sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Peça-me o que quiser Capítulo 32

Capitulo 32

No sábado, 29 de dezembro, Emma  pede que a gente passe o dia todo com o sobrinho dela. Percebo pelo seu olhar o quanto está preocupada com isso. Mas concordo logo, convencida de que é o melhor para todos, especialmente para Flyn. É claro que Flyn não desperdiça uma oportunidade de me fazer ver que estou sobrando. Não levo a sério. É uma criança. Passamos grande parte do dia jogando Wii e Playstation, a única coisa que parece motivar o menino, e lhe demonstro que nós, meninas, sabemos fazer mais coisas do que ele pensa.
   Acho engraçado observar como me olha quando ganho de Emma no Moto GP ou dele mesmo numa partida de Mario Bros. O menino não consegue acreditar no que vê. Fica abismado em me ver ganhando dele. Pra ele, só sua super tia pode ganhar. Mas deixo que ele vença no Mortal Kombat para não lhe dar motivo para me odiar mais. Flyn é uma criança dura na queda, digno sobrinho de minha icewomam.
   Durante todo o dia, Emma e eu nos dedicamos totalmente a ele e, à noite, tenho a cabeça como um bumbo de tanta musiquinha de videogames. Mas na hora do jantar, surpresa, vejo que Flyn me pergunta se quero salada e enche meu copo de Coca-Cola sem que eu peça. Já é um começo, e Emma e eu sorrimos.
    Quando enfim conseguimos cansar o menino e botá-lo para dormir, Emma volta a ser minha, na intimidade de nosso quarto. Apenas minha. Curto Emma, sua boca, sua maneira de fazer amor, e sei que ela me curte.
   Enquanto transamos, não paramos de nos olhar nos olhos e de nos dizer coisas picantes e sensuais. O jogo dela é o meu jogo, e juntas nos divertimos como doidas.
     No domingo, quando acordo, estou sozinha na cama como sempre. Emma dorme pouco. Olho o relógio. São 10h08. Estou exausta. Depois de uma noite animada com Emma só quero dormir e dormir, mas sei que na Alemanha são muito madrugadores, então é melhor me levantar.
    De repente, a porta se abre, e o objeto de meus mais pecaminosos e obscuros desejos surge com o café da manhã numa bandeja. Está lindíssima com esse suéter grená e os jeans.
    — Bom dia, moreninha.
   O apelido que meu pai me deu me faz sorrir. Emma se senta na cama e me dá um beijo.
    — Como está minha namorada hoje? — pergunta tod
a carinhosa.
    Encantada com a vida e com o amor que sinto por ela, afasto o cabelo do rosto e respondo:
    — Exausta, mas feliz.
    Ela gosta da minha resposta, mas antes que ela comente alguma coisa, olho atônita para a bandeja.
    — Churros? Isto são churros?
    Ela acena que sim com um belo sorriso. Pego um, passo no açúcar e dou uma mordidinha.
   — Que delícia! — E ao olhar meus dedos, sussurro: — Com uma gordurinha e tuuuuuddooo.
     A gargalhada de Emma retumba pelo quarto.
    Minha nossa, comer um churro na Alemanha é um sonho bom demais da conta!
    — Mas onde conseguiu comprar?
    Ainda estou surpresa. Com um sorriso gigante, Emma pega outro churro e começa a comer.
    — Comentei com Simona que os churros são algo típico na Espanha e que você gosta muito no café da manhã. E ela, não sei como, fez pra você.
    — Puxa, genial! — exclamo entusiasmada. — Quando eu contar pro meu pai ele vai cair de costas.
     Sorrindo, começamos a comer os churros. Ao pegar o guardanapo, quando vou limpar a boca, surge o anel que tinha devolvido a Emma no escritório.
    — Como voltou a ser minha namorada, quero que use o anel.
    Eu a olho. Ela me olha. Sorrio. Sorri — e meu amor louca pega o anel e põe no meu dedo. Depois me dá um beijo na mão e murmura com voz rouca:
    — Você é toda minha outra vez.
    Meu corpo fica quente. Eu adoro Emma. Beijo sua boca e, ao me separar dela, cochicho:
    — Com certeza, minha namorada. — Sorri. — Posso te perguntar algo sobre Flyn?
    — Claro.
    Depois de comer o delicioso churro, pergunto:
    — Por que não tinha me dito que seu sobrinho é chinês?
