sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Peça-me o que quiser Capítulo 28

Capítulo 28
Quando acordo na manhã seguinte, estou sozinha e nua na cama imensa. 
Jogada de qualquer jeito numa cadeira, vejo o vestido que Emma usava na noite anterior e, não muito longe, o meu. Sorrio e suspiro. Por um momento repasso mentalmente os últimos meses com ela e sinto que estou numa montanha-russa que me agrada muito e não quero que essa viagem acabe nunca.
 
Meu celular apita. Uma mensagem. É meu pai, dizendo que está indo embora para Jerez. Ligo para me despedir e sorrio ao me lembrar da sua alegria na noite anterior. Emma e ele se dão muito bem e para mim isso é muito importante. Combinamos de nos ver no Natal. Então me despeço dele e em breve embarcarei para a Alemanha junto com meu amor.
 
Deixo o celular na mesinha de cabeceira e reparo no pote de lubrificante — fecho os olhos. Ainda não consigo acreditar nas coisas que tenho feito. Nunca na vida imaginei que pudesse experimentar o sexo selvagem que faço com Emma. Cada vez entendo mais o que um dia Emma me explicou sobre o tesão. O tesão pode te fazer alcançar limites inimagináveis. Ah, se pode...! Eu que o diga!
 
Nos últimos meses tenho feito sexo em todos os sentidos da palavra, e Emma me compartilhou com mulheres. Pensar nisso me faz sorrir e desejar mais. Se há um ano alguém tivesse me dito que eu faria tudo isso, eu pensaria que essa pessoa estava doida. Mas não. Aqui estou eu, nua na cama de Emma e disposta a realizar minhas fantasias e as dela.
 
Me levanto e, ao sentar na cama, faço uma careta ao perceber que minha bunda está doendo. Com cuidado, ergo o corpo novamente e me sinto estranha ao caminhar. Vou direto para o chuveiro e, quando saio, vejo Emma sentada na cama. Ligou o rádio e, assim que me vê, sorri.
 
— O que houve?
 
— Minha bunda está doendo.
 
Sua expressão se contrai e ela murmura:
 
— Querida... eu te falei pra ter cuidado.
 
— Ai, Emma... acho que vou ter que sentar em cima de uma boia.
 
Emma ri, mas em seguida percebe que estou com a cara séria.
 
— Desculpa... desculpa.
 
Com cuidado, me sento na cama e, antes que ela diga qualquer coisa, levanto um dedo e digo:
 
— Nada de me sacanear sobre isso, tá?
 
— Tá — responde.
 
De repente, começa a tocar uma música que faz nós duas rirmos.
 
Emma me deita na cama e, achando graça, comenta:
 
— Como diz a música, estou louca pra te beijar.
 
E me beija. Aceito com prazer seu beijo e quando sua mão desce pela minha cintura, o telefone toca. Emma me solta e vai atender. Após desligar, diz:
 
— Era minha mãe. Marquei com ela meio-dia e meia no restaurante do hotel.
 
— Pra almoçar?
 
— É.
— Esse horário gringo de vocês me mata — respondo, bufando. — Eu tomaria é o café da manhã.
 
Emma sorri e explica:
 
— Eu sei, querida, mas ela vai voltar a Munique hoje à tarde e quer almoçar com a gente.
 
— Tá bom — digo. — Você tem um analgésico ou algo do gênero?
 
— Tenho... na nécessaire.
 
Emma vai pegá-lo, mas se detém e diz, segurando o riso:
 
— Não se preocupa, querida, as cadeiras do restaurante são macias.
 
Essa gracinha me faz bufar. Sinto vontade de lhe dizer umas poucas e boas, mas, ao ver seus olhos brincalhões, me seguro e abro um sorriso. Sua felicidade é minha felicidade, e a música que me faz ficar louca para beijá-la continua tocando.
 
