Capítulo 29
Depois de sair do escritório chego em
casa me sentindo como se tivesse levado uma surra. Olho as caixas embaladas e
fico com o coração partido. Tudo foi à merda. Minha viagem à Alemanha foi
cancelada e minha vida, por ora, também. Meto quatro coisas numa mochila e
desapareço antes que Emma me encontre. Meu telefone toca, e toca, e toca. É
ela, mas me nego a atender. Não quero falar com Emma.
Disposta a sumir de casa, vou a uma cafeteria e ligo para minha irmã. Preciso falar com ela. Faço-a prometer que não dirá a ninguém onde estou e marco um encontro com ela.
Minha irmã vem me socorrer e, depois de me abraçar como sabe que preciso, me escuta. Conto a ela parte da história, apenas uma parte, senão deixaria ela sem palavras. Não menciono o assunto do sexo e tal, mas Mary é Mary!, e quando as coisas não lhe batem bem começa com esse negócio de “Tá louca!”, “Você tem um parafuso a menos!”, “Emma é uma mulher maravilhosa!” ou “Como pôde fazer isso?”. Ao final me despeço dela e, apesar de sua insistência, não revelo aonde vou. Eu a conheço, contará a Emma assim que ela ligar.
Quando consigo me livrar de minha irmã, ligo para meu pai. Depois de uma conversa rápida com ele e de fazê-lo entender que daqui a uns dias irei a Jerez e explicarei tudo o que está acontecendo, pego o carro e vou para Valência. Ali me hospedo num albergue e durante três dias passeio pela praia, durmo e choro. Não tenho nada melhor para fazer. Não atendo as ligações de Emma. Não, não quero.
No quarto dia, um pouco mais relaxada, vou dirigindo a Jerez, onde papai me recebe com os braços abertos e me dá todo seu amor e carinho. Conto que minha relação com Emma acabou para sempre, e ele não quer acreditar. Emma ligou para ele várias vezes, preocupada — segundo meu pai, essa mulher me ama demais para me deixar escapar. Pobrezinho. Meu pai é um romântico incorrigível.
No dia seguinte, quando me levanto, Emma já está na casa de papai.
Papai ligou para ela.
Emma tenta falar comigo, mas me recuso. Fico uma fúria: grito, grito e grito, e falo tudo o que tenho sufocado antes de lhe bater a porta na cara e me trancar no quarto. Por fim, ouço que meu pai pede que ela vá embora, e por ora me deixa respirar. Papai sabe que agora sou incapaz de pensar e que, em vez de solucionar as coisas, posso complicar ainda mais.
Emma se aproxima da porta do meu quarto e, com a voz carregada de tensão e raiva, me diz que está indo, então. Mas que vai embora para a Alemanha. Tem que resolver uns assuntos lá. Insiste mais uma vez para que eu saia, mas, diante da minha negativa, finalmente se vai.
Passam dois dias, e minha angústia é constante. Esquecer Emma é impossível, ainda mais quando ela me liga toda hora. Não atendo. Mas, como sou mesmo uma masoquista, escuto várias vezes nossas canções e me entrego a essa tortura. A parte boa dessa história é que sei que Emma está muito longe e, além do mais, tenho minha moto para me distrair e saltar pelos campos enlameados de Jerez.
Dali a uns dias, me liga Killian, meu ex-colega na Müller, e me deixa chocada. Emma despediu minha ex-chefe. Ouço incrédula. Emma teve uma tremenda discussão com ela quando a flagrou falando mal de mim na cafeteria. Resultado: rua. Bem feito, sua vagabunda!
Sinto muito, isso não deveria me alegrar, mas a malvada que há em mim se delicia: enfim essa jararaca desgraçada recebeu o que merecia. Como diz muito sabiamente meu pai, “o tempo bota cada um em seu lugar”, e a essa o tempo pôs onde devia, no olho da rua.
Nessa tarde minha irmã aparece com Whale e Grace, e nos surpreendem com a notícia de que vão ser pais outra vez. Bebê a bordo! Meu pai e eu nos olhamos com cumplicidade e sorrimos. Minha irmã está feliz, meu cunhado também e Grace está visivelmente entusiasmada. Vai ter um irmãozinho!
No dia seguinte, é Robin quem aparece aqui em casa. Damos um longo e significativo abraço. Pela primeira vez desde que nos conhecemos, há meses que não nos falamos, e a forma como nos abraçamos diz que, entre nós, aquilo que nunca existiu, por fim acabou.
Não pergunta por Emma. Não faz a menor menção a ela, mas intuo que imagina que nosso caso ou acabou ou que alguma coisa está acontecendo.
À tarde, enquanto minha irmã, Robin e eu beliscamos uns tira-gostos no bar da Pachuca, pergunto:
— Robin, se eu te pedisse um favor, você faria?
— Depende do favor.
Sorrimos, e esclareço, disposta a conseguir meu objetivo:
— Preciso do endereço de duas mulheres.
— Que mulheres?
Tomo um gole de Coca-Cola e respondo:
— Uma se chama Marisa de la Rosa e mora em Huelva. É casada com um cara chamado Mario Rodríguez, que é cirurgião plástico. É quase tudo que sei. E a outra se chama Rebeca e foi namorada de Emma Swan por uns dois anos.
— Regina — protesta minha irmã —, nem pensar!
— Fica quieta, Mary.
Mas minha irmã começa seu sermão e já não há quem a pare. Depois de discutir com ela, olho Robin de novo, que não abriu a boca.
— Pode me conseguir o que te pedi ou não?
— Pra que quer isso? — me responde.
Não estou com vontade de contar o que aconteceu.
— Robin, não é para nada de mal — explico. — Enfim, se você puder me ajudar, eu te agradeço.
Durante uns segundos, ele me olha sério, enquanto ao meu lado Mary continua me metendo pau. Por fim ele concorda e se afasta. Vejo que fala pelo celular. Isso me deixa nervosa. Dez minutos depois, vem com um papel e diz:
— Sobre Rebeca só posso te dizer que está na Alemanha; ela não tem uma residência fixa. E o endereço da outra está aqui. Aliás, tuas amigas se movem num ambiente de alto nível e estão nos mesmos jogos que Emma Swan.
— Que jogos são esses? — pergunta Mary.
Robin e eu nos olhamos. Vou cortar sua língua se der mais um pio!
Nós nos entendemos bem: sabe que se pensar em responder a minha irmã, se verá comigo. Ele me leva a sério. É um amigo excelente. Finalmente, Robin se resigna e diz:
— Nenhuma besteira com elas, certo, Regina?
Minha irmãzinha faz que não com a cabeça, ofegante. Eu, emocionada, pego o papel e beijo Robin no rosto.
— Obrigada. Muito, mas muito obrigada.
Essa noite, quando fico sozinha no meu quarto, a raiva toma conta de mim. Saber que no dia seguinte, com um pouco de sorte, vou estar cara a cara com Marisa me deixa nervosa. Essa bruxa desgraçada vai saber quem eu sou.
Acordo às sete da manhã. Chove.
Minha irmã já está de pé e, mal vê que me preparo para viajar, gruda em mim como um carrapato e não para de fazer perguntas. Tento escapar dela.
Vou a Huelva fazer uma visitinha a Marisa de la Rosa. Mas Mary... é muito Mary!
Por fim, ao perceber que não posso me livrar dela, concordo que me acompanhe. Mesmo que durante o trajeto eu me arrependa e sinta uns impulsos assassinos de jogá-la na sarjeta. É tão chata e repetitiva que tira qualquer um do sério.
Ela não sabe o que realmente aconteceu comigo e com Emma, e não para de delirar com suas suposições. Se soubesse a verdade, ficaria de queixo caído. Uma mentalidade como a de minha irmã não entenderia minhas brincadeiras com Emma. Pensaria que somos depravadas, ou coisas ainda piores.
No dia em que tudo aconteceu, quando contei a Mary, amenizei um pouco a realidade. Contei que essas mulheres tinham armado pra cima da gente e por isso havíamos discutido e terminado. Não pude lhe dizer outra coisa.
Quando chegamos a Huelva, estranhamente não estou nervosa.
Basta o nervosismo da minha irmãzinha. Ao chegar à rua indicada no papel, estaciono. Observo ao redor e vejo que Marisa vive muito, mas muito bem. É um bairro de luxo.