    Emma dá uma gargalhada.
    — Não é chinês. É alemão. Não chame Flyn de chinês ou ele vai ficar chateado de verdade. Não sei por que odeia essa palavra. Minha irmã Hannah foi viver na Coreia durante dois anos. Lá conheceu Lee Wan. Quando engravidou, Hannah decidiu voltar pra cá pra ter o Flyn. Portanto, é alemão!
    — E o pai de Flyn?
    Emma faz uma careta.
    — Era um homem casado e nunca quis saber nada dele.
    Penso que o assunto acabou, mas ela continua:
    — Teve um pai aqui durante dois anos. Minha irmã andou com um cara chamado Leo. O menino o adorava, mas quando aconteceu o acidente, esse imbecil não quis mais saber dele. Me confirmou o que sempre pensei: estava com minha irmã pelo dinheiro.
    Decido não perguntar mais nada. Não devo. Continuo comendo. Emma me beija a testa. Durante uns segundos, nos olhamos e sei que chegou o momento de falar sobre o que ando pensando. Antes, porém, tomo um gole de café.
    — Emma, amanhã é a noite de Ano-Novo, e eu...
    Não me deixa continuar. Bota um dedo em minha boca.
    — Sei o que vai dizer. Quer voltar pra Espanha pra passar o réveillon com sua família, não é?
    — Sim. Acho que eu deveria ir hoje. Amanhã é a véspera de Ano-Novo e... Bom, você me entende.
    Suspira, concordando. Sua resignação me toca o coração.
    — Olha, Regi, eu adoraria que você ficasse aqui comigo, mas eu entendo. Dessa vez não vou poder te acompanhar. Vou ficar com Flyn. Minha mãe e minha irmã têm planos, e eu quero passar a noite com ele em casa. Você também compreende, não é mesmo?
    Lembrar disso me parte o coração. Como vão ficar sozinhos? Mas, antes que eu possa dizer alguma coisa, minha alemã acrescenta:
    — Minha família desmoronou no dia em que Hannah morreu. E não posso cobrar nada da minha mãe e da Marta. Quem desapareceu na primeira noite de Ano-Novo fui eu. Enfim... Não quero mais falar disso, Regina. Vá pra Espanha e aproveite. Flyn e eu ficaremos bem aqui.
    A dor em seu olhar me leva a tocar seu rosto. Desejo continuar falando, mas minha Icewoman não quer que eu tenha pena dela.
    — Ligarei pro aeroporto pra que preparem o jatinho.
    — Não. Não precisa. Vou num voo normal. Não se incomode com...
    — Insisto, Regi. Você é minha namorada e...
    — Por favor, Emma, não torne as coisas mais difíceis — eu corto. — Acho melhor ir num voo regular. Por favor.
    — Tudo bem — diz depois de um silêncio mais que significativo.
    — Deixe comigo.
    — Obrigada — murmuro.
    Resignada, pestaneja:
    — Você volta depois do Ano-Novo?
    Minha cabeça começa a rodar. Como pode me perguntar uma coisa dessas? Por acaso não se deu conta de que a amo loucamente? Desejo gritar que claro, vou voltar, quando ela pega minhas mãos.
    — Quero que saiba que, se voltar pra mim, farei tudo o que me for possível pra que não sinta saudades de nada do que tem na Espanha. Sei que a ligação com sua família é muito forte, que se separar dela é o que te custa mais, mas comigo você será cuidada, protegida e, principalmente, será muito amada. Desejo que seja feliz comigo em Munique, e se pra isso todos tivermos que aprender coisas espanholas, aprenderemos e conseguiremos que se sinta em casa. Quanto a Flyn, dê um tempo a ele. Tenho certeza de que antes do que você espera esse garoto vai te adorar tanto ou mais que eu. Já te disse que era uma criança especial e...
    Emocionada, eu o interrompo:
    — Emma, eu te amo.
    O tom de minha voz, o que acabo de dizer e seu olhar me deixam toda arrepiada. Mais ainda quando ouço:
    — Te amo tanto, pequena, que ficar longe de você me deixa louca.
   Nossos olhares são sinceros e nossas palavras, mais ainda. Nós nos amamos. Nós nos amamos loucamente, e quando ela vai me beijar, a porta se abre pouco a pouco e surge o pequeno Flyn.
    — Tiaaaaaaa! Por que está demorando tanto?