Dolorida, me levanto e abro o armário. Ali dentro vejo uma calça jeans e uma blusa rosa, mas, como não encontro o que estou procurando, reclamo desesperada:
 
— Que droga, não tenho nem uma calcinha!
 
— Não fale palavrões, querida — Emma me repreende ao mesmo tempo que me abraça.
 
— Desculpa, mas tenho que dizer. Você arrebentou todas as minhas calcinhas, e agora não tenho nenhuma aqui pra vestir. E claro... você não acha que vou sair sem calcinha pra almoçar com sua mãe, né?
 
Achando graça, ela sorri, me entrega o analgésico e responde:
 
— Ela nem vai saber. Qual é o problema?
 
Pego uma calcinha boxer de Emma e coloco.
 
Emma me olha.
 
— Nossa! Até de boxer você me deixa excitada, fofinha. Vem cá.
 
— Nem pensar.
 
— Vem cá.
 
— Não... sua mãe está esperando a gente pra almoçar.
 
— Vamos, amor. Temos tempo ainda!
 
Nesse instante o notebook de Emma apita. Chegou uma mensagem. Eu aviso, mas ela sabe bem o que quer. E o que ela quer sou eu.
 
Corro pelo quarto, subo na cama e ela se pendura em mim. Me puxa e eu fico rindo. Me beija com voracidade e ao mesmo tempo ri também e tira a cueca que estou vestindo. Faz um moviento rápido com a mão e entra em mim com seus dedos. Nos olhamos nos olhos e, enquanto ela entra várias vezes dentro de mim, me sussurra centenas de palavras carinhosas que me deixam louca.
 
Após essa rapidinha, nos vestimos. Coloco a cueca outra vez, a calça jeans e a blusa rosa, em meio a risadas e beijinhos. Quando pego meu celular, ouço novamente o barulho das mensagens do notebook de Emma. Depois de um beijo delicioso nos lábios, ela vai até o computador, e o sorriso que antes me alegrava desaparece pouco a pouco, dando lugar à máscara de uma Icewoman em sua versão mais assustadora. Seus olhos perdem o brilho e ela xinga. Vejo-a mexer no mouse. Me olha e diz, tensa:
 
— Nunca esperaria isso de você.
 
Fecha com força a tela do computador e sai do quarto furiosa. Sem pensar duas vezes, vou até o computador, abro a tela e leio uma mensagem:

De: Rebeca Hernández
 
8 de dezembro de 2012 08:24
 
Para: Emma Swan
 
Assunto: Sua namorada
 
Fico feliz em saber que continuamos compartilhando os mesmos gostos. Mando umas fotos. Sei que você adora olhar. Aproveite.
Horrorizada, abro as fotos e fico sem palavras. São fotos minhas com Rebeca, tomando uma bebida e rindo. Marisa e Lorena não aparecem. Onde estão? Abro outro arquivo e grito. Vejo Rebeca tocando meus seios, e eu nua. Em outra imagem estou de pé e ela agachada diante do meu púbis com as mãos entre minhas pernas. Sinto falta de ar... não entendo. Como podem ter tirado essas fotos? E, principalmente, como essas fotos podem ter chegado até Emma? 
Estremeço. Não sei por que Rebeca enviou essas imagens e saio à procura de Emma. Eu a encontro na sala de estar da suíte, dando voltas como uma louca. Com as mãos trêmulas, me aproximo. Deixo meu celular em cima da mesa e não sei o que dizer. Não sei como justificar essas fotos.
 
— Pode me dizer o que significa isso? — grita descontrolada.
 
— Não... não sei. Eu...
 
Enlouquecida, olha para mim e grita:
 
— Pelo amor de Deus, Regina. Que merda você foi fazer com Betta?
 
— Betta?!
 
— Não se faz de idiota — esbraveja irritada. — Você sabe muito bem que Betta é Rebeca. Escutar esse nome me deixa paralisada. Betta é Rebeca? A mulher que traiu Emma com o pai dela é a mesma com quem saí nas fotos? Minhas pernas tremem e eu preciso sentar. Busco uma explicação para tudo isso. Estou totalmente convencida de que me enganaram com o objetivo claro de prejudicar nosso relacionamento.
 