— Ainda não sei o que fazemos aqui, fofinha — protesta minha irmã, saindo do carro.
— Fique aqui, Mary.
Mas, me ignorando, fecha decidida a porta e responde:
— Nem pensar, benzinho. Aonde você for, eu vou.
Bufo, resmungo.
— Ei, espera aí: por acaso eu preciso de guarda-costas?
Ela se põe ao meu lado.
— Precisa, sim. Não confio em você. Tem a língua solta e pode exagerar na grosseria.
— Foda-se!
— Tá vendo? Já disse “foda-se!” — repete ela.
Ignoro. Ando em direção à bonita portaria. Toco o interfone e, quando uma voz de mulher responde, digo na bucha:
— Carteiro.
A porta se abre, e minha irmã, os olhos deste tamanho, me olha.
— Ai, ai, ai, Regina! Acho que você vai fazer uma besteira. Calma, querida, por favor. Calma, que te conheço, tá certo?
Rio e murmuro, enquanto esperamos o elevador:
— Quem fez besteira foi ela quando me subestimou.
— Ai, ai, ai, fofinha!
— Veja bem — sussurro, mal-humorada —, a partir deste momento, quero você de boca fechada. Este é um assunto entre mim e essa mulher. Entendido?
O elevador chega. Entramos. No quinto andar, procuro a porta D e toco a campanhia. Instantes depois, uma mulher de uniforme nos atende.
— O que deseja? — pergunta a jovem.
— Bom dia! — respondo com o melhor dos meus sorrisos.
— Gostaria de ver a senhora Marisa de la Rosa. Ela está em casa?
— Da parte de quem?
— Diga que sou Vanesa Arjona, de Cádiz.
A moça desaparece.
— Vanesa Arjona? — cochicha minha irmã. — Que negócio é esse de Vanesa?
Conjunto branco-gelo. Ao me ver, sua cara de susto diz tudo. E antes que ela possa fazer ou dizer qualquer coisa, impeço que ela feche a porta, enquanto disparo:
— Olá, sua vadia!
— Fofiiiiiinnnhhhhaaa! — protesta minha irmã.
Marisa treme toda. Olho minha irmã para que fique em silêncio.
— Só quero que saiba que sei onde você mora — sussurro. — Que tal? — Marisa está pálida, mas continuo implacável: — Seu jogo sujo complicou minha vida, mas, pode crer, se eu quiser, posso ser muito pior que você ou suas amigas.
— Eu... eu não sabia que...
— Cale a boca Marisa! — rosno entre dentes. — Tanto faz o que você me disser. Você é uma desgraçada de uma bruxa: me manipulou de uma maneira vergonhosa. E quanto à tua amiguinha Betta, como tenho certeza que mantêm contato, diga pra ela que o dia em que cruzar comigo vai saber com quem se meteu.
Marisa treme. Olha para o interior da casa, e sei que teme o que eu possa dizer.
— Por favor — suplica —, meus sogros estão aí e...
— Seus sogros? Sensacional! Me apresente pra eles. Será um prazer conhecê-los e contar umas coisas sobre a santinha da sua nora.
Descontrolada, Marisa nega com a cabeça. Está com medo. Sinto pena dela. Ela é uma bruxa, sim, mas eu não sou. Por fim resolvo dar por terminada minha visita.
— Se você se meter a besta comigo de novo, sua bela e confortável vida com seus sogros e seu famoso maridinho vai se acabar. Porque eu mesma vou me encarregar de que seja assim, entendeu?
Concorda, branca como cera. Não me esperava aqui e menos ainda desaforada assim. Quando já disse tudo o que tinha para dizer e me viro para ir embora, minha irmã vem e pergunta:
— É esta a piranha que você procurava?
Faço um gesto afirmativo. Mary, como sempre, me surpreende:
— Se você se meter de novo com minha irmã ou a namorada dela, te juro pelo que há de mais sagrado que quem volta aqui com a faca de presunto do meu pai sou eu e te arranco os olhos, sua mocreia de merda!
Marisa, depois da cascata de palavras de minha querida Mary, bate a porta na nossa cara. Ainda de boca aberta, olho minha irmã e murmuro em tom alegre, a caminho do elevador:
— Ainda bem que a grossa e desbocada da família sou eu. Tá rindo do quê? Não te disse pra ficar caladinha?
— Olha, fofinha, quando se metem com minha família ou a prejudicam, eu viro bicho e armo o maior barraco.
Rindo, voltamos para o carro e regressamos a Jerez. Quando chegamos, meu pai e meu cunhado nos perguntam sobre nossa viagem. Nós duas nos olhamos e rimos. Não dizemos nada. Essa viagem foi uma coisa nossa, só nossa.
Disposta a sumir de casa, vou a uma cafeteria e ligo para minha irmã. Preciso falar com ela. Faço-a prometer que não dirá a ninguém onde estou e marco um encontro com ela.
Minha irmã vem me socorrer e, depois de me abraçar como sabe que preciso, me escuta. Conto a ela parte da história, apenas uma parte, senão deixaria ela sem palavras. Não menciono o assunto do sexo e tal, mas Mary é Mary!, e quando as coisas não lhe batem bem começa com esse negócio de “Tá louca!”, “Você tem um parafuso a menos!”, “Emma é uma mulher maravilhosa!” ou “Como pôde fazer isso?”. Ao final me despeço dela e, apesar de sua insistência, não revelo aonde vou. Eu a conheço, contará a Emma assim que ela ligar.
Quando consigo me livrar de minha irmã, ligo para meu pai. Depois de uma conversa rápida com ele e de fazê-lo entender que daqui a uns dias irei a Jerez e explicarei tudo o que está acontecendo, pego o carro e vou para Valência. Ali me hospedo num albergue e durante três dias passeio pela praia, durmo e choro. Não tenho nada melhor para fazer. Não atendo as ligações de Emma. Não, não quero.
No quarto dia, um pouco mais relaxada, vou dirigindo a Jerez, onde papai me recebe com os braços abertos e me dá todo seu amor e carinho. Conto que minha relação com Emma acabou para sempre, e ele não quer acreditar. Emma ligou para ele várias vezes, preocupada — segundo meu pai, essa mulher me ama demais para me deixar escapar. Pobrezinho. Meu pai é um romântico incorrigível.
No dia seguinte, quando me levanto, Emma já está na casa de papai.
Papai ligou para ela.
Emma tenta falar comigo, mas me recuso. Fico uma fúria: grito, grito e grito, e falo tudo o que tenho sufocado antes de lhe bater a porta na cara e me trancar no quarto. Por fim, ouço que meu pai pede que ela vá embora, e por ora me deixa respirar. Papai sabe que agora sou incapaz de pensar e que, em vez de solucionar as coisas, posso complicar ainda mais.
Emma se aproxima da porta do meu quarto e, com a voz carregada de tensão e raiva, me diz que está indo, então. Mas que vai embora para a Alemanha. Tem que resolver uns assuntos lá. Insiste mais uma vez para que eu saia, mas, diante da minha negativa, finalmente se vai.
Passam dois dias, e minha angústia é constante. Esquecer Emma é impossível, ainda mais quando ela me liga toda hora. Não atendo. Mas, como sou mesmo uma masoquista, escuto várias vezes nossas canções e me entrego a essa tortura. A parte boa dessa história é que sei que Emma está muito longe e, além do mais, tenho minha moto para me distrair e saltar pelos campos enlameados de Jerez.
Dali a uns dias, me liga Killian, meu ex-colega na Müller, e me deixa chocada. Emma despediu minha ex-chefe. Ouço incrédula. Emma teve uma tremenda discussão com ela quando a flagrou falando mal de mim na cafeteria. Resultado: rua. Bem feito, sua vagabunda!
Sinto muito, isso não deveria me alegrar, mas a malvada que há em mim se delicia: enfim essa jararaca desgraçada recebeu o que merecia. Como diz muito sabiamente meu pai, “o tempo bota cada um em seu lugar”, e a essa o tempo pôs onde devia, no olho da rua.
Nessa tarde minha irmã aparece com Whale e Grace, e nos surpreendem com a notícia de que vão ser pais outra vez. Bebê a bordo! Meu pai e eu nos olhamos com cumplicidade e sorrimos. Minha irmã está feliz, meu cunhado também e Grace está visivelmente entusiasmada. Vai ter um irmãozinho!
