sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Peça-me o que quiser Capítulo 24

Capítulo 24

No dia 27 de agosto, volto ao trabalho. 
Minha chefe está de férias, o que me dá uma trégua. É bom demais estar longe do seu veneno. Killian também não está e eu sinto falta de suas piadas. Mas meu desânimo é tamanho, que quase prefiro que ninguém venha falar comigo.
 
Cada vez que olho na direção da sala de Emma ou entro no arquivo, morro de tristeza. Impossível não pensar nela. Nas coisas que me dizia, no que fazia comigo ali, e tenho que me segurar muito para não chorar.
 
Meus amigos não saíram de férias, e marco com eles um cinema ou vamos tomar umas cervejas de tarde depois da academia. Meu grande amigo Graham tenta conversar comigo, mas eu não tenho vontade. Não quero lembrar o que aconteceu. A presença de Emma no meu coração ainda está muito forte e, enquanto eu não a esquecer, sei que minha vida não voltará ao normal.
No dia 31 de agosto, recebo uma mensagem de Robin. Por acaso está em Madri até 4 de setembro e vai ficar, como sempre, num hotel perto da minha casa. Combinamos de nos encontrar.
 
Eu o levo uma noite para jantar na Cava Baja, e em outra ocasião vamos a um restaurante japonês. Nesses dias marco com meus amigos e saímos todos juntos para beber depois do jantar. Para minha surpresa, vejo que Robin se dá bem com minha amiga Azu e isso me alegra. Ele cumpre sua palavra. Comporta-se como um amigo e fico agradecida por isso.
 
No dia 3 de setembro, minha chefe, Killian e quase todos os funcionários da Müller reaparecem. O ritmo volta a ser frenético e, quando vou ver, minha chefe já me afogou num mar de papéis outra vez. Killian voltou animado das férias. Me conta histórias enquanto trabalhamos, o que me faz rir. O telefone interno toca, e minha chefe pede que eu vá à sua sala. Vou logo.
 
— Sente-se, Regina. — Obedeço e ela continua: — Como você deve se lembrar, a viagem da senhora Swan às sucursais da Müller pela Espanha teve que ser adiada para depois de setembro, certo?
 
— Certo.
 
— Pois então. Falei com ela e as viagens serão retomadas.
Meu estômago se contrai e fico inquieta. Ouvir falar dela deixa meu coração a mil. Ver Emma de novo é o que preciso, embora eu saiba que não é o mais recomendável para mim.
 
— Quero que você prepare os dossiês relativos a todas as sucursais. Swan quer começar a viagem nesta quarta-feira.
 
— Está bem.
 
Fico parada. Na quarta-feira vou vê-la. Estou quase gritando como uma louca, até que minha chefe diz:
 
— Regina, vamos... não fique aí parada como uma pateta.
 
Concordo com um gesto de cabeça. Me levanto, mas, quando vou sair da sala, ouço minha chefe dizer:
 
— A propósito, desta vez sou eu que vou acompanhar a senhora Swan. Ela mesmo me pediu isso ontem quando nos reunimos no Villa Magna.
 
Ouvir isso é como levar uma surra. Emma está em Madri e nem se dignou a me procurar. Minhas ridículas ilusões de voltar a vê-la se dissipam de uma só vez, mas consigo sorrir concordando. Quando saio da sala, sinto as pernas fraquejarem e vou logo para minha mesa. Killian percebe.
 
— O que você tem?
 
— Nada. Deve ser o calor — respondo.
Quando saio do escritório, estou desnorteada. Me sinto ofendida. Furiosa e muito chateada. Pego o carro no estacionamento e, sem saber por quê, me dirijo à avenida Castellana. Ao passar em frente ao hotel onde Emma está hospedada, olho para lá, entro em uma das ruazinhas transversais e estaciono. Como uma idiota, vou até o hotel, mas não entro. Fico parada a poucos metros da porta sem saber o que fazer. Durante uma hora, minha mente ferve e eu tento me acalmar, até que, de repente, vejo seu carro se aproximar. Para na porta do hotel e de dentro do automóvel saem Emma e... Amanda Fisher! Ambas sorriem, parecem se entender muito bem, e se enfiam no hotel.
O que Amanda está fazendo em Madri?
 
O que Amanda está fazendo nesse hotel?
 
As respostas se atropelam umas às outras e, furiosa, vou registrando todas elas. Chateada com o mundo e perplexa com o que vi, pego o carro e me dirijo ao hotel onde sei que provavelmente Robin está.
 
Chego e subo direto ao seu quarto. Quando ele abre a porta me olha surpreso.
 
— Não me diga que tínhamos marcado alguma coisa e eu esqueci?!
 
Não respondo. Me jogo em seus braços e beijo sua boca. Nem preciso dizer que ele, ao ver minha empolgação, fecha a porta. Continuo beijando-o enquanto ele tira meu blazer e depois desabotoa a calça, que cai no chão.
Decidida, me penduro nele e Robin me atira na cama e murmura enquanto abro com desespero o botão de seus jeans:
 
— O que você está fazendo, Regina?
Não respondo. Preciso extravasar a fúria que tomou conta do meu corpo. Ao me ver tão fogosa, ele arranca a blusa pela cabeça e volta a me beijar. Mas, se afasta um pouco de mim e diz:
 
— Regina... está acontecendo alguma coisa? Não quero que depois você...
 
— Robin... cala a boca e me come.
 
Ele fica paralisado por alguns segundos, mas seu desejo por mim o faz reagir e não pensar em mais nada. Sem dizer mais nada, tira a calça e a cueca, e vejo que já está pronto para me possuir. Respiro com irregularidade, e o calor sobe por todo o meu corpo. Então me lembro de uma coisa.
— Me dá minha bolsa.
 
Sem hesitar, ele me entrega e, enquanto eu pego o vibrador que Emma me deu, ele coloca um preservativo.
 
— Tira minha calcinha.
 
Enfia os dedos pelo elástico da calcinha e a retira com cuidado, quando de repente nota minha tatuagem e sussurra:
 
— “Peça-me o que quiser.”
 
Emma! Emma! Emma!
 
Fico nua da cintura para baixo e murmuro enquanto abro as pernas:
 
— Olha pra mim, por favor.
Atônito, faz que sim com a cabeça, ainda surpreso com minha tatuagem. Ligo o vibrador e o coloco onde sei que vai me dar prazer. Instantaneamente meu corpo reage e respiro ofegante. Fecho os olhos e sinto que é Emma quem está diante de mim e não Robin.
 
Emma... Emma... Emma...
 
Vou curtindo a sensação do vibrador no meu clitóris, solto um gemido e fecho as pernas com o prazer chegando. De repente, duas mãos me tiram da minha fantasia particular e abro os olhos. Robin, excitado, se enfia entre minhas pernas e entra em mim. Grito e ele suspira. Sinto meu corpo preenchido e eu o escuto gemer.
 
Estou tão descontrolada, com tanta vontade de esquecer tudo, que aumento a potência do vibrador, grito e me encaixo nele. Robin, ao ver isso, tira o vibrador das minhas mãos, me segura pelas coxas e toma meu corpo, várias vezes sem descanso, com movimentos certeiros, enquanto meu orgasmo vem e quero mais. Preciso de mais. Preciso de Emma.
 
Penso nela. Em como me faz vibrar com suas ordens, até que sinto Robin envolvendo minhas costas com suas mãos e, num movimento, me erguendo da cama e me apoiando contra a parede. Sua boca procura a minha e me beija enquanto ele pressiona nossos corpos um ao outro.
 
— Regina...
 
Transtornada, eu o encaro com os olhos cheios de lágrimas. Ao ver meu estado, sinto que ele se detém.
 
— Não para, por favor... agora não.
 
Retoma o movimento. Dentro... fora... dentro... fora. Enquanto isso, me sinto presa contra a parede e chego ao clímax. Me entrego a ele com fúria. Grito o nome de Emma e, quando gozamos juntos, sabemos que o que eu tinha ido procurar ali acaba de acontecer. Tudo chega ao fim e eu continuo entre seus braços por alguns minutos. Me sinto péssima. Não sei o que fui fazer e, principalmente, não sei por que fiz. Quando Robin me solta, vou ao banheiro sem olhar para ele. Me limpo, lavo o rosto e me olho no espelho. O rímel borrado me deixa com uma aparência deplorável. Minha cara não poderia estar pior.
 
Cinco minutos depois, mais refeita, saio do banheiro e Robin me espera vestido sentado na cama. Vejo o vibrador e, sem dizer nada, pego e guardo. Depois lavo em casa. Me visto e sento diante dele. Devo-lhe uma explicação.
 
— Robin... não sei como te explicar isso, mas primeiro eu queria te pedir desculpas.
 
Ele concorda com a cabeça e me olha.
 
— Desculpas aceitas.
 
— Obrigada.
 
Nos olhamos por alguns segundos.
 
— Você sabe que eu adoro o que acabamos de fazer. Gosto muito de você e, por mim, passaria o dia inteiro te beijando e...
 
— Robin não torne as coisas mais difíceis, por favor.
 
— Essa tatuagem é por causa dela, né? — pergunta de repente.
 
— É.
 
Em seu olhar percebo que ele quer me dizer um monte de coisas.
 
— Não gostei do motivo que te trouxe aqui. Você não veio porque queria ir para a cama comigo. Nem porque queria me ver. Se você até disse o nome dela enquanto estávamos transando.
 
Merda!
 
— O quê?!
 
— Você disse o nome dela.
 
— Ai, meu Deus, desculpa!
 
— Não. Não peça desculpas. Com isso entendi bem por que você veio aqui.
 
— Estou com tanta vergonha... Não sei por que escolhi você pra fazer isso. Podia... podia...
 
— Olha, Regina... — diz, pegando minhas mãos —, prefiro que você tenha vindo aqui, mesmo pensando em outra pessoa, a que você fizesse uma loucura com qualquer um.
 
— Ai, Deus... estou mesmo ficando louca! Eu... eu...
 
— Regina, eu te prometi que não voltaria a falar dessa mulher e não quero falar. Você sabe o que penso dela e nada mudou. Só espero que você própria se dê conta do que você está fazendo e por quê.
 
Estou de acordo. Me levanto para ir embora e ele me acompanha. Quando chego à porta, Robin me pega pela cintura e me beija. Me beija apaixonadamente.
 
— Você sabe que vai me ter sempre, né? — diz quando se afasta. — Mesmo que seja pra me usar como objeto sexual.
 
Dou um soco nele de brincadeira e sorrio. Instantes depois, saio do quarto aturdida. Quando estou indo pegar o carro, penso em meu amigo Graham e decido ir agora mesmo até seu estúdio. Ao me ver, ele fica logo preocupado com meu estado. Não sabe o que está acontecendo comigo, mas sabe, sim, que estou precisando conversar. Me convida para jantar.
 
Nessa noite, Graham demonstra o excelente amigo que é. Não conto que Emma é a minha chefe, nem falo de nossas intimidades. Isso eu não quero que ele saiba. Mas o resto, a relação estranha que cultivamos, eu lhe explico. Após me escutar, Graham me aconselha a deixar meu orgulho de lado e diz que, se estou com tanta saudade, devo tentar falar com ela, porque fui eu que me afastei. Ele tem razão. Ao chegar em casa, ligo o computador e mando um e-mail para Emma.


De: Regina mills
3 de setembro de 2012 23:16
 
Para: Emma Swan
 
Assunto: Está melhor?
 