— Emma... escuta.
Furiosa, chega mais perto de mim e, sem me tocar, berra na minha cara:
 
— Desde quando você a conhece?
 
— Emma, não fala besteira. Eu nem sei quem é essa mulher. Ela e...
 
— Não acredito em você — grita. — Como você foi capaz? Como?
Nervosa, me levanto do sofá e tento me aproximar dela, mas Emma está fora de si e não para de andar e gritar pelo quarto. Ela é grande, tentar pará-la seria como me chocar contra um trem em alta velocidade.
— Por favor, Emma, me escuta. Sei que pode parecer outra coisa, mas juro que eu não sabia que essa mulher era Betta, e não fiz nada do que parece que faço nas fotos. Pelo amor de Deus, você tem que acreditar em mim...
 
Meu celular toca. Está em cima da mesa.
 
Emma olha para ele e eu também. Quase fico sem ar quando vejo no visor do aparelho o nome “Rebeca”. Furiosa, Emma o pega e, após confirmar que é ela e trocar umas palavras bem desagradáveis com sua ex, atira-o no chão. Fecha os olhos. Sua expressão se contrai por alguns segundos. Sua cara é assustadora. Ameaçadora. Quando abre os olhos, me olha por alguns instantes e depois diz em alto e bom som:
 
— A brincadeira acabou, senhorita Mills. Pega suas coisas e vai embora.
 
Meu estômago se revira. Mal consigo respirar.
 
— Emma... querida, você precisa me escutar. Isso tudo é um engano, eu...
 
— É um erro imperdoável e você sabe tão bem quanto eu. Vai embora!
 
— Emma, não!...
 
Com um desprezo total estampado em seu rosto, olha para mim e diz:
 
— Primeiro foi com Marisa, agora com Betta. O que mais você está escondendo?
 
— Nada... se você deixar, eu...
 
— Você ia morar comigo na Alemanha. Pretendia continuar mentindo?
 
— Meu Deus, Emma, quer me escutar e...?!
 
— Sabe — me interrompe —, mulheres como você, eu tenho todas que eu quiser.
 
A Emma prepotente está de volta.
 
— Não me diga! Mulheres como eu? — grito fora de mim.
 
— É. Mentirosas. Mentirosas sem escrúpulos e dispostas a magoar quem quer que seja — responde. — Meu erro foi achar que você era especial.
 
— Não fala bobagem, Emma, e me escuta, que estou ficando angustiada.
 
Com expressão cínica, a mulher que amo olha para mim e sorri.
 
— Se você fica angustiada por achar que Helena ou qualquer uma das mulheres a quem eu te ofereci não vão mais te chamar, não se preocupa. Eu vou dar seu telefone. Tenho certeza de que elas vão me agradecer.
 
— Como você pode dizer isso? Como pode ser tão cruel? — Me olha com uma expressão dura, e eu grito desconcertada:
 
— Nem pense em dar meu telefone a ninguém!
 
Emma me encara de um jeito desafiador, com os olhos injetados de raiva.
 
— Tem razão, pra quê? Você sozinha se sai muito bem.
 
Sem alterar sua expressão, ela se vira e abre a porta da suíte.
 
— Quando eu voltar do almoço com minha mãe, não quero te encontrar aqui.
 
Não posso deixá-la ir embora. Não posso deixar nossa relação terminar. Tento segurá-la por todos os meios, mas acabo gritando:
 
— Se você sair sem falar comigo, sem me dar uma chance de eu me explicar, vai ter que assumir as consequências.
 
Meu grito a detém, ela se vira de novo e me encara.
 
— Consequências? Você acha pouco saber que minha suposta namorada e minha ex são mais que amiguinhas?
 
— Isso é mentira!
 
— Mentira. As fotos já dizem tudo.
 