No dia seguinte, é Robin quem aparece aqui em casa. Damos um longo e significativo abraço. Pela primeira vez desde que nos conhecemos, há meses que não nos falamos, e a forma como nos abraçamos diz que, entre nós, aquilo que nunca existiu, por fim acabou.
Não pergunta por Emma. Não faz a menor menção a ela, mas intuo que imagina que nosso caso ou acabou ou que alguma coisa está acontecendo.
À tarde, enquanto minha irmã, Robin e eu beliscamos uns tira-gostos no bar da Pachuca, pergunto:
— Robin, se eu te pedisse um favor, você faria?
— Depende do favor.
Sorrimos, e esclareço, disposta a conseguir meu objetivo:
— Preciso do endereço de duas mulheres.
— Que mulheres?
Tomo um gole de Coca-Cola e respondo:
— Uma se chama Marisa de la Rosa e mora em Huelva. É casada com um cara chamado Mario Rodríguez, que é cirurgião plástico. É quase tudo que sei. E a outra se chama Rebeca e foi namorada de Emma Swan por uns dois anos.
— Regina — protesta minha irmã —, nem pensar!
— Fica quieta, Mary.
Mas minha irmã começa seu sermão e já não há quem a pare. Depois de discutir com ela, olho Robin de novo, que não abriu a boca.
— Pode me conseguir o que te pedi ou não?
— Pra que quer isso? — me responde.
Não estou com vontade de contar o que aconteceu.
— Robin, não é para nada de mal — explico. — Enfim, se você puder me ajudar, eu te agradeço.
Durante uns segundos, ele me olha sério, enquanto ao meu lado Mary continua me metendo pau. Por fim ele concorda e se afasta. Vejo que fala pelo celular. Isso me deixa nervosa. Dez minutos depois, vem com um papel e diz:
— Sobre Rebeca só posso te dizer que está na Alemanha; ela não tem uma residência fixa. E o endereço da outra está aqui. Aliás, tuas amigas se movem num ambiente de alto nível e estão nos mesmos jogos que Emma Swan.
— Que jogos são esses? — pergunta Mary.
Robin e eu nos olhamos. Vou cortar sua língua se der mais um pio!
Nós nos entendemos bem: sabe que se pensar em responder a minha irmã, se verá comigo. Ele me leva a sério. É um amigo excelente. Finalmente, Robin se resigna e diz:
— Nenhuma besteira com elas, certo, Regina?
Minha irmãzinha faz que não com a cabeça, ofegante. Eu, emocionada, pego o papel e beijo Robin no rosto.
— Obrigada. Muito, mas muito obrigada.
Essa noite, quando fico sozinha no meu quarto, a raiva toma conta de mim. Saber que no dia seguinte, com um pouco de sorte, vou estar cara a cara com Marisa me deixa nervosa. Essa bruxa desgraçada vai saber quem eu sou.
Acordo às sete da manhã. Chove.
Minha irmã já está de pé e, mal vê que me preparo para viajar, gruda em mim como um carrapato e não para de fazer perguntas. Tento escapar dela.
Vou a Huelva fazer uma visitinha a Marisa de la Rosa. Mas Mary... é muito Mary!
Por fim, ao perceber que não posso me livrar dela, concordo que me acompanhe. Mesmo que durante o trajeto eu me arrependa e sinta uns impulsos assassinos de jogá-la na sarjeta. É tão chata e repetitiva que tira qualquer um do sério.
Ela não sabe o que realmente aconteceu comigo e com Emma, e não para de delirar com suas suposições. Se soubesse a verdade, ficaria de queixo caído. Uma mentalidade como a de minha irmã não entenderia minhas brincadeiras com Emma. Pensaria que somos depravadas, ou coisas ainda piores.
No dia em que tudo aconteceu, quando contei a Mary, amenizei um pouco a realidade. Contei que essas mulheres tinham armado pra cima da gente e por isso havíamos discutido e terminado. Não pude lhe dizer outra coisa.
Quando chegamos a Huelva, estranhamente não estou nervosa.
Basta o nervosismo da minha irmãzinha. Ao chegar à rua indicada no papel, estaciono. Observo ao redor e vejo que Marisa vive muito, mas muito bem. É um bairro de luxo.
— Ainda não sei o que fazemos aqui, fofinha — protesta minha irmã, saindo do carro.
— Fique aqui, Mary.
Mas, me ignorando, fecha decidida a porta e responde:
— Nem pensar, benzinho. Aonde você for, eu vou.
Bufo, resmungo.
— Ei, espera aí: por acaso eu preciso de guarda-costas?
Ela se põe ao meu lado.
— Precisa, sim. Não confio em você. Tem a língua solta e pode exagerar na grosseria.
— Foda-se!
— Tá vendo? Já disse “foda-se!” — repete ela.
Ignoro. Ando em direção à bonita portaria. Toco o interfone e, quando uma voz de mulher responde, digo na bucha:
— Carteiro.
A porta se abre, e minha irmã, os olhos deste tamanho, me olha.
— Ai, ai, ai, Regina! Acho que você vai fazer uma besteira. Calma, querida, por favor. Calma, que te conheço, tá certo?
Rio e murmuro, enquanto esperamos o elevador:
— Quem fez besteira foi ela quando me subestimou.
— Ai, ai, ai, fofinha!
— Veja bem — sussurro, mal-humorada —, a partir deste momento, quero você de boca fechada. Este é um assunto entre mim e essa mulher. Entendido?
O elevador chega. Entramos. No quinto andar, procuro a porta D e toco a campanhia. Instantes depois, uma mulher de uniforme nos atende.
— O que deseja? — pergunta a jovem.
— Bom dia! — respondo com o melhor dos meus sorrisos.
— Gostaria de ver a senhora Marisa de la Rosa. Ela está em casa?
— Da parte de quem?
— Diga que sou Vanesa Arjona, de Cádiz.
A moça desaparece.
— Vanesa Arjona? — cochicha minha irmã. — Que negócio é esse de Vanesa?
Conjunto branco-gelo. Ao me ver, sua cara de susto diz tudo. E antes que ela possa fazer ou dizer qualquer coisa, impeço que ela feche a porta, enquanto disparo:
— Olá, sua vadia!
— Fofiiiiiinnnhhhhaaa! — protesta minha irmã.
Marisa treme toda. Olho minha irmã para que fique em silêncio.
— Só quero que saiba que sei onde você mora — sussurro. — Que tal? — Marisa está pálida, mas continuo implacável: — Seu jogo sujo complicou minha vida, mas, pode crer, se eu quiser, posso ser muito pior que você ou suas amigas.
— Eu... eu não sabia que...
— Cale a boca Marisa! — rosno entre dentes. — Tanto faz o que você me disser. Você é uma desgraçada de uma bruxa: me manipulou de uma maneira vergonhosa. E quanto à tua amiguinha Betta, como tenho certeza que mantêm contato, diga pra ela que o dia em que cruzar comigo vai saber com quem se meteu.
Marisa treme. Olha para o interior da casa, e sei que teme o que eu possa dizer.
— Por favor — suplica —, meus sogros estão aí e...
— Seus sogros? Sensacional! Me apresente pra eles. Será um prazer conhecê-los e contar umas coisas sobre a santinha da sua nora.
Descontrolada, Marisa nega com a cabeça. Está com medo. Sinto pena dela. Ela é uma bruxa, sim, mas eu não sou. Por fim resolvo dar por terminada minha visita.
— Se você se meter a besta comigo de novo, sua bela e confortável vida com seus sogros e seu famoso maridinho vai se acabar. Porque eu mesma vou me encarregar de que seja assim, entendeu?
Concorda, branca como cera. Não me esperava aqui e menos ainda desaforada assim. Quando já disse tudo o que tinha para dizer e me viro para ir embora, minha irmã vem e pergunta:
— É esta a piranha que você procurava?
Faço um gesto afirmativo. Mary, como sempre, me surpreende:
— Se você se meter de novo com minha irmã ou a namorada dela, te juro pelo que há de mais sagrado que quem volta aqui com a faca de presunto do meu pai sou eu e te arranco os olhos, sua mocreia de merda!