Oi, Emma, sinto muito ter ido embora daquela forma. Fui impulsiva e te peço desculpas. Espero que esteja melhor. Eu poderia te ligar, mas não quero incomodar. Por favor, me responda e me dê uma chance de te pedir desculpas olhando nos olhos. Você faria isso por mim? Amo você e sinto sua falta. Mil beijos.
 
Regina

Escrevo essas palavras e envio em seguida. Por mais de três horas espero a resposta. Sei que ela leu o e-mail. Sei que, no hotel, seu computador terá apitado, avisando que ela recebeu uma mensagem. Sei de tudo isso e sofro por isso.


De: Regina mills
4 de setembro de 2012 21:32
 
Para: Emma Swan
 
Assunto: Sou insistente
 
Uma vez você me disse que a melhor coisa de me pedir desculpas era ver minha cara quando eu te perdoava e poder ficar comigo. Não acha que eu posso querer o mesmo de você?
 
Um beijinho ou dois ou três... ou quantos você quiser.
 
Pequena
De: Regina mills 
5 de setembro de 2012 17:40
 
Para: Emma Swan
 
Assunto: Oi, irritadinha
 
É óbvio que você está chateada comigo. Ok... entendo. Mas quero que saiba que não estou chateada com você. Boa viagem! E espero que te tratem bem nas sucursais, apesar de você ter decidido ir com outra pessoa que não eu.
 
Beijo, Regina
De: Regina mills 
6 de setembro de 2012 20:14
 
Para: Emma Swan
 
Assunto: Adivinha quem é
Oi, quando falei com a minha chefe por telefone, ouvi tua voz no fundo. Você não imagina a esperança que isso me deu. Ao menos você está viva! Espero que esteja bem. Sinto sua falta.
 
Beijocas, Regi
De: Regina mills 
7 de setembro de 2012 23:16
 
Para: Emma Swan
 
Assunto: Toc, toc!
 
Como dizem, graças a Deus é sexta-feira! Amanhã vou para o campo. Eu e meus amigos alugamos um sítio para o fim de semana. E aí, se anima a vir também? Desta vez não te mando um beijo... com certeza neste fim de semana outras mulheres vão beijar você.
 
Te odeio por isso! Regina
De: Regina Mills 
10 de setembro de 2012 13:16
 
Para: Emma Swan
 
Assunto: Começamos de novo?
 
Já estou de volta! Meu fim de semana foi divertido, se bem que vacas e galinhas não são a minha praia. Levei uma picada de abelha na mão e você não imagina a dor que estou sentindo... Mas, como você verá, não me cortaram a mão fora (para sua tristeza... hehehehe) ... hoje também te mando um beijo, embora eu comece a duvidar se você quer um beijo meu.
 
Regina
De: Regina mills 
12 de setembro de 2012 22:30
 
Para: Emma Swan
Assunto:Estava sentindo minha falta?
 
Ontem meu modem morreu e por isso não te escrevi. Mas hoje meu amigo trocou o aparelhinho pra mim e volto a carga. Você não vai me responder mesmo?
 
Regina
De: Regina Mills 
13 de setembro de 2012 21:18
 
Para: Emma Swan
 
Assunto: Estou ficando cansada
 
Olha só... estou te escrevendo desde o dia 3 e você nunca responde. Você não vai fazer isso nunca ou só está querendo me provocar ainda mais? Como você pode imaginar, minha casa está um brinco de tão limpa. Com tanta irritação, é o que consigo fazer.
 
Kiss (digo em inglês pra ver se você entende melhor), Regina


De: Regina Mills
14 de setembro de 2012 23:50
 
Para: Emma Swan
Assunto: Desisto!
Ok... já vi que sua resposta é não responder. Você sabe que sou muito orgulhosa, e por você, sua desgraçada cabeça-dura convencida, estou deixando o orgulho de lado todos os dias? Esta é minha última mensagem. Se você não responder, não vou te escrever nunca mais. É bom que você saiba!
Sem beijo, Regina


De: Regina Mills
 
17 de setembro de 2012 22:36
 
Para: Emma Swan
Assunto: Sim... sou eu, o que está acontecendo?
Fique você sabendo que agora, sim, estou mesmo chateada. Como você pode ser tão orgulhosa?
Regina
De: Regina mills
19 de setembro de 2012 22:05
Para: Emma Swan
Assunto: Só tenho mais uma coisa a te dizer.
BABACA! Regina

Hoje, 21 de setembro, é o aniversário dela.
Emma faz 31 anos e inexplicavelmente estou feliz por ela. Sou mesmo muito idiota. Não apareceu mais no escritório. Após as viagens de trabalho, foi diretamente para a Alemanha e nunca mais pisou na Espanha.
 
Estou perdida no meu próprio mundo quando o telefone interno começa a tocar. Minha querida chefe me chama na sua sala. Assim que entro, ela me encarrega de um monte de coisas e diz:
 
— Faça também uma reserva pra hoje à noite às nove e meia no Moroccio pra dez pessoas em nome da senhora Swan. Deve ser no nome dela, senão eles não farão a reserva, entendido? — Faço que sim com a cabeça. — Depois, marque um horário no cabeleireiro pra mim pra dentro de uma hora.
Concordo outra vez e tento controlar o nervosismo. Emma está na Espanha? Em Madri? Regina... fica calma!
 
Quando saio da sala, meu coração dispara. Procuro na internet o telefone do Moroccio e, quando encontro o número, respiro fundo e ligo.
 
— Moroccio, bom dia.
 
— Olá, bom dia. Estou ligando pra fazer uma reserva pra hoje à noite.
 
— Em nome de quem, por favor.
 
— Seria às nove e meia, pra dez pessoas, em nome da senhora Emma Swan.
 
— Ah, sim, a senhora Swan — ouço o garçom repetir. — Algo mais?
 
Meu coração vai sair pela boa. De repente, uma ideia me ocorre. É uma maldade, mas eu nem paro para pensar nas consequências.
 
— Também gostaria de reservar outra mesa pra duas pessoas, às oito, em nome da senhora Swan.
 
— E para quem seria?— pergunta o garçom.
 
— Para a esposa dela — digo, com um sorriso moleco no rosto.
 
—Esposa dela?! — Pergunta o garçom novamente.
 
— Exatamente. Para a esposa dela. Mas, por favor, não comente nada com ela. É uma surpresa de aniversário.
 
— Certo.
 
Desligo e ponho a mão na boca. Acabo de aprontar uma das minhas e isso me faz rir. Sem hesitar, ligo para Graham. Hoje à noite serei eu quem o convidará para jantar.
 
Usando um lindo vestido preto tomara que caia que ganhei da minha irmã e um coque alto no estilo Audrey Hepburn, chego ao estúdio de Graham. Assim que me vê, ele assobia surpreso.
 
— Uau, você está deslumbrante!
 
— Obrigada. Você também — digo, sorrindo.
 
Graham sorri de volta e abre os braços.
 
— Só pra você saber, esse é o terno do casamento do meu irmão e estou usando agora porque você me pediu. Não sou nada chegado nesse lance de etiqueta.
— Eu sei. Mas você tem de estar de terno para poder entrar aonde vamos.
 
Graham está sabendo mais ou menos o que planejei.
 
— Você tem certeza de que quer fazer isso, Regina?
 
— Não sei. Essa é minha última cartada. Vamos ver o que acontece.
 
Às oito em ponto entramos no Moroccio.
 
O garçom, após confirmar nossa reserva, me olha surpreso e vejo que aprova minha aparência. Deve me ver como a digna mulherzinha da senhora Swan. Dissimulada, eu cochicho a ele que não comente sobre minha presença. Quero surpreender minha mulher porque é aniversário dela, e depois peço para ele deixar preparada uma torta de morango e chocolate. O garçom faz que sim, encantado com minha simpatia, e diz para eu não me preocupar. Minha torta será servida. Como eu já imaginava, nos levam a um dos ambientes reservados e eu observo como Graham fica surpreso com o lugar e olha ao redor.
 
— Que lugar é esse!
 
— Pois é. Um luxo. — Sorrio enquanto torço para que nenhuma luz se acenda e ele me pergunte o que é.
 
— Aliás, que história é essa de " Minha mulher”? Por um acaso você casou e esqueceu de me contar?
 
Solto uma risada.
 
— Minha "mulher", a senhora Swan é a pessoa que vai pagar nosso jantar.
 
Graham faz cara de quem não entendeu nada. O garçom entra e deixa na nossa frente um vinho excelente, que tomamos, mas logo me dou ao luxo de pedir uma Coca. Graham está assustado com o preço de tudo e vejo sua expressão de preocupação.
 
— Regina, acho que vamos nos dar mal com o que estamos fazendo.
 
— Não se preocupa. Pode pedir o que quiser. A senhora Swan vai pagar.
 
— Esse é o sobrenome de Emma?
 
— É...
 
— Está cheia da grana, é?
 
— Digamos que ela pode se permitir muitas coisas.
 
— Ela é casada?
 
— Não. Mas o pessoal do restaurante não sabe.
Graham faz que sim e sorri. Depois balança a cabeça de um lado para o outro.
 
— Mas que traiçoeiras são as mulheres.
 
Tomo um gole da minha Coca.
 
— Você não sabe de nada — sussurro.
O garçom entra e anota os pratos. Pedimos lagosta e carpaccio de carne ao molho de ervas finas e, como prato principal, lombo ao bourbon. Como era de se esperar, tudo está uma delícia. Olho as horas, são nove e meia e imagino que Emma, minha chefe e seus acompanhantes já chegaram. Emma é muito pontual e isso me deixa nervosa. Saber que ela está a tão poucos metros de distância me põe a mil, mas tento aproveitar o jantar com Graham. De sobremesa pedimos morangos e fondue de chocolate. Comemos em meio a risadas e, às dez, damos nosso jantar por encerrado. Quando o garçom entra, eu pergunto:
 
— Minha esposa, a senhora Swan, já chegou?
 
O garçom faz que sim com a cabeça e meu estômago se contrai, mas, determinada, acrescento:
 
— Me traga papel, um envelope e uma caneta, por favor?
 
O homem vai buscar tudo que pedi, e Graham cochicha:
 
— O que você vai fazer agora?
 
— Agradecer o jantar.
 
— Ficou louca?
 
— Provavelmente, mas tenho certeza que ela vai gostar disso.
 
Quando o garçom entra, escrevo no papel:
Cara Swan, Obrigada por me apresentar um lugar tão especial e pelo jantar a dois que saboreamos em sua homenagem. Estava tudo delicioso, e a sobremesa, como sempre, estava espetacular. A propósito, feliz aniversário! Babaca! 
A garota dos e-mails fantasmas
***
Assim que acabo de escrever, enfio o papel no envelope, fecho, entrego ao garçom e digo: 
— Por favor, o senhor faria a gentileza de entregar isto a minha esposa junto com a torta de morango e chocolate quando forem pedir a sobremesa?
 
Dito isso, Graham se levanta, me pega pelo braço e num piscar de olhos desaparecemos do restaurante enquanto sorrio e apenas lamento não poder ver a cara que Emma vai fazer. Eu iria adorar essa cara!
Às onze, obrigo Graham a me deixar em casa. Com certeza Emma já vai ver o bilhetinho e a torta, e estou ansiosa para saber como vai reagir.
 
Às onze e meia, ainda caminho pela casa com os sapatos de salto. Aposto que consegui provocar uma reação e ela chegará a qualquer momento.
 
À meia-noite, estou ficando desesperada. Será que partiram direto pras brincadeiras sem pedir a sobremesa?
 
À uma da manhã, frustrada porque meu plano não funcionou, atiro os sapatos no sofá, bem no momento em que ouço meu celular apitando. Me lanço sobre ele. Uma mensagem. Emma. Minhas mãos tremem quando leio: “Obrigado pelos parabéns, querida esposa .” Leio várias vezes o torpedo. Estou espantada. Só isso? Ela não vai fazer nem dizer mais nada? Mal-humorada, largo o celular e tomo um gole de Coca. Sinto vontade de ligar e dizer poucas e boas. Mas não. Agora sim coloco o ponto final no meu caso com Emma.
Desfaço com desânimo o coque sofisticado e tiro o lindo vestido e a calcinha provocante que comprei hoje à tarde. Coloco meu pijama de nuvenzinhas azuis e vou remover a maquiagem no banheiro. Pego um lencinho demaquilante e me atrapalho num olho. Não consigo ver o que estou fazendo, apenas passo a toalhinha em círculos enquanto continuo pensando em Emma. De repente, ouço alguém bater na porta. Meu coração dispara de tanta emoção. Largo o lencinho e corro para espiar pelo olho mágico. Fico sem palavras quando vejo Emma do outro lado. Sem pensar em minha aparência, abro e me encontro frente a frente com ela. Com Emma!
 
— Senhora Swan?
Está sexy em seu vestido justo vermelho que vai até a altura dos joelhos. Seu porte, como sempre, é intimidador, ousada, e sua cara... Ah, sua cara...! Adoro essa cara de zangada e vou logo dizendo:
 
— Tá bom... fiz uma grande besteira.
 
— Você teve a coragem de dizer no Moroccio que era a minha mulher?— pergunta.
 
Dou um passo para trás. Ela dá um pra frente.
 
— Sim... desculpa... desculpa, mas eu precisava te provocar.
 
— Me provocar?
 
Dá outro passo adiante. E eu outro para trás.
 
— Emma, escuta — digo, afastando o cabelo do meu rosto. — Sei que não agi direito. Abusei da sua generosidade e enganei o pessoal do restaurante. Prometo que vou te reembolsar pelo meu jantar e o do meu amigo. Mas juro que só fiz isso pra te deixar com raiva e te fazer vir até aqui e assim...
 
— E assim...?
Seu olhar me intimida. É feroz. Mas continuo. É minha única chance. Ela está na minha frente e eu não vou desperdiçar essa oportunidade.
 
— Preciso te pedir desculpas pela forma idiota como agi no dia em que fui embora de Zahara e... — Ela permanece em silêncio. — Senti sua falta, Emma. Eu te amo.
 
Sua expressão muda. Torna-se mais suave.
 
Ah, sim...! Ah, sim!
 
Meu coração pula de felicidade, no exato momento em que ela dá um passo na minha direção para me abraçar. Me ergue alto e jogo meus braços em torno do seu pescoço. Enrosco as pernas em sua cintura e assim, sem dizer mais nada, fecho a porta de casa. Disposta a não soltá-la nunca mais na minha vida. Por alguns minutos, nenhuma de nós fala nada. Ficamos abraçadas, curtindo esse contato tão gostoso, até que Emma beija meu pescoço e me aperta com força.
 
— Te amo, e contra isso, pequena, não posso fazer nada.
 
Escutei direito?
 
Ela está dizendo que me ama?
 
A felicidade me faz rir, eu a beijo com voracidade e murmuro:
 
— Se é verdade o que você diz, não fique mais longe de mim.
 
— Foi você que foi embora.
 
— Você que me expulsou.
 
— Falei pra você ficar.
 
— Mas me expulsou! Pronto, já começamos tudo outra vez!
 
Ela faz que sim e continuo:
 
— Te pedi desculpas todo dia nos e-mails e você nem se deu ao trabalho de responder. Sorri com ternura e então faz aquilo que me deixa louca: aproxima a boca da minha, passa a língua pelo meu lábio superior, depois pelo inferior, e, antes de me beijar, sussurra:
 
— Eu te perdoei antes mesmo de você ir embora.
 
— Ah é?
 
— É... ursinho panda.
 
— Ursinho panda? Como se não bastassem “pequena”, “moreninha” e “Regi”... agora você também vai me chamar de “ursinho panda”?
Achando graça, me leva até um dos espelhos e, quando descubro o motivo do novo apelido, caio na gargalhada. Um dos meus olhos está totalmente borrado e preto. Ela ri também.
 
— O que você estava fazendo pra estar com o olho assim?
 
— Tirando a maquiagem. Eu me produzi toda pra você pelo seu aniversário e aí vem você agora e aparece no momento menos glamoroso.
 
Emma sorri.
— Pra mim você está sempre linda, querida.
Aninhada em seus braços, vamos até o quarto. Ela me solta na cama e deita sobre mim.
 
— Meu Deus, Regina, adoro seu cheiro.
 
Com cuidado, começo a abrir o zíper de seu vestido , enquanto Emma passa as mãos pelo meu corpo e me dá beijos delicados no queixo e no pescoço. A ponta de seus dedos roçando pelas minhas costelas me provoca um calafrio e sorrio de prazer. Ela me ajuda a tirar seu vestido. Acaricio seus seios e barriga. forte e macia como sempre.
 
— Tenho um presente pra você.
 
— Meu melhor presente é você, pequena.
 
Beijos... carícias... palavras de carinho e de repente Emma murmura:
 
— Preciso falar uma coisa com você, Regi.
 
— Daqui a pouco... daqui a pouco...
 
Quando tiro seu soutien e ela fica apenas de calcinha, minhas mãos vão sorrateiramente deslizando até a mesma. Ela arfa. A pele de Emma arde, a minha também. E, quando enfio minha mão por dentro de sua calcinha e chego onde eu desejava, solto um gemido. Emma se mexe. Escapa das minhas mãos e volta a me beijar.
 
— Se você continuar me tocando assim, não vou durar nem dois segundos...
 
— Aham... — Não quero que dure.
 
— Eita mulher...
Isso me faz rir, enquanto ela tira a calça do meu pijama. Logo me levanta de frente para ela, aproxima a boca do meu púbis e me dá mordidinhas por cima da minha calcinha. Me livro da parte de cima do pijama e Emma me observa. Seus dedos rompem a tirinha da minha tanga, e ela lê:
 
— “Peça-me o que quiser.”
 
Emma me acaricia. Pega um dos meus seios e com ternura o enfia na boca e chupa meu mamilo. Depois faz o mesmo com o outro seio. Me põe sentada em seus joelhos. Por um momento se entretém com meus seios, chupa e lambe até me arrancar um gemido de prazer.
 
— Regina... senti tanto a sua falta...
 
Levanta-se comigo nos braços e volta a me colocar na cama. Beija meus lábios e começa a descer sua língua pelo meu corpo. Vai ao pescoço, de lá aos seios, segue pelo umbigo e, quando chega ao púbis, quem solta um gemido é ela. Sem resistência, abro as pernas antes que ela peça e sua língua rápida e voraz entra em mim. Usa os dedos para me abrir e deixar sua língua molhada me dar mais prazer. A excitação faz meu corpo se erguer.
 
— Ai, Emma... assim... assim.
 
Ela se ajeita na cama para ficar mais confortável e põe minhas pernas sobre seus ombros. A pressão no clitóris aumenta, e meus gemidos são cada vez mais frequentes, até que um orgasmo fortíssimo me invade toda e eu seguro a cabeça de Emma, apertando-a contra mim. Meu orgasmo foi tão intenso que estou sem forças. Emma então vem para cima de mim e me beija. Meu sabor na sua boca é salgado e isso me excita muito.
 
— Vou te foder, querida.
 
Sim. Eu quero isso!
 
Tira de uma vez a calcinha, com um olhar de loba que me faz gemer, sorri. Desnorteada pelo desejo, fica em cima de mim e me acomoda melhor na cama. Ela desce sua mão até o meio de minhas pernas e vai metendo seus dedos em mim e, diferentemente do que fez outras vezes, vai devagarzinho enquanto me contorço satisfeita.
 
Quero mais e lhe dou um tapa na sua linda e durinha bunda.
— Por que isso, pequena?
 
— Quero que você entre forte... rude...é tão gostoso. Continue...
 
Emma sorri e me preenche com três dedos de uma só vez. Grito e solto um gemido, enquanto ela entra e sai várias vezes e finalmente me sinto preenchida e enlouquecida. Minha respiração se acelera e meu prazer me deixa louca. Uma... duas... três... quinze vezes ela me penetra e eu grito e me contorço de tanto prazer.
 
De repente, ela diminui o ritmo.
 
— Alguém te tocou nos últimos dias?
 
A pergunta me pega tão de surpresa que só consigo piscar os olhos. Não sei o que dizer, e Emma me dá uma estocada que me faz gritar de novo.
 
— Diz a verdade, quem te comeu?
 
Sua expressão se contrai e ela volta à carga. Me dá um tapa no traseiro que chega a arder.
 
— Quem?
Só vou responder se ela também me contar tudo. Tiro forças não sei de onde e a desafio:
 
— E você?
 
Ela me olha e eu insisto:
 
— Jogou com alguém esses dias?
 
— Sim.
 
— Com Amanda?
 
— Sim. E você?
 
— Com Robin.
 
Por alguns segundos nos olhamos. O ciúme volta a nos dominar e ela me come com fúria. Nós duas gememos. Me agarra um dos seios e se enfia rude de novo. Vejo seus olhos ficarem escuros. De raiva pelo que não quer ouvir.
 
— Te vi com Amanda entrando no hotel e decidi continuar minha vida. Procurei Robin, me masturbei pra ele e depois me ofereci.
 
Emma me olha. Está furiosa. Tenho medo de que vá embora, mas então me dou conta de que ela também tem medo de que eu desapareça. larga meu seio e segura meu quadril. Seus dedos vão fundo em mim. Me come num ritmo enlouquecido.
 
— Você é minha e só quem eu quiser pode te tocar.
 
Me olha, esperando minha reação, enquanto eu, sem forças pela maneira como me come, me mexo debaixo dela.
 
Calor... estou com muito calor. Mas entendo o que ela está me pedindo. Ponho a mão em sua barriga e me afasto um pouco para trás. Ela sai de dentro de mim.
 
— Eu só vou ser sua, se você for minha e só puder te tocar quem eu quiser.
Sua resposta é imediata. Vem para mim e me beija, enquanto sua exitação quente escorre em minhas coxas e me deixam louca. Eu pego sua mão e enfio seus dedos de novo dentro de mim e, com sua boca sobre a minha, ela murmura:
 
— Sou sua, pequena... sua.
 
Emma entra com seus dedos em mim agora com delicadeza e eu levanto um pouco o corpo para que ela vá mais fundo. Ela move os quadris, marcando o movimento e eu a pressiono por dentro.
 
— Querida... vou gozar.
O tom de sua voz. Sua cara. Seu gesto e seu olhar me fazem sorrir. Estou chegando ao orgasmo.
 
— Mais rápido, amor... eu preciso.
 
Emma me dá mais um tranco uma...duas... três vezes. Morde seus lábios para me dar o que eu quero, até que de repente nós duas nos contorcemos e chegamos juntas ao prazer total.

Passamos o dia todo de sábado dedicados ao sexo, beijos e carícias. Cada vez que tentamos conversar sobre a relação, acabamos nuas e gemendo. Emma é meu vício e eu o dela. Estarmos juntas sem nos tocar é impossível e, como nós duas desejamos uma a outra, nos deixamos levar pela luxúria. No domingo, mais do mesmo, mas desta vez, ainda na cama, Emma diz: 
— Regi... Lembra que eu precisava ter uma conversa contigo?
 
— Lembro.
 
O susto toma conta de mim de repente. O que será que ela quer me falar?
 
— É importante que a gente converse, devo te contar uma coisa.
 
— Você deve? — pergunto surpresa.
 
— Sim, amor...
 
Me esqueço totalmente do sexo e me concentro em Emma. Seus olhos fogem de mim e isso me perturba. Emma se senta ao meu lado, aos pés da cama.
 
— Escuta, há algo que você precisa saber e que não te contei até agora. Mas quero que você saiba que, se eu não te disse, é porque...
 
— Meu Deus! Você é casada?
 
— Não.
 
— Vai casar com Betta? Com Marta?
 
Surpresa com minhas perguntas e com o tom áspero da minha voz, ela volta a dizer:
 
— Não, querida. Não é nada disso.
 
Suspiro aliviada. Seria demais para mim.
 
— E quem são elas?
 
Emma suspira resignada.
 
— Morei com Betta por dois anos e há algum tempo terminei com ela. — Faço que sim e ela continua: — Nosso relacionamento acabou no dia em que a encontrei na cama com meu pai. Nesse dia decidi cortar relações com os dois. Espero que, sem precisar te explicar mais nada, você entenda por que nunca quero falar sobre meu maravilhoso pai.
 
Fico supertriste ao escutar a história. Jamais esperaria algo assim.
 
— Ela nunca quis aceitar a separação e tenta se reaproximar o tempo todo. Me pediu perdão de todas as maneiras que você possa imaginar e, por mais que isso tenha me custado, acabei perdoando, mas não quero mais nada com ela. Essa é a razão de suas mensagens e de sua insistência. Naquele dia na praia, quando me aborreci e voltei ao chalé sem deixar você ir comigo, eu fiquei daquele jeito porque ela tinha me mandado um torpedo avisando que estava na porta da casa de Jane e Maura. Eu não queria que você voltasse comigo da praia pra você não ver a cena que ela ia armar. Não queria que você presenciasse isso. Mas também não fui sincera contigo ao não te contar o que estava acontecendo. Tentei evitar um problema pra mim, mas acabei piorando as coisas.
 
— Você deveria ter dito. Eu...
Por alguns segundos Emma me observa, põe um dedo na frente dos meus lábios e passa a mão pelo contorno do meu rosto.
 
— Você é maravilhosa, Regina... Só quero você.
 
Me aproximo e beijo seus lábios, mas ela me afasta um pouquinho.
 
— Marta é minha irmã.
 
Irmã? Isso me surpreende. Killian comentou comigo que Emma tinha irmãs. Mas não imaginava que essa seria a tal. Emma prossegue:
 
— Lembra que eu te contei que minha irmã Hannah tinha morrido num acidente? — Faço que sim com a cabeça. — Hannah tinha um filho que agora está sob minha responsabilidade. Era mãe solteira. O menino se chama Flyn e tem 9 anos. Desde o acidente de Hannah, virou uma criança muito difícil e nos causa muita preocupação. Em julho, quando tive que voltar à Alemanha e interromper a viagem às sucursais, foi por causa de um problema com ele. Minha irmã e minha mãe não conseguem controlá-lo e por isso recebo tantas ligações de Marta. Flyn só respeita a mim, e por isso Marta insiste todo tempo para que eu volte à Alemanha. — Ouvir isso me deixa em alerta e ela continua: — Escuta, Regi, amo você, mas também amo Flyn e não posso abandoná-lo. Posso ficar aqui contigo vários dias, mas cedo ou tarde vou precisar voltar à minha rotina na Alemanha. Não posso mudar de país. Os psicólogos acham que não seria bom para Flyn passar por outra grande mudança de vida e, por mais que possa parecer uma loucura um tanto precipitada, eu gostaria que você viesse morar comigo na Alemanha. — Arregalo os olhos e ela acrescenta: — Eu sei, pequena, eu sei. Sei que é uma loucura, mas eu te amo, você me ama e eu gostaria que você pensasse nisso, ok?
Vou concordando com a cabeça, enquanto tento processar toda essa informação, e, quando vou dizer alguma coisa, Emma põe de novo um dedo na minha frente e continua:
 
— Ainda não acabei, Regi. Tenho mais coisas pra te explicar. Se, quando eu terminar, você ainda quiser me beijar e continuar ao meu lado, não serei eu a te impedir. — Suas palavras me surpreendem, mas ela continua: — Lembra quando eu te disse que não queria que você sofresse?
 
— Lembro.
 
— Então, sinto dizer que, no ponto em que estamos, isso vai acabar acontecendo mesmo que eu não queira, mas não tem nada a ver com o que acabo de te contar.
 
Não entendo o que ela está falando. Pega minhas mãos.
 
— Regi... tenho um problema e, apesar de não querer pensar nisso, no futuro eu sei que vai se agravar.
 
— Um problema? Que problema?
 
— Lembra dos remédios que você viu na minha nécessaire? — Assustada, balanço a cabeça afirmativamente. — É uma coisa relacionada com algo que você adora em mim e que algumas vezes eu te disse que odeio. São os meus olhos e, quando eu te explicar, você vai entender muitas coisas.
 
— Meu Deus, Emma. O que é?
 
— Tenho um problema na vista. Sofro de glaucoma. Uma doença que herdei de meu maravilhoso pai e, por mais que eu esteja me tratando e que no momento esteja bem, com o tempo ela vai avançar e, infelizmente, é irreversível. Talvez no futuro eu fique cega.
 
Pisco e pergunto num fio de voz:
 
— O que é glaucoma?
 
— É uma doença crônica no olho. Uma doença do nervo óptico que às vezes embaça minha vista, provoca dor nos olhos e dor de cabeça ou náuseas e vômitos. Acho que agora, sabendo disso, você entenderá muitas coisas a meu respeito.
 
Meu corpo se paralisa, exceto meus cílios. O assunto de Betta não me interessa uma vírgula. O problema de seu sobrinho e minha mudança é algo de que falaremos depois. Mas Emma acaba de me dizer que tem uma doença crônica e eu não consigo reagir. Meu coração dispara e mal posso respirar. Só consigo olhar para Emma, para a mulher que amo com toda a minha alma, sem ser capaz de dizer nem uma palavra sequer.
 
Meu mundo desmorona em décimos de segundo, enquanto eu junto, peça por peça, todos os sinais que ela me deu nesses meses todos, mas que eu não consegui decifrar. De repente, compreendo muitas coisas. Sua pressa com tudo. Seus temores. Suas viagens. Suas mudanças de humor. Suas dores de cabeça e, principalmente, o motivo pelo qual ela sempre faz questão que a olhe nos olhos quando fazemos amor. Emma me observa. Espera que eu diga algo, mas não consigo. Minha respiração se acelera, eu solto suas mãos e me levanto. Tenho uma das mãos no coração e a outra na cabeça. Estou de costas para Emma e, só quando consigo descolar a língua do céu da boca, volto a olhar para ela.
 
— Por que não me contou antes?
 
— O quê? Sobre Betta, Flyn ou minha doença?
 
— Sua doença.
 
— Regina, isso é algo que eu não gosto que as pessoas fiquem sabendo.
 
— Mas eu não sou “as pessoas”...
 
— Eu sei, querida. Mas...
 
— É por isso que você sempre me pede que eu te olhe quando...
 
Emma faz que sim com a cabeça e, após passar a mão pelos meus lábios, sussurra:
 
— Quero gravar seu rosto, seus gestos, para me lembrar deles quando eu não puder mais enxergar.
 
A dor em seu olhar me faz cair em mim. O que estou fazendo? Me sento de novo ao seu lado e seguro suas mãos.
 
— Sua cabeça-dura, como pôde esconder isso de mim? Eu... eu me aborreci com você. Reclamei das suas ausências, suas mudanças de humor e... você... você não me disse nada. Ai, meu Deus, Emma... por quê?
 
Me desmancho em lágrimas. Tento me conter, mas elas me inundam e mal consigo me controlar. Emma me consola. Me abraça e faz carinho em mim, quando sou eu quem deveria estar consolando-a. Mas minhas forças, minha confiança e toda minha vida acabam de desmoronar e não sei quando vou poder me recuperar. Ela me fala da doença, que diagnosticaram há muito tempo e que a cada ano se agrava mais.
 
Não sei quanto tempo eu choro em seus braços em busca de uma solução que não tenho como encontrar. Emma fala comigo e eu mal consigo parar de chorar.
 
— Não me olha assim.
 
— Assim como? — pergunto ao escutar sua voz.
 
— Sinto que te dou pena.
 
Comovida por suas palavras, me agarro a ela.
 
— Querida, não diga bobagem. Te olho assim porque te amo e sofro por...
 
— Está vendo? Estou te fazendo sofrer. Não devia ter deixado que nossa relação fosse adiante.
 
— Não diga bobagem, Emma, por favor.
 
Com uma expressão que lembrarei pelo resto da vida, ela pega meu rosto entre suas mãos.
 
— Estar ao meu lado te fará sofrer, Regina. Sou uma mulher com muitas responsabilidades. Uma empresa para administrar, um menino problemático para criar e, como se não bastasse, um problema de saúde. Acho que chegou o momento em que você precisa decidir o que quer fazer. Vou aceitar sua decisão, seja qual for. Já me sinto bastante culpada.
 
Eu a escuto, chocada, e de repente tenho vontade de bater nela. Que bobajada está dizendo? Minha expressão transmite confiança outra vez. Encaro seus castigados olhos verdes.
 
— Não está querendo dizer o que estou imaginando, está?
 
— Estou, sim, Regina.
 
— Mas como você é idiota, pra não dizer babaca!
 
Emma sorri.
 
— Você é uma mulher jovem, linda e saudável com toda a vida pela frente e...
 
— E você é o quê? — Mas não a deixo responder e começo a gritar furiosa: — Você é a mulher com responsabilidades, um sobrinho e uma doença, e a quem eu amo. E, se antes sua cara de mau e seus maus modos não me metiam medo, agora menos ainda, sabe por quê? — Emma nega com a cabeça. — Porque eu não vou te deixar, por mais que você me peça. E não vou te deixar porque amo você, amo você... amo você. Enfia isso na sua maldita e quadrada cabeça alemã! Não me importo com o futuro. Só o que me importa é você... você... você, sua cabeça-dura safada! E sim, é precipitado abandonar tudo e ir viver contigo na Alemanha, mas, como eu te amo, vou pensar a respeito.
 
— Regi...
 
— Você está aqui, querida. Você é meu presente. Como posso viver sem você? Mas você ficou louca? Como passou pela sua cabeça que eu pudesse pensar em te deixar por causa da sua doença?
 
Emocionada, Emma nega com a cabeça e, pela primeira vez, eu a vejo chorar. E isso parte meu coração. Esconde os olhos com as mãos e chora como uma criança.
 
— Regi, quando minha doença avançar, minha qualidade de vida será muito prejudicada. Chegará um momento em que serei um estorvo pra você e...
 
— E?
 
— Você não entende?
 
— Não. Não entendo — respondo sem ar nos pulmões.— E não entendo porque você vai continuar ao meu lado. Você vai poder me tocar, me beijar e fazer amor comigo, e eu com você. Por que você duvida de mim?
 
Emma murmura emocionada:
 
— Você é a melhor coisa que já me aconteceu na vida. A melhor.
 
Prestes a cair no choro, tiro suas mãos dos olhos e enxugo suas lágrimas.
 
— Então, se sou a melhor coisa que te aconteceu, não volte a mencionar, nem de brincadeira, essa ideia de que vou te deixar, ok? Agora me diz que você me ama e me dá um beijo desses que eu adoro.
 
As lágrimas brotam de novo dos meus olhos, mas eu sorrio. Ela também sorri, me abraça e me beija.

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