Sem me dar tempo de dizer ou fazer qualquer coisa, ela vai embora, fecha a porta. Sofrendo e sem respirar direito, vejo a mulher que amo e adoro me enxotando sem querer me ouvir. Quero correr na direção dela, mas sei que não vou conseguir nada. Se há uma coisa que sei sobre Emma é que, quando ela se zanga desse jeito, não raciocina. É pior que eu.
 
Me sento no sofá. Estou tão paralisada que nem sei o que fazer. Choro e me desespero. Por que ela não quer acreditar em mim? Por que não me escuta? Mil perguntas sem resposta ficam dando voltas na minha cabeça, enquanto tento buscar uma saída, uma solução. Quando consigo parar de chorar, me levanto e ando até o quarto. Ver a cama revirada me angustia e eu me jogo em cima dela. O cheiro de Emma, de sexo e de bons momentos vividos horas atrás me faz gritar furiosa.
 
Olho a tela do computador e observo com frieza a foto em que apareço junto com a agora conhecida como Betta. Como pude ser tão idiota?
 
Me levanto, pego uma caneta em cima da mesa e, com todo o sangue-frio de que sou capaz, anoto seu e-mail. Essa mulher vai me pagar. Coloco o papel na calça jeans. Dou uma olhada ao redor e guardo na minha bolsa o vestido da noite anterior. Saio do quarto em seguida, mas, ao passar pela sala, vejo meu celular destruído no chão. Me abaixo, recolho as peças, vou embora da suíte aos prantos e, com a pouca dignidade que me resta, saio do hotel.
Na segunda-feira, quando chego ao trabalho, fico sabendo que Emma, minha suposta namorada, voltou para a Alemanha. Foi embora e não me avisou. Georgina, sua secretária, está empolgada porque ela pediu para ela se encontrar com ela na quarta-feira nos escritórios de Munique. Isso me tira do sério. Saber que ela foi embora por não querer me ver nem falar comigo me deixa arrasada. E, cada vez que olho para as caixas embaladas, me dá um nó na garganta.
Os dias vão passando dentro do possível. Não ligo para ela. Não mando e-mails. Resumindo, não vivo. Eu lhe disse que, se fosse embora, teria de assumir as consequências, e sou uma mulher de palavra. Mas tenho que falar com ela. Preciso disso.
 
Escrevo um e-mail para a tal de Betta ou Rebeca, mas ela não responde. Compro um celular e coloco o chip do telefone em que tenho o número dessa vagabunda, mas ela não atende. Ligo para Marisa, e ela também não atende. Estou de mãos e pés atados e não sei o que fazer. Nem como provar a Emma que o que ela pensa de mim é mentira.
Minha chefe tem sido simpática comigo esses dias. Continuo sendo a namorada da chefona e percebo que ela não me enche de trabalho como fazia há alguns meses. Agora até fico entediada.
 
Na semana seguinte, quando chego ao escritório na segunda-feira, me surpreendo ao ver Emma na sala dela. Meu coração dispara. Minhas mãos começam a suar e acho que vou ter um troço. Caminho pelo departamento para que ela me veja. Sei que me viu. Mas, como ela não me liga nem faz nada para falar comigo, resolvo tomar a iniciativa.
 
Quando abro a porta da sua sala, Emma me olha de um jeito duro.
 
— O que deseja, senhorita Mills?
 
Fecho a porta. Meu coração está a mil. Vou até sua mesa e murmuro:
 
— Fico feliz em saber que você voltou.
Me olha... me olha... me olha e finalmente repete com uma expressão neutra:
— O que deseja, senhorita Mills?
 
— Emma, a gente precisa conversar. Por favor, você tem que me escutar.
 
Com um olhar implacável, ela se recosta na poltrona.
 
— Já deixei muito claro que eu e a senhorita não temos mais nada a falar. E agora, por gentileza, volte à sua sala antes que eu perca a paciência e a coloque no olho da rua, como está merecendo.
 
Meu corpo acusa o golpe. Ah, não... isso não vai ficar assim. Quero gritar. Quero dar um chute nela e não aceito que me trate com tanta frieza. Mas, como preciso que ela me escute, faço um esforço para engolir o orgulho.
 
— Senhora Swan, gostaria que a senhora ouvisse o que tenho a dizer.
— Saia da minha sala — diz sem alterar sua expressão — e atenha-se à sua tarefa, que é trabalhar para mim e para minha empresa.
 
A porta é aberta, e Georgina entra com um café. Ela nos observa e, quando faz menção de nos deixar a sós, Emma diz:
— Georgina, fica aqui pra gente terminar o que estava fazendo. A senhorita Mills está de saída.
 
Me revolto e insisto:
 
— Pelo amor de Deus, Emma, quer fazer o favor de me dar um minuto?
 
Ela se levanta. Está superelegante em seu terninho preto. Apoia-se na mesa e diz, olhando nos meus olhos:
 
— Saia da minha sala imediatamente.
 
— Não.
 
— Quer ser demitida?
 
Georgina faz uma cara cerimoniosa toda sem jeito. Olho para ela e digo furiosa:
 
— Por favor, sai da sala. Já!
 
Ela obedece sem hesitar. Emma solta um palavrão e, quando ficamos a sós, eu tomo coragem, ponho para fora o gênio que meu pai diz que é idêntico ao da minha mãe, e digo:
 
— Você pode me expulsar, pode me demitir, mas não pode me calar.
 
— Não quero te ouvir. Já disse que...
Dou um soco na mesa que quase quebra minha mão e a interrompo furiosa:
 
— Você vai me ouvir, droga, mesmo que seja a última coisa que eu faça na vida.
 
Emma fica em silêncio. Continua furiosa, mas pelo menos me olha com curiosidade.
 
— Essa tal de Betta, junto com Marisa e uma tal de Lorena, apareceu na academia que eu frequento. Marisa me apresentou a elas e em momento algum me contou que aquela era sua ex. Só me disse que se chamava Rebeca. Como vou saber que Betta é Rebeca? Quando saímos da academia, fomos tomar Coca-cola num bar. Trocamos telefone para marcar de jantar. Depois Lorena sugeriu que a gente fosse à casa de uma conhecida dela pra buscar umas roupas que ela tinha encomendado, e na verdade era uma loja de lingerie. Provei algumas peças pensando em você. Por isso eu estava nua! E foi ali que a tal Rebeca tentou algo comigo, mas não conseguiu. Me recusei! Agora sei que foi tudo armado por ela e que a única coisa que essa idiota queria era provocar essa reação em você.
 
Emma me encara. Seus olhos me fulminam e sigo:
— Por que você acredita nela e não em mim? Por acaso ela é mais confiável do que eu? Respiro agitada. Mas o alívio que sinto após lhe contar a verdade é enorme.
— E por que eu deveria acreditar em você?
 
Uma revolta grande cresce dentro de mim. Sua expressão não é nada boa e eu respondo:
 
— Porque você conhece nós duas e sabe perfeitamente que eu não sou mentirosa. Posso ter mil defeitos, mas nunca menti pra você. E, antes que você me expulse da sua sala, quero que saiba que estou magoada, furiosa, irritada e morrendo de raiva por não ter percebido a armação dessas mulheres. Mas o ódio que estou sentindo delas nem se compara com o que sinto agora por você. Eu ia abandonar minha vida, minha família, meu trabalho e minha cidade pra ir embora contigo, e acaba que você, a mulher que eu imaginava que cuidaria de mim e me daria carinho, desconfia de mim na primeira oportunidade. Isso me dói, você partiu meu coração e quero que saiba que desta vez a culpa é sua. Sua e só sua.
 
Emma olha para mim. Eu olho de volta e nenhuma de nós diz nada.
 