Marisa, depois da cascata de palavras de minha querida Mary, bate a porta na nossa cara. Ainda de boca aberta, olho minha irmã e murmuro em tom alegre, a caminho do elevador:
— Ainda bem que a grossa e desbocada da família sou eu. Tá rindo do quê? Não te disse pra ficar caladinha?
— Olha, fofinha, quando se metem com minha família ou a prejudicam, eu viro bicho e armo o maior barraco.
Rindo, voltamos para o carro e regressamos a Jerez. Quando chegamos, meu pai e meu cunhado nos perguntam sobre nossa viagem. Nós duas nos olhamos e rimos. Não dizemos nada. Essa viagem foi uma coisa nossa, só nossa.
É 17 de dezembro. As festas de fim de
ano se aproximam e os amigos da vida inteira, que vivem fora de Jerez, vão
chegando. Se o mundo acabar no dia 21, como dizem os maias, pelo menos teremos
nos visto uma última vez.
Como todos os anos, nos reunimos na grande festa que Robin organiza na casa de campo de seu pai e passamos superbem. Risadas, danças, piadas e, principalmente, ótimo ambiente. Durante a festa, Robin não me faz a menor insinuação. Fico agradecida. Não estou para insinuações.
Num momento da farra, Robin se senta perto de mim e falamos com franqueza. Por suas palavras, deduzo que sabe muito sobre minha relação com Emma.
— Robin, eu...
Ele bota um dedo em minha boca para me calar.
— Hoje quem vai escutar é você. Te falei que não gostava dessa mulher.
— Eu sei...
— Nós dois sabemos por que ela não serve para você.
— Sei...
— Mas, gostando ou não, sei a realidade. E essa realidade é que você está caidinha por ela, e ela por você. — Eu o olho espantada. — Emma é uma mulher poderosa que pode ter a mulher que quiser, mas demonstrou que sente algo muito forte por você, e sei disso por sua insistência.
— Insistência?
— Me ligou mil vezes, desesperada, no dia em que você desapareceu de seu escritório. E quando digo “desesperada”, é desesperada.
— Te ligou?
— Sim, todos os dias, várias vezes. E mesmo sabendo que não vou com a cara dela, a sujeita se arriscou, engoliu o orgulho, só pra me pedir ajuda. Não sei como conseguiu meu celular, mas o certo é que ligou pra me suplicar que te encontrasse. Estava preocupada com você.
Meu coração se descontrola. Pensar em minha Icewoman enlouquecida por minha ausência me deixa boba. Boba demais.
— Me disse que tinha se comportado como uma idiota — continua Robin — e que você tinha ido embora. Te localizei em Valência, mas não contei nada pra ela, nem tentei entrar em contato com você. Imaginei que você precisava pensar, não é?
— Sim.
Paralisada pelo que está me dizendo, olho para ele.
— Já tomou uma decisão? — pergunta.
— Sim.
— Dá pra saber qual?
Tomo um gole da minha bebida, afasto o cabelo do rosto e, com toda a dor de meu coração, sussurro num fio de voz:
— O que havia entre mim e Emma acabou.
Robin concorda, olha para uns amigos e murmura, depois de um suspiro:
— Acho que você está enganada, conterrânea.
— Como?
— Você ouviu.
— Ouvi, sim, mas você tá maluco?
Meu amigo, o maluco, sorri e toma um gole de sua bebida.
— Ah, se teus olhos brilhassem por mim como brilham por ela! — exclama finalmente. — Ah, se você tivesse ficado tão louca por mim como sei que está por ela! Ah, se eu não soubesse que essa ricaça está tão louca por você que é capaz de me ligar pra que eu te procure e te encontre, mesmo sabendo que numa hora dessas eu posso botar você contra ela.
Fecho os olhos, com mais força ainda, quando Robin começa a falar de novo.
— Para ela, tua segurança, te encontrar e saber que você está bem, foi essencial, o mais importante, e isso me faz ver que tipo de mulher é Emma e o quanto está apaixonada por você. — Abro os olhos e ouço com atenção. — Sei que estou acabando com minhas chances ao te confessar isso, mas, se o que há entre você e essa convencida é tão verdadeiro como ambas me dão a entender, por que terminar?
— Está me dizendo pra voltar pra ela?
Robin sorri, afasta uma mecha de cabelo do meu rosto e murmura:
— Você é boa, generosa, uma mulher excelente, e sempre te achei esperta o bastante pra não se deixar enganar por qualquer um ou fazer alguma coisa de que não gosta. Além disso, gosto de você como amiga, e se você se apaixonou por essa mulher, deve ter seus motivos, não? Olha, andaluza, se é feliz com Emma, pense no que quer, no que deseja, e se teu coração te pede pra ficar com ela, não negue isso ou vai se arrepender, não é mesmo?
Suas palavras tocam meu coração, mas antes que eu comece a chorar como uma imbecil e as cataratas do Niágara brotem dos meus olhos, sorrio. Está tocando o Waka waka, de Shakira.
— Não quero pensar. Vem, vamos dançar — proponho.
Robin também sorri, me pega pela mão, me leva para o centro da pista e juntos dançamos enquanto, aos gritos, cantamos com nossos amigos:
Como todos os anos, nos reunimos na grande festa que Robin organiza na casa de campo de seu pai e passamos superbem. Risadas, danças, piadas e, principalmente, ótimo ambiente. Durante a festa, Robin não me faz a menor insinuação. Fico agradecida. Não estou para insinuações.
Num momento da farra, Robin se senta perto de mim e falamos com franqueza. Por suas palavras, deduzo que sabe muito sobre minha relação com Emma.
— Robin, eu...
Ele bota um dedo em minha boca para me calar.
— Hoje quem vai escutar é você. Te falei que não gostava dessa mulher.
— Eu sei...
— Nós dois sabemos por que ela não serve para você.
— Sei...
— Mas, gostando ou não, sei a realidade. E essa realidade é que você está caidinha por ela, e ela por você. — Eu o olho espantada. — Emma é uma mulher poderosa que pode ter a mulher que quiser, mas demonstrou que sente algo muito forte por você, e sei disso por sua insistência.
— Insistência?
— Me ligou mil vezes, desesperada, no dia em que você desapareceu de seu escritório. E quando digo “desesperada”, é desesperada.
— Te ligou?
— Sim, todos os dias, várias vezes. E mesmo sabendo que não vou com a cara dela, a sujeita se arriscou, engoliu o orgulho, só pra me pedir ajuda. Não sei como conseguiu meu celular, mas o certo é que ligou pra me suplicar que te encontrasse. Estava preocupada com você.
Meu coração se descontrola. Pensar em minha Icewoman enlouquecida por minha ausência me deixa boba. Boba demais.
— Me disse que tinha se comportado como uma idiota — continua Robin — e que você tinha ido embora. Te localizei em Valência, mas não contei nada pra ela, nem tentei entrar em contato com você. Imaginei que você precisava pensar, não é?
— Sim.
Paralisada pelo que está me dizendo, olho para ele.
— Já tomou uma decisão? — pergunta.
— Sim.
— Dá pra saber qual?
Tomo um gole da minha bebida, afasto o cabelo do rosto e, com toda a dor de meu coração, sussurro num fio de voz:
— O que havia entre mim e Emma acabou.
Robin concorda, olha para uns amigos e murmura, depois de um suspiro:
— Acho que você está enganada, conterrânea.
— Como?
— Você ouviu.
— Ouvi, sim, mas você tá maluco?
Meu amigo, o maluco, sorri e toma um gole de sua bebida.
— Ah, se teus olhos brilhassem por mim como brilham por ela! — exclama finalmente. — Ah, se você tivesse ficado tão louca por mim como sei que está por ela! Ah, se eu não soubesse que essa ricaça está tão louca por você que é capaz de me ligar pra que eu te procure e te encontre, mesmo sabendo que numa hora dessas eu posso botar você contra ela.
Fecho os olhos, com mais força ainda, quando Robin começa a falar de novo.
— Para ela, tua segurança, te encontrar e saber que você está bem, foi essencial, o mais importante, e isso me faz ver que tipo de mulher é Emma e o quanto está apaixonada por você. — Abro os olhos e ouço com atenção. — Sei que estou acabando com minhas chances ao te confessar isso, mas, se o que há entre você e essa convencida é tão verdadeiro como ambas me dão a entender, por que terminar?
