Capítulo 19
É segunda: outra semana de trabalho
começa. Não soube mais nada de Robin e é quase melhor assim. Cada vez que penso
no que fiz, sinto vergonha. Sou uma completa idiota. Aproveitei a quedinha dele
por mim e, quando consegui o que queria, fui embora sem levar em conta seus
sentimentos.
Checo meus e-mails mil vezes, duas mil, três mil, mas Emma não responde. Ela me deixa num vazio e isso me deixa louca. Definitivamente, ela não está nem aí pra mim. Fui apenas mais uma transa para ela, e preciso aceitar isso. Sou uma imbecil mesmo!
Minha chefe chega e está especialmente chata hoje. Killian tenta tirá-la do meu pé e faz isso da melhor forma que sabe. Sexo! Eu me faço de boba e finjo não saber de nada. No fundo, sou grata a ele por mantê-la ocupada.
Os dias passam e minha tatuagem está me incomodando. Segui todas as recomendações de Graham e ainda uso um plástico para proteger.
Continuo sem notícias de Emma.
Minha chefe está com aquela simpatia de sempre. Enche minha mesa de trabalho até não poder mais, e eu, como boa escrava que sou, mergulho nele. Se tem uma coisa que meu pai me ensinou, é não deixar nada pela metade.
Na quinta-feira saio com os amigos para tomar cerveja. Graham vai também e me pergunta sobre a tatuagem. É a única pessoa que sabe, e eu não quero contar para ninguém mais. Combino de passar no seu estúdio na sexta-feira para ele ver como está.
Afinal é sexta-feira!
Dentro de algumas horas estarei de férias.
Continuo sem saber nada de Emma e da suposta viagem às sucursais, então procuro esquecer o assunto. Depois de dar mil voltas na cabeça, decido não pensar mais nisso. Impossível, porque essa desgraçada não me abandona.
Quando desligo o computador e me despeço dos colegas, quase não acredito. Vou ficar praticamente um mês fora do escritório, desse ambiente, e isso me deixa muito feliz. Quando saio, vou direto ao estúdio de Graham. Ele vê minha tatuagem e diz que já posso tirar o plástico de proteção.
Ao chegar em casa, vejo que há uma mensagem da minha irmã na secretária eletrônica.
Pede que eu fique duas noites com minha sobrinha. Tem planos com Whale. Sem conseguir recusar, digo que sim. Minha irmã está eufórica e isso me faz sorrir.
Às nove da noite, minha sobrinha levada chega à minha casa e se apossa da tevê, enquanto minha irmã, toda afobada, me conta suas últimas façanhas sexuais. Quando ela vai embora, Grace insiste que eu peça uma pizza, e nós duas comemos uma pizza de presunto enquanto sou obrigada a aturar os ridículos desenhos do Bob Esponja. Por que será que ela gosta tanto?
À meia-noite, exausta de tanto Bob Esponja, Lula Molusco e seus hambúrgueres de siri, vamos para a cama. Grace quer muito dormir ao meu lado e eu deixo numa boa.
Na manhã de domingo, minha irmã aparece mais feliz que pinto no lixo e, após dizer “Depois te conto!”, vai embora apressada com minha sobrinha. Meu cunhado a espera com o carro parado em fila dupla.
Nessa noite, depois de um dia inteiro jogada no sofá, eu olho para minha mala. Amanhã vou para Jerez passar uns dias com meu pai. Tomo um copo d’água e me enfio na cama, mas, antes de apagar a luz do abajur, vejo os lábios de Emma marcados ali. Apago a luz e decido dormir. Estou precisando.
Como sempre, minha chegada a Jerez, à casa do meu pai, é motivo de animação na vizinhança. Lola, da quitanda, me abraça; Pepi, do armazém, me enche de beijos. O Bicho e o Lucena, quando me veem, dão pulos de alegria. Todo mundo gosta de mim. Meu pai é um homem muito querido na cidade. A vida toda teve uma típica oficina de carros e motos, “Oficina Mills”, e é mais conhecido que o vinho do lugar.
À tarde, na hora em que estou dando um mergulho na piscina maravilhosa que meu pai construiu na casa, Robin aparece. Vou nadando até a borda, observo sua calça branca e a camisa de linho laranja que ele está usando. Está tão bonito como sempre, e essas cores combinam muito bem com seu tom de pele. Ele sorri. Parece um bom sinal.
— Olá, conterrânea.
— Oláááá!
— Já estava mais do que na hora de você voltar pra casa, sua ingrata.
Suas palavras e seu sorriso me dão a entender que ele está bem, que a mágoa comigo já passou. Isso me reconforta. Saio da piscina com meu biquíni verde militar e vejo os olhos de Robin percorrendo meu corpo de cima a baixo. Meu pai, que não repara no olhar dele, vem chegando por trás.
— Olha quem veio te ver, moreninha. Vai uma cervejinha, Robin?
— Obrigado, Henry. Vou adorar uma.
Meu pai sai e nos deixa sozinhos. Nos olhamos e eu lhe pergunto, rindo:
— Que foi?
— Você está linda.
Feliz com o elogio, murmuro enquanto enxugo o rosto com uma toalha:
— Obrigaaaada... você também está.
Dou dois beijinhos nele.
Sinto suas mãos na minha cintura molhada e, ao ver que ele não me solta, replico:
— Me solta ou meu pai vai contar tudo pro seu e eles marcam o casamento pra daqui a dois dias.
— Se assim eu puder te ver mais vezes, tudo bem!
Dou uma risada e ele me solta. Sentamos numa das cadeiras.
— Como estão as coisas?
— Tudo bem e com você?
Robin faz que sim com a cabeça. Não quer falar muito sobre o que aconteceu. Nesse momento, aparece meu pai com duas cervejas e uma Coca-Cola para mim.
Por algum tempo, nós três conversamos na beira da piscina. Às oito, Robin me convida para jantar. Vou dizer que não, que não estou a fim, mas meu pai vai logo aceitando por mim. Às nove, já arrumada, saio com Robin do chalé do meu pai e entro no seu carro.
Ele me leva a um restaurante recém-inaugurado em Jerez e temos um jantar agradável. Robin é simpático e com ele nunca falta assunto. Quando saímos, vamos a um barzinho tomar algo.
— Regina — ele diz quando eu menos espero —, se eu te chamasse pra passar uns dias comigo no Algarve, você iria?
Quase engasgo. Olho para ele e pergunto:
— Por que essa ideia agora?
Robin se apoia na mesa e afasta uma mecha de cabelo que cai nos meus olhos.
— Você sabe.
Olho para ele desconcertada. Outra vez a mesma história? E, antes que eu possa dizer algo, chega mais perto e me dá um beijo. Sua língua invade minha boca.
— Sua chefe, aquela mulher...Por que ela? Não é a pessoa certo pra você.
Stop! Ele está falando de Emma?
— Emma Swan, não é a mulher que você imagina — diz.
— Do que você está falando?
Robin acaricia os contornos do meu rosto.
— Digamos que ela frequenta ambientes que não são saudáveis pra você.
Sem precisar perguntar de novo, eu sei do que ele está falando. Mas meu sangue ferve quando me dou conta de que Robin está bisbilhotando minha vida. Por que ultimamente todo mundo me espiona? Eu o encaro, mal-humorada.
— E o que você sabe da minha chefe e esses ambientes?
— Regina, sou policial e pra mim é muito fácil saber certas coisas. Emma Swan é uma empresária alemã rica que gosta de estar com muitas mulheres. Circula num ambiente muito seleto e, pelo que descobri, gosta de compartilhar algo mais do que amizade.
Descobrir que Robin sabe certas coisas sobre Emma me incomoda, me preocupa.
— Olha, não sei do que você está falando, nem me importa — respondo, incapaz de me acalmar. — Mas o que não entendo é por que você está falando da minha chefe e do que ela faz com a vida pessoal dela.
— Regina, não me importo com sua chefe, mas com você, sim — explica, olhando nos meus olhos. — E não quero que você tome uma decisão errada. Eu te conheço, gosto de você e não quero que ninguém estrague o que é nosso.
— “Nosso”? O que é “nosso”?
— Nosso é o que você e eu temos. Gostamos um do outro há anos e...
— Ai, meu Deeeeeeus.... — murmuro horrorizada.
— Regina, essa mulher não...
— Chega! Não quero mais ouvir falar da minha chefe, nem da minha vida particular, entendeu?
Robin faz que sim e nos envolve num silêncio incômodo.
— Me leva pra casa ou eu vou sozinha. Escolhe! — digo, levantando-me.
Ele também se levanta, esvazia seu copo e tira do bolso as chaves do carro.
— Vamos.
Entramos no carro. Ele dirige e nenhum de nós fala nada. Quando chegamos à porta da casa do meu pai, desliga o motor, olha para mim e sussurra:
— Regina, pensa no que te falei.
Me despeço dele de forma rápida. Abro a porta do carro, desço e, irritada, caminho até a casa do meu pai.
Checo meus e-mails mil vezes, duas mil, três mil, mas Emma não responde. Ela me deixa num vazio e isso me deixa louca. Definitivamente, ela não está nem aí pra mim. Fui apenas mais uma transa para ela, e preciso aceitar isso. Sou uma imbecil mesmo!
Minha chefe chega e está especialmente chata hoje. Killian tenta tirá-la do meu pé e faz isso da melhor forma que sabe. Sexo! Eu me faço de boba e finjo não saber de nada. No fundo, sou grata a ele por mantê-la ocupada.
Os dias passam e minha tatuagem está me incomodando. Segui todas as recomendações de Graham e ainda uso um plástico para proteger.
Continuo sem notícias de Emma.
Minha chefe está com aquela simpatia de sempre. Enche minha mesa de trabalho até não poder mais, e eu, como boa escrava que sou, mergulho nele. Se tem uma coisa que meu pai me ensinou, é não deixar nada pela metade.
Na quinta-feira saio com os amigos para tomar cerveja. Graham vai também e me pergunta sobre a tatuagem. É a única pessoa que sabe, e eu não quero contar para ninguém mais. Combino de passar no seu estúdio na sexta-feira para ele ver como está.
Afinal é sexta-feira!
Dentro de algumas horas estarei de férias.
Continuo sem saber nada de Emma e da suposta viagem às sucursais, então procuro esquecer o assunto. Depois de dar mil voltas na cabeça, decido não pensar mais nisso. Impossível, porque essa desgraçada não me abandona.
Quando desligo o computador e me despeço dos colegas, quase não acredito. Vou ficar praticamente um mês fora do escritório, desse ambiente, e isso me deixa muito feliz. Quando saio, vou direto ao estúdio de Graham. Ele vê minha tatuagem e diz que já posso tirar o plástico de proteção.
Ao chegar em casa, vejo que há uma mensagem da minha irmã na secretária eletrônica.
Pede que eu fique duas noites com minha sobrinha. Tem planos com Whale. Sem conseguir recusar, digo que sim. Minha irmã está eufórica e isso me faz sorrir.
Às nove da noite, minha sobrinha levada chega à minha casa e se apossa da tevê, enquanto minha irmã, toda afobada, me conta suas últimas façanhas sexuais. Quando ela vai embora, Grace insiste que eu peça uma pizza, e nós duas comemos uma pizza de presunto enquanto sou obrigada a aturar os ridículos desenhos do Bob Esponja. Por que será que ela gosta tanto?
À meia-noite, exausta de tanto Bob Esponja, Lula Molusco e seus hambúrgueres de siri, vamos para a cama. Grace quer muito dormir ao meu lado e eu deixo numa boa.
Na manhã de domingo, minha irmã aparece mais feliz que pinto no lixo e, após dizer “Depois te conto!”, vai embora apressada com minha sobrinha. Meu cunhado a espera com o carro parado em fila dupla.
Nessa noite, depois de um dia inteiro jogada no sofá, eu olho para minha mala. Amanhã vou para Jerez passar uns dias com meu pai. Tomo um copo d’água e me enfio na cama, mas, antes de apagar a luz do abajur, vejo os lábios de Emma marcados ali. Apago a luz e decido dormir. Estou precisando.
Como sempre, minha chegada a Jerez, à casa do meu pai, é motivo de animação na vizinhança. Lola, da quitanda, me abraça; Pepi, do armazém, me enche de beijos. O Bicho e o Lucena, quando me veem, dão pulos de alegria. Todo mundo gosta de mim. Meu pai é um homem muito querido na cidade. A vida toda teve uma típica oficina de carros e motos, “Oficina Mills”, e é mais conhecido que o vinho do lugar.
À tarde, na hora em que estou dando um mergulho na piscina maravilhosa que meu pai construiu na casa, Robin aparece. Vou nadando até a borda, observo sua calça branca e a camisa de linho laranja que ele está usando. Está tão bonito como sempre, e essas cores combinam muito bem com seu tom de pele. Ele sorri. Parece um bom sinal.
— Olá, conterrânea.
— Oláááá!
— Já estava mais do que na hora de você voltar pra casa, sua ingrata.
Suas palavras e seu sorriso me dão a entender que ele está bem, que a mágoa comigo já passou. Isso me reconforta. Saio da piscina com meu biquíni verde militar e vejo os olhos de Robin percorrendo meu corpo de cima a baixo. Meu pai, que não repara no olhar dele, vem chegando por trás.
— Olha quem veio te ver, moreninha. Vai uma cervejinha, Robin?
— Obrigado, Henry. Vou adorar uma.
Meu pai sai e nos deixa sozinhos. Nos olhamos e eu lhe pergunto, rindo:
— Que foi?
— Você está linda.
Feliz com o elogio, murmuro enquanto enxugo o rosto com uma toalha:
— Obrigaaaada... você também está.
Dou dois beijinhos nele.
Sinto suas mãos na minha cintura molhada e, ao ver que ele não me solta, replico:
— Me solta ou meu pai vai contar tudo pro seu e eles marcam o casamento pra daqui a dois dias.
— Se assim eu puder te ver mais vezes, tudo bem!
Dou uma risada e ele me solta. Sentamos numa das cadeiras.
— Como estão as coisas?
— Tudo bem e com você?
Robin faz que sim com a cabeça. Não quer falar muito sobre o que aconteceu. Nesse momento, aparece meu pai com duas cervejas e uma Coca-Cola para mim.
Por algum tempo, nós três conversamos na beira da piscina. Às oito, Robin me convida para jantar. Vou dizer que não, que não estou a fim, mas meu pai vai logo aceitando por mim. Às nove, já arrumada, saio com Robin do chalé do meu pai e entro no seu carro.
Ele me leva a um restaurante recém-inaugurado em Jerez e temos um jantar agradável. Robin é simpático e com ele nunca falta assunto. Quando saímos, vamos a um barzinho tomar algo.
— Regina — ele diz quando eu menos espero —, se eu te chamasse pra passar uns dias comigo no Algarve, você iria?
Quase engasgo. Olho para ele e pergunto:
— Por que essa ideia agora?
Robin se apoia na mesa e afasta uma mecha de cabelo que cai nos meus olhos.
— Você sabe.
Olho para ele desconcertada. Outra vez a mesma história? E, antes que eu possa dizer algo, chega mais perto e me dá um beijo. Sua língua invade minha boca.
— Sua chefe, aquela mulher...Por que ela? Não é a pessoa certo pra você.
Stop! Ele está falando de Emma?
— Emma Swan, não é a mulher que você imagina — diz.
— Do que você está falando?
Robin acaricia os contornos do meu rosto.
— Digamos que ela frequenta ambientes que não são saudáveis pra você.
Sem precisar perguntar de novo, eu sei do que ele está falando. Mas meu sangue ferve quando me dou conta de que Robin está bisbilhotando minha vida. Por que ultimamente todo mundo me espiona? Eu o encaro, mal-humorada.
— E o que você sabe da minha chefe e esses ambientes?
— Regina, sou policial e pra mim é muito fácil saber certas coisas. Emma Swan é uma empresária alemã rica que gosta de estar com muitas mulheres. Circula num ambiente muito seleto e, pelo que descobri, gosta de compartilhar algo mais do que amizade.
Descobrir que Robin sabe certas coisas sobre Emma me incomoda, me preocupa.
— Olha, não sei do que você está falando, nem me importa — respondo, incapaz de me acalmar. — Mas o que não entendo é por que você está falando da minha chefe e do que ela faz com a vida pessoal dela.
— Regina, não me importo com sua chefe, mas com você, sim — explica, olhando nos meus olhos. — E não quero que você tome uma decisão errada. Eu te conheço, gosto de você e não quero que ninguém estrague o que é nosso.
— “Nosso”? O que é “nosso”?
— Nosso é o que você e eu temos. Gostamos um do outro há anos e...
— Ai, meu Deeeeeeus.... — murmuro horrorizada.
— Regina, essa mulher não...
— Chega! Não quero mais ouvir falar da minha chefe, nem da minha vida particular, entendeu?
Robin faz que sim e nos envolve num silêncio incômodo.
— Me leva pra casa ou eu vou sozinha. Escolhe! — digo, levantando-me.
Ele também se levanta, esvazia seu copo e tira do bolso as chaves do carro.
— Vamos.
Entramos no carro. Ele dirige e nenhum de nós fala nada. Quando chegamos à porta da casa do meu pai, desliga o motor, olha para mim e sussurra:
— Regina, pensa no que te falei.
Me despeço dele de forma rápida. Abro a porta do carro, desço e, irritada, caminho até a casa do meu pai.
Dois dias depois, Robin não voltou a
aparecer, embora me mande mensagens perguntando como estou e me convidando para
almoçar ou jantar. Recuso os convites. Não quero vê-lo. Saber que ficou
espionando minha vida e a de Emma me deixa furiosa. Mas que coisa chata essa
mania de ficarem espionando a minha vida!
No quinto dia, quando acordo, abro um sorriso. Meu quarto continua como sempre. Papai faz questão de manter tudo igual a antes e, quando o escuto bater na minha porta e entrar em seguida, abro mais um sorriso.
— Bom dia, moreninha.
Adoro esse tom carinhoso e andaluz que ele usa quando fala comigo. Sento na cama e dou bom-dia.
Como sempre, papai me leva o café da manhã na cama e traz o seu também. É um momento nosso, em que colocamos o papo em dia. Algo que os dois gostamos.
— O que você vai fazer hoje?
Tomo um gole do delicioso café antes de responder:
— Marquei com Rocío. Quero conhecer o sobrinho dela.
Meu pai concorda e dá uma mordida na torrada.
— Ele é uma graça. Deram o nome de Pepe, como o avô Pepelu. Você vai ver como é bonitinho. Aliás, Robin ligou. Queria falar com você e disse que voltaria a ligar mais tarde. Não gosto de ouvir isso, mas tento não alterar a expressão do meu rosto. Não quero que meu pai tire conclusões erradas. Mas ele não é bobo.
— Você e Robin brigaram?
— Não.
— Então por que ele não tem vindo aqui como sempre?
Seus olhos me atravessam. Sei que espera que eu diga a verdade.
— Olha, pai. Sejamos sinceros, pois já estamos bem crescidinhos: Robin quer de mim algo que eu não quero dele. E, apesar de ser um ótimo amigo, nunca haverá nada além disso entre a gente porque hoje em dia eu penso em outra pessoa. Você entende, né, pai?
Meu pai responde que sim. Dá outra mordida na torrada e a engole antes de mudar de assunto.
— Sabe quando sua irmã vem?
— Não me disse nada, pai.
— É que eu telefono e ela tem estado sempre com pressa. Mas dá pra perceber que está feliz. Você sabe o motivo? — Isso me faz sorrir. Se meu pai soubesse...
— Já te disse, pai, não faço a menor ideia! Mas com certeza virão os três passar uns dias contigo. Você sabe que a Grace... se não visita seu vovô, fica arrasada.
Meu pai sorri e suspira.
— Ah, minha Grace...! Que vontade que eu tenho de ver essa menina levada. — Logo olha para mim e acrescenta: — Sobre Robin, a partir de agora fico de bico calado, mas, filha, você por acaso você está com aquela moça com quem te vi na última vez que estive em Madri?
Caio na gargalhada.
— Olha, minha querida — continua, antes que eu possa responder —, sei que na capital todos vocês são muito modernos. Mas, caramba, você não faz ideia do quanto essa mulher me desagradou.
— Pode ficar tranquilo, pai... não é ela que ocupa meus pensamentos.
— Que bom, moreninha. Aquela lá parecia mais burra que uma porta.
Seu comentário me faz soltar uma gargalhada, e meu pai ri comigo. Por um bom tempo, curtimos nosso café da manhã, até que ele olha as horas.
— Tenho que ir à oficina.
— Tá bem, pai. Te vejo à tarde.
— Dá uma passada no circuito. Vou estar por lá.
— No circuito? Pra quê?
Ele sorri e, sem me revelar nada, vai se levantando da cama.
— Passa lá por volta das cinco. Tenho uma surpresinha pra você.
Meu pai e seus segredinhos. Mas rapidamente cai a ficha e eu sei a que ele se refere. Aceito o convite. Meu pai sai e eu continuo me entupindo de torradas.
Às onze e meia, minha amiga Rocío passa para me pegar e juntas vamos ver seu sobrinho. Como meu pai disse, o menino é uma gracinha. À uma já estamos de volta e vamos para a piscina. A água está fresquinha e deliciosa.
Rocío me conta suas coisas e tenta me perguntar sobre Robin. Mas, assim que percebe que não quero tocar no assunto, deixa pra lá e falamos de outras coisas. Às duas e meia, minha amiga volta para casa e eu fico deitada na beira da piscina. Meu telefone apita. Uma mensagem. É Robin me chamando para almoçar. Recuso o convite e deito na espreguiçadeira para ouvir música.
Meu celular apita de novo. Que saco! Pego o aparelho e fico sem ar quando leio: “Quer ir beber comigo?” É Emma!
Meu coração dispara.
Emma está em Madri e eu a muitos quilômetros de distância. Pego a Coca-Cola e bebo. Minha garganta ficou seca de repente, e o celular apita outra vez.
"Você sabe que não sou paciente. Responde.”
Com as mãos tremendo, começo a digitar, mas não acerto as teclas! Finalmente consigo escrever: “Estou de férias.”
Envio a mensagem e minha barriga se contrai até que ouço o celular apitar e leio sua resposta: “Eu sei. Muito bonita a porta vermelha do chalé do seu pai.”
Quando leio isso, dou um gritinho, largo o celular, pego uma canga e corro desesperada até a porta. Na minha corrida, derrubo cadeiras do quintal, bato com o quadril, mas não me importo.
Emma está aqui!
Rápida, abro a porta, mas minha cegueira é tamanha que não vejo nenhum carro que possa ser o dela, até que uma buzinadinha me faz olhar pra direita e eu vejo uma mulher numa moto maravilhosa. Ela desce, tira o capacete e, seus cabelos caem como cascata por seus ombros...Seus olhos e sua boca sorriem para mim.
Sem me importar com mais nada nem ninguém, corro até ela e me atiro em seus braços. Meu impulso é tão forte que nós duas quase caímos no chão, mas nada, absolutamente nada, me importa. Eu apenas a abraço e estremeço quando volto a ouvir sua voz em meu ouvido:
— Pequena... senti sua falta.
Estou nervosa. Histérica!
Emma, minha Emma!, está nos meus braços. Em Jerez. Na porta da casa do meu pai. Veio me buscar. Me encontrou e essa é a única coisa em que quero pensar. Quando me separo um pouco dela, sinto seu olhar percorrer meu corpo e então me dou conta da minha aparência.
— Emma, você podia ter avisado. Olha o meu estado.
Ela não responde. Apenas me olha e em seguida me segura pela nuca e me puxa pra ela, pronta para me dar um beijo apaixonado que faz toda Jerez estremecer.
— Você está linda, querida.
Ai, meu Deus! Vou ter um troço. E ainda por cima me chama de “querida”!
— Como está o braço? — pergunta de repente. Eu mostro a marca do ferro.
— Ótimo.
Emma faz um gesto com a cabeça e eu a convido a entrar na casa.
Vai me seguindo e ofereço uma cerveja. Ela recusa e pede água. Eu a faço esperar na piscina enquanto me visto. Emma resiste, mas explico que essa é a casa do meu pai, que pode aparecer a qualquer momento. Ela entende e obedece. Em cinco minutos eu me visto. Um jeans, um top e pronto.
Quando apareço, Emma olha para mim.
— Você recebeu duas mensagens do Robin.
Respiro fundo e, antes de conseguir responder, Emma me puxa para si e me beija com voracidade. Seus beijos me fazem entender que ela sentiu tanta falta de mim quanto eu dela, e isso me deixa feliz. Apesar de que ela ainda me deve muitas explicações. Em meio aos beijos, entramos na cozinha. Emma me sobe na mesa para continuar me beijando e ao mesmo tempo me aperta contra ela.
Calor... estou sentindo um calor infernal e mais ainda quando ela abaixa a cabeça e morde meus seios por cima do top. Somos dominadas por um desejo ardente. E no fim sou eu que, me esquecendo de onde estou, do meu pai e da imagem de Nossa Senhora na cozinha, abro seu jeans, enfio a mão em sua calcinha e a toco. Quero mais.
Emma, excitada por minhas carícias, desabotoa meu jeans e o arranca. Em seguida tira minha calcinha e sinto o frio da mesa em minha bunda. Continuo sentada ali e percebo como ela depressa agacha e afunda sua cabeça entre minhas pernas. Por um pequeno e gostoso tempo, deposita suaves beijos em minhas coxas. Reparo na minha tatuagem, mas ela não. Está cega de desejo. Gosto disso!
Volta a me beijar...Me puxa para si. Com a respiração entrecortada e me encarando com desejo, encosta dois dedos na entrada da minha vagina, enfia alguns centímetros e depois me agarra pela bunda e com um movimento certeiro os mete completamente dentro de mim, enquanto vejo que ela morde o lábio.
Sim... Sim... Sim... Eu precisava sentir Emma.
Calada, me suspende pelo braço esquerdo para me deixar mais próxima de sua altura e me apoia contra a geladeira. Eu a beijo... ela me beija com desespero, e suas penetrações fortes e profundas dentro de mim me fazem gritar de puro prazer. Uma... duas... três... Meu corpo a recebe com gosto... quatro... cinco... seis... Quero mais! De novo, minha carne arde, minha vagina lateja tomada por ela e eu solto gemidos e gozo entre seus braços. Estou feliz. Muito feliz e não quero pensar em mais nada enquanto deixo que ela me coma como gosta. Como nós gostamos. Selvagem, possessivo e duro.
Após várias estocadas fortes que me dão a sensação de que ela vai me rasgar por dentro, Emma se joga para trás e solta um grunhido. Deixa sua cabeça cair sobre meu ombro e, por alguns minutos, nós duas permanecemos apoiadas na geladeira.
— O que você está fazendo aqui, Emma?
— Estava morrendo de vontade de ver você de novo.
Seu comentário me faz fechar os olhos. Adoro ouvir isso, mas não entendo por que ela não veio me ver antes. Por fim me beija e seguimos para o banheiro para nos limpar um pouco antes de sair da casa do meu pai entre beijos e risadas. Ela me sugere que a gente vá almoçar em algum lugar e, ao chegarmos à sua espetacular moto, pergunto:
— É sua?
Não responde. Dá de ombros e me entrega o outro capacete.
— Você tem medo?
Coloco o capacete que ela me dá.
— Medo não, respeito.
Emma sorri. Sobe na moto e partimos.
— Segure em mim com força. Se você tiver medo em algum momento, me avise, ok? Concordo num gesto.
Eu a oriento pelas ruas de Jerez e almoçamos num restaurante de Pachuca, uma amiga do meu pai. Ao me ver entrar , ela pisca para mim e nos conduz até a melhor mesa da casa. Logo me enche de beijos e reclama por eu aparecer tão pouco, enquanto observo que Emma digita alguma coisa no celular. Quando acaba com os beijos e queixas, ela nos entrega o menu.
— Menina, pede o salmorejo, que hoje fiz um que ficou um espetáculo.
— O que é isso? — pergunta Emma, achando graça.
— É tipo uma sopa fria de tomate, um gaspacho, mas mais concentradinha. Se você gosta de verdura, tenho certeza de que vai adorar o salmorejo da Pachuca — explica ela. Respondemos em uníssono: salmorejo para duas!
— E como prato principal, o que você sugere?
Pachuca sorri e diz:
— Tenho atum aceboladinho que tá uma delícia, ou costelinhas. Cês preferem o quê?
— Atum — responde Emma.
— Eu também.
Pachuca se afasta, e Emma olha para mim e estende as mãos por cima da mesa para pegar as minhas. Não dizemos nada. Apenas nos olhamos até que ela rompe o silêncio:
— Sou uma babaca.
— É mesmo. Com certeza.
Seu comentário me confirma que ela recebeu meus e-mails.
— Quero que saiba que seu último e-mail me deixou louca de raiva.
Solto suas mãos.
— Você mereceu.
— Eu sei...
— Fiz o que você me pediu. E, como seu detetive não podia me espionar dentro do quarto, resolvi fazer isso eu mesma.
Observo suas mãos. Os nós estão tensos e ficam brancos.
— Reconheço que errei, mas não gostei do que vi.
Isso me surpreende. Me recosto na cadeira.
— Não gostou de me ver transando com outra pessoa?
Emma me encara. Seu olhar está sombrio.
— Não, porque eu não estava participando.
Não quero confessar que para mim ela estava, sim, na imaginação.
— Você me desculpa?
— Não sei. Tenho que pensar, Icewoman.
— Icewoman?!
Sorrio, mas não comento que foi Killian quem colocou esse apelido nela.
— Tua frieza às vezes te transforma numa mulher de gelo. Icewoman!
Faz um gesto concordando. Fica me olhando e exige que eu lhe dê a mão de novo.
— Peço desculpas por não ter te procurado esse tempo todo. Mas acredite em mim: eu estava muito ocupada.
— Por que não podia me ligar?
Ela pensa... pensa... pensa e, por fim, parece encontrar uma resposta:
— Prometo que da próxima vez eu ligo.
Tento fazer cara de emburrada. Não me respondeu, mas não consigo ficar brava com ela. Estou tão... tão feliz por ela ter vindo até aqui e por estar ao meu lado que só consigo sorrir como uma boba e aproveitar a felicidade. Meu celular toca. É Robin. Emma vê o nome que aparece no visor.
— Pode atender, se quiser.
— Não... agora não. — Desligo o celular.
A comida, como a Pachuca bem disse, está uma verdadeira delícia. O salmorejo é maravilhoso. E o atum, mais ainda. Quando saímos do restaurante, consulto o relógio. São 16h15. Então me lembro de que marquei de encontrar meu pai às cinco.
— Você tem vontade de conhecer o circuito de Jerez?
Emma me aproxima dela e sussurra perto da minha boca:
— Pequena, vontade mesmo eu tenho é de outra coisa. Vamos, aluguei um chalé que...
— Alugou um chalé?
— Sim. Quero estar perto de você.
Sua proximidade, sua voz e sua sugestão me fazem suspirar. Fico querendo correr para esse chalé, mas não. Não vou fazer isso, por mais que a ideia me seduza. Não.
— Combinei com meu pai às cinco no circuito. O que acha de conhecê-lo?
— Conhecer seu pai?
— É. Meu pai. Mas pode ficar tranquila, ele não tem nada contra alemães!
Meu comentário a faz sorrir. E, após me dar um tapinha, me entrega o capacete.
— Vamos conhecer seu pai.
Assim que chegamos ao circuito, encontramos Roberto na entrada. Ele me cumprimenta e me diz para esperar meu pai na reta dos boxes. Explico a Emma como chegar lá e ela brinca comigo, dando aceleradas que me fazem gritar e me segurar nela.
Ao chegarmos aos boxes, ninguém está lá. Descemos da moto e fico olhando para ela. É linda.
— Quer que eu te ensine a usar?
Sua pergunta me surpreende e eu reajo como uma criança.
— Hummm, não sei.
— Tem medo?
— Nããããão.
— Então qual é o problema?
O sol bate direto no meu rosto e eu pisco um olho para enxergar Emma melhor.
— Tenho medo de cair e de estragá-la.
— Não vou te deixar cair — responde com segurança.
Isso me faz sorrir. Essa é Emma, uma mulher segura. Por fim, incentivada por ela, subo na moto. Olho ao redor e vejo que meu pai ainda não apareceu. Durante alguns minutos, Emma me explica que as marchas estão no pé esquerdo, depois me indica como acelerar, como usar a embreagem e como frear. Em seguida arranca com a moto.
— Uau, que barulho incrível!
— As Ducati todas têm esse som assim, menina. Forte e rouco. Agora vem, engata a primeira e...
Faço o que ela me pede e a moto morre. Com um sorriso carinhoso, ela arranca outra vez.
— Isso é como um carro, querida. Se você soltar a embreagem depressa, o carro morre. Engate a primeira, solte devagarzinho e acelere.
Me chamou de “querida” duas vezes em menos de duas horas. Uau!
Volto a engatar a primeira, solto devagarzinho e, droga!, a moto morre de novo.
— Não se preocupe. — Ri, aproximando-se de mim.
Repete tudo e desta vez eu me concentro. Engato a primeira, solto devagarzinho a embreagem e acelero. A moto começa a andar e ela aplaude enquanto dou gritinhos. De repente eu freio e a moto dá um tranco. Emma grita e vem correndo.
— Se você frear só com o freio dianteiro, pode cair.
— Ok.
Repetimos o processo vinte vezes e cada vez eu me saio pior. Freio pior e não me conformo. A cara de Emma é impagável.
— Vamos, desça da moto.
— Nããããão... Quero aprender!
— Outro dia continuamos com as aulas — insiste.
— Ah, por favor, Emma... não seja desmancha-prazeres.
Seus olhos não sorriem. Está tensa.
— Chega, Regi. Não quero que você quebre a cabeça.
Mas eu já tomei gosto pela coisa e agora quero continuar.
— Só mais uma vez, por favor. Só mais uma.
Emma olha para mim, muito séria, mas acaba cedendo.
— Só uma vez, e depois você desce, combinado?
— Ebaaaa! Então engato a primeira e... — Ao ver seu rosto tenso, pergunto:
— Vem cá, por que você está tão preocupada?
— Regi... tenho medo que você se machuque.
— Você fica angustiada quando não sabe o que vai acontecer?
— Fico.
— Por quê?
Sem entender minhas perguntas e com a testa franzida, responde:
— Porque preciso saber que você está bem e que não vai te acontecer nada.
Arranco de novo. Engato a primeira, solto a embreagem e acelero com cuidado. A moto vai devagarzinho e Emma está ao lado.
— Emma!
— Que foi?
— Fique sabendo que a angústia que você acaba de sentir nem se compara com a que senti por sua causa nessas duas semanas. E, agora, olha só isso!
Engato a segunda, acelero e a moto se movimenta. Ponho a terceira... quarta e saio diretamente ao circuito. Pelo retrovisor eu a vejo boquiaberta e então sorrio. Estou empolgada por dirigir uma moto outra vez. É algo de que sempre gostei e que me proporciona liberdade. Enquanto faço as curvas do circuito de Jerez, penso em Emma. Em sua cara de preocupação. E volto a sorrir. Eu a imagino nos boxes, sozinha e desconcertada. Acelero.
Saio da pista e entro nos boxes. Está sentada num degrau. Quando me vê, levanta-se. Sua expressão é dura. Icewoman está de volta. Mas, feliz por tê-la feito sofrer por alguns minutos, chego até ela e freio bruscamente sem desligar o motor. Tiro o capacete e, no melhor estilo As panteras, olho para ela.
— Vem cá, Emma, você achava mesmo que a filha de um mecânico não sabia dirigir uma moto?
Emma se aproxima de mim. Parece prestes a me dizer alguma coisa não muito amigável, até que me segura pelo pescoço e me beija com verdadeira paixão. Ainda em cima da moto, eu a agarro e a devoro até que escuto a voz do meu pai.
— Eu já sabia que a mulher que estava correndo na pista era minha moreninha. Rapidamente me separo de Emma. Pisco para ela, o que a faz sorrir, e me viro na direção do meu pai.
— Pai, essa aqui é uma amiga minha. Emma Swan.
Meu pai sorri e a examina de alto a baixo. Sei que ele sabe que essa mulher é a pessoa que anda povoando meus pensamentos. Emma dá um passo à frente e apertam as mãos.
— Prazer em conhecê-lo, senhor Mills.
— Me chame de Henry, ou terei que te chamar por esse sobrenome esquisito que você tem.
Ambos sorriem e sei que foram com a cara um do outro. Me alegra saber que meu pai não se sente desconfortável , e muito menos se opõe, em saber que saio com mulheres. Papai simplesmente quer me ver bem e feliz! Emma olha para mim e se dirige ao meu pai:
— Henry, o senhor tem uma filha meio mentirosa. Tinha me dito que não sabia dirigir moto e, depois de me fazer ensinar a ela como usar a embreagem, saiu disparada como uma flecha.
— Você disse isso a ela, sua sem-vergonha? — meu pai brinca.
Confirmo com a cabeça, achando graça.
— Emma, minha moreninha foi campeã de motocross de Jerez por vários anos e, hoje em dia, continua ganhando prêmios.
— Sério?
— Ahaaaaaam — eu digo, divertindo-me.
Durante um tempo, Emma e meu pai ficam fazendo graça e eu entro na brincadeira. Estou diante de duas das pessoas que mais amo na vida e isso me faz feliz. Alguns instantes depois, meu pai começa a andar e volta em nossa direção.
— Me acompanhem, crianças.
Quando vou seguir meu pai, Emma me agarra pela cintura e me puxa para si.
— Moreninha, você é uma caixinha de surpresas.
Pisco para ela e finjo lhe dar um soco na barriga que a faz rir.
— Cuidado com o olho, porque também fui campeã regional de caratê.
Eu a escuto assobiar, surpresa, quando meu pai diz ao entrar num boxe:
— Olha o que preparei pra você.
Bem na minha frente está a moto com a qual ganhei esses prêmios de motocross. Limpa e reluzente. Uma Ducati Vox Mx 530 de 2007. Emocionada, ando até lá e subo nela. O celular do meu pai começa a tocar e ele sai do boxe para atender. Arranco com a moto e seu som áspero ecoa ao nosso redor. Depois olho para Emma e digo enquanto ela dá risada:
— Já te disse que adoro o barulho forte e rouco das Ducati?
No quinto dia, quando acordo, abro um sorriso. Meu quarto continua como sempre. Papai faz questão de manter tudo igual a antes e, quando o escuto bater na minha porta e entrar em seguida, abro mais um sorriso.
— Bom dia, moreninha.
Adoro esse tom carinhoso e andaluz que ele usa quando fala comigo. Sento na cama e dou bom-dia.
Como sempre, papai me leva o café da manhã na cama e traz o seu também. É um momento nosso, em que colocamos o papo em dia. Algo que os dois gostamos.
— O que você vai fazer hoje?
Tomo um gole do delicioso café antes de responder:
— Marquei com Rocío. Quero conhecer o sobrinho dela.
Meu pai concorda e dá uma mordida na torrada.
— Ele é uma graça. Deram o nome de Pepe, como o avô Pepelu. Você vai ver como é bonitinho. Aliás, Robin ligou. Queria falar com você e disse que voltaria a ligar mais tarde. Não gosto de ouvir isso, mas tento não alterar a expressão do meu rosto. Não quero que meu pai tire conclusões erradas. Mas ele não é bobo.
— Você e Robin brigaram?
— Não.
— Então por que ele não tem vindo aqui como sempre?
Seus olhos me atravessam. Sei que espera que eu diga a verdade.
— Olha, pai. Sejamos sinceros, pois já estamos bem crescidinhos: Robin quer de mim algo que eu não quero dele. E, apesar de ser um ótimo amigo, nunca haverá nada além disso entre a gente porque hoje em dia eu penso em outra pessoa. Você entende, né, pai?
Meu pai responde que sim. Dá outra mordida na torrada e a engole antes de mudar de assunto.
— Sabe quando sua irmã vem?
— Não me disse nada, pai.
— É que eu telefono e ela tem estado sempre com pressa. Mas dá pra perceber que está feliz. Você sabe o motivo? — Isso me faz sorrir. Se meu pai soubesse...
— Já te disse, pai, não faço a menor ideia! Mas com certeza virão os três passar uns dias contigo. Você sabe que a Grace... se não visita seu vovô, fica arrasada.
Meu pai sorri e suspira.
— Ah, minha Grace...! Que vontade que eu tenho de ver essa menina levada. — Logo olha para mim e acrescenta: — Sobre Robin, a partir de agora fico de bico calado, mas, filha, você por acaso você está com aquela moça com quem te vi na última vez que estive em Madri?
Caio na gargalhada.
— Olha, minha querida — continua, antes que eu possa responder —, sei que na capital todos vocês são muito modernos. Mas, caramba, você não faz ideia do quanto essa mulher me desagradou.
— Pode ficar tranquilo, pai... não é ela que ocupa meus pensamentos.
— Que bom, moreninha. Aquela lá parecia mais burra que uma porta.
Seu comentário me faz soltar uma gargalhada, e meu pai ri comigo. Por um bom tempo, curtimos nosso café da manhã, até que ele olha as horas.
— Tenho que ir à oficina.
— Tá bem, pai. Te vejo à tarde.
— Dá uma passada no circuito. Vou estar por lá.
— No circuito? Pra quê?
Ele sorri e, sem me revelar nada, vai se levantando da cama.
— Passa lá por volta das cinco. Tenho uma surpresinha pra você.
Meu pai e seus segredinhos. Mas rapidamente cai a ficha e eu sei a que ele se refere. Aceito o convite. Meu pai sai e eu continuo me entupindo de torradas.
Às onze e meia, minha amiga Rocío passa para me pegar e juntas vamos ver seu sobrinho. Como meu pai disse, o menino é uma gracinha. À uma já estamos de volta e vamos para a piscina. A água está fresquinha e deliciosa.
Rocío me conta suas coisas e tenta me perguntar sobre Robin. Mas, assim que percebe que não quero tocar no assunto, deixa pra lá e falamos de outras coisas. Às duas e meia, minha amiga volta para casa e eu fico deitada na beira da piscina. Meu telefone apita. Uma mensagem. É Robin me chamando para almoçar. Recuso o convite e deito na espreguiçadeira para ouvir música.
Meu celular apita de novo. Que saco! Pego o aparelho e fico sem ar quando leio: “Quer ir beber comigo?” É Emma!
Meu coração dispara.
Emma está em Madri e eu a muitos quilômetros de distância. Pego a Coca-Cola e bebo. Minha garganta ficou seca de repente, e o celular apita outra vez.
"Você sabe que não sou paciente. Responde.”
Com as mãos tremendo, começo a digitar, mas não acerto as teclas! Finalmente consigo escrever: “Estou de férias.”
Envio a mensagem e minha barriga se contrai até que ouço o celular apitar e leio sua resposta: “Eu sei. Muito bonita a porta vermelha do chalé do seu pai.”
Quando leio isso, dou um gritinho, largo o celular, pego uma canga e corro desesperada até a porta. Na minha corrida, derrubo cadeiras do quintal, bato com o quadril, mas não me importo.
Emma está aqui!
Rápida, abro a porta, mas minha cegueira é tamanha que não vejo nenhum carro que possa ser o dela, até que uma buzinadinha me faz olhar pra direita e eu vejo uma mulher numa moto maravilhosa. Ela desce, tira o capacete e, seus cabelos caem como cascata por seus ombros...Seus olhos e sua boca sorriem para mim.
Sem me importar com mais nada nem ninguém, corro até ela e me atiro em seus braços. Meu impulso é tão forte que nós duas quase caímos no chão, mas nada, absolutamente nada, me importa. Eu apenas a abraço e estremeço quando volto a ouvir sua voz em meu ouvido:
— Pequena... senti sua falta.
Estou nervosa. Histérica!
Emma, minha Emma!, está nos meus braços. Em Jerez. Na porta da casa do meu pai. Veio me buscar. Me encontrou e essa é a única coisa em que quero pensar. Quando me separo um pouco dela, sinto seu olhar percorrer meu corpo e então me dou conta da minha aparência.
— Emma, você podia ter avisado. Olha o meu estado.
Ela não responde. Apenas me olha e em seguida me segura pela nuca e me puxa pra ela, pronta para me dar um beijo apaixonado que faz toda Jerez estremecer.
— Você está linda, querida.
Ai, meu Deus! Vou ter um troço. E ainda por cima me chama de “querida”!
— Como está o braço? — pergunta de repente. Eu mostro a marca do ferro.
— Ótimo.
Emma faz um gesto com a cabeça e eu a convido a entrar na casa.
Vai me seguindo e ofereço uma cerveja. Ela recusa e pede água. Eu a faço esperar na piscina enquanto me visto. Emma resiste, mas explico que essa é a casa do meu pai, que pode aparecer a qualquer momento. Ela entende e obedece. Em cinco minutos eu me visto. Um jeans, um top e pronto.
Quando apareço, Emma olha para mim.
— Você recebeu duas mensagens do Robin.
Respiro fundo e, antes de conseguir responder, Emma me puxa para si e me beija com voracidade. Seus beijos me fazem entender que ela sentiu tanta falta de mim quanto eu dela, e isso me deixa feliz. Apesar de que ela ainda me deve muitas explicações. Em meio aos beijos, entramos na cozinha. Emma me sobe na mesa para continuar me beijando e ao mesmo tempo me aperta contra ela.
Calor... estou sentindo um calor infernal e mais ainda quando ela abaixa a cabeça e morde meus seios por cima do top. Somos dominadas por um desejo ardente. E no fim sou eu que, me esquecendo de onde estou, do meu pai e da imagem de Nossa Senhora na cozinha, abro seu jeans, enfio a mão em sua calcinha e a toco. Quero mais.
Emma, excitada por minhas carícias, desabotoa meu jeans e o arranca. Em seguida tira minha calcinha e sinto o frio da mesa em minha bunda. Continuo sentada ali e percebo como ela depressa agacha e afunda sua cabeça entre minhas pernas. Por um pequeno e gostoso tempo, deposita suaves beijos em minhas coxas. Reparo na minha tatuagem, mas ela não. Está cega de desejo. Gosto disso!
Volta a me beijar...Me puxa para si. Com a respiração entrecortada e me encarando com desejo, encosta dois dedos na entrada da minha vagina, enfia alguns centímetros e depois me agarra pela bunda e com um movimento certeiro os mete completamente dentro de mim, enquanto vejo que ela morde o lábio.
Sim... Sim... Sim... Eu precisava sentir Emma.
Calada, me suspende pelo braço esquerdo para me deixar mais próxima de sua altura e me apoia contra a geladeira. Eu a beijo... ela me beija com desespero, e suas penetrações fortes e profundas dentro de mim me fazem gritar de puro prazer. Uma... duas... três... Meu corpo a recebe com gosto... quatro... cinco... seis... Quero mais! De novo, minha carne arde, minha vagina lateja tomada por ela e eu solto gemidos e gozo entre seus braços. Estou feliz. Muito feliz e não quero pensar em mais nada enquanto deixo que ela me coma como gosta. Como nós gostamos. Selvagem, possessivo e duro.
Após várias estocadas fortes que me dão a sensação de que ela vai me rasgar por dentro, Emma se joga para trás e solta um grunhido. Deixa sua cabeça cair sobre meu ombro e, por alguns minutos, nós duas permanecemos apoiadas na geladeira.
— O que você está fazendo aqui, Emma?
— Estava morrendo de vontade de ver você de novo.
Seu comentário me faz fechar os olhos. Adoro ouvir isso, mas não entendo por que ela não veio me ver antes. Por fim me beija e seguimos para o banheiro para nos limpar um pouco antes de sair da casa do meu pai entre beijos e risadas. Ela me sugere que a gente vá almoçar em algum lugar e, ao chegarmos à sua espetacular moto, pergunto:
— É sua?
Não responde. Dá de ombros e me entrega o outro capacete.
— Você tem medo?
Coloco o capacete que ela me dá.
— Medo não, respeito.
Emma sorri. Sobe na moto e partimos.
— Segure em mim com força. Se você tiver medo em algum momento, me avise, ok? Concordo num gesto.
Eu a oriento pelas ruas de Jerez e almoçamos num restaurante de Pachuca, uma amiga do meu pai. Ao me ver entrar , ela pisca para mim e nos conduz até a melhor mesa da casa. Logo me enche de beijos e reclama por eu aparecer tão pouco, enquanto observo que Emma digita alguma coisa no celular. Quando acaba com os beijos e queixas, ela nos entrega o menu.
— Menina, pede o salmorejo, que hoje fiz um que ficou um espetáculo.
— O que é isso? — pergunta Emma, achando graça.
— É tipo uma sopa fria de tomate, um gaspacho, mas mais concentradinha. Se você gosta de verdura, tenho certeza de que vai adorar o salmorejo da Pachuca — explica ela. Respondemos em uníssono: salmorejo para duas!
— E como prato principal, o que você sugere?
Pachuca sorri e diz:
— Tenho atum aceboladinho que tá uma delícia, ou costelinhas. Cês preferem o quê?
— Atum — responde Emma.
— Eu também.
Pachuca se afasta, e Emma olha para mim e estende as mãos por cima da mesa para pegar as minhas. Não dizemos nada. Apenas nos olhamos até que ela rompe o silêncio:
— Sou uma babaca.
— É mesmo. Com certeza.
Seu comentário me confirma que ela recebeu meus e-mails.
— Quero que saiba que seu último e-mail me deixou louca de raiva.
Solto suas mãos.
— Você mereceu.
— Eu sei...
— Fiz o que você me pediu. E, como seu detetive não podia me espionar dentro do quarto, resolvi fazer isso eu mesma.
Observo suas mãos. Os nós estão tensos e ficam brancos.
— Reconheço que errei, mas não gostei do que vi.
Isso me surpreende. Me recosto na cadeira.
— Não gostou de me ver transando com outra pessoa?
Emma me encara. Seu olhar está sombrio.
— Não, porque eu não estava participando.
Não quero confessar que para mim ela estava, sim, na imaginação.
— Você me desculpa?
— Não sei. Tenho que pensar, Icewoman.
— Icewoman?!
Sorrio, mas não comento que foi Killian quem colocou esse apelido nela.
— Tua frieza às vezes te transforma numa mulher de gelo. Icewoman!
Faz um gesto concordando. Fica me olhando e exige que eu lhe dê a mão de novo.
— Peço desculpas por não ter te procurado esse tempo todo. Mas acredite em mim: eu estava muito ocupada.
— Por que não podia me ligar?
Ela pensa... pensa... pensa e, por fim, parece encontrar uma resposta:
— Prometo que da próxima vez eu ligo.
Tento fazer cara de emburrada. Não me respondeu, mas não consigo ficar brava com ela. Estou tão... tão feliz por ela ter vindo até aqui e por estar ao meu lado que só consigo sorrir como uma boba e aproveitar a felicidade. Meu celular toca. É Robin. Emma vê o nome que aparece no visor.
— Pode atender, se quiser.
— Não... agora não. — Desligo o celular.
A comida, como a Pachuca bem disse, está uma verdadeira delícia. O salmorejo é maravilhoso. E o atum, mais ainda. Quando saímos do restaurante, consulto o relógio. São 16h15. Então me lembro de que marquei de encontrar meu pai às cinco.
— Você tem vontade de conhecer o circuito de Jerez?
Emma me aproxima dela e sussurra perto da minha boca:
— Pequena, vontade mesmo eu tenho é de outra coisa. Vamos, aluguei um chalé que...
— Alugou um chalé?
— Sim. Quero estar perto de você.
Sua proximidade, sua voz e sua sugestão me fazem suspirar. Fico querendo correr para esse chalé, mas não. Não vou fazer isso, por mais que a ideia me seduza. Não.
— Combinei com meu pai às cinco no circuito. O que acha de conhecê-lo?
— Conhecer seu pai?
— É. Meu pai. Mas pode ficar tranquila, ele não tem nada contra alemães!
Meu comentário a faz sorrir. E, após me dar um tapinha, me entrega o capacete.
— Vamos conhecer seu pai.
Assim que chegamos ao circuito, encontramos Roberto na entrada. Ele me cumprimenta e me diz para esperar meu pai na reta dos boxes. Explico a Emma como chegar lá e ela brinca comigo, dando aceleradas que me fazem gritar e me segurar nela.
Ao chegarmos aos boxes, ninguém está lá. Descemos da moto e fico olhando para ela. É linda.
— Quer que eu te ensine a usar?
Sua pergunta me surpreende e eu reajo como uma criança.
— Hummm, não sei.
— Tem medo?
— Nããããão.
— Então qual é o problema?
O sol bate direto no meu rosto e eu pisco um olho para enxergar Emma melhor.
— Tenho medo de cair e de estragá-la.
— Não vou te deixar cair — responde com segurança.
Isso me faz sorrir. Essa é Emma, uma mulher segura. Por fim, incentivada por ela, subo na moto. Olho ao redor e vejo que meu pai ainda não apareceu. Durante alguns minutos, Emma me explica que as marchas estão no pé esquerdo, depois me indica como acelerar, como usar a embreagem e como frear. Em seguida arranca com a moto.
— Uau, que barulho incrível!
— As Ducati todas têm esse som assim, menina. Forte e rouco. Agora vem, engata a primeira e...
Faço o que ela me pede e a moto morre. Com um sorriso carinhoso, ela arranca outra vez.
— Isso é como um carro, querida. Se você soltar a embreagem depressa, o carro morre. Engate a primeira, solte devagarzinho e acelere.
Me chamou de “querida” duas vezes em menos de duas horas. Uau!
Volto a engatar a primeira, solto devagarzinho e, droga!, a moto morre de novo.
— Não se preocupe. — Ri, aproximando-se de mim.
Repete tudo e desta vez eu me concentro. Engato a primeira, solto devagarzinho a embreagem e acelero. A moto começa a andar e ela aplaude enquanto dou gritinhos. De repente eu freio e a moto dá um tranco. Emma grita e vem correndo.
— Se você frear só com o freio dianteiro, pode cair.
— Ok.
Repetimos o processo vinte vezes e cada vez eu me saio pior. Freio pior e não me conformo. A cara de Emma é impagável.
— Vamos, desça da moto.
— Nããããão... Quero aprender!
— Outro dia continuamos com as aulas — insiste.
— Ah, por favor, Emma... não seja desmancha-prazeres.
Seus olhos não sorriem. Está tensa.
— Chega, Regi. Não quero que você quebre a cabeça.
Mas eu já tomei gosto pela coisa e agora quero continuar.
— Só mais uma vez, por favor. Só mais uma.
Emma olha para mim, muito séria, mas acaba cedendo.
— Só uma vez, e depois você desce, combinado?
— Ebaaaa! Então engato a primeira e... — Ao ver seu rosto tenso, pergunto:
— Vem cá, por que você está tão preocupada?
— Regi... tenho medo que você se machuque.
— Você fica angustiada quando não sabe o que vai acontecer?
— Fico.
— Por quê?
Sem entender minhas perguntas e com a testa franzida, responde:
— Porque preciso saber que você está bem e que não vai te acontecer nada.
Arranco de novo. Engato a primeira, solto a embreagem e acelero com cuidado. A moto vai devagarzinho e Emma está ao lado.
— Emma!
— Que foi?
— Fique sabendo que a angústia que você acaba de sentir nem se compara com a que senti por sua causa nessas duas semanas. E, agora, olha só isso!
Engato a segunda, acelero e a moto se movimenta. Ponho a terceira... quarta e saio diretamente ao circuito. Pelo retrovisor eu a vejo boquiaberta e então sorrio. Estou empolgada por dirigir uma moto outra vez. É algo de que sempre gostei e que me proporciona liberdade. Enquanto faço as curvas do circuito de Jerez, penso em Emma. Em sua cara de preocupação. E volto a sorrir. Eu a imagino nos boxes, sozinha e desconcertada. Acelero.
Saio da pista e entro nos boxes. Está sentada num degrau. Quando me vê, levanta-se. Sua expressão é dura. Icewoman está de volta. Mas, feliz por tê-la feito sofrer por alguns minutos, chego até ela e freio bruscamente sem desligar o motor. Tiro o capacete e, no melhor estilo As panteras, olho para ela.
— Vem cá, Emma, você achava mesmo que a filha de um mecânico não sabia dirigir uma moto?
Emma se aproxima de mim. Parece prestes a me dizer alguma coisa não muito amigável, até que me segura pelo pescoço e me beija com verdadeira paixão. Ainda em cima da moto, eu a agarro e a devoro até que escuto a voz do meu pai.
— Eu já sabia que a mulher que estava correndo na pista era minha moreninha. Rapidamente me separo de Emma. Pisco para ela, o que a faz sorrir, e me viro na direção do meu pai.
— Pai, essa aqui é uma amiga minha. Emma Swan.
Meu pai sorri e a examina de alto a baixo. Sei que ele sabe que essa mulher é a pessoa que anda povoando meus pensamentos. Emma dá um passo à frente e apertam as mãos.
— Prazer em conhecê-lo, senhor Mills.
— Me chame de Henry, ou terei que te chamar por esse sobrenome esquisito que você tem.
Ambos sorriem e sei que foram com a cara um do outro. Me alegra saber que meu pai não se sente desconfortável , e muito menos se opõe, em saber que saio com mulheres. Papai simplesmente quer me ver bem e feliz! Emma olha para mim e se dirige ao meu pai:
— Henry, o senhor tem uma filha meio mentirosa. Tinha me dito que não sabia dirigir moto e, depois de me fazer ensinar a ela como usar a embreagem, saiu disparada como uma flecha.
— Você disse isso a ela, sua sem-vergonha? — meu pai brinca.
Confirmo com a cabeça, achando graça.
— Emma, minha moreninha foi campeã de motocross de Jerez por vários anos e, hoje em dia, continua ganhando prêmios.
— Sério?
— Ahaaaaaam — eu digo, divertindo-me.
Durante um tempo, Emma e meu pai ficam fazendo graça e eu entro na brincadeira. Estou diante de duas das pessoas que mais amo na vida e isso me faz feliz. Alguns instantes depois, meu pai começa a andar e volta em nossa direção.
— Me acompanhem, crianças.
Quando vou seguir meu pai, Emma me agarra pela cintura e me puxa para si.
— Moreninha, você é uma caixinha de surpresas.
Pisco para ela e finjo lhe dar um soco na barriga que a faz rir.
— Cuidado com o olho, porque também fui campeã regional de caratê.
Eu a escuto assobiar, surpresa, quando meu pai diz ao entrar num boxe:
— Olha o que preparei pra você.
Bem na minha frente está a moto com a qual ganhei esses prêmios de motocross. Limpa e reluzente. Uma Ducati Vox Mx 530 de 2007. Emocionada, ando até lá e subo nela. O celular do meu pai começa a tocar e ele sai do boxe para atender. Arranco com a moto e seu som áspero ecoa ao nosso redor. Depois olho para Emma e digo enquanto ela dá risada:
— Já te disse que adoro o barulho forte e rouco das Ducati?
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