Preciso que ela fale, que me entenda, que diga algo. Mas as palavras ou o gesto de que preciso não chegam. Emma segue impassível atrás da mesa, me fulmina com o olhar mas não reage. Minha mão está doendo por causa do soco que dei na mesa e, ao tocá-la, noto o anel que Emma me deu de presente. Fecho os olhos. Não quero fazer o que tenho que fazer, mas não me resta alternativa. Por fim tiro o anel, deixo em cima da mesa e murmuro diante do seu semblante rígido:
— Ok, senhora Swan, o que havia entre nós acabou. Fique feliz por Rebeca. Ela venceu. Dou meia-volta e saio. Não quero olhar para ela. Não quero nada dela.
 
Estou tão chateada que sou capaz de qualquer coisa. Logo que saio, Georgina entra na sala de Emma. Não sei o que estão falando, mas realmente não me importo. Minhas mãos estão tremendo. Quando chego à minha mesa e me sento, minha chefe sai da sala e diz:
 
— Regina, por favor, me localiza o representante de Sevilha. Preciso falar com ele.
 
Como um robô, faço o que ela pede. Não quero pensar. Não posso. Nesse instante, Georgina sai da sala de Emma, olha para mim e entra na sala da minha chefe. Assim que consigo o telefone do representante de Sevilha, entro na sala da minha chefe e Georgina sai, mas, quando faço menção de ir embora, ouço a voz da imbecil da minha chefe dizendo:
 
— Acabo de ficar sabendo que você devolveu o anel a Emma Swan.
 
Não respondo. Me recuso a dar satisfação da minha vida a essa idiota.
 
— O amor de vocês já acabou?
 
Esse comentário faz meu sangue ferver. Faz com que eu me sinta viva, e então respondo:
 
— Se não se importa, é um assunto particular do qual prefiro não falar.
Mas a prepotente da minha chefe não consegue ficar quieta.
 
— Então não vai mais pra Alemanha? — Ao ver que não respondo, volta à carga: — Você realmente acreditava que uma mulher como ela poderia querer alguma coisa séria contigo?
 
Não digo nada. Tenho vontade de partir para cima dela. Puxá-la pelos cabelos. Mas ela insiste. Parece estar curtindo a situação.
 
— É bom você se preparar pro que vem pela frente, Regina. Você vai ser motivo de piada durante todo o tempo em que ficar na Müller. Você passou de namorada intocável da chefona a uma mulher rejeitada e digna de chacota na empresa. E, sinceramente, não sinto pena. Você tem se achado o máximo ultimamente e precisa se pôr no seu devido lugar.
 
Meu sangue ferve... ferve... ferve e sei que não há mais como voltar atrás.
 
Se tem uma coisa que sempre fui nessa maldita empresa, é discreta e trabalhadora. E, se havia alguém que não queria sair espalhando por aí minha relação com Emma, esse alguém era eu, justamente para evitar as fofocas. Por isso, e consciente de que o que vou fazer é motivo de demissão, dou um tapa no notebook da minha chefe, fecho a tela bruscamente e contesto com força:
 
— Prefiro ser a rejeitada pelo chefe a ser uma coroa tarada e oferecida que dá em cima de todos os garotinhos que aparecem na sua frente. — Ela abre a boca e eu continuo: — Isso mesmo... Ou você acha que não sei o que você faz de vez em quando nessa sala?
 
— Não te autorizo a...
— Não me autoriza, é? — eu a interrompo e levanto a voz. — Olha aqui, sua ridícula, tenho sido uma boa secretária. Te acobertei, te defendi, e não contei a ninguém o que vi. E, mesmo assim, você me trata desse jeito pelo que houve entre mim e a Swan. Pois bem, cansei de ser boazinha! E a partir de agora, como imagino que já não faço parte da empresa e estamos falando de igual pra igual, quero que saiba que, se você me insultar, eu te insulto de volta. Se você me deixar na mão, eu faço o mesmo. E, se me procurar, vai me encontrar. Porque olha só, ô rainha da cocada preta, sejamos sinceras, aqui todo mundo é alvo de alguma fofoca... eu vou ser a ex da chefe, mas você é e continuará sendo a galinha da empresa que adora que tirem sua calcinha em cima da mesa e joguem em qualquer lugar.
 
— Pelo amor de Deus, quer parar de gritar?!
 
Eu rio. Mas meu riso é de nervoso. Me conheço e sei que, após o riso nervoso e a raiva, vão vir a tristeza e por fim o choro. Então, antes disso, tiro o telefone do gancho e jogo em cima da mesa.
— E agora, sua idiota, pode ligar pro RH e dizer pra prepararem minha demissão. Eu mesma vou até lá assinar. Fiquei tão feliz com o que acabei de te dizer, que não estou nem aí pro que vier depois.
 
Dito isso, dou meia-volta e desapareço da sala.
 
Uau, como me sinto bem!
Ao sair, topo com Georgina e Emma. Devem ter escutado os gritos. A moça entra na sala e eu a ouço falar com minha chefe, que pede aos berros minha demissão imediata ao RH.
Emma me observa. Não se move. Está paralisada. Ela não esperava que eu reagisse assim. Sem olhar para ela, vou até minha mesa e começo a juntar minhas coisas.
 
— Entra na minha sala, Regina.
 
— Não. Sem chance. E lembre-se, senhora: agora sou a “senhorita Mills”, entendido?
 
— Entra na minha sala Regina — repete com fúria.
 
— Já disse que não — respondo.
Noto que Emma se mexe nervosa ao meu lado. É a chefe da empresa e tem que manter a compostura. Se agarrar meu braço e me obrigar a entrar, sabe que vou reagir e que todo mundo vai ver. Por isso, ela se agacha para ficar da minha altura e murmura:
 
— Regina, amor, sou uma idiota, uma babaca, por favor, dá um pulo na minha sala. Você tem razão. Precisamos conversar.
 
Ao escutar isso, abro um sorriso. Mas é um sorriso frio e impessoal. Olho para Emma. E, do mesmo jeito que ela própria costuma fazer, reflito alguns segundos antes de dar a resposta, contraio o rosto e digo:
 
— Sabe, senhora Swan? Agora quem não quer saber nada da senhora sou eu. Acabou a Müller e acabaram muitas outras coisas. Não aguento mais. Vá procurar outra para enlouquecer com suas mudanças de comportamento e suas desconfianças, porque eu me cansei.
 
Verifico gaveta por gaveta. Não encontro nada dentro, mas faço isso mecanicamente, por via das dúvidas. Fecho-as com força, pego minha bolsa e ando até a porta.
 
— Aonde você vai, Regina?
 
Com toda minha petulância madrilenha, jerezana e catalã, eu a olho de cima a baixo e sorrio com frieza.
 
— Ao RH. A partir de agora, não faço mais parte da “sua” empresa, senhora Swan.
Enquanto caminho até o elevador, sinto os olhares de todos os meus colegas e, em especial, da minha ex. Eles não sabem o que está acontecendo, mas, conhecendo-os como eu conheço, logo vão tirar suas próprias conclusões. Serei o assunto preferido deles nos próximos dias, mas estou pouco me importando. Não estarei aqui para aguentar suas fofocas idiotas.
 
Quando entro no RH, todos olham na minha direção. Como as notícias correm! Mas é Killian quem vem até mim e, pegando-me pelo braço, me leva até sua mesa e murmura:
 
— O que você fez? Sua chefe...
 
— Ex-chefe — esclareço.
 
— Ok. Sua ex-chefe está furiosa, telefonou pra cá pra te demitirem.
 
Minha cabeça fica concordando. Sorrio e dou de ombros.
 
— Acabei de provocar minha demissão. Falei pra essa bruxa horrorosa tudo o que penso dela. Ai, Killian, você não imagina meu alívio! Foi um dos melhores momentos da minha vida.
 
Nesse instante, Gerardo, chefe do RH, aparece.
 
— Killian, a senhorita Mills precisa esperar um segundo. Por enquanto, não é pra assinar a carta de demissão que eu te entreguei.
 
Surpreso, Killian se vira pra mim e, quando Gerardo se afasta, ele cochicha:
 
— Depois do telefonema da sua chefe, Icewoman também ligou. Está uma fera.
 
Nesse momento, não estou nem aí para o mau humor de Emma. Me sento e Killian pergunta:
 
— Mas... o que houve?
— Eu e Icewoman terminamos e a babaca da minha ex-chefe teve a cara de pau de rir de mim e dos meus sentimentos.
 
— Você e Icewoman terminaram?
 
— Sim.
 
— Sinto muito, linda. E você sabe que digo isso de coração.
 
— Sei. — Sorrio com tristeza.
 
— Mas você tinha razão. Ficar com o chefe é uma furada. Porque, mais cedo ou mais tarde, a pessoa acaba pagando por isso.
 
Minha aparente frieza começa a se dissipar. Falar de Emma e da minha nova realidade é algo que me dói. Alguns minutos depois, o chefe do RH sai e se vira para mim.
 
— Vem na minha sala.
 
Obedeço e faço Killian me acompanha. Gerardo nos olha e por fim diz:
 
— Regina, a senhora Swan quer que você vá à sala dela agora mesmo.
 
Sua insistência me surpreende e respondo:
 
— Não. Não vou. Quero assinar minha demissão.
 
Killian e Gerardo se olham surpresos.
Gerardo insiste:
 
— Regina, não sei o que houve, mas a senhora Swan disse que...
 
— A partir de agora, o que a senhora Swan diz entra por um ouvido e sai pelo outro. Então, Gerardo, se você quiser, pode falar com ela e dizer que estou mandando ela à merda, ou eu mesma faço isso diretamente. Mas não pretendo ir à sala dela nem a qualquer outra. Só quero assinar minha carta de demissão.
 
O cara não sabe o que fazer. A situação saiu do seu controle. Por fim, me pede um segundo, pega o telefone que está fora do gancho e fala alguma coisa. Imagino que Emma tenha escutado, mas estou pouco ligando. É até melhor. Assim ela vai se dar conta de que, quando digo alguma coisa, eu cumpro. Que ela assuma as consequências, então. Killian, nervoso com o que está acontecendo, me afasta da mesa de Gerardo.
 
— Que coragem a tua, hein, mulher! Fiquei até tonto. Mas é melhor ser realista e pensar no que você própria me disse quando não iam renovar meu contrato. Há muito desemprego lá fora, muita crise, e você precisa trabalhar. Não seja boba, Regina.
 
E, quando vou responder, Gerardo ergue os olhos na nossa direção.
 
— A senhora Swan está me pedindo pra você não assinar nenhuma carta de demissão. Pra você sair de férias e...
 
— Férias?
 
— Sim, foi o que ela disse.
 
Solto uns palavrões. Vejo que o telefone continua fora do gancho. Saio correndo da sala, pego o papel que Killian tinha deixado pronto para mim quando entrei, volto a entrar na sala e o assino sem ler. Em seguida entrego a Gerardo e, sabendo que Emma escutará, acrescento:
 
— Toma, entrega minha demissão assinada pra senhora Swan, com todo o meu amor.
 
Estarrecido, Gerardo pega o papel e eu saio da sala. Killian vai atrás de mim. Já do lado de fora, me viro para meu amigo incrédulo e desconcertado, dou um beijo na sua bochecha, faço um carinho no seu cabelo e digo:
 
— Me liga e a gente marca de tomar alguma coisa qualquer dia.
 
Logo depois, dou meia-volta e vou embora. Abandono correndo a empresa. Assim que entro no carro e saio da garagem, não sei para onde ir nem o que fazer. Acabo de cometer a maior loucura da minha vida e de repente me dou conta de que nada mais faz diferença para mim.
 

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