— Está me dizendo pra voltar pra ela?
Robin sorri, afasta uma mecha de cabelo do meu rosto e murmura:
— Você é boa, generosa, uma mulher excelente, e sempre te achei esperta o bastante pra não se deixar enganar por qualquer um ou fazer alguma coisa de que não gosta. Além disso, gosto de você como amiga, e se você se apaixonou por essa mulher, deve ter seus motivos, não? Olha, andaluza, se é feliz com Emma, pense no que quer, no que deseja, e se teu coração te pede pra ficar com ela, não negue isso ou vai se arrepender, não é mesmo?
Suas palavras tocam meu coração, mas antes que eu comece a chorar como uma imbecil e as cataratas do Niágara brotem dos meus olhos, sorrio. Está tocando o Waka waka, de Shakira.
— Não quero pensar. Vem, vamos dançar — proponho.
Robin também sorri, me pega pela mão, me leva para o centro da pista e juntos dançamos enquanto, aos gritos, cantamos com nossos amigos:
Tsamina mina, eh eh, waka waka, eh eh
Tsamina mina, zangaléwa, anawa ah ah
Tsamina mina, eh eh, waka waka, eh eh
Tsamina mina, zangaléwa, porque esto es África.
Tsamina mina, zangaléwa, anawa ah ah
Tsamina mina, eh eh, waka waka, eh eh
Tsamina mina, zangaléwa, porque esto es África.
Horas depois, a animação continua, e
falo com Sergio e Elena, os donos do pub da moda de Jerez. Em outros anos, nas
festas de fim de ano, trabalhei de garçonete para eles e me convidam para
trabalhar de novo. Topo, com prazer. Agora que estou desempregada, qualquer
grana que pinte cai superbem.
De madrugada, quando chego em casa, estou cansada, meio bêbada e satisfeita.
Como todo ano, me inscrevo para participar na corrida beneficente de motocross que arrecada fundos para comprar brinquedos para as crianças carentes de Cádiz. A corrida será no dia 22 de dezembro em Puerto de Santa María. Meu pai, o Bichão e o Lucena adoram. Eles sempre se divertem tanto ou mais que eu com esses eventos.
No dia 20 de dezembro, pela manhã, meu telefone toca pela décima oitava vez. Estou morta. Trabalhar no pub é divertido mas exaustivo. Ao pegar o celular e ver que se trata de Maura, ressuscito e atendo rapidamente.
— Oi, Regi! Feliz Natal. Tudo bem?
— Feliz Natal. Estou bem, e você?
— Vou bem.
Sua voz é tensa, e me assusto.
— O que foi, Maura? Aconteceu alguma coisa? Emma está bem?
Depois de um silêncio incômodo, Maura se decide.
— É verdade o que ouvi sobre Betta?
— Não — respondo, e respiro fundo lembrando. — Foi tudo armação dela.
— Eu sabia — murmura.
— Tanto faz, Maura. Não importa mais.
— Como não importa?! Eu me importo. Me conte agora mesmo sua versão.
Sem demora, conto a ela o que aconteceu tim-tim por tim-tim. Quando acabo, ela responde:
— Nunca gostei dessa Marisa. É uma bruxa, e Emma parece uma principiante. Sabe que Marisa é amiga de Betta? Ela que apresentou as duas.
— Ela as apresentou?
— Sim. Betta é de Huelva, como Marisa. Quando começou sua relação com Emma, foi pra Alemanha morar com ela, até que deu no que deu e a perdi de vista. Mas essa Marisa é uma filha da mãe, merece uma lição.
— Calma. Já fiz uma visita a essa bruxa e deixei bem claro que comigo não se brinca.
— Não me diga!
— É isso aí. Avisei que eu também sei jogar sujo.
Maura cai na risada, e eu com ela.
— Como Emma está? — pergunto sem poder evitar.
— Mal — ela responde, eu suspiro. — Ontem à noite jantei com ela na Alemanha e, como não te vi, perguntei por você. Foi assim que fiquei sabendo do que aconteceu. Fiquei furiosa e disse poucas e boas pra ela.
Acho graça de ouvi-la falar assim e insisto, enquanto me espreguiço:
— Mas... ela está bem?
— Não, não está bem, Regina, e não me refiro a sua doença, mas a ela como pessoa. Por isso te liguei logo que cheguei aqui na Espanha. Você deve dar um jeito nisso. Deve ligar pra ela. Emma morre de saudades de você.
— Ela me tirou da vida dela, agora que aguente as consequências.
— Sei. Ela também me disse isso. É uma cabeça-dura, mas uma cabeça-dura que te ama. Não tenha dúvidas.
Ouvir uma coisa dessas faz com que, inconscientemente, esvoacem não borboletas no meu estômago, mas avestruzes. Sou a rainha das masoquistas. Gosto de saber que Emma ainda me ama e tem saudades, embora eu mesma me esforce para não acreditar.
— Te liguei porque neste fim de semana vamos à ceia de Natal nos meus sogros, em Conil, e depois estaremos em nossa casa de Zahara, sossegadas. Passaremos o Ano-Novo na Alemanha com minha família. Claro que Emma vai vir ficar com a gente em Zahara. Não quer aparecer?
Esse é um plano maravilhoso. Em outro momento teria parecido perfeito. Mas respondo:
— Não, obrigada. Não posso. Estou enrolada com minha família e além do mais, nesses dias, trabalho à noite e...
— Então trabalha à noite?
— Sim.
— Mas no quê?
— Sou garçonete num pub e...
— Como assim, Regina!? Garçonete?! Emma não vai achar graça, não. Eu a conheço, não vai gostar nem um pouquinho.
— Que Emma goste ou não já não é problema meu — esclareço sem querer entrar em detalhes. — Além disso, no sábado tenho uma corrida em Cádiz e...
— Tem uma corrida?
— Hum-hum.
— De quê?
— De motocross.
— Então você corre de motocross?
— Sim.
— Motocross! — grita, surpresa. — Regi, não posso perder essa. Você é minha heroína. Que coisas mais bacanas você faz! Se por acaso eu tiver uma filha, quero que ela seja como você quando crescer.
Ao perceber sua surpresa, rio e digo:
— É uma corrida beneficente, sabe, pra arrecadar fundos pra comprar brinquedos e distribuir pras crianças de famílias pobres.
— Ah, estaremos lá! Onde você disse que é?
— Em Puerto de Santa María.
— A que horas?
— Começa às onze da manhã. Mas olha, Maura... Não diga nada pra Emma. Ela não gosta nem um pouco dessas corridas. Fica agoniada porque lembra do que aconteceu com a irmã.
— Não dizer a Emma? — zomba sem querer me ouvir. — É a primeira coisa que vou fazer quando estiver com ela... Se ela não quiser ir, que não vá, mas é claro que eu vou te ver.
— Eu não quero ver a Emma, Maura. Estou muito chateada com ela.
— Para com isso, pelo amor de Deus! Agora vai ser mais idiota que ela?! Olha, se amanhã o mundo acaba como dizem os maias, e você nunca mais vê a Emma... Já pensou?
O comentário me faz rir, embora reconheça que pensei nessa possibilidade.
— Maura, o mundo não vai acabar. E quanto a Emma, uma pessoa que desconfia de mim e que se enfurece comigo sem deixar que eu me explique não é o que quero na minha vida. Além disso, já estou cheia dela. É uma babaca.
— Minha nossa! Realmente você é pior que ela. Vem cá, vocês são tão idiotas que não veem que foram feitas uma pra outra? Bom, enfim... não quer deixar de lado esse teu orgulho desgraçado e dar a vocês a chance que merecem? Ela é uma cabeça-dura? Com certeza! Você é uma cabeçuda? Com certeza! Mas, pelo amor de Deus, Regina, você tem que falar! Lembra que ia se mudar logo pra Alemanha? Já esqueceu? — E sem me dar tempo de dizer mais nada, afirma: — Bom, deixa comigo. Até sábado, Regi.
E, com uma estranha dor no estômago pelo que ouvi, me despeço.
A sexta-feira passa — e o mundo não acaba! Os maias não acertaram.