    Rapidamente nos recompomos. Ao ver que Emma não diz nada, diante do olhar do menino, pego um churro na bandeja e pergunto em espanhol:
    — Quer um churro, Flyn?
    O menino faz cara feia. Não conhece a palavra “churro” e não me suporta. E como não está disposto a deixar que lhe roube nem mais um segundo com sua amada tia, responde:
    — Tia, te espero lá embaixo pra jogar.
    E antes que alguém consiga dizer qualquer coisa, fecha a porta e se vai.
    Olho Emma, risonha.
    — Não tenho a menor dúvida de que Flyn se alegrará muito com minha partida.
    Emma não diz nada. Me beija na boca e depois vai embora. Durante um instante, olho a porta, pensando que não entendo como Sonia e Marta, a mãe e a irmã de Emma, podem deixar esses dois sozinhos numa data assim. Me dá pena.
     Às seis e meia da tarde, Emma, Flyn e eu estamos no aeroporto. Não tenho bagagem para despachar, levo apenas uma mochila com poucas coisas. Estou nervosa, muito nervosa. Me despedir deles, principalmente de Emma, me parte o coração. Mas tenho que ver minha família.
    Emma age com frieza, mas tenta brincar. É seu mecanismo de defesa. Ela é indiferente para não sofrer. Quando o momento da despedida chega, enfim, me agacho e beijo a bochecha de Flyn.
    — Rapazinho, foi um prazer conhecer você. Quando eu voltar, quero revanche no Mortal Kombat.
    O menino concorda. Por uns segundos, vejo um pouco de calor em seu olhar. Mas ele mexe a cabeça e, quando volta a me olhar, essa impressão já não existe. Emma convence Flyn a se afastar de nós uns metros e o garoto se senta para esperar.
    — Emma, eu...
    Mas não posso continuar. Emma me beija com verdadeira devoção. Depois, quando se separa um pouco, crava seus impressionantes olhos verdes  em mim.
    — Divirta-se, pequena. Cumprimente sua família por mim e não esqueça que pode voltar quando quiser. Me ligue, estarei esperando sua ligação para te pegar no aeroporto. Seja o dia que for, a hora que for.
    Faço um gesto de concordância, emocionada. Tenho uma vontade terrível de chorar, mas me contenho. Não devo chorar, ou vou parecer uma boboca molenga, e nunca gostei disso. Então, sorrio, beijo meu amor de novo, pisco um olho para Flyn e sigo para a porta de entrada. Depois que passo pela segurança, pego minha bolsa e minha mochila e me viro para dar adeus. Meu coração se parte ao ver que Emma  já foi embora com a criança.
    Ando pelo aeroporto, olhando os painéis em busca do meu portão de embarque. Quando o localizo, me dirijo para lá, mas, como ainda tenho uma hora de espera, decido me distrair pelas lojas. Só que minha cabeça não está onde deve, só consigo pensar em Emma. Em meu amor. Na dor que vi em seus olhos quando me separei dela. Isso me destroça a alma, segundo a segundo.
    Exausta e abatida pela tristeza, me sento e observo as pessoas que passam. Pessoas alegres e tristes. Pessoas com família e pessoas sozinhas. Fico assim um bom tempo, até que meu celular toca. É meu pai.
    — Oi, moreninha. Onde você está, meu bem?
    — No aeroporto. Esperando que abram o portão de embarque.
    — A que horas chega a Madri?
    Olho minha passagem.
    — Teoricamente, aterrissamos às onze e às onze e meia pego o último voo pra Jerez.
    — Perfeito. Vou te esperar no aeroporto daqui.
    Por um momento, falamos de coisas banais.
    — Você está bem, minha filha? — pergunta de repente. — Me parece meio pra baixo. Como sou incapaz de ocultar meus sentimentos do pai que me adora tanto, respondo:
    — Papai, tudo é tão complicado que... que... me sinto arrasada.
    — Complicado?
    — Sim, papai, muito.
    — Brigou de novo com Emma? — pergunta meu pai sem entender bem.
    — Não, papai, não é nada disso.
    — Então, querida, qual é o problema?
    Antes de dizer algo, me convenço de que preciso contar para ele o que está acontecendo comigo.
     — Papai, eu quero passar a noite de Ano-Novo com vocês. Quero ver você, Luz e a doida da Raquel, mas... mas...
    O riso carinhoso de meu pai me faz sorrir mesmo sem vontade.
    — Mas está apaixonada por Emma e também quer ficar com ela, é ou não é, querida?
    — Sim, papai, e isso me deixa péssima — sussurro, enquanto observo que dois funcionários se posicionam no meu portão de embarque.
    — Olha, moreninha, quando eu conheci sua mãe, ela morava em Barcelona e eu, como você bem sabe, em Jerez. Te garanto então que sei o que está acontecendo com você, eu já passei por isso. Quer um conselho? Deixa teu coração te guiar.
    — Mas, papai, eu...
    — Quieta e me ouça, meu bem. Tanto Luz como Raquel ou eu sabemos que você nos ama. Nós vamos ter você e te amar pelo resto de nossas vidas, mas seu caminho deve começar como começou o meu e depois o de sua irmã quando se casou. Seja egoísta, minha filha. Pense no que você quer e no que deseja. E, se neste momento teu coração te pede que fique na Alemanha com Emma, fique, ora. Aproveita! Porque se você estiver bem aí, eu ficarei mais feliz do que se você ficar ao meu lado toda jururu.
    — Papai, que romântico você me saiu — soluço, comovida.
    — Ei, ei, moreninha.
    — Ai, papai! — desato a chorar. — Você é o melhor... o melhor...
    Sua bondade preenche todo o meu ser, quando ouço:
   — Você é minha filhinha e te conheço melhor que ninguém, e só quero que seja feliz. E se tua felicidade está com essa  alemã  que te tira do sério, benza Deus! Seja feliz e aproveite a vida. Eu sei que me ama, e você sabe que eu te amo. Onde está o problema? Tanto faz que esteja na Alemanha ou ao meu lado, se sabemos que teremos um ao outro pelo resto de nossas vidas. Porque você é minha moreninha, e isso, nem a distância, nem Emma, nem nada, vai mudar. — Emocionada com essas palavras, choro de novo e ele continua. — Vamos, vamos, não chore. Senão fico nervoso e me sobe a pressão. E você não quer isso, não é?
    Sua pergunta me arranca um riso carregado de lágrimas. Meu pai é generoso. É sensacional!
     — Então, minha filha, por que não fica na Alemanha e passa uma noite de Ano-Novo alegre e feliz? Este é o começo da vida que você tinha planejado há pouco e acho que começá-la nessa época será sempre uma bela lembrança pra vocês, não acha?
    — Papai, não se importa mesmo?
    — Claro que não, minha vida. Então, sorria e vá procurar Emma. Diga pra ela que mando um abraço. E, por favor, seja feliz para que eu também possa ser. Combinado?
    — Combinado, papai. — E antes de desligar, acrescento: — Te ligo amanhã à noite. Te amo, papai. Te amo muito.
    — Eu também te amo, moreninha.
    Comovida, emocionada e com mil sensações dentro de mim, desligo o celular e enxugo as lágrimas. Durante vários minutos permaneço sentada enquanto penso no que devo fazer. Papai ou Emma? Emma ou papai? Por fim, quando os passageiros do meu voo começam a embarcar, agarro minha mochila e sei, com toda a clareza, aonde devo ir. Em busca do meu amor.

     Pago com cartão o táxi que me deixa na porta da incrível mansão de Emma. Como era de se esperar, começa a nevar de novo e minhas botas afundam na neve, mas não importa: estou congelada, mas feliz. Quando o táxi se afasta, me deixando sozinha diante da grade imponente, um ruído próximo me alerta. Olho, sobressaltada, para as latas de lixo à minha esquerda. Uns olhos brilhantes e esbugalhados me observam. Grito.
    — Merda, que susto!
    Meu grito faz o pobre cachorro fugir apavorado. Acho que se assustou mais que eu. Procuro a campainha, mas aí vejo que se acende uma luz na casinha de Simona e Norbert. Numa janela, as cortinas se mexem e logo se abre uma porta ao lado da grade.
    — Senhorita Regina? Santo Deus, vai congelar!
   Me viro e vejo  Norbert, vestindo um casacão escuro que vai até os pés, corre para mim.
   — Mas o que faz aqui com este frio? Não tinha ido pra Espanha?
    — Mudei de ideia no último momento — respondo tremendo, mas sorrindo.
   O homem me devolve o sorriso e me apressa, enquanto caminhamos para a portinha lateral.
    — Entre, por favor. Ouvi que um carro parava, então fui olhar. Vamos, entre. Eu a levarei agora mesmo.
     Atravessamos o enorme jardim o mais rapidamente que podemos. Meus dentes batem, e o homem me oferece o casacão. Não aceito. Não aceito de jeito nenhum. Quando chegamos à casa, nos dirigimos para a porta da cozinha. Norbert pega uma chave, abre e me convida a entrar.
    — Vou preparar alguma coisa quentinha. A senhorita precisa.
    — Não, não, obrigada — digo, pegando-lhe as mãos frias. — Volte pra sua casa. É tarde, deve descansar.
    — Mas, senhorita, eu...
    — Não se preocupe, Norbert. Eu mesma faço. Agora, por favor, volte pra sua casa.
    Ele concorda, contrariado, e me diz que Emma, a essa hora, quando Flyn está dormindo, costuma ficar no escritório. Agradeço. Por fim, ele se vai.
    Fico sozinha na cozinha enorme e escura. Respiro agitada. A casa está silenciosa, e isso me arrepia. Voltei. Tremo de frio, mas pensar em Emma tão pertinho começa a me aquecer. Estou nervosa, ansiosa pela cara que vai fazer quando me vir.
    Incapaz de esperar um segundo mais, me encaminho para o escritório. Ouço música. Como uma menina, colo o ouvido na porta e sorrio: a maravilhosa voz de Norah Jones canta a canção romântica Don’t know why.
   Não sabia que Emma gostava dessa cantora, mas adorei descobrir.
   Abro a porta em silêncio e sorrio. Minha Swan está sentada perto da lareira com um copo na mão, olhando o fogo. A música, o calor e a emoção de vê-la me envolvem. Vou até ela.  De repente, ela vira a cabeça e me vê. Se levanta. Minha respiração se altera: seu rosto diz tudo, está surpresa!
    Deixa o copo numa mesinha. Sua expressão de espanto me faz sorrir. Solto a mochila que minhas mãos congeladas ainda seguram.
    — Papai te manda um abraço e espera que passemos um feliz réveillon. E como você me disse que poderia voltar quando quisesse, aqui estou! E...
    Mas não posso continuar. Minha gigante alemã me abraça com verdadeiro amor e sussurra, antes de me beijar:
     — Não imagina como desejei isso.
     Quando separa seus lábios dos meus, sorri, sorri, sorri. Mas então seu rosto se contrai.
    — Pelo amor de Deus, Regina! Você está congelada, querida. Venha pra perto do fogo.
    De mãos dadas com ela, faço o que me pede. Seus olhos me observam com extrema ternura. Ainda não se recuperou da surpresa.
    — Por que não me ligou? Eu teria ido te pegar.
    — Queria te surpreender.
    Com semblante preocupado, retira meu cabelo úmido do rosto.
    — Você está congelada, querida.
    — Não importa, não importa...
    Me beija de novo. Está nervosa. A surpresa foi incrível, ela está totalmente desorientado.
    — Já jantou?
    Faço que não com a cabeça, e ela me ajuda a tirar meu casaco congelado.
    — Vamos, tire essa roupa. Você está ensopada, vai adoecer.
    — Espere, calma — digo rindo, feliz. — Tenho roupa na minha mochila.
    — Na tua mochila está tudo molhado e frio — insiste, e rapidamente tira seu moletom cinza.
     Minha nossa, que pessoa  mais gostosa! É impressionante.
    — Pegue, bote isso, que vou no quarto achar roupa seca.
    Sai a toda. Não posso parar de rir como uma completa idiota, e um calor maravilhoso me percorre o corpo. O efeito Emma Swan está de volta.
     Estou boba.
     Idiota.
     Perdidamente apaixonada.
    Antes que eu possa me mexer, Emma já voltou, agora com um moletom azul, trazendo minha roupa.
     Como ainda estou com a roupa úmida, ela me despe, enquanto toca a música sensual Turn me on, de Norah Jones. Puxa, eu adoro!
     Emma não tira os olhos de mim. Nua, começo a me insinuar. Eu a desejo. Ela coloca o moletom cinza em mim. Então peço:
    — Dance comigo.
   Sem salto alto, sem calcinha, me agarro a mulher  que adoro para que dance comigo. Estamos mais que comovidas, me sinto completamente protegida por Emma, e dançamos no tapete macio diante da lareira essa linda e romântica canção de amor.
Like a flower waiting to bloom
Like a lightbulb in a dark room
I’m just sitting here waiting for you
To come on home and turn me on

    É delicioso estarmos nos braços uma da outra. Enquanto isso, nossos pés se movem lentamente no tapete e nossas respirações se fundem até se tornar apenas uma. Dançamos em silêncio. Não podemos falar. Só precisamos nos abraçar e continuar dançando.
    Quando a música termina, nos olhamos. Emma se abaixa e me beija na boca com doçura.
    — Vamos, Regi, se vista — diz com uma voz supersensual.
    Sorrio, feliz com as mil emoções que ela me faz sentir. Sorrio mais ainda ao ver que me trouxe uma cueca boxer.
    — Puxa, adorei! E Armani ainda por cima. Que sexy!
    Emma sorri e, depois de me dar uma palmada carinhosa no traseiro, me entrega umas meias grossas e macias.
    — Vista-se e não me provoque mais, sua safadinha! Vamos, sente perto da lareira. Vou à cozinha arranjar algo pra você comer.
    — Não precisa, Emma, mesmo!
    — Como não, querida? Precisa, sim! Sente e espere.
   Faço o que me pede, encantada com nossa felicidade. Me dá um beijo e sai. Sozinha, olho ao redor enquanto a música da fantástica Norah Jones me envolve. Pego minha mochila molhada, tiro um pente, me sento no tapete e começo a desembaraçar meu cabelo molhado. Estou lutando com ele quando Emma volta com uma bandeja. Ao me ver, ela a deixa na escrivaninha e chega perto de mim.
    — Me dê o pente. Eu desembaraço.
    Obedeço como uma menininha. Sentir suas mãos desembaraçando meus cabelos com delicadeza me enlouquece. Me arrepia. Às vezes ela é tão terna, que parece impossível acreditar que posso discutir com ela. Quando termina, me dá um beijo na nuca.
     — Seu lindo cabelo está pronto. Agora, trate de comer.
    Ela se levanta e traz a bandeja para o tapete. Depois senta ao meu lado e me beija o pescoço com carinho.
    — Você está linda, pequena.
    Sua expressão, suas palavras, seu jeito de olhar, tudo nela revela a felicidade que sente com a minha presença. Sinto o cheirinho delicioso da sopa e, contente, pego a xícara. Emma não tira os olhos de mim enquanto tomo um gole e devolvo a xícara à bandeja.
    — Te surpreendi, né?
    — Muito — confessa, e retira uma mecha de cabelo do meu rosto.
    — Nunca deixa de me surpreender.
    Acho graça.
   — Quando ia pegar o avião, recebi uma ligação do meu pai. Ele me disse que, se o que me fazia feliz era ficar com você, não devia desperdiçar a chance de ser feliz. Pra ele é mais importante saber que estou aqui, com você, satisfeita, do que me ter ao lado dele e saber que morro de saudade de você.
    Emma sorri, leva o sanduíche de presunto de York até minha boca.
    — Teu pai é uma ótima pessoa, Regina. Você tem muita sorte.
    Como um pedaço do saboroso sanduíche.
    — Papai é a melhor pessoa que conheci na vida. Me disse, inclusive, que começar minha nova vida com você na noite de Ano-Novo é uma coisa bonita que não devo desperdiçar. E tem razão. Este é o nosso começo e quero curti-lo com você.
    Emma me oferece de novo o sanduíche e dou outra mordida. Quando entende o significado do que acabo de dizer, anuncio sem deixar que ela fale nada:
    — Vou ficar com você na Alemanha, definitivamente. Não vai mais se livrar de mim.
    A notícia a pega tão de surpresa, que ela não sabe nem o que fazer. Por fim, larga o sanduíche na bandeja, pega meu rosto entre as mãos e diz pertinho da minha boca:
    — Você é a melhor coisa, a mais bonita e maravilhosa, que me aconteceu na vida.
    — Sério?
    Emma sorri, me dá um beijo nos lábios e confirma:
    — Sim, senhorita Mills. — E ao perceber as intenções do meu olhar, observa com voz rouca: — Enquanto não acabar a sopa, o sanduíche e a sobremesa, não penso satisfazer teus desejos.
    — O sanduíche todo?
   Minha alemã acena que sim e diz, num tom de voz baixo, que me deixa arrepiada:
    — Todo.
    — E a banana também?
    — Naturalmente.
    Sorrio. Tomo a sopa olhando para Emma por cima da xícara. Eu a provoco com meus olhos e vejo que ela me deseja.
    Santo Deus, como esse mulher  me excita!
    Quando acabo, sem falar, largo a xícara e como o sanduíche. Tomo água e mostro a banana, que deixo na bandeja com um sorriso.
   — De sobremesa... prefiro você.
    Emma sorri e me beija. Eu a empurro até que ela deita no tapete. Estamos diante da lareira acesa. Sozinhas... Excitadas... E com vontade de brincar. Sento em cima de Emma. Ao meu contato e insinuações, fecha os olhos, está muito excitada e disposta a me dar o que quero e preciso. Suas mãos passeiam por minhas pernas, lenta e pausadamente, parando nas coxas.
    — Ainda não acredito que você está aqui, pequena.
    — Me toque e acredite — convido, olhando-a nos olhos.
    A excitação aumenta segundo a segundo. Resolvo tirar o moletom dela. Emma está nua da cintura para cima, à minha mercê. Com um sorriso triunfal, pouso minhas mãos em sua barriga e vou subindo até seus seios. No caminho, me agacho, e sua boca vem ao meu encontro. Nos beijamos, e suas mãos pegam as minhas.
    — Emma, você me deixa louca. Ela sorri. Eu sorrio.
    — Quer que te mostre como você me deixa? — pergunta ofegante.
   — Sim.
    Emma agarra a cueca que me deu e a tira, de uma vez só. Depois, faz o mesmo com o moletom. Fico totalmente nua sobre ela. Então suas mãos vão direto a meus seios e, me atraindo para ela, sussurra:
    — Me dá eles.
    Excitada, me inclino. Ofereço a Emma meu corpo, meus seios. Ela os beija com delicadeza. Depois, põe na boca primeiro um mamilo, que se arrepia logo, em seguida o outro, enquanto suas mãos me seguram para que eu não me afaste. Durante uns minutos, curto essas carícias afrodisíacas. São maravilhosas, quentes e excitantes. Então, com as mãos fortes, Emma me levanta, desliza por baixo de mim e fico sentada sobre sua boca. Minha barriga se encolhe ao sentir o calor da respiração de Emma. Oh, sim! Ela me agarra pela cintura, e só posso escutar, enquanto me desmancho toda:
    — Vou saborear você. Relaxa e aproveita.
    Sentada sobre sua boca, Emma cumpre o que promete: me faz gozar. Sua língua ávida, louca por mim, busca meu clitóris como se precisasse dele e me arranca gemidos incontroláveis. Fecho os olhos e ardo, segundo a segundo. Uma vez depois da outra, com os toques da língua, Emma me leva à beira do orgasmo e então para. Isso me deixa louca e quero protestar.
    Imagens excitantes passam por minha mente enquanto a mulher que me enlouquece toma de mim tudo o que quer, e eu me entrego, desejando mais. Estarmos sozinhas e nuas, no escritório, diante da lareira, é uma delícia. Mas inexplicavelmente uma vozinha em minha cabeça sussurra muito baixinho que, se fôssemos três, tudo seria mais excitante. Alucinada, abro os olhos. Como posso pensar assim? Emma conseguiu me atrair totalmente para suas brincadeiras e agora sou eu que fantasio com isso. Me sinto meio depravada e solto um gemido de prazer. Muito, muito depravada. E, deixando-me levar pelas minhas fantasias, digo:
    — Quero brincar, Emma. Brincar do que você quiser...
    Sei que me ouve pelo tapa que dá na minha bunda. Sua boca passeia pelos meus grandes lábios, seus dentes me dão mordidinhas que me arrancam ondas de prazer e, finalmente, me deixa gozar.
    Quando meu corpo se recupera desse maravilhoso ataque, Emma me coloca de novo sobre seu peito e, com um sorriso vitorioso, me pede com voz rouca, carregada de erotismo:
    — Vou te foder, Regi.
   Percebo que fiquei com o rosto corado. Mas não é por causa da lareira e sim pelo desejo que minha alemã  me provoca. Emma. Minha Emma. Minha alemã. Minha mandona. Minha cabeça-dura. Minha Icewman.
     Decidida a que ela aproveite tanto quanto eu, busco sua mão,  à puxo, me ajeito e posiciono  seus longos dedos em minha molhada entrada.  Olho para ela com olhos negros de tesão e, sem esperar mais, sento sobre seus dedos.
    Estou molhada, mais que molhada, e sinto como seus maravilhosos dedos chegam bem fundo de mim  sem que ela se mexa. Santo Deus, que prazer!
    Movo os quadris da esquerda para a direita em busca de mais espaço e depois me aperto sobre Emma. Ela fecha os olhos, ofegante: gosta deste movimento arqueado. Ótimo! Repito enquanto com as mãos massageio seu seios  e exijo:
    — Me olhe.
   Minha voz — o tom exigente que uso nesse instante é o que faz com que Emma abra os olhos rapidamente. Eu mando. Ela me pediu que eu tomasse a iniciativa, e me sinto poderosa.  Rebolo louca e insessantemente em seus dedos. Ela  põe a mão esquerda  em meu quadris. A parte animal de  Emma está despertando. Mas agarro sua mão e, entrelaçando-a com as minhas, sussurro:
    — Não, não se mexa. Deixe comigo.
    Está ansiosa. Excitada. Tesuda. Seu olhar fala por si, e sei o que deseja. O que pensa. O que anseia. De novo mexo meus quadris com força.  e seus dedos esguios vão bem lá no fundo...Me aperto contra Emma e ela geme.  Eu também.
    — Santo Deus, Regina, você me deixa louca!
    Fico repetindo os movimentos. Rebolo e rebolo.  Levo Emma até o limite do prazer. Quero que ela goze me vendo gozar em seus dedos. Seu olhar fica sério. Sorrio. Aiii, como me excita essa cara de mau! Com a mão que tem livre,  tenta me segurar e eu a detenho outra vez, enquanto meus movimentos rápidos e circulares continuam levando Emma até onde quero. Ao êxtase. Mas seu prazer é o meu prazer, e quando vejo que ambas vamos morrer de tesão, acelero os quadris até que um orgasmo maravilhoso me toma por completo, e minha Icewman, enlouquecida,  com a visão que tem de mim, se contorce e  goza.
    Deliciada com o que fiz, me deixo cair sobre Emma, e ela me abraça. Adoro senti-la tão pertinho assim. Nossas respirações descompassadas pouco a pouco se acalmam.
    — Amo você Regina — diz no meu ouvido.
    Suas palavras, tão carregadas de amor, me enlouquecem, e só posso sorrir como uma boba enquanto seus braços entrelaçam  minha cintura e me apertam.
    Nosso calor se funde num só.
    Levanto a cabeça e beijo Emma.
    Por uns minutos, ficamos assim, deitadas no tapete. Então Emma, ao me ver arrepiada, me convida a levantar. Levantamos, e ela pega um cobertor escuro que está numa poltrona e joga sobre mim. Depois, nua, se senta e, sem me soltar, me faz sentar no seu colo e tira o cabelo solto do meu rosto.
    — O que passava por tua cabecinha quando disse que queria brincar do que eu quisesse? Uau! Isto me pega de surpresa. Por essa eu não esperava.
    — Vamos, Regi — insiste ao ver como olho para ela.
    — Você sempre foi sincera.
    Incrível. Como sabe que escondo algo? Por fim, disposta a dizer o que pensava, respondo:
    — Bom, eu... Olha, a verdade é que não sei. — Emma ri contra meu pescoço. Fraquejo. — Tá bem, te conto. Adoro transar com você; é maravilhoso, é excitante. O máximo. Mas, enquanto pensava nisto, me ocorreu que se fôssemos três no tapete teria sido ainda mais excitante. Mas... — Continuo rapidamente: — Querida, não vá pensar besteira, tá? Adoro o sexo com você. A-do-ro! E não sei por que diabos esse pensamento me cruzou a mente. Como me disse pra ser sincera e... bom, eu te disse. Mas a verdade é que... sabe? Eu me divirto muito só com você e...
    Uma gargalhada corta meu monólogo. É linda demais quando sorri. Me abraçando por cima do cobertor, ela responde:
    — Me enlouquece saber que você quer jogar, querida. O sexo entre nós é fantástico. Essas brincadeiras são um complemento à nossa relação.
    Me animo com essa resposta:
    — Como você definiu bem: um complemento!
    Emma me beija de novo no pescoço e, levantando comigo nos braços, diz com voz cheia de felicidade:
    — Por ora, minha linda, quero você com exclusividade. Vamos deixar os complementos pra outro dia.
    Rio, ela ri. Saímos do escritório dispostos a ter uma longa noite de paixão.

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