMW escuro e reconheço Emma ao volante. Me escondo. Não me viu e, pela direção que tomou, suponho que se dirige à casa do meu pai. Que inferno. Por que é tão insistente?
Quando o desespero começa a me dar uma grande coceira, alguém me toca as costas e, ao me virar, topo com Ruby Lucas. Que linda ela é! Encantada, sorrio e tento me concentrar nela. Entramos no pub. Me convida para uma bebida, eu a convido para mais uma. É amável, um doce, e por seu olhar e as coisas que diz, sei o que quer: sexo! Mas não. Hoje não estou num bom dia e decido ignorar as mensagens que me manda enquanto começo a servir as bebidas no balcão.
Vinte minutos depois, vejo Emma entrar, e meu coração dispara.
Tum-tum... Tum-tum... Está sozinha.
Olha ao redor e rapidamente me localiza. Caminha decidida até onde estou e diz:
— Regina, saia daí agora mesmo e venha comigo.
Ruby olha para ela, depois olha para mim.
— Conhece ela? — pergunta.
Vou responder, quando Emma se adianta.
— É minha mulher.
Quer saber mais alguma coisa? Sua mulher? Mas que prepotência! Surpresa, Ruby me olha. Pestanejo e enquanto termino de preparar uma cuba-libre para o ruivo da direita, respondo:
— Não sou tua mulher.
— Ah, não? — insiste Emma.
— Não.
Entrego a conta para o ruivo, e trocamos um sorriso. Depois que ele me paga, olho pra Emma, que aguarda desesperada.
— Não sou nada tua — esclareço. — Acabou tudo e...
Mas Emma, cravando seus espetaculares olhos verdes em mim, não me deixa terminar.
— Regi, amor, quer parar de dizer bobagem e sair desse balcão?
Resmungo, chateada com suas palavras.
— Você é quem tem de parar de dizer bobagens, minha filha. E repito: não sou sua mulher e também não sou sua namorada. Não sou absolutamente nada sua e quero que me deixe viver em paz.
— Regi....
— Quero que me esqueça e me deixe trabalhar — prossigo, irritada. — Quero distância de você. Arrume outra e vá encher o saco dela, entendido?
Minha cara é séria, mas a de Emma é tenebrosa.
Me olha... Me olha... Me olha... Tem o rosto tenso, e sei que está contendo seus impulsos mais primitivos, esses que me deixam louca. Santo Deus, sou uma masoquista! Ruby nos olha, mas antes que possa dizer alguma coisa, Emma murmura:
— Tudo bem, Regina Farei o que me pede.
E se vira e vai para a ponta do balcão. Irritada, eu a sigo com o olhar.
— Quem é essa mulher ? — pergunta Ruby.
Não respondo. Só posso prestar atenção em Emma e ver como minha colega no balcão lhe serve um uísque. Ruby insiste.
— Se não é muita indiscrição, quem é?
— Alguém do meu passado — respondo como posso.
Irritada até não poder mais, tento me esquecer de que Emma está aqui. Continuo preparando bebidas e sorrindo para os clientes. Durante um bom tempo, não a olho. Quero não reparar na sua presença e me divertir. Ruby é um doce e tenta me fazer rir o tempo todo. Mas meu sorriso se congela e meu sangue para, quando, ao ir pegar uma garrafa na prateleira, vejo Emma falando com uma garota muito bonita. Não me olha. Está toda concentrado nela, e isso me deixa muito puta.
Nossa mãe, que ciumenta estoooouuuu!
Pego a garrafa e me viro. Não quero continuar olhando o que ela está fazendo, mas minha maldita curiosidade me obriga a olhar de novo. Os sinais que a garota dá são os típicos de quando há alguem interessado. Mexe no cabelo, na orelha, e o sorrisinho de “vem quente que eu estou fervendo”. De repente a loira passa um dedo no rosto dela. Por que a toca? Ela sorri. Emma não se mexe, e sou testemunha de como ela chega cada vez mais e mais perto, até ficar totalmente entre suas pernas. Emma a olha. Seu olhar ardente me excita. Passa um dedo pelo pescoço dela, e isso me revolta. O que essa maluca está fazendo? A garota sorri, e ela baixa o olhar.
Ah, eu mato!
Esse olhar, acompanhado do seu sorriso malicioso — sei o que significa. Sexo! Meu coração bate descompassado. Emma está fazendo o que pedi. Arrumou outra, se diverte, e eu, como uma imbecil, estou sofrendo pelo que eu mesma pedi. Que coisa idiota fui fazer!
Quinze minutos depois, observo que ela se levanta e, sem me olhar, sai do pub de mãos dadas com a garota.
Eu maaaatttoooooooo! Estrangulooooooooooooooo!
Meu coração bombeia enlouquecido e, se continuo respirando assim, acho que vou ter um troço. Saio do balcão, vou para o banheiro e refresco a nuca com água. O pescoço arde. Merda de alergia! Emma acaba de demonstrar que não está de brincadeira, que seu negócio é pra valer. Preciso de ar ou sumir daqui. Tenho de desaparecer do pub ou sou capaz de organizar uma verdadeira matança.
Quando saio do banheiro, despacho Ruby como posso e combino de vê-la amanhã à noite. Ao entrar no meu carro, grito de frustração. Por que sou uma completa imbecil? Por que digo a Emma que faça coisas que vão me fazer sofrer? Por que não posso ser tão fria como ela? Sou espanhola, temperamental; enquanto Emma é uma alemã impassível.
Ligo o carro, e o rádio começa a tocar. A voz de Álex Ubago toma meu carro, e fecho os olhos. A canção Sin miedo a nada me deixa arrepiada.
Idiota, idiota, idiota... Sou uma IDIOTA completa!
Ligo o celular enquanto começo inconscientemente a cantarolar:
No domingo, quando me levanto, minha irmã está plantada diante da tevê vendo a novela mexicana que adora, Sou tua dona. Cafonice pouca é bobagem!
Na cozinha, vejo um lindo buquê de rosas vermelhas de talos longos. Solto um palavrão. Dá para imaginar quem o mandou.
— Fofinha, olha que beleza que te mandaram! — diz Mary, atrás de mim.
Sem precisar perguntar quem mandou, agarro o buquê e jogo direto no lixo. Minha irmã grita como uma possessa.
— O que é isso?!
— O que você tá vendo.
Rapidamente, tira as rosas do lixo.
— Pelo amor de Deus! É um sacrilégio botar fora. Deve ter custado uma fortuna.
— Não tô nem aí! Se fossem do mercadinho da esquina o efeito seria o mesmo.
Não quero olhar minha irmã botar de novo as rosas no vaso.
— Não vai ler o cartão? — insiste.
— Não, e nem você — respondo, e o arranco das mãos dela e jogo no lixo.
De repente, aparecem meu cunhado e meu pai, e nos olham. Minha irmã impede que eu chegue perto das rosas de novo.
— Dá para acreditar numa coisa dessas? Quer atirar estas maravilhas no lixo.
— Acredito, sim — afirma meu pai.
Whale sorri e, aproximando-se da minha irmã, lhe dá um beijo no pescoço.
— Ainda bem que você está aqui pra resgatá-las, pombinha.
Não respondo. Não olho para eles. Deus me livre de ficar ouvindo isso de “pombinha” e “pombinho”. Como podem ser tão bobocas?
Esquento um café no micro-ondas, tomo e ouço que batem na porta. Que saco. Me levanto, pronta para fugir se for Emma. Meu pai, ao ver minha cara, vai abrir. Dois segundos depois, brincalhão, entra sozinho e deixa algo sobre a mesa.
— Isto é pra você, moreninha.
Todos me olham, à espera de que abra a enorme caixa branca e dourada. Por fim, me arrasto e a abro. Quando levanto a embalagem, minha sobrinha, que entra nesse momento na cozinha, exclama:
— Um estádio de futebol de chocolate! Que legaaaallllll!
— Acho que alguém quer adoçar tua vida, querida — brinca meu pai.
Boquiaberta, olho o enorme campo de futebol. Não falta um detalhe. Até arquibancada e público tem. E no marcador se lê “te amo” em alemão: Ich liebe dich. Meu coração bate descontrolado. Não estou acostumada a estas coisas e não sei o que dizer. Emma me desconcerta, me deixa louca! Mas, no final, resmungo, e minha irmã rapidamente se coloca a meu lado.
— Não vai jogar fora, não é mesmo? — diz.
— Acho que sim — respondo.
Minha sobrinha se mete no meio e levanta um dedo.
— Tiiiiiaaaaa, não pode jogar fora!
— E por que não? — pergunto, chateada.
— Porque é um presente muito bonito da titia e nós temos que comer. — Sorrio ao ver sua expressão malandrinha, mas meu sorriso se apaga quando ela acrescenta: — Além do mais, tem que perdoá-la. Ela merece. É muito boa e merece.
— Merece?
Grace faz um gesto afirmativo com a cabeça.
— Quando eu briguei com Alicia por causa do filme e ela me chamou de boba, fiquei muito chateada, não foi? — me lembra minha sobrinha, e eu concordo. — Ela me pediu desculpa, e você disse que devia pensar se minha mágoa era tão importante assim pra fazer perder minha melhor amiga. Pois agora, tia, eu digo a mesma coisa. Você tá tão chateada assim, que não pode perdoar a tia Emma?
Continuo olhando boquiaberta o projeto de gente que me disse isso, quando meu pai intervém:
— Moreninha, somos escravos de nossas palavras.
— Com certeza, papai, e Emma também é — digo ao lembrar as coisas que ela me disse.
Minha sobrinha me olha, à espera de uma resposta. Pestaneja como uma ursinha. É uma criança, não devo esquecer. Por isso, com a pouca paciência que ainda me resta, murmuro:
— Grace, se você quer, pode comer todo o campo de futebol. Te dou de presente, tá bem?
— Eba! — aplaude a menina.
Todos sorriem, e seus sorrisos me tiram do sério.
Por que ninguém entende minha mágoa? Sabem que Emma e eu rompemos, embora ninguém, fora minha irmã, saiba que é por causa de uma mulher, e nem mesmo a ela contei toda a verdade. Se Mary ou qualquer outro conhecesse todos os motivos de nossa discussão, não acreditaria na loucura toda!
Percebendo que minha angústia vai aumentando, aumentando e aumentando, vou ver minha amiga Rocío. Tenho certeza de que ela não falará de Emma. E não me engano. Volto para o almoço. O telefone não para de tocar e deixo desligado. Já chega, por faaaaavvvooorrr!
Às dez vou para o pub. Tenho de trabalhar. Mas quando estou na porta, falando com uns amigos, vejo passar um BMW escuro e reconheço Emma ao volante. Me escondo. Não me viu e, pela direção que tomou, suponho que se dirige à casa do meu pai. Que inferno. Por que é tão insistente?
Quando o desespero começa a me dar uma grande coceira, alguém me toca as costas e, ao me virar, topo com Ruby Lucas. Que linda ela é! Encantada, sorrio e tento me concentrar nela. Entramos no pub. Me convida para uma bebida, eu a convido para mais uma. É amável, um doce, e por seu olhar e as coisas que diz, sei o que quer: sexo! Mas não. Hoje não estou num bom dia e decido ignorar as mensagens que me manda enquanto começo a servir as bebidas no balcão.
Vinte minutos depois, vejo Emma entrar, e meu coração dispara.
Tum-tum... Tum-tum... Está sozinha.
Olha ao redor e rapidamente me localiza. Caminha decidida até onde estou e diz:
— Regina, saia daí agora mesmo e venha comigo.
Ruby olha para ela, depois olha para mim.
— Conhece ela? — pergunta.
Vou responder, quando Emma se adianta.
— É minha mulher.
Quer saber mais alguma coisa? Sua mulher? Mas que prepotência! Surpresa, Ruby me olha. Pestanejo e enquanto termino de preparar uma cuba-libre para o ruivo da direita, respondo:
— Não sou tua mulher.
— Ah, não? — insiste Emma.
— Não.
Entrego a conta para o ruivo, e trocamos um sorriso. Depois que ele me paga, olho pra Emma, que aguarda desesperada.
— Não sou nada tua — esclareço. — Acabou tudo e...
Mas Emma, cravando seus espetaculares olhos verdes em mim, não me deixa terminar.
— Regi, amor, quer parar de dizer bobagem e sair desse balcão?
Resmungo, chateada com suas palavras.
— Você é quem tem de parar de dizer bobagens, minha filha. E repito: não sou sua mulher e também não sou sua namorada. Não sou absolutamente nada sua e quero que me deixe viver em paz.
— Regi....
— Quero que me esqueça e me deixe trabalhar — prossigo, irritada. — Quero distância de você. Arrume outra e vá encher o saco dela, entendido?
Minha cara é séria, mas a de Emma é tenebrosa.
Me olha... Me olha... Me olha... Tem o rosto tenso, e sei que está contendo seus impulsos mais primitivos, esses que me deixam louca. Santo Deus, sou uma masoquista! Ruby nos olha, mas antes que possa dizer alguma coisa, Emma murmura:
— Tudo bem, Regina Farei o que me pede.
E se vira e vai para a ponta do balcão. Irritada, eu a sigo com o olhar.
— Quem é essa mulher ? — pergunta Ruby.
Não respondo. Só posso prestar atenção em Emma e ver como minha colega no balcão lhe serve um uísque. Ruby insiste.
— Se não é muita indiscrição, quem é?
— Alguém do meu passado — respondo como posso.
Irritada até não poder mais, tento me esquecer de que Emma está aqui. Continuo preparando bebidas e sorrindo para os clientes. Durante um bom tempo, não a olho. Quero não reparar na sua presença e me divertir. Ruby é um doce e tenta me fazer rir o tempo todo. Mas meu sorriso se congela e meu sangue para, quando, ao ir pegar uma garrafa na prateleira, vejo Emma falando com uma garota muito bonita. Não me olha. Está toda concentrado nela, e isso me deixa muito puta.
Nossa mãe, que ciumenta estoooouuuu!
Pego a garrafa e me viro. Não quero continuar olhando o que ela está fazendo, mas minha maldita curiosidade me obriga a olhar de novo. Os sinais que a garota dá são os típicos de quando há alguem interessado. Mexe no cabelo, na orelha, e o sorrisinho de “vem quente que eu estou fervendo”. De repente a loira passa um dedo no rosto dela. Por que a toca? Ela sorri. Emma não se mexe, e sou testemunha de como ela chega cada vez mais e mais perto, até ficar totalmente entre suas pernas. Emma a olha. Seu olhar ardente me excita. Passa um dedo pelo pescoço dela, e isso me revolta. O que essa maluca está fazendo? A garota sorri, e ela baixa o olhar.
Ah, eu mato!
Esse olhar, acompanhado do seu sorriso malicioso — sei o que significa. Sexo! Meu coração bate descompassado. Emma está fazendo o que pedi. Arrumou outra, se diverte, e eu, como uma imbecil, estou sofrendo pelo que eu mesma pedi. Que coisa idiota fui fazer!
Quinze minutos depois, observo que ela se levanta e, sem me olhar, sai do pub de mãos dadas com a garota.
Eu maaaatttoooooooo! Estrangulooooooooooooooo!
Meu coração bombeia enlouquecido e, se continuo respirando assim, acho que vou ter um troço. Saio do balcão, vou para o banheiro e refresco a nuca com água. O pescoço arde. Merda de alergia! Emma acaba de demonstrar que não está de brincadeira, que seu negócio é pra valer. Preciso de ar ou sumir daqui. Tenho de desaparecer do pub ou sou capaz de organizar uma verdadeira matança.
Quando saio do banheiro, despacho Ruby como posso e combino de vê-la amanhã à noite. Ao entrar no meu carro, grito de frustração. Por que sou uma completa imbecil? Por que digo a Emma que faça coisas que vão me fazer sofrer? Por que não posso ser tão fria como ela? Sou espanhola, temperamental; enquanto Emma é uma alemã impassível.
Ligo o carro, e o rádio começa a tocar. A voz de Álex Ubago toma meu carro, e fecho os olhos. A canção Sin miedo a nada me deixa arrepiada.
Idiota, idiota, idiota... Sou uma IDIOTA completa!
Ligo o celular enquanto começo inconscientemente a cantarolar:
Me muero por explicarte lo que pasa por
mi mente,
Me muero por entregarte y seguir siendo capaz de sorprenderte,
Sentir cada día ese flechazo al verte.
Qué más dará lo que digan, qué más dará lo que piensen.
Si estoy loca es cosa mía...
Me muero por entregarte y seguir siendo capaz de sorprenderte,
Sentir cada día ese flechazo al verte.
Qué más dará lo que digan, qué más dará lo que piensen.
Si estoy loca es cosa mía...
Procuro o número de Emma e, quando
estou a ponto de ligar, paro. O que estou fazendo? Quero quebrar a cara?
Abobalhada, fecho o celular.
Não vou ligar. Nem morta!
Mas a raiva que sinto me faz tirar a chave da ignição, sair do carro e, depois de bater a porta do meu Leãozinho com uma pancada e tanto, entro de novo no pub. Estou solteira, sem compromisso e sou dona de minha vida. Procuro Ruby. Localizo-a e a beijo. Ela rapidamente corresponde.
Algumas pessoas tão fáceis!
Durante vários minutos permito que sua língua brinque com a minha, e quando estou a ponto de insinuar a ela que devemos ir para outro lugar, a porta do pub se abre e vejo que entra a garota loira que saíra com Emma.
Surpresa, sigo-a com o olhar. Ela vai até o balcão, pede uma bebida a meu colega e depois volta a seu grupo de amigas. Neste instante, toca meu celular. Uma mensagem de Emma. “Sair com qualquer um é tão fácil como respirar. Não faça nada de que possa se arrepender.”
Sem saber por quê, caio na risada. Emma, sua safada! Ela e seus jogos engraçadinhos. Ruby me olha. Digo que tenho que continuar trabalhando e volto a meu posto.
Às seis e meia da manhã, entro na casa de papai. Estão todos dormindo. Vou até a lata de lixo e, depois de procurar um pouco, encontro o cartão das rosas que Emma me enviou. Abro e leio: “Querida, sou uma babaca. Mas uma babaca que te ama e que deseja ser perdoada. Emma.”
Quando me levanto pela manhã, é tardíssimo. Passei uma noitezinha que não desejo nem a meu pior inimigo. Bom, sim... A Emma, sim!
Minha irmã e meu pai já estão envolvidos com a ceia de Natal, enquanto meu cunhado joga PlayStation com minha sobrinha. Depois de tomar café, me sento perto de meu cunhado e, após dez minutos, jogo Mario Bros com ele e Grace. Meu celular toca. Emma. Desligo sem remorsos.
Às sete da noite, quando vou entrar no chuveiro, me olho no espelho. Minha aparência é boa, mesmo que por dentro eu esteja arrebentada. Ligo o celular e, depois de ver doze chamadas não atendidas de Emma, encontro uma mensagem de Ruby: “Passarei pra te pegar à meia-noite. Fique bonita.”
O “fique bonita” me faz sorrir. Mas meu sorriso é triste. Desanimado. Com desespero, me apoio na pia. O que está acontecendo comigo?
Por que não posso tirá-la da cabeça?
Por que digo uma coisa quando quero fazer outra? Por quê? Por quê?
A resposta é evidente. Eu a amo. Estou apaixonada por Emma até a medula e, como diz meu pai, se não obedeço a meu coração, vou me arrepender. Mas não, Emma pode tirar o cavalinho da chuva. Estou cheia das maluquices dela e vou recuperar minha vida.
Frustrada, decido tomar uma chuveirada, mas antes vou a meu quarto procurar uma coisa. No banheiro, puxo a correntinha da porta, ponho meu CD de Aerosmith e toca Crazy. Aumento o volume e abro a torneira. Fecho os olhos e começo a me movimentar sensualmente ao compasso da música. Por fim, me sento na borda da banheira com o vibrador.
Abobalhada, fecho o celular.
Não vou ligar. Nem morta!
Mas a raiva que sinto me faz tirar a chave da ignição, sair do carro e, depois de bater a porta do meu Leãozinho com uma pancada e tanto, entro de novo no pub. Estou solteira, sem compromisso e sou dona de minha vida. Procuro Ruby. Localizo-a e a beijo. Ela rapidamente corresponde.
Algumas pessoas tão fáceis!
Durante vários minutos permito que sua língua brinque com a minha, e quando estou a ponto de insinuar a ela que devemos ir para outro lugar, a porta do pub se abre e vejo que entra a garota loira que saíra com Emma.
Surpresa, sigo-a com o olhar. Ela vai até o balcão, pede uma bebida a meu colega e depois volta a seu grupo de amigas. Neste instante, toca meu celular. Uma mensagem de Emma. “Sair com qualquer um é tão fácil como respirar. Não faça nada de que possa se arrepender.”
Sem saber por quê, caio na risada. Emma, sua safada! Ela e seus jogos engraçadinhos. Ruby me olha. Digo que tenho que continuar trabalhando e volto a meu posto.
Às seis e meia da manhã, entro na casa de papai. Estão todos dormindo. Vou até a lata de lixo e, depois de procurar um pouco, encontro o cartão das rosas que Emma me enviou. Abro e leio: “Querida, sou uma babaca. Mas uma babaca que te ama e que deseja ser perdoada. Emma.”
Quando me levanto pela manhã, é tardíssimo. Passei uma noitezinha que não desejo nem a meu pior inimigo. Bom, sim... A Emma, sim!
Minha irmã e meu pai já estão envolvidos com a ceia de Natal, enquanto meu cunhado joga PlayStation com minha sobrinha. Depois de tomar café, me sento perto de meu cunhado e, após dez minutos, jogo Mario Bros com ele e Grace. Meu celular toca. Emma. Desligo sem remorsos.
Às sete da noite, quando vou entrar no chuveiro, me olho no espelho. Minha aparência é boa, mesmo que por dentro eu esteja arrebentada. Ligo o celular e, depois de ver doze chamadas não atendidas de Emma, encontro uma mensagem de Ruby: “Passarei pra te pegar à meia-noite. Fique bonita.”
O “fique bonita” me faz sorrir. Mas meu sorriso é triste. Desanimado. Com desespero, me apoio na pia. O que está acontecendo comigo?
Por que não posso tirá-la da cabeça?
Por que digo uma coisa quando quero fazer outra? Por quê? Por quê?
A resposta é evidente. Eu a amo. Estou apaixonada por Emma até a medula e, como diz meu pai, se não obedeço a meu coração, vou me arrepender. Mas não, Emma pode tirar o cavalinho da chuva. Estou cheia das maluquices dela e vou recuperar minha vida.
Frustrada, decido tomar uma chuveirada, mas antes vou a meu quarto procurar uma coisa. No banheiro, puxo a correntinha da porta, ponho meu CD de Aerosmith e toca Crazy. Aumento o volume e abro a torneira. Fecho os olhos e começo a me movimentar sensualmente ao compasso da música. Por fim, me sento na borda da banheira com o vibrador.
Quero fantasiaaaaaaaaaaaaar.
Precisooooooooooo.
Desejooooooooo.
Mantenho os olhos fechados enquanto a música toma todo o banheiro.
I go crazy, crazy, baby, I go crazy
You turn it on, then you’re gone
Yeah you drive me crazy, crazy, crazy for you,
baby What can I do, honey?
I feel like the color blue...
Precisooooooooooo.
Desejooooooooo.
Mantenho os olhos fechados enquanto a música toma todo o banheiro.
I go crazy, crazy, baby, I go crazy
You turn it on, then you’re gone
Yeah you drive me crazy, crazy, crazy for you,
baby What can I do, honey?
I feel like the color blue...
Abro as pernas e me entrego à imaginação. Emma está atrás de mim e sussurra em minha orelha que abra minhas pernas para outras. Volúpia. Minhas coxas se separam, e me abro com os dedos. Ofereço o que Emma, mina dona excitante e tentadora, me pede. Calor.
Em seguida me toco e estou molhada. Ligo o vibrador e o levo ao clitóris. O resultado é fantástico, excitante, fabuloso. Uma explosão de prazer toma conta de meu corpo, e, quando vou fechar as pernas, a voz de Emma me pede que não o faça. Obedeço, ofegante. Paixão.
Deito na banheira vazia e levanto uma perna para cada lado. Com os olhos fechados, me exponho a quem quiser me olhar. Recostada, boto de novo o vibrador onde arde meu desejo, enquanto a voz de Emma me sussurra que brinque e me divirta. Atrevimento.
go crazy, crazy, baby, I go crazy
You turn it on, then you’re gone
Yeah you drive me crazy, crazy, crazy for you,
baby What can I do, honey?
I feel like the color blue...
Depois da ducha, um pouco mais relaxada, volto a meu quarto. Guardo o vibrador e ligo o celular. Dezesseis chamadas não atendidas de Emma. Isto me faz sorrir e imaginar como deve estar fula comigo. Aguenta, alemã! Sou masoquista de pai e mãe.
Quero ficar bonita para a ceia de Natal e decido botar um vestido preto dos mais insinuantes. Explosivo. Com certeza Emma passará logo mais pelo pub e desejo que morra de raiva por não me ter. Quando saio do meu quarto, minha irmã me vê, para e exclama:
— Fofinha, que vestido mais lindo!
— Gostou?
Mary acena que sim.
— É sensacional, mas, pro meu gosto, mostra demais, não acha?
Me olho no espelho do corredor. O decote do vestido está preso por um anel prateado e a abertura chega até o estômago. É sexy, eu sei. Neste exato momento, aparece meu pai:
— Minha nossa, moreninha, você tá linda!
— Obrigada, papai.
— Mas vem cá, minha filha, não acha que exagerou no decote?
Quando viro os olhos, minha irmã volta ao ataque.
— Era isso mesmo que eu estava falando, papai. Está muito bonita, mas...
— Você vai trabalhar no pub com esse vestido? — pergunta meu pai.
— Sim. Por quê?
Meu pai coça a cabeça.
— Eu, hein, moreninha?! Não acho que a Emma vá gostar.
— Paaapppaaaaiiii! — resmungo, irritada.
Aí chega meu cunhado, que também fica de olho em mim.
— Uau, cunhada! Está um arraso!
Sorrio. Me viro para meu pai e minha irmã:
— Isso... justamente isso é o que eu quero ouvir.
Às nove e meia nos sentamos à mesa e saboreamos a deliciosa comida que meu pai, com todo o seu amor, comprou e cozinhou para nós. Impossível parar de comer os lagostins, e o cordeirinho está de se chupar os dedos. Ceamos entre risos por causa das coisas que diz minha sobrinha. Quando acabamos, decido retocar minha maquiagem. Tenho que ir trabalhar. Combinei de encontrar Ruby e pretendo me esquecer de tudo e me divertir à beça. Mas quando volto à sala de jantar, fico estatelada ao ver minha família de pé falando com... sim, com Emma!
Ela percorre com seu olhar meu rosto e depois meu corpo.
— Oi, querida! — me cumprimenta, mas, ao se dar conta de como a olho, corrige: — Bom, talvez “querida” esteja sobrando.
Fico travada por um instante e, quando vou responder, minha irmã se mete:
— Olha só quem veio, fofa. Que surpresa, hein?
Não respondo. Aperto os olhos e, ignorando o sorriso de meu pai, entro direto na cozinha. Vou ter uma coisa. O que Emma faz aqui? Preciso de água. Segundos depois, entra meu pai.
— Minha querida, essa mulher é uma boa sujeita e está louca por você. Além disso...
— Papai, por favor, não comece com isso. Acabou tudo entre nós.
— Ela te ama, não vê?
— Não, papai, não vejo. O que ela faz aqui?
— Eu a convidei.
— Papaaaaaiiiiiii!
Meu pai, sem tirar os olhos de mim, insiste:
— Vamos, moreninha, deixe a teimosia pra outra hora e fale com ela. Tento te compreender, mas não entendo que não fale com Emma. — Querida — insiste —, vocês discutiram. Os casais discutem.
Ouvimos a campainha da porta. Olho o relógio. Sei quem é e fecho os olhos. De repente, entra minha irmã seguida por Grace e, com cara aflita, cochicha:
— Pelo amor de Deus, Regina, ficou louca? Ruby Lucas acaba de chegar pra te pegar e está na sala com Emma. Santo Deus, o que fazemos?
— Ruby, a piloto, está aqui? — pergunta meu pai.
— Sim — responde minha irmã.
— Ai, ai, ai, ai — solta ele.
Rio de nervoso. E minha sobrinha quer saber:
— Tem duas namoradas, titia?
— Nãããããooooo! — respondo, de olho na menina.
— Então por que vieram duas namoradas te buscar?
— Tua tia é do outro mundo! — protesta minha irmã.
Olho Mary com vontade de matá-la, e ela procura calar a menina. Meu pai coça a cabeça com uma expressão preocupada.
— Você convidou Ruby?
— Sim, papai. Tenho meus próprios planos. Mas... diabos, vocês são um bando de encrenqueiros. Santo Deus!
O pobre concorda como pode. Que situação! Isto não cheira bem e, sem dizer nada, meu pai pega minha sobrinha pela mão e volta para a sala. Minha irmã está histérica.
— O que fazemos?! — pergunta de novo, me olhando atentamente. Tomo outro gole de água e, disposta a fazer o que penso, respondo:
— Você, não sei. Eu vou sair com Ruby.
— Ai, minha nossa! Que angústia!
— Angústia? A troco de quê?
Minha irmã não para quieta, toda nervosa. Eu estou mais, mas dissimulo. Não contava com a presença de Emma. Então Mary se aproxima:
— Emma é tua namorada e...
— Não é mais namorada. Quantas vezes tenho que dizer?
Agora minha irmã arregala os olhos, e ouço atrás de mim:
— Regina, você não vai sair com essa sujeita. Não vou permitir.
Emma!
Me viro.
Olho para ela.
Santo Deeeuuuusss, está um arraso de linda!
Mas, espera aí, quando não está? E, consciente de sua irritação e da minha, pergunto com minha petulância no máximo:
— E quem vai me impedir, você?
Não responde.
Continua não respondendo. Apenas me olha com aqueles olhos verdes gelados.
— Se, pra impedir, tenho que te carregar nas costas pra te levar comigo, é o que farei — murmura por fim.
O comentário não me surpreende e não me deixo intimidar.
— Sim, claro... no dia de são nunca. Você é descarada, hein? Se atreva e...
— Regina, não me provoque — corta, com secura. Sorrio diante da advertência dela, e sei que meu sorriso a perturba mais ainda. — Olha, pequena, minha paciência nesses dias está mais que esgotada. E...
— Tua paciência?! — grito, descontrolada. — Esgotada tá é a minha! Me liga. Me persegue. Me assedia. Aparece no meu trabalho. Minha família insiste em que você é minha namorada, mas não! Não é. E ainda assim vem me dizer que tua paciência está esgotada.
— Te amo, Regina.
— Pior pra você — respondo, sem saber muito bem o que digo.
— Não posso viver sem você — murmura com voz rouca e carregada de tensão.
Um “ohhhhhh!” abafado escapa dos lábios de minha irmã. A expressão dela diz tudo. Está totalmente abduzida pelas palavras romanticonas de Emma. Irritada e sem vontade de ouvir o que tenha a me dizer, me aproximo dela, me empino toda e digo, o mais perto possível de sua cara:
— Está tudo acabado entre nós. Que parte desta frase você é incapaz de processar? Minha irmã, ao me ver neste estado, despenca de sua nuvenzinha cor-de-rosa, me pega por um braço e me afasta de Emma.
— Por Deus, Regina, calma! A cozinha está cheia de objetos pontiagudos, e neste momento você é uma arma de destruição em massa.
Emma dá um passo adiante, afasta minha irmã e afirma, me olhando:
— Você vai vir comigo.
— Contigo? — digo, e sorrio com malícia.
Minha Icewoman particular confirma com essa segurança arrasadora que me desconcerta:
— Comigo.
Irritada com a confiança que ela destila por cada poro, levanto uma sobrancelha.
— Nem em sonhos.
Emma sorri. Mas seu sorriso é frio e desafiante.
— Não posso sonhar?
Encolho os ombros, olho desafiante para ela e adoto a atitude mais atrevida de que sou capaz:
— Pois não.
— Regina...
— Oh, por favorrrrrrrrrrrrrrr! — protesto, louca para pegar a frigideira que está perto da minha mão e sentá-la na cabeça dela.
— Regina — cochicha minha irmã —, afaste a mão da frigideira agora mesmo.
— Cala a boca, Mary! — grito. — Não sei quem é a mais chata, se você ou ela.
Minha irmã, ofendida, sai da cozinha e fecha a porta. Mostro intenção de ir atrás dela, mas Emma corta meu caminho. Estou ofegante. Seguro a vontade de matá-la e sussurro:
— Já te disse muito claramente que, se você fosse embora, devia assumir as consequências.
— Eu sei.
— Então?
Me olha... me olha... me olha e, finalmente, diz:
— Agi mal. Como você diz, sou uma cabeça-dura. Preciso que me perdoe.
— Está perdoada, mas nossa história acabou.
— Pequena...
Sem me dar tempo de reagir, me pega entre seus braços e me beija. Me sinto dominada. Toma minha boca com verdadeira adoração e me aperta contra ela de forma possessiva. Meu coração vai a mil. Mas, quando Emma separa sua boca da minha, eu digo:
— Cansei das tuas imposições.
Me beija de novo e me deixa quase sem fôlego.
— De teus showzinhos e tuas zangas, e...
Toma minha boca de novo. Quando se separa de mim, murmuro sem ar:
— Não faça isso de novo, por favor.
Emma me olha e desvia o olhar em seguida, girando a cabeça.
— Se vai me dar com a frigideira, dê logo, porque não planejo soltar você. Planejo continuar te beijando, até que me dê uma nova oportunidade.
De repente, consciente de que estou com o cabo da frigideira na mão, eu a solto. Eu me conheço, sou uma arma de destruição em massa, como diz minha irmã.
Emma sorri, e digo com toda a convicção de que sou capaz:
— Emma, nossa história acabou.
— Não, Regina.
— Sim, acabou! — repito. — Desapareci de sua empresa e de sua vida. Que mais você quer?
— Quero você.
Ainda entre seus braços, fecho os olhos. Minhas forças começam a desfalecer, percebo. Meu corpo começa a me trair.
— Te amo — prossegue ela perto de minha boca. — E te amar assim às vezes me faz ser irracional diante de certas coisas. Sim, tive dúvidas. Tive dúvidas ao ver aquelas fotos suas com Betta. Mas essas dúvidas se dissiparam quando você falou como falou, no escritório, e me fez ver o quanto sou ridícula e idiota. Você não é Betta. Você não é uma mentirosa, uma filha da mãe sem-vergonha como ela. Você é uma mulher maravilhosa, sensacional, que não merece o tratamento que te dei. Nunca me perdoarei por ter partido seu coração.
— Emma, não...
— Querida, não duvide um segundo de que você é o mais importante em minha vida e que estou louca por você. — Eu a olho, ela pergunta: — Você não me ama mais? — Não respondo. — Se me diz que não, prometo te soltar, ir embora e nunca mais te incomodar de novo. Mas se me ama, me desculpe por ser tão cabeça-dura. Como você disse, sou alemã! E estou disposta a continuar insistindo que você volte comigo, porque já não sei viver sem você.
Meu coração vai estourar. Que coisas mais bonitas Emma está me dizendo! Mas... não. Não devo ouvi-la. Então murmuro com um fio de voz:
— Não me faça isto, Emma.
Sem me soltar, suplica, colando sua testa na minha.
— Por favor, meu amor, por favor. Me escute, por favor, por favor. Uma vez você me cobrou que eu me abrisse com você, mas eu não sei fazer isso. Eu não tenho nem sua magia, nem sua graça, nem sua doçura para demonstrar os sentimentos. Sou apenas uma alemã sem sal que se põe diante de você e te pede... te suplica uma nova oportunidade.
— Emma...
— Ouça — me interrompe rapidamente —, já falei com os donos do pub onde você trabalha e já ajeitei tudo. Não precisa ir trabalhar. Eu...
— O que foi que fez?
— Pequena...
Furiosa. Fico furiosa de novo.
— Espera aí. Quem você pensa que é pra... pra...? Ficou louca?
— Querida. O ciúme está me matando e...
— Não é o ciúme que vai te matar, sou eu — insisto. — Acabou de ferrar o único trabalho que eu tinha. Mas quem você pensa que é pra fazer isso? Quem?
Espero que minhas palavras a irritem, mas não.
— Sei que isso parece abusivo de minha parte, mas quero... preciso ficar com você — teima minha Icewoman. Vou resmungar qualquer coisa, quando acrescenta: — Não posso permitir que continue distribuindo seus maravilhosos sorrisos e seu tempo a outros que não seja eu. Te amo, pequena. Te amo demais pra te esquecer e farei tudo o que for preciso pra que você me ame de novo, pra que você precise de mim tanto quanto eu preciso de você.
Meus olhos se enchem de lágrimas. Estou enfraquecendo. Agora complicou para o meu lado! A mulher que amo está me dizendo as coisas mais maravilhosas da minha vida. Mas me agarro a minha decisão.
— Me solte.
— Então é verdade? Já não me ama? — pergunta com voz tensa e carregada de emoção. Minha cabeça vai explodir.
— Eu não disse isso. Tenho que falar com Ruby.
Continua sem me soltar.
— Por quê?
Apesar de aturdida, cravo um olhar duro nela.
— Porque está me esperando, porque veio me buscar, porque merece uma explicação. Emma concorda. Noto o desconforto em seu rosto, mas me solta. Finalmente, saio da cozinha atrás de Emma. Na sala, ao me ver, Ruby assobia.
— Está espetacular, Regina.
— Obrigada — respondo, sem muita vontade de sorrir.
Sem querer pensar em mais nada, agarro Ruby pelo braço, diante do espanto de meu pai e da minha irmã, e a levo ao jardim para falarmos a sós. Reconheceu Emma como a mulher de ontem à noite no pub. Entende o que explico, concorda e, depois de me dar um beijo no rosto, vai embora. Eu volto para casa. Todos me olham. Meu pai sorri, e Emma estende a mão para mim para que a pegue.
— Você vem comigo?
Não respondo. Apenas olho para ela, olho e olho.
— Tia, você tem de perdoar a Emma — diz minha sobrinha. — Ela é muito boa. Olha, me trouxe uma caixa de bombons do Bob Esponja.
Então vejo que Emma pisca um olho para minha sobrinha.
Ela a está subornando?
Ela lhe dá um sorriso cúmplice e meloso. Essas duas!
Olho meu pai, que, emocionado, aprova. Olho minha irmã, que, com um de seus sorrisinhos bobos, também aprova com a cabeça. Meu cunhado pisca pra mim. Fecho os olhos, e meu coração diz que sim. É o que desejo. É o que preciso.
— Por enquanto, você e eu vamos conversar — digo, olhando para Emma.
— O que você quiser, amor.
Minha sobrinha pula, feliz.
— Me dê um segundo. Entro no meu quarto, e minha irmã vem atrás. Vendo o quanto estou perturbada, me abraça.
— Deixe o orgulho de lado, sua teimosa, e aproveite a mulher que veio buscar você. Vocês discutem? Claro, querida. Discuto com Whale dia sim, noite também, mas as reconciliações são a melhor parte. Não negue seus sentimentos e se deixe amar.
Chateada comigo mesma por ficar mudando tanto de ideia, me sento na cama.
— É que ela me tira do sério, Mary.
— E daí?! Whale também me tira do sério. Mas nos amamos e é o que importa, fofinha. Por fim sorrio e, com a ajuda dela, começo a meter minhas coisas na mochila. O que sinto por Emma é tão forte que, definitivamente, não posso ir contra. Eu a amo, preciso dela, a adoro.
Ao voltar à sala com minha bagagem, Emma sorri, me abraça e consegue me deixar arrepiada, quando proclama diante do meu pai e de toda a minha família:
— Vou te conquistar todos os dias.
Depois de me despedir de minha família, entro no carro de Emma.
Fraquejei.
Fraquejei e estou de novo com ela.
Minha cabeça não para, enquanto tento entender o que estou fazendo. De repente, presto atenção à estrada. Pensava que íamos à casa de Maura e Jane, em Zahara, e me surpreendo ao ver que nos dirigimos para o maravilhoso chalé que Emma alugou no verão. Depois que o portão metálico se fecha atrás de nós, observo a linda casa ao fundo e murmuro:
— O que fazemos aqui?
Emma me olha.
— Precisamos ficar sozinhas.
Concordo. Não quero nada mais que isso. Quando desembarcamos, Emma pega minha bagagem com uma das mãos e me dá a outra. Me agarra com força, possessiva, e entramos na casa. Tenho uma tremenda surpresa ao ver como o ambiente mudou. Móveis modernos. Paredes lisas e coloridas. Uma televisão de plasma enorme. Uma lareira por estrear. Tudo, absolutamente tudo, é novo. Surpresa, olho Emma. Vejo que liga o som e, antes que possa dizer qualquer coisa, me explica:
— Comprei a casa.
Incrível. Mas como é possível que eu não tenha sabido disso?
— Você comprou esta casa?
— Sim. Pra você.
— Pra mim?
— Sim, querida. Era minha surpresa de Natal.
Espantada, olho ao redor.
— Venha — diz Emma depois de largar minha bagagem. — Precisamos falar.
A música envolve a sala, e sem poder deixar de admirar como está bonita e elegante, me sento na confortável poltrona diante da lareira crepitante.
— Está muito bonita com esse vestido — Emma afirma, sentando-se a meu lado.
— Obrigada. Acredite ou não, comprei por sua causa.
Depois de um gesto de concordância, passeia seu olhar por meu corpo, e minha Icewoman não pode evitar confessar:
— Mas era a outros a quem você pensava oferecer esse espetáculo.
Lá vamos nós. Já recomeçamos. Já está me cutucando! Conto até 45; não, até 46. Respiro fundo e finalmente respondo:
— Como te disse uma vez, não sou santa. E quando não tenho namorada, mostro e dou tudo que quero, a quem eu quero e quando eu quero. — Emma arqueia uma sobrancelha, mas eu prossigo: — Sou minha única dona, e isso você tem que entender bem entendido de uma vez por todas.
— Certo: quando não tem namorada, o que não é o caso — insiste, sem afastar os olhos de mim.
De repente, me dou conta de que toca uma canção de que gosto muito. Minha nossa, como me lembrei de Emma esses dias enquanto a escutava. Nos olhamos de novo como rivais, ao som da voz de Ricardo Montaner:
Convénceme de ser feliz, convénceme.
Convénceme de no morir, convénceme.
Que no es igual felicidad y plenitud
Que un rato entre los dos, que una vida sin tu amor.
Estas frases dizem tanto de minha
relação com Emma que momentaneamente me nublam o pensamento. Mas por fim Emma
dá o braço a torcer e muda de assunto.
— Minha mãe e minha irmã te mandam lembranças. Esperam te ver na festa que organizam na Alemanha no dia 5, lembra?
— Lembro, mas não conte comigo. Não vou.
Continuo de cara fechada e minha petulância lá em cima. Apesar da felicidade arrebatadora por estar junto da Mulher que adoro, o orgulho e a raiva continuam fortes em mim. Emma sabe disso.
— Regina... Sinto muito por tudo que aconteceu. Você tinha razão. Devia ter acreditado no que me dizia sem ter questionado mais nada. Mas às vezes sou uma cabeça-dura e...
— O que te fez mudar de ideia?
— A paixão com que defendeu sua verdade foi o que me fez compreender o quanto eu estava enganada. Antes de você ter ido embora, querida, já tinha me dado conta da minha grande besteira.
Certas pessoas merecem umas porradas às vezes.
— Me convença...
Mal falei, Emma me olha, e eu censuro a mim mesma. “Me convença?” Mas o que estou dizendo? Santo Deus, a canção me atrapalha o raciocínio. Vamos, termina de uma vez. E sem deixá-la responder, resmungo:
— E pra isso tive que largar meu trabalho e devolver o anel?
— Você não foi despedida e...
— Emma, Emma, não penso em voltar nunca mais pra desgraçada da sua empresa.
— Por quê?
— Porque não. Ah, claro, fiquei alegre ao saber que botou minha ex-chefe no olho da rua. E, antes que insista, minha resposta é não. Não penso em voltar a trabalhar lá, entendeu? Emma concorda, mas durante um instante fica pensativa. Por fim, decide admitir:
— Não vou permitir que continue trabalhando como garçonete nem aqui, nem em lugar nenhum. Odeio ver como te olham. Gosto de ter meu território marcado e...
Confusa com este ataque de ciúme, que me deixa a mil, disparo:
— Olha, bonitona, hoje em dia há muito desemprego na Espanha e, como você sabe, eu tenho que trabalhar, não posso ficar escolhendo muito. Mas, de qualquer forma, agora não quero falar disto, está bem?
Emma se mostra resignada.
— Quanto ao anel...
— Não quero o anel.
Uau, que chata estou sendo! Surpreendo a mim mesma até.
— É teu, querida — responde Emma com tato e voz suave.
— Não quero.
Tenta me beijar, mas recuo. E, antes que diga qualquer coisa, gaguejo:
— Não me encha com anéis, nem compromissos, nem mudanças, nem nada. Estamos falando da gente e de nossa relação. Aconteceu uma coisa que bagunçou minha vida e por ora não quero anel nem o título de namorada. Tudo bem?
Concorda de novo. Sua docilidade me maravilha. Realmente me ama tanto? A canção termina e começa Nirvana. Ótimo! Acabou o romantismo.
Ficamos num silêncio tenso, mas Emma não tira os olhos de cima de mim nem por um segundo. Por fim vejo que se curvam os cantos de seus lábios e ela diz:
— Você é uma garota ao mesmo tempo muito corajosa e muito linda.
Sem querer sorrir, levanto uma sobrancelha:
— Fase puxa-saco?
Emma sorri.
— O que você fez naquele dia no escritório me deixou sem fala.
— O quê? Esfregar a verdade na cara da idiota da minha ex-chefe? Largar meu trabalho?
— Tudo isso e ouvir como me mandou à merda diante do chefe de RH. Não faça isso de novo, claro, ou vou perder o respeito em minha empresa, entende?
Desta vez sou eu que concordo e sorrio. Tem razão. Isso foi mal.
Silêncio. Emma me observa à espera de que a beije. Sei que pede meu contato — sei pela forma como me olha —, mas não estou disposta a deixar barato.
— É verdade que me ama tanto?
— Mais — sussurra, aproximando o nariz do meu pescoço.
Meu coração dispara. O cheiro de Emma, sua proximidade, sua confiança, começam a me atingir, e só posso desejar que tire minha roupa e me possua. Ela, assim pertinho, é irresistível, mas, disposta a dizer tudo o que tenho a dizer, me afasto e murmuro:
— Quero que saiba que estou muito chateada contigo.
— Sinto muito, Amor.
— Você me fez muito mal.
— Sinto muito, pequena.
Volta à carga. Seus lábios tocam meu ombro nu.
Santo Deeeeeeeuuuusss, como gosto! Mas não. Deve provar de seu próprio veneno. Bem que merece. Por isso, respiro fundo e digo:
— Vai sentir muito, sim, Swan, porque a partir de agora cada vez que eu me chatear contigo, você vai ser castigada. Cansei de que apenas você castigue.
Surpresa, ela me olha e ergue a sobrancelha.
— E como pretende me castigar?
Me levanto da poltrona. Não gosta das guerreiras? Pois lá vou eu. Me viro lentamente diante dela, confiando na minha sensualidade.
— Por ora, privando você do que mais deseja.
Icewoman se levanta.
Oh, oh! Sua altura é espetacular. Seus olhos, impressionantes e verdes, me encaram e ela indaga:
— Do que você está falando exatamente?
Ando, ela observa. Quando estou atrás da mesa, explico:
— Não vai desfrutar do meu corpo. É esse o seu castigo.
Tensão!
Dá para cortar o ar com uma faca. Seu rosto perde a expressão. Espero que Emma grite e proteste, mas de repente diz com voz gélida:
— Quer me deixar louca? — Não respondo, e ela prossegue, ofuscada: — Você fugiu de mim. Fiquei louca por não saber onde você estava. Não atendeu ao telefone durante dias. Me bateu a porta na cara e ontem à noite te vi sorrindo pra outras. E ainda quer me castigar mais?
— Hum-hum.
Xinga em alemão.
Uau, palavrãozinho cabeludo que disse!
Mas, ao se dirigir a mim, muda completamente de tom:
— Querida, quero fazer amor com você. Quero te beijar. Quero demonstrar o quanto te amo. Quero você nua nos meus braços. Preciso de você. E você está me dizendo que me prive disso tudo?
Confirmo com minha voz mais fria e distante:
— É isso. Exatamente isso. Não vai me tocar nem num fio de cabelo até que eu deixe. Você me partiu o coração e, se me ama, respeitará o castigo como eu sempre respeitei os teus.
Emma diz mais palavrões em alemão.
— E até quando se supõe que estarei de castigo? — pergunta, me olhando com intensidade.
— Até que eu decida.
Fecha os olhos e inspira fundo. E, por fim, faz um gesto de concordância.
— Tudo bem, pequena. Se é isso o que você acha que deve fazer, vá em frente. Encantada, sorrio. Aprontei uma das minhas. Uhu! Olho o relógio e vejo que são duas e meia da madrugada. Não tenho sono, mas preciso ficar longe dela, ou serei a primeira a não cumprir o castigo absurdo. Então me espreguiço antes de pedir:
— Me diz qual é meu quarto?
— Teu quarto?
Com dissimulação, seguro a risada ao ver a cara dela. E insisto:
— Emma, você não pretende que a gente durma juntas, pretende?
— Mas...
— Não, Emma, não — corto. — Desejo ter minha privacidade. Não quero compartilhar a cama com você. Você não merece. Concorda, lentamente, com uma expressão tensa — sei que neste momento deve estar xingando todas as gerações da minha família —, e murmura, passado o primeiro impacto:
— Já sabe que a casa tem quatro quartos. Escolha o que quiser. Eu dormirei em qualquer um.
Sem olhar para ela, pego minha mochila e me dirijo ao quarto que usamos no verão. Nosso quarto. Está sensacional. Emma pôs uma cama enorme com dossel no centro. Uma maravilha. Móveis brancos de pátina e cortinas de linho cor de laranja combinando com a colcha. Olho o teto e vejo um ventilador. Adoro os ventiladores! Fecho a porta e meu coração bate com força.
O que estou fazendo? Desejo que tire minha roupa, que me beije, que transe comigo como nós duas gostamos, mas aqui estou, negando a mim mesma e a ela o que mais desejo. Depois de deixar minha bagagem perto de uma parede do dormitório, me olho no espelho ovalado, que combina com os móveis, e sorrio. Minha aparência, com este vestido, é das mais sensuais e provocantes. Não estranho que Emma tenha me olhado daquele jeito. Com malícia sorrio e planejo meter mais ainda o dedo na ferida. Quero castigá-la. Abro a aporta, procuro Emma e a vejo parada diante da lareira.
— Posso te pedir um favor?
— Claro.
Consciente do que vou pedir, chego perto dela, afasto meu curto cabelo escuro para um lado e peço, toda charmosa:
— Pode abrir o zíper do meu vestido?
Me viro para que não perceba meu sorriso e ouço sua respiração. Não vejo seu rosto, mas imagino seu olhar em minhas costas. Em minha pele. Suas mãos me tocam.
Ufa, que calor!
Muito lentamente vai descendo o zíper. Noto sua respiração em meu pescoço. Excitante! Imagino o esforço que está fazendo para não me arrancar o vestido e violar o castigo.
— Regi...
— Diga, Emma.
— Eu desejo... — confessa com voz rouca em minha orelha.
Me arrepio, os cabelos se eriçam, mas não respondo. Não posso. Não uso sutiã e o zíper termina no final do meu bumbum. Sei que Emma olha minha calcinha preta. Minha pele. Minha bunda. Eu sei. Eu a conheço. Eu também a desejo. Estou louca para beijá-la. Mas estou disposta a alcançar meu objetivo.
— E o que deseja? — digo, sem me virar.
Chega mais perto de mim. Permito que me abrace por trás, e suas palavras ressoam em minha orelha.
— Desejo você.
Minha nossa, estou doida! Pra não dizer excitada, terrivelmente excitada. Sem olhar para ela, apoio minha cabeça em seu peito, fecho os olhos e sussurro:
— Gostaria de me acariciar, me despir e transar comigo?
— Sim.
— Fazendo um sexo selvagem? — murmuro com um fiozinho de voz.
— Sim.
Expiro profundamente, senão sufoco. Me beija os ombros, e me delicio.
— Gostaria de me compartilhar com outra mulher?
— Só se você quiser, querida.
Vou soltar vapor pelas orelhas a qualquer momento.
— Quero, sim. Olharia você nos olhos e saborearia tua boca enquanto outra me possui.
— Sim...
— Você facilitará tudo pra ela. Me abrirá pra ela e observará como ela mete em mim uma vez depois da outra, enquanto gemo e te olho nos olhos.
Noto como Emma engole com dificuldade. Está quase tendo um troço. Eu acho que já tive um. E quando Emma põe os lábios ardentes na base de minha nuca e me beija, levo um susto, me afasto dela e, olhando-a bem, digo toda triste:
— Não, Emma. Você está de castigo.
Com charminho, seguro o vestido para que não caia.
— Boa noite — me despeço.
Me tranco no quarto. Tremo. Fiz com ela o mesmo que ela fez comigo aquela vez no bar de troca de casais. Provocá-la para nada.
Calor. Desejo. Tesão. Muito tesão... Tiro o vestido e o deixo sobre uma cadeira. Vestida apenas com a calcinha preta, me sento aos pés da cama e olho a porta. Sei que ela vai vir. Seus olhos, sua voz, seus desejos e seus instintos mais primitivos dizem que me quer, que precisa de mim. Instantes depois, ouço seus passos se aproximarem. Minha respiração se agita. Quero que abra a porta. Quero que entre. Quero que me possua enquanto me olha nos olhos. Sem deixar de olhar a porta, ouço seus movimentos. Está hesitante. Sei que está ali fora, avaliando o que fazer. Eu sou sua tentação. Acabo de provocá-la, de excitá-la, mas também sou a mulher que ela não deseja desapontar.
A maçaneta se move, oh, sim!, e meu corpo treme desejoso de ter o que apenas Emma pode me proporcionar. Sexo selvagem. Mas, de repente, a maçaneta para; minha decepção me faz abrir a boca, e mais ainda ao ouvir seus passos se afastando.
Ela se foi?
Quando sou capaz de fechar a boca, sinto vontade de chorar. Sou uma imbecil. Uma bobalhona. Ele acaba de respeitar o que lhe pedi e, eu goste ou não, devo ficar contente. Levo horas para dormir.
Não posso.
A excitação que Emma me causa é demais para mim. Estamos sozinhas numa casa maravilhosa, desejando-nos como loucas, mas nenhum das duas faz nada para remediar a situação.
Pela manhã, quando me levanto, a primeira coisa que faço é ligar para meu pai. Deve estar preocupado.
Aviso que estou bem e me emociono ao ouvir sua voz de felicidade. Está transbordando de alegria por mim e por Emma, e isso me faz sorrir. Me pergunta se gostei da casa que Emma comprou para mim. Fico surpresa que meu pai saiba. Então ele me confessa que estava a par de tudo. Emma lhe pediu que administrasse a obra e guardasse segredo. Ele adorou a missão.
Meu pai e Emma se dão muito bem. Gosto disto, embora, ao mesmo tempo, me inquiete.
Depois de desligar, abro a porta e espio. Não vejo nada, mas ouço música. Me parece que é Stevie Wonder. Escovo os dentes, me penteio um pouco e boto um jeans. Ao entrar na sala ampla, agora integrada à cozinha, vejo Emma deitada no sofá, lendo um jornal. Sorri ao me ver. Como é atraente! Está bonitona com a camiseta cinza e roxa dos Lakers e shorts jeans.
— Bom dia. Quer café? — pergunta com bom humor.
— Sim, com leite.
Em silêncio, ela se levanta e vai até o balcão na cozinha. Pega uma xícara branca e vermelha e serve o café. Enquanto isso, observo suas mãos, essas mãos que adoro, que me deixam louca de prazer quando me tocam.
— Quer torradas, frios, omelete, biscoitos ou provar meu plum-cake, que é um bolo de frutas alemão?
— Nada.
— Nada?
— Estou de regime.
Ela me olha, surpresa. Desde que nos conhecemos nunca lhe disse que estivesse de regime. Essa tortura não combina comigo.
— Você não precisa de regime nenhum — afirma enquanto deixa o café com leite na minha frente.
— Coma.
Não respondo. Apenas a olho, a olho e a olho, e bebo café. Quando termino, Emma, que não tirou os olhos de mim, diz:
— Dormiu bem?
— Sim. — Não penso revelar que não preguei o olho pensando nela.
— E você?
Emma curva o cantinho dos lábios e murmura:
— Sinceramente, não consegui pregar o olho pensando em você.
Que liiiiiindo que ela falou isso! Mas essa olhadinha dela fez meu coração disparar. Me provoca. Por isso, para me afastar da tentação — sou capaz de arrancar a camiseta dos Lakers a mordidas —, vou olhar pela janela. Chove. Dois segundos depois, percebo que Emma está atrás de mim, embora não me toque.
— O que gostaria de fazer hoje?
Uauuuuu! Sei muito bem o que gostaria de fazer: sexo! Mas não, não penso lhe dizer nada, de modo que encolho os ombros.
— O que você quiser.
— Mmm... O que eu quiser? — sussurra perto da minha orelha.
Minha mãe do céu, por favor!
A Icewoman quer a mesma coisa que eu. Sexo! Escutar sua voz e imaginar o que está pensando me deixam arrepiada. Sem que possa evitá-la, me viro para olhá-la, e ela continua, debochada:
— Se é o que eu quiser, já pode tirar a roupa, pequena.
— Emma...
Ela acha graça, sorri e se afasta de mim, depois de me tentar como um verdadeiro demônio.
— Quer ir a Zahara pra ver Maura e Jane? — pergunta quando está suficientemente longe.
Essa me parece uma excelente ideia e aceito animada. Meia hora depois, vamos para Zahara de los Atunes no carro dela. Chove. Faz frio. Emma bota uma música, Convéceme! Por que esta canção de novo?
Que droga, penso enquanto olho pela janela, ainda calada. Sigo assim.
— Não vai cantar?
Mentalmente sim, mas não pretendo admitir.
— Não estou com vontade.
Silêncio, até que Emma o rompe de novo.
— Sabe? Uma vez uma linda mulher, a quem eu adoro, comentou que sua mãe tinha dito que cantar era a única coisa que espanta os males e…
— Alguém precisa que eu espante algum mal?
Leva um susto de tão surpresa.
— Não! Que é isso?
— Então cante você, se quiser; eu não estou a fim.
Emma morde o lábio. Por fim diz, com resignação:
— Tudo bem, pequena, vou ficar quieta.
A tensão no ambiente é palpável, e nenhuma de nós abre a boca durante todo o trajeto. Quando chegamos, Maura e Jane me abraçam entusiasmadas, em especial Maura, que logo que pode me afasta.
— Enfim, enfim! Me alegra muito ver que estão juntas de novo!
— Não cante vitória tão cedo, pois mantenho Emma em quarentena.
— Quarentena?
Sorrio ironicamente.
— Botei Emma de castigo: sem sexo nem carícias.
— Como?
Depois de olhar Emma e contemplar seu semblante carrancudo, murmuro:
— Ela me castiga quando faço alguma coisa errada, e a partir de agora decidi que vou fazer o mesmo. Portanto, eu a castigo sem sexo.
— Mas isso vale só com você ou com todas as mulheres?
Isto me deixa em estado de alerta. Não especifiquei, mas tenho certeza de que ela me entendeu que é com todas. TODAS!
Maura ri, ao ver minha cara.
— Olha, e quando ela te castigou, como foi que fez?
Penso em seus castigos e fico vermelha como um tomate. Maura continua rindo.
— Não precisa me contar, não. Já entendi o lance.
O descaramento dela me faz sorrir.
— Tudo bem, te conto porque não sinto vergonha de falar de sexo com você. A primeira vez que me castigou, me levou a um clube de swing e, depois de me deixar louquinha e me fazer abrir as pernas pra umas pessoas, me obrigou a voltar pro hotel sem que ninguém, nem mesmo ela, me tocasse. Na vez seguinte me entregou a uma mulher e…
— Santo Deuuuussss! Adoro os castigos de Emma, mas acho que o teu é excessivamente cruel.
Vendo a expressão de Maura, por fim sorrio de novo.
— Isso pra que ela saiba com quem está lidando. Vou ser seu maior pesadelo, vai se arrepender de ter mexido comigo.
Pela hora do almoço, parou de chover e decidimos ir a um restaurante de Zahara. Como sempre, está tudo ótimo, e, como não tomei café da manhã, estou com uma fome atroz. Como até não poder mais: os lagostins, o cação bem temperado e os mariscos. Emma me olha com surpresa.
— Não estava de regime?
— Sim — respondo, zombeteira —, mas faço dois.
Com um fico com fome. Meu comentário a faz rir e sem querer chega perto de mim e me beija. Aceito o beijo.
Santo Deus, como eu precisava! Mas quando se afasta, digo, o mais séria que posso:
— Controle seus instintos, Swan, e respeite seu castigo.
Emma fecha a cara e concorda com amargor. Maura me olha e, diante do sorriso dela, encolho os ombros. O resto do dia transcorre agradavelmente. Para mim, estar com Maura é muito divertido, e sinto que Emma quer minha atenção. Precisa que eu a beije e a toque tanto ou mais que eu, mas me contenho. Ainda estou chateada com ela.
À noite, voltamos para casa. Quando chega a hora de dormir, faço das tripas coração e, depois de lhe dar um beijo tentador nos lábios, vou para meu quarto. Mas Emma me pega uma das mãos.
— Até quando isso vai durar?
Quero dizer que acabou.
Quero dizer que já não aguento mais.
Mas meu orgulho me impede de fraquejar. Pisco um olho para Emma, solto sua mão e me tranco no quarto sem responder.
Então meus instintos mais básicos me gritam que abra a porta e acabe com essa bobagem de castigo a que eu mesma nos obriguei, mas meu amor-próprio não me deixa. Como na noite anterior, ouço Emma se aproximar da porta. Sei que quer entrar, mas por fim volta a se afastar.
Pela manhã, a mãe de Emma liga e pede que ela volte para a Alemanha com urgência. A mulher que tomava conta de seu sobrinho, durante sua ausência, decidiu abandonar o trabalho sem aviso prévio e ir viver com a família em Viena. Emma fica numa encruzilhada: seu sobrinho ou eu.
O que deve fazer?
Durante horas observo como tenta solucionar o problema por telefone. Fala com a babá e discute. Não entende que não tenha avisado com tempo para acharem uma substituta. Depois, fala com sua irmã Marta e se desespera. Fala com sua mãe e discute de novo. Depois o ouço falar com Flyn e sinto seu esgotamento em cada palavra.
À tarde, ao vê-la exausta, tremendamente angustiada e sem saber o que fazer, minha sensatez prevalece e concordo em acompanhá-la à Alemanha. Tem de resolver um problema. Quando digo isso, ela fecha os olhos, põe sua testa contra a minha e me abraça. Falo com meu pai e aviso que volto no dia 31 para a ceia com a família. Meu pai entende, mas me deixa claro que, seja lá pelo que for, se no final das contas eu decidir ficar este ano na Alemanha, ele entenderá.
À tarde, pegamos o jatinho de Emma em Jerez e aterrissamos no aeroporto Franz Josef Strauss Internacional de Munique.
— Minha mãe e minha irmã te mandam lembranças. Esperam te ver na festa que organizam na Alemanha no dia 5, lembra?
— Lembro, mas não conte comigo. Não vou.
Continuo de cara fechada e minha petulância lá em cima. Apesar da felicidade arrebatadora por estar junto da Mulher que adoro, o orgulho e a raiva continuam fortes em mim. Emma sabe disso.
— Regina... Sinto muito por tudo que aconteceu. Você tinha razão. Devia ter acreditado no que me dizia sem ter questionado mais nada. Mas às vezes sou uma cabeça-dura e...
— O que te fez mudar de ideia?
— A paixão com que defendeu sua verdade foi o que me fez compreender o quanto eu estava enganada. Antes de você ter ido embora, querida, já tinha me dado conta da minha grande besteira.
Certas pessoas merecem umas porradas às vezes.
— Me convença...
Mal falei, Emma me olha, e eu censuro a mim mesma. “Me convença?” Mas o que estou dizendo? Santo Deus, a canção me atrapalha o raciocínio. Vamos, termina de uma vez. E sem deixá-la responder, resmungo:
— E pra isso tive que largar meu trabalho e devolver o anel?
— Você não foi despedida e...
— Emma, Emma, não penso em voltar nunca mais pra desgraçada da sua empresa.
— Por quê?
— Porque não. Ah, claro, fiquei alegre ao saber que botou minha ex-chefe no olho da rua. E, antes que insista, minha resposta é não. Não penso em voltar a trabalhar lá, entendeu? Emma concorda, mas durante um instante fica pensativa. Por fim, decide admitir:
— Não vou permitir que continue trabalhando como garçonete nem aqui, nem em lugar nenhum. Odeio ver como te olham. Gosto de ter meu território marcado e...
Confusa com este ataque de ciúme, que me deixa a mil, disparo:
— Olha, bonitona, hoje em dia há muito desemprego na Espanha e, como você sabe, eu tenho que trabalhar, não posso ficar escolhendo muito. Mas, de qualquer forma, agora não quero falar disto, está bem?
Emma se mostra resignada.
— Quanto ao anel...
— Não quero o anel.
Uau, que chata estou sendo! Surpreendo a mim mesma até.
— É teu, querida — responde Emma com tato e voz suave.
— Não quero.
Tenta me beijar, mas recuo. E, antes que diga qualquer coisa, gaguejo:
— Não me encha com anéis, nem compromissos, nem mudanças, nem nada. Estamos falando da gente e de nossa relação. Aconteceu uma coisa que bagunçou minha vida e por ora não quero anel nem o título de namorada. Tudo bem?
Concorda de novo. Sua docilidade me maravilha. Realmente me ama tanto? A canção termina e começa Nirvana. Ótimo! Acabou o romantismo.
Ficamos num silêncio tenso, mas Emma não tira os olhos de cima de mim nem por um segundo. Por fim vejo que se curvam os cantos de seus lábios e ela diz:
— Você é uma garota ao mesmo tempo muito corajosa e muito linda.
Sem querer sorrir, levanto uma sobrancelha:
— Fase puxa-saco?
Emma sorri.
— O que você fez naquele dia no escritório me deixou sem fala.
— O quê? Esfregar a verdade na cara da idiota da minha ex-chefe? Largar meu trabalho?
— Tudo isso e ouvir como me mandou à merda diante do chefe de RH. Não faça isso de novo, claro, ou vou perder o respeito em minha empresa, entende?
Desta vez sou eu que concordo e sorrio. Tem razão. Isso foi mal.
Silêncio. Emma me observa à espera de que a beije. Sei que pede meu contato — sei pela forma como me olha —, mas não estou disposta a deixar barato.
— É verdade que me ama tanto?
— Mais — sussurra, aproximando o nariz do meu pescoço.
Meu coração dispara. O cheiro de Emma, sua proximidade, sua confiança, começam a me atingir, e só posso desejar que tire minha roupa e me possua. Ela, assim pertinho, é irresistível, mas, disposta a dizer tudo o que tenho a dizer, me afasto e murmuro:
— Quero que saiba que estou muito chateada contigo.
— Sinto muito, Amor.
— Você me fez muito mal.
— Sinto muito, pequena.
Volta à carga. Seus lábios tocam meu ombro nu.
Santo Deeeeeeeuuuusss, como gosto! Mas não. Deve provar de seu próprio veneno. Bem que merece. Por isso, respiro fundo e digo:
— Vai sentir muito, sim, Swan, porque a partir de agora cada vez que eu me chatear contigo, você vai ser castigada. Cansei de que apenas você castigue.
Surpresa, ela me olha e ergue a sobrancelha.
— E como pretende me castigar?
Me levanto da poltrona. Não gosta das guerreiras? Pois lá vou eu. Me viro lentamente diante dela, confiando na minha sensualidade.
— Por ora, privando você do que mais deseja.
Icewoman se levanta.
Oh, oh! Sua altura é espetacular. Seus olhos, impressionantes e verdes, me encaram e ela indaga:
— Do que você está falando exatamente?
Ando, ela observa. Quando estou atrás da mesa, explico:
— Não vai desfrutar do meu corpo. É esse o seu castigo.
Tensão!
Dá para cortar o ar com uma faca. Seu rosto perde a expressão. Espero que Emma grite e proteste, mas de repente diz com voz gélida:
— Quer me deixar louca? — Não respondo, e ela prossegue, ofuscada: — Você fugiu de mim. Fiquei louca por não saber onde você estava. Não atendeu ao telefone durante dias. Me bateu a porta na cara e ontem à noite te vi sorrindo pra outras. E ainda quer me castigar mais?
— Hum-hum.
Xinga em alemão.
Uau, palavrãozinho cabeludo que disse!
Mas, ao se dirigir a mim, muda completamente de tom:
— Querida, quero fazer amor com você. Quero te beijar. Quero demonstrar o quanto te amo. Quero você nua nos meus braços. Preciso de você. E você está me dizendo que me prive disso tudo?
Confirmo com minha voz mais fria e distante:
— É isso. Exatamente isso. Não vai me tocar nem num fio de cabelo até que eu deixe. Você me partiu o coração e, se me ama, respeitará o castigo como eu sempre respeitei os teus.
Emma diz mais palavrões em alemão.
— E até quando se supõe que estarei de castigo? — pergunta, me olhando com intensidade.
— Até que eu decida.
Fecha os olhos e inspira fundo. E, por fim, faz um gesto de concordância.
— Tudo bem, pequena. Se é isso o que você acha que deve fazer, vá em frente. Encantada, sorrio. Aprontei uma das minhas. Uhu! Olho o relógio e vejo que são duas e meia da madrugada. Não tenho sono, mas preciso ficar longe dela, ou serei a primeira a não cumprir o castigo absurdo. Então me espreguiço antes de pedir:
— Me diz qual é meu quarto?
— Teu quarto?
Com dissimulação, seguro a risada ao ver a cara dela. E insisto:
— Emma, você não pretende que a gente durma juntas, pretende?
— Mas...
— Não, Emma, não — corto. — Desejo ter minha privacidade. Não quero compartilhar a cama com você. Você não merece. Concorda, lentamente, com uma expressão tensa — sei que neste momento deve estar xingando todas as gerações da minha família —, e murmura, passado o primeiro impacto:
— Já sabe que a casa tem quatro quartos. Escolha o que quiser. Eu dormirei em qualquer um.
Sem olhar para ela, pego minha mochila e me dirijo ao quarto que usamos no verão. Nosso quarto. Está sensacional. Emma pôs uma cama enorme com dossel no centro. Uma maravilha. Móveis brancos de pátina e cortinas de linho cor de laranja combinando com a colcha. Olho o teto e vejo um ventilador. Adoro os ventiladores! Fecho a porta e meu coração bate com força.
O que estou fazendo? Desejo que tire minha roupa, que me beije, que transe comigo como nós duas gostamos, mas aqui estou, negando a mim mesma e a ela o que mais desejo. Depois de deixar minha bagagem perto de uma parede do dormitório, me olho no espelho ovalado, que combina com os móveis, e sorrio. Minha aparência, com este vestido, é das mais sensuais e provocantes. Não estranho que Emma tenha me olhado daquele jeito. Com malícia sorrio e planejo meter mais ainda o dedo na ferida. Quero castigá-la. Abro a aporta, procuro Emma e a vejo parada diante da lareira.
— Posso te pedir um favor?
— Claro.
Consciente do que vou pedir, chego perto dela, afasto meu curto cabelo escuro para um lado e peço, toda charmosa:
— Pode abrir o zíper do meu vestido?
Me viro para que não perceba meu sorriso e ouço sua respiração. Não vejo seu rosto, mas imagino seu olhar em minhas costas. Em minha pele. Suas mãos me tocam.
Ufa, que calor!
Muito lentamente vai descendo o zíper. Noto sua respiração em meu pescoço. Excitante! Imagino o esforço que está fazendo para não me arrancar o vestido e violar o castigo.
— Regi...
— Diga, Emma.
— Eu desejo... — confessa com voz rouca em minha orelha.
Me arrepio, os cabelos se eriçam, mas não respondo. Não posso. Não uso sutiã e o zíper termina no final do meu bumbum. Sei que Emma olha minha calcinha preta. Minha pele. Minha bunda. Eu sei. Eu a conheço. Eu também a desejo. Estou louca para beijá-la. Mas estou disposta a alcançar meu objetivo.
— E o que deseja? — digo, sem me virar.
Chega mais perto de mim. Permito que me abrace por trás, e suas palavras ressoam em minha orelha.
— Desejo você.
Minha nossa, estou doida! Pra não dizer excitada, terrivelmente excitada. Sem olhar para ela, apoio minha cabeça em seu peito, fecho os olhos e sussurro:
— Gostaria de me acariciar, me despir e transar comigo?
— Sim.
— Fazendo um sexo selvagem? — murmuro com um fiozinho de voz.
— Sim.
Expiro profundamente, senão sufoco. Me beija os ombros, e me delicio.
— Gostaria de me compartilhar com outra mulher?
— Só se você quiser, querida.
Vou soltar vapor pelas orelhas a qualquer momento.
— Quero, sim. Olharia você nos olhos e saborearia tua boca enquanto outra me possui.
— Sim...
— Você facilitará tudo pra ela. Me abrirá pra ela e observará como ela mete em mim uma vez depois da outra, enquanto gemo e te olho nos olhos.
Noto como Emma engole com dificuldade. Está quase tendo um troço. Eu acho que já tive um. E quando Emma põe os lábios ardentes na base de minha nuca e me beija, levo um susto, me afasto dela e, olhando-a bem, digo toda triste:
— Não, Emma. Você está de castigo.
Com charminho, seguro o vestido para que não caia.
— Boa noite — me despeço.
Me tranco no quarto. Tremo. Fiz com ela o mesmo que ela fez comigo aquela vez no bar de troca de casais. Provocá-la para nada.
Calor. Desejo. Tesão. Muito tesão... Tiro o vestido e o deixo sobre uma cadeira. Vestida apenas com a calcinha preta, me sento aos pés da cama e olho a porta. Sei que ela vai vir. Seus olhos, sua voz, seus desejos e seus instintos mais primitivos dizem que me quer, que precisa de mim. Instantes depois, ouço seus passos se aproximarem. Minha respiração se agita. Quero que abra a porta. Quero que entre. Quero que me possua enquanto me olha nos olhos. Sem deixar de olhar a porta, ouço seus movimentos. Está hesitante. Sei que está ali fora, avaliando o que fazer. Eu sou sua tentação. Acabo de provocá-la, de excitá-la, mas também sou a mulher que ela não deseja desapontar.
A maçaneta se move, oh, sim!, e meu corpo treme desejoso de ter o que apenas Emma pode me proporcionar. Sexo selvagem. Mas, de repente, a maçaneta para; minha decepção me faz abrir a boca, e mais ainda ao ouvir seus passos se afastando.
Ela se foi?
Quando sou capaz de fechar a boca, sinto vontade de chorar. Sou uma imbecil. Uma bobalhona. Ele acaba de respeitar o que lhe pedi e, eu goste ou não, devo ficar contente. Levo horas para dormir.
Não posso.
A excitação que Emma me causa é demais para mim. Estamos sozinhas numa casa maravilhosa, desejando-nos como loucas, mas nenhum das duas faz nada para remediar a situação.
Pela manhã, quando me levanto, a primeira coisa que faço é ligar para meu pai. Deve estar preocupado.
Aviso que estou bem e me emociono ao ouvir sua voz de felicidade. Está transbordando de alegria por mim e por Emma, e isso me faz sorrir. Me pergunta se gostei da casa que Emma comprou para mim. Fico surpresa que meu pai saiba. Então ele me confessa que estava a par de tudo. Emma lhe pediu que administrasse a obra e guardasse segredo. Ele adorou a missão.
Meu pai e Emma se dão muito bem. Gosto disto, embora, ao mesmo tempo, me inquiete.
Depois de desligar, abro a porta e espio. Não vejo nada, mas ouço música. Me parece que é Stevie Wonder. Escovo os dentes, me penteio um pouco e boto um jeans. Ao entrar na sala ampla, agora integrada à cozinha, vejo Emma deitada no sofá, lendo um jornal. Sorri ao me ver. Como é atraente! Está bonitona com a camiseta cinza e roxa dos Lakers e shorts jeans.
— Bom dia. Quer café? — pergunta com bom humor.
— Sim, com leite.
Em silêncio, ela se levanta e vai até o balcão na cozinha. Pega uma xícara branca e vermelha e serve o café. Enquanto isso, observo suas mãos, essas mãos que adoro, que me deixam louca de prazer quando me tocam.
— Quer torradas, frios, omelete, biscoitos ou provar meu plum-cake, que é um bolo de frutas alemão?
— Nada.
— Nada?
— Estou de regime.
Ela me olha, surpresa. Desde que nos conhecemos nunca lhe disse que estivesse de regime. Essa tortura não combina comigo.
— Você não precisa de regime nenhum — afirma enquanto deixa o café com leite na minha frente.
— Coma.
Não respondo. Apenas a olho, a olho e a olho, e bebo café. Quando termino, Emma, que não tirou os olhos de mim, diz:
— Dormiu bem?
— Sim. — Não penso revelar que não preguei o olho pensando nela.
— E você?
Emma curva o cantinho dos lábios e murmura:
— Sinceramente, não consegui pregar o olho pensando em você.
Que liiiiiindo que ela falou isso! Mas essa olhadinha dela fez meu coração disparar. Me provoca. Por isso, para me afastar da tentação — sou capaz de arrancar a camiseta dos Lakers a mordidas —, vou olhar pela janela. Chove. Dois segundos depois, percebo que Emma está atrás de mim, embora não me toque.
— O que gostaria de fazer hoje?
Uauuuuu! Sei muito bem o que gostaria de fazer: sexo! Mas não, não penso lhe dizer nada, de modo que encolho os ombros.
— O que você quiser.
— Mmm... O que eu quiser? — sussurra perto da minha orelha.
Minha mãe do céu, por favor!
A Icewoman quer a mesma coisa que eu. Sexo! Escutar sua voz e imaginar o que está pensando me deixam arrepiada. Sem que possa evitá-la, me viro para olhá-la, e ela continua, debochada:
— Se é o que eu quiser, já pode tirar a roupa, pequena.
— Emma...
Ela acha graça, sorri e se afasta de mim, depois de me tentar como um verdadeiro demônio.
— Quer ir a Zahara pra ver Maura e Jane? — pergunta quando está suficientemente longe.
Essa me parece uma excelente ideia e aceito animada. Meia hora depois, vamos para Zahara de los Atunes no carro dela. Chove. Faz frio. Emma bota uma música, Convéceme! Por que esta canção de novo?
Que droga, penso enquanto olho pela janela, ainda calada. Sigo assim.
— Não vai cantar?
Mentalmente sim, mas não pretendo admitir.
— Não estou com vontade.
Silêncio, até que Emma o rompe de novo.
— Sabe? Uma vez uma linda mulher, a quem eu adoro, comentou que sua mãe tinha dito que cantar era a única coisa que espanta os males e…
— Alguém precisa que eu espante algum mal?
Leva um susto de tão surpresa.
— Não! Que é isso?
— Então cante você, se quiser; eu não estou a fim.
Emma morde o lábio. Por fim diz, com resignação:
— Tudo bem, pequena, vou ficar quieta.
A tensão no ambiente é palpável, e nenhuma de nós abre a boca durante todo o trajeto. Quando chegamos, Maura e Jane me abraçam entusiasmadas, em especial Maura, que logo que pode me afasta.
— Enfim, enfim! Me alegra muito ver que estão juntas de novo!
— Não cante vitória tão cedo, pois mantenho Emma em quarentena.
— Quarentena?
Sorrio ironicamente.
— Botei Emma de castigo: sem sexo nem carícias.
— Como?
Depois de olhar Emma e contemplar seu semblante carrancudo, murmuro:
— Ela me castiga quando faço alguma coisa errada, e a partir de agora decidi que vou fazer o mesmo. Portanto, eu a castigo sem sexo.
— Mas isso vale só com você ou com todas as mulheres?
Isto me deixa em estado de alerta. Não especifiquei, mas tenho certeza de que ela me entendeu que é com todas. TODAS!
Maura ri, ao ver minha cara.
— Olha, e quando ela te castigou, como foi que fez?
Penso em seus castigos e fico vermelha como um tomate. Maura continua rindo.
— Não precisa me contar, não. Já entendi o lance.
O descaramento dela me faz sorrir.
— Tudo bem, te conto porque não sinto vergonha de falar de sexo com você. A primeira vez que me castigou, me levou a um clube de swing e, depois de me deixar louquinha e me fazer abrir as pernas pra umas pessoas, me obrigou a voltar pro hotel sem que ninguém, nem mesmo ela, me tocasse. Na vez seguinte me entregou a uma mulher e…
— Santo Deuuuussss! Adoro os castigos de Emma, mas acho que o teu é excessivamente cruel.
Vendo a expressão de Maura, por fim sorrio de novo.
— Isso pra que ela saiba com quem está lidando. Vou ser seu maior pesadelo, vai se arrepender de ter mexido comigo.
Pela hora do almoço, parou de chover e decidimos ir a um restaurante de Zahara. Como sempre, está tudo ótimo, e, como não tomei café da manhã, estou com uma fome atroz. Como até não poder mais: os lagostins, o cação bem temperado e os mariscos. Emma me olha com surpresa.
— Não estava de regime?
— Sim — respondo, zombeteira —, mas faço dois.
Com um fico com fome. Meu comentário a faz rir e sem querer chega perto de mim e me beija. Aceito o beijo.
Santo Deus, como eu precisava! Mas quando se afasta, digo, o mais séria que posso:
— Controle seus instintos, Swan, e respeite seu castigo.
Emma fecha a cara e concorda com amargor. Maura me olha e, diante do sorriso dela, encolho os ombros. O resto do dia transcorre agradavelmente. Para mim, estar com Maura é muito divertido, e sinto que Emma quer minha atenção. Precisa que eu a beije e a toque tanto ou mais que eu, mas me contenho. Ainda estou chateada com ela.
À noite, voltamos para casa. Quando chega a hora de dormir, faço das tripas coração e, depois de lhe dar um beijo tentador nos lábios, vou para meu quarto. Mas Emma me pega uma das mãos.
— Até quando isso vai durar?
Quero dizer que acabou.
Quero dizer que já não aguento mais.
Mas meu orgulho me impede de fraquejar. Pisco um olho para Emma, solto sua mão e me tranco no quarto sem responder.
Então meus instintos mais básicos me gritam que abra a porta e acabe com essa bobagem de castigo a que eu mesma nos obriguei, mas meu amor-próprio não me deixa. Como na noite anterior, ouço Emma se aproximar da porta. Sei que quer entrar, mas por fim volta a se afastar.
Pela manhã, a mãe de Emma liga e pede que ela volte para a Alemanha com urgência. A mulher que tomava conta de seu sobrinho, durante sua ausência, decidiu abandonar o trabalho sem aviso prévio e ir viver com a família em Viena. Emma fica numa encruzilhada: seu sobrinho ou eu.
O que deve fazer?
Durante horas observo como tenta solucionar o problema por telefone. Fala com a babá e discute. Não entende que não tenha avisado com tempo para acharem uma substituta. Depois, fala com sua irmã Marta e se desespera. Fala com sua mãe e discute de novo. Depois o ouço falar com Flyn e sinto seu esgotamento em cada palavra.
À tarde, ao vê-la exausta, tremendamente angustiada e sem saber o que fazer, minha sensatez prevalece e concordo em acompanhá-la à Alemanha. Tem de resolver um problema. Quando digo isso, ela fecha os olhos, põe sua testa contra a minha e me abraça. Falo com meu pai e aviso que volto no dia 31 para a ceia com a família. Meu pai entende, mas me deixa claro que, seja lá pelo que for, se no final das contas eu decidir ficar este ano na Alemanha, ele entenderá.
À tarde, pegamos o jatinho de Emma em Jerez e aterrissamos no aeroporto Franz Josef Strauss Internacional de Munique.
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