No sábado, acordo muito cedo. Estou exausta por causa do meu trabalho de garçonete, mas é a vida. Olho pela janela.
Não está chovendo!
Beleza!
Saber que Emma está a poucos quilômetros de mim e que há a possibilidade de nos vermos me deixa ansiosa demais. Não comento nada em casa. Não quero que isso mexa com eles e — quando chegam o Bichão e o Lucena com o reboque e meu pai e Whale ajeitam a moto nele — sorrio, feliz.
— Vamos, moreninha! — grita meu pai. — Já está tudo preparado.
Minha irmã, minha sobrinha e eu saímos de casa. Estou levando a bolsa com meu macacão de corrida. Ao chegar ao carro, me alegro ao ver Robin chegando.
— Você vai? — pergunto.
Ele, engraçadinho, faz que sim.
— Me diga quando eu faltei a uma de tuas corridas?
Nos dividimos em dois carros. Meu pai, minha sobrinha, o Bichão e o Lucena vão num, e minha irmã, Whale, Robin e eu, no outro.
Em Puerto de Santa María, nos dirigimos ao lugar do evento. Está transbordando de gente, como todos os anos. Depois de entrar na fila para confirmar a inscrição e receber meu número, meu pai volta feliz.
— Você é o número 87, moreninha.
Sorrio e olho em volta em busca de Maura. Não a vejo. Gente demais. Checo meu celular. Nenhuma mensagem. Me encaminho com minha irmã para os vestiários improvisados que a organização montou para os participantes. Tiro meu jeans e boto meu macacão de couro, vermelho e branco. Minha irmã me coloca as proteções dos joelhos.
— Qualquer hora dessas, Regina, vai ter que dizer a papai que vai parar com isto — afirma. — Você não pode continuar dando saltos numa moto eternamente.
— E por que não, se eu gosto?
Mary sorri e me dá um beijo.
— Tem razão, na verdade. No fundo admiro seu lado de guerreira machona.
— Acabou de me chamar de machona?
— Não, fofinha. Quero dizer que essa força que você tem, eu gostaria de ter também.
— Você tem, Mary... — sorrio com carinho. — Ainda me lembro de quando você participava das corridas.
Minha irmã vira os olhos:
— Mas eu corri duas vezes. Não levo jeito pra isso, por mais que papai adore.
Realmente, ela tem razão. Mesmo que nós tenhamos sido criadas pelo mesmo pai e tenhamos compartilhado os mesmos hobbies, ela e eu somos diferentes em muitas coisas. E o motocross é uma delas. Vivi esse esporte, sempre. Ela sofreu, sempre.
Já de macacão, vou para onde me esperam meu pai e o que se pode chamar minha equipe. Minha sobrinha está feliz e dá pulos de entusiasmo ao me ver. Para ela sou sua supertitia! Sorridente, tiro fotos com ela e com todos. Pela primeira vez em vários dias, meu sorriso é franco e conciliador. Estou fazendo uma coisa de que gosto, e dá para ver isso na minha cara. Passa um homem vendendo bebidas e meu pai compra uma Coca-Cola. Contente, começo a tomá-la quando minha irmã exclama:
— Ihhhh, Regina!
— O quê?
— Acho que tem alguém te paquerando.
Olho-a com uma expressão sacana, e ela, aproximando-se comicamente, cochicha:
— A piloto 66, a da tua direita, não para de te olhar. Não quero dizer nada, mas a mulher tá quase babando.
Curiosa, me viro e sorrio ao reconhecer Ruby Lucas. Ela me pisca o olho, e ambas nos cumprimentamos. Nós nos conhecemos há anos. É de uma cidadezinha perto de Jerez chamada Estrella del Marqués. Somos apaixonadas por motocross e costumamos nos encontrar de vez em quando em algumas corridas. Falamos por um instante. Ruby, como sempre, é toda charmosa comigo. Supersimpática. Pego o que ela me entrega, me despeço e volto para minha irmã.
— O que tem aí?
— Ô Mary, deixe de se meter em tudo — censuro.
Mas ao compreender que não vai mesmo me deixar em paz, respondo:
— Seu número de telefone, satisfeita?
Primeiro minha irmã tapa a boca e depois solta:
— Aiii, fofa! Quero ser você na outra encarnação.
Desato a rir bem na hora em que ouço:
— Regina!
Me viro e topo com o maravilhoso sorriso de Maura, que corre para mim com os braços abertos. Eu a abraço com alegria e vejo que atrás dela vêm Jane e Emma.
— O mundo não acabou — murmura Maura.
— Eu te disse — respondo alegre.
Meu Deussssss! Emma veio!
Meu estômago se contrai e, de repente, toda a minha segurança começa a evaporar. Por que sou tão imbecil? Por acaso o amor nos torna inseguros? Tudo bem, no meu caso com certeza a resposta é sim. Sei o que um evento como este faz com Emma. Dor e tensão. Mesmo assim, decido não olhar para ela. Continuo zangada.
Depois de beijar Maura, com carinho cumprimento Jane e , Logan que está no seu colo. Quando chega a vez de Emma, digo sem olhá-la:
— Bom dia, senhora Swan.
— Oi, Regina!
Sua voz me deixa nervosa.
Sua presença me deixa nervosa.
Ela toda me deixa nervosa!
Mas tiro forças do fundo da alma para momentos assim, viro a cabeça e digo a minha desconcertada irmã:
— Mary, elas são Maura, Jane e Logan, e ela é a senhora Swan.
Minha irmã e as outras ficam com cara de tacho. A frieza que demonstro ao me referir a Emma desorienta a todos, menos a ela, que me olha com sua habitual expressão de mau humor.
Nesse instante, surge Robin, que me avisa:
— Regina, você sai no próximo grupo.
De repente vê Emma e fica parado. Ambos se cumprimentam com um movimento de cabeça, e olho Maura.
— Tenho de deixar vocês. É minha vez. Maura, sou a número 87. Me deseje sorte. Quando me viro, Ruby Lucas, a piloto com quem falei antes, se aproxima e tocamos nossos punhos fechados. Me deseja sorte! Eu sorrio e, sem dizer nada, me afasto acompanhada por Mary e Robin.
Quando estamos suficientemente longe dos outros, entrego a minha irmã o papel que tenho na mão:
— Grave o número do telefone de Ruby no meu celular, tá?
Minha irmã concorda.
— Puxa, fofinha! — diz. — Emma veiiiiiooooooo!
Com cara de contrariada, apesar de no fundo sentir uma alegria idiota, ironizo:
— Oh, que emoção!
Mas minha irmã é uma romântica incorrigível.
— Regina, pelo amor de Deus! Ela está aqui por você, não por mim, nem por outra. Não tá vendo? Esse pedaço de mau caminho está louca por você. Tenho vontade de estrangulá-la.
— Nem mais uma palavra, Mary. Não quero falar disso.
No entanto, minha irmã... é minha irmã!
— Claro — insiste — que isso de chamar a mulher pelo sobrenome teve sua graça.
— Mary, feche a matraca!
Mas como é lógico nela, volta à carga:
— Uau, quando papai souber!
Papai? Paro na hora. Olho Mary.
— Nem uma palavra a papai sobre isso. E, antes que continue essa papagaiada de mulherzinha e de novela mexicana, lembre-se: Emma e eu já não temos nada. Entendeu ou quer que desenhe?
Robin, que está com a gente, tenta manter a paz.
— Vamos, garotas! Chega de discussão. Não vale a pena.
— Como não vale a pena?! — recrimina minha irmã. — Emma é...
— Mary... — protesto.
Robin, que sempre se diverte com nossos estranhos “bate-bocas”, me diz:
— Vamos, Regina, dê uma maneirada. Talvez deva ouvir tua irmã e...
Incapaz de aguentar um segundo mais o papo deles, olho meu amigo puta da vida e grito como uma possessa:
— Por que não fecha a matraca?! Te garanto que fica mais bonito.
Robin e minha irmã trocam um olhar e riem. Viraram idiotas?
Chegamos onde meu pai está com o Bichão e o Lucena. Puxa, que trio! Boto o capacete, os óculos de proteção e ouço o que papai tem a me dizer sobre a regulagem da moto. Depois, monto e me dirijo para a porta de entrada. Aqui espero, com outros participantes, que me deixem entrar na pista.
Protegida atrás de meus óculos, olho para onde Emma está. Não posso evitá-la. Além do mais, é alta, o que torna impossível não vê-la. Está impressionante com esses jeans de cintura baixa e o suéter preto de tricô.
Nossa, que gata mais gostosa! É a típica mulher que até com uma melancia no pescoço ficaria bem. Fala com Jane e Maura, mas eu a conheço: está tensa. Sei que, detrás de seus Ray-Ban espelhados de aviador, me procura com o olhar. Isto me agita o coração. Mas como sou pequena e estou entre tantos pilotos vestidos do mesmo modo, ela não consegue me localizar, o que me dá vantagem. Eu posso ficar calmamente curtindo essa cena.
Quando abrem a pista, os juízes nos colocam em nossa posição no grid de largada. Eles nos avisam que há vários grupos de nove pessoas — tanto faz se homem ou mulher — e que os quatro primeiros colocados de cada grupo se classificam para as rodadas seguintes. Pronta em minha posição, ouço a vozinha de minha Grace me chamar e aceno para ela, que ri e aplaude. Que linda que é minha sobrinha!
Mas meu olhar volta a Emma.
Ela não se mexe.
Quase não respira.
Mas aí está, disposta a ver a corrida apesar da angústia que sei que vai lhe causar. De novo, me concentro no que devo fazer. Devo ficar entre os quatro primeiros se quero me classificar para a rodada seguinte. Acalmo minha mente e acelero a moto. Foco na corrida e me esqueço do resto. Tenho de fazer isso. Os instantes antes da largada fazem sempre minha adrenalina subir. Ouvir o ronco dos motores ao meu redor me deixa arrepiada e, quando o juiz baixa a bandeira, acelero ao máximo e saio a toda. Ganho boa posição desde o começo e, como meu pai me avisou, tenho cuidado na primeira curva, que está cheia de lombadas. Salto, derrapo, me divirto! E, ao chegar a uma descida espetacular, me alegro como uma louca enquanto vejo que o piloto a minha direita perde o controle de sua moto e cai. Puxa, que porrada levou! Acelero, acelero, acelero e salto de novo. Os pneus cantam e acelero, salto, derrapo de novo e, depois de completar o circuito três vezes, chego entre os quatro primeiros.
Beleza!
Me classifiquei para a próxima rodada.
Quando saio da pista, meu pai, mais feliz que pinto no lixo, me abraça.
Todos se dão parabéns pelo meu sucesso, enquanto tiro os óculos enlameados. Minha sobrinha está emocionada e não para de dar pulinhos. Sua titia é sua heroína, e estou muito contente por ela. Ruby Lucas sai no próximo grupo. Ao passar a meu lado, outra vez tocamos nossos punhos. Nesse instante, chega Maura e, adorando tudo, grita:
— Parabéns! Santo Deus, Regina, você foi impressionante!
Sorrio e bebo um gole de Coca-Cola. Estou sedenta. Olho além de Maura e parece que Emma não vem me abraçar. Eu a localizo a vários metros de distância, com Logan no colo, falando com Jane.
— Não vai cumprimentá-la? — pergunta Maura
— Já a cumprimentei.
Ela sorri e chega mais perto ainda.
— Isso de chamá-la de senhora Swan foi provocante — murmura. — Mas fala sério: não vai falar com ela?
— Não.
— Te garanto que fez um tremendo esforço pra vir. Você sabe por quê.
— Sei, sim, mas podia ter se poupado a viagem.
— Para com isso, Regina! — insiste Maura.
Falamos mais um pouco, mas, como diz meu pai, ela pode tirar o cavalinho da chuva. Não vou falar com Emma. Ela não merece. Ela me disse que nossa história tinha acabado, e eu lhe devolvi o anel. Fim de papo.
A manhã segue, e eu vou superando as rodadas, tantas que chego à final. Emma continua lá e a vejo falar com meu pai. Ambos estão concentrados na conversa, e agora meu pai sorri e lhe passa a mão nos ombros. Do que será que estão falando?
Reparei como Emma me procura continuamente com o olhar. Isto me excita, embora eu tenha ficado na minha. Tentou se aproximar de mim, mas cada vez que percebi sua intenção, escapei entre as pessoas, e não me encontrou.
— Tá com cara de que quer tomar uma Coca-Cola, não é mesmo?
Me viro e vejo Ruby me oferecendo a latinha. Enquanto esperamos que nos chamem para a última rodada, sentamos para tomar o refrigerante. Emma, não muito longe de mim, tira os óculos. Quer que eu saiba que está me olhando. Quer que eu veja sua irritação. Mas até com os óculos eu já sabia como me olhava. Por fim, fico de costas para ela. Mas mesmo assim sinto seu olhar. Isto me incomoda e, ao mesmo tempo, me excita.
Durante um tempinho, Ruby e eu falamos, rimos e observamos outros colegas correrem a última rodada de classificação. Meu cabelo flutua ao vento, e Ruby pega uma mecha e a põe atrás de minha orelha. Minha nossa, isso deve ter tirado o Emma dos eixos!
Não quero nem olhar.
Mas a depravada que mora em mim não resiste e, realmente, sua contrariedade virou uma fúria total.
Pior para ela!
Aí nos avisam que em cinco minutos começará a última corrida. A definitiva. Ruby e eu nos levantamos, tocamos nossos punhos, e cada uma se encaminha a sua moto e seu grupo. Meu pai me entrega o capacete e os óculos e pergunta, bem pertinho:
— Está fazendo ciúme pra tua namorada com Ruby Lucas?
— Papai... Eu não tenho namorada. — Ele ri, e antes que diga qualquer coisa, acrescento: — Se você se refere a quem eu penso que se refere, já te disse que terminamos. Acabou!
O bonachão do meu pai suspira.
— Acho que Emma não pensa assim. Não dá a coisa por terminada.
— Pra mim tanto faz, papai.
— Ah, você é igualzinha à teimosa da tua mãe. Igualzinha!
— Pois olha, isso me alegra — respondo, mal-humorada.
Meu pai concorda, suspira e solta, com expressão divertida:
— Ai, ai, ai, ai, moreninha! Nós gostamos das mulheres difíceis, e você, minha querida, sai da frente. Esse teu gênio deixa qualquer um doido! — Ri. — Eu não deixei tua mãe escapar, e Emma não vai deixar você escapar. Vocês são lindas e interessantes demais.
Com raiva, ajusto o capacete e boto os óculos. Não quero falar. Acelero a moto e a levo até o grid de largada. Como nas rodadas anteriores, me concentro e, enquanto espero a saída, piso várias vezes no acelerador. A diferença é que agora estou irritada, muito irritada, e isto me deixa mais louca ainda. Meu pai, que me conhece melhor que ninguém, me faz sinais com as mãos para que eu deixe a poeira baixar e relaxe.
A corrida começa, e sei que tenho que fazer uma boa largada, se quero vencer. Consigo e corro como quem viu um fantasma. Me arrisco mais e me divirto pelos ares, adrenalina a toda, enquanto salto e vou cantando os pneus. Com o canto do olho, vejo que Ruby e mais um me ultrapassam pela direita. Acelero. Consigo deixar a outra moto para trás, mas Ruby é muito boa, e antes de chegar à zona das lombadas, acelera e salta os quebra-molas que me fazem perder tempo e quase cair. Mas não, não caio. Aperto os dentes, e consigo manter o controle da moto e continuo acelerando. Não gosto de perder nem no dominó. Exijo tudo da moto. Alcanço e ultrapasso ela. Mas ela me passa de novo. Derrapamos, e um terceiro piloto se adianta a nós duas.
Atrás dele!
Acelero ao máximo, consigo alcançá-lo e deixá-lo para trás. Agora Ruby salta, arrisca e me passa pela esquerda. Eu acelero. Ela acelera. Todos aceleramos. Quando passo pela linha de chegada e o juiz baixa a bandeira quadriculada, levanto o braço.
Segunda! Ruby, primeiro.
Damos uma volta pelo circuito e saudamos a plateia toda. Receber o aplauso e contemplar as caras felizes nos fazem sorrir. Quando paramos, Ruby vem até mim e me abraça. Está contente, e eu estou também. Tiramos os capacetes, os óculos, e as pessoas aplaudem com mais força. Sei que essa proximidade com ela não está agradando a Emma. Sei. Mas preciso dela, e inconscientemente quero provocá-la. Sou dona da minha vida. Sou dona dos meus atos, e nem ela nem ninguém conseguirá me fazer mudar de ideia.
Meu pai e todos os outros vêm para a pista nos felicitar. Minha irmã me abraça, meu cunhado também, Robin, minha sobrinha, Maura. Todos gritam “campeã” como se eu houvesse ganhado um campeonato mundial. Emma não se aproxima, se mantém num segundo plano. Sei que espera que seja eu a me aproximar, que vá até ela, como sempre. Mas não. Desta vez, não. Como diz nossa canção, “somos polos opostos”, e, se ela é cabeça-dura, quero que entenda de uma vez por todas que eu sou mais ainda.
Quando, no pódio, nos dizem o quanto de dinheiro se arrecadou para os presentes das crianças, fico louca de alegria.
Que bolada!
Instintivamente sei que grande parte desse dinheiro foi Emma quem doou. Sei. Ninguém precisa me dizer.
Encantada, sorrio, ao ouvir a quantia. Todos aplaudem, inclusive Emma. Seu rosto está mais relaxado, e vejo orgulho em sua expressão, quando levanto minha taça. Isto me comove e agita meu coração. Em outro momento, teria piscado um olho para ela e teria dito “te amo” com o olhar. Mas agora não. Agora não.
Quando desço do pódio, faço mil fotos com Ruby e com todo mundo. Meia hora depois, as pessoas se dispersam e nós, os pilotos, começamos a juntar nossas coisas. Ruby, antes de ir embora, vem falar comigo e me lembra que estará em sua cidadezinha até o dia 6 de janeiro. Prometo ligar para ela.
Quando saio do vestuário com meu macacão na mão, me agarram pelo braço e me puxam. É Emma. Durante uns segundos, nos olhamos.
Oh, Deus! Oh, Deusssssssss!
Seu rosto tão sério me deixa louca.
Suas pupilas se dilatam. Ela me diz com o olhar o quanto precisa de mim e, ao ver que não respondo, mesepara de mim, Icewoman comenta com voz rouca, me olhando nos olhos:
— Isto é como nas corridas, querida: quem não arrisca não petisca.
Tem razão.
Mas deixando-a totalmente confusa, respondo, consciente do que digo:
— Realmente, senhora Swan. O problema é que você já arriscou e me perdeu.
Seu olhar endurece de imediato. Me afasto dela, dando-lhe um empurrão, e caminho para o carro de meu cunhado puxa para ela. Quando me tem perto de sua boca, murmura:
— Tô morrendo de vontade de te beijar.
Não diz mais nada. Me beija, e uns desconhecidos que estão por perto aplaudem, encantados com tanta paixão. Durante uns segundos, deixo que Emma invada minha boca. Uauuu! Curto loucamente.
Quando se separa de mim, Icewomam comenta com voz rouca, me olhando nos olhos:
De madrugada, quando chego em casa, estou cansada, meio bêbada e satisfeita.
Como todo ano, me inscrevo para participar na corrida beneficente de motocross que arrecada fundos para comprar brinquedos para as crianças carentes de Cádiz. A corrida será no dia 22 de dezembro em Puerto de Santa María. Meu pai, o Bichão e o Lucena adoram. Eles sempre se divertem tanto ou mais que eu com esses eventos.
No dia 20 de dezembro, pela manhã, meu telefone toca pela décima oitava vez. Estou morta. Trabalhar no pub é divertido mas exaustivo. Ao pegar o celular e ver que se trata de Maura, ressuscito e atendo rapidamente.
— Oi, Regi! Feliz Natal. Tudo bem?
— Feliz Natal. Estou bem, e você?
— Vou bem.
Sua voz é tensa, e me assusto.
— O que foi, Maura? Aconteceu alguma coisa? Emma está bem?
Depois de um silêncio incômodo, Maura se decide.
— É verdade o que ouvi sobre Betta?
— Não — respondo, e respiro fundo lembrando. — Foi tudo armação dela.
— Eu sabia — murmura.
— Tanto faz, Maura. Não importa mais.
— Como não importa?! Eu me importo. Me conte agora mesmo sua versão.
Sem demora, conto a ela o que aconteceu tim-tim por tim-tim. Quando acabo, ela responde:
— Nunca gostei dessa Marisa. É uma bruxa, e Emma parece uma principiante. Sabe que Marisa é amiga de Betta? Ela que apresentou as duas.
— Ela as apresentou?
— Sim. Betta é de Huelva, como Marisa. Quando começou sua relação com Emma, foi pra Alemanha morar com ela, até que deu no que deu e a perdi de vista. Mas essa Marisa é uma filha da mãe, merece uma lição.
— Calma. Já fiz uma visita a essa bruxa e deixei bem claro que comigo não se brinca.
— Não me diga!
— É isso aí. Avisei que eu também sei jogar sujo.
Maura cai na risada, e eu com ela.
— Como Emma está? — pergunto sem poder evitar.
— Mal — ela responde, eu suspiro. — Ontem à noite jantei com ela na Alemanha e, como não te vi, perguntei por você. Foi assim que fiquei sabendo do que aconteceu. Fiquei furiosa e disse poucas e boas pra ela.
Acho graça de ouvi-la falar assim e insisto, enquanto me espreguiço:
— Mas... ela está bem?
— Não, não está bem, Regina, e não me refiro a sua doença, mas a ela como pessoa. Por isso te liguei logo que cheguei aqui na Espanha. Você deve dar um jeito nisso. Deve ligar pra ela. Emma morre de saudades de você.
— Ela me tirou da vida dela, agora que aguente as consequências.
— Sei. Ela também me disse isso. É uma cabeça-dura, mas uma cabeça-dura que te ama. Não tenha dúvidas.
Ouvir uma coisa dessas faz com que, inconscientemente, esvoacem não borboletas no meu estômago, mas avestruzes. Sou a rainha das masoquistas. Gosto de saber que Emma ainda me ama e tem saudades, embora eu mesma me esforce para não acreditar.
— Te liguei porque neste fim de semana vamos à ceia de Natal nos meus sogros, em Conil, e depois estaremos em nossa casa de Zahara, sossegadas. Passaremos o Ano-Novo na Alemanha com minha família. Claro que Emma vai vir ficar com a gente em Zahara. Não quer aparecer?
Esse é um plano maravilhoso. Em outro momento teria parecido perfeito. Mas respondo:
— Não, obrigada. Não posso. Estou enrolada com minha família e além do mais, nesses dias, trabalho à noite e...
— Então trabalha à noite?
— Sim.
— Mas no quê?
— Sou garçonete num pub e...
— Como assim, Regina!? Garçonete?! Emma não vai achar graça, não. Eu a conheço, não vai gostar nem um pouquinho.
— Que Emma goste ou não já não é problema meu — esclareço sem querer entrar em detalhes. — Além disso, no sábado tenho uma corrida em Cádiz e...
— Tem uma corrida?
— Hum-hum.
— De quê?
— De motocross.
— Então você corre de motocross?
— Sim.
— Motocross! — grita, surpresa. — Regi, não posso perder essa. Você é minha heroína. Que coisas mais bacanas você faz! Se por acaso eu tiver uma filha, quero que ela seja como você quando crescer.
Ao perceber sua surpresa, rio e digo:
— É uma corrida beneficente, sabe, pra arrecadar fundos pra comprar brinquedos e distribuir pras crianças de famílias pobres.
— Ah, estaremos lá! Onde você disse que é?
— Em Puerto de Santa María.
— A que horas?
— Começa às onze da manhã. Mas olha, Maura... Não diga nada pra Emma. Ela não gosta nem um pouco dessas corridas. Fica agoniada porque lembra do que aconteceu com a irmã.
— Não dizer a Emma? — zomba sem querer me ouvir. — É a primeira coisa que vou fazer quando estiver com ela... Se ela não quiser ir, que não vá, mas é claro que eu vou te ver.
— Eu não quero ver a Emma, Maura. Estou muito chateada com ela.
— Para com isso, pelo amor de Deus! Agora vai ser mais idiota que ela?! Olha, se amanhã o mundo acaba como dizem os maias, e você nunca mais vê a Emma... Já pensou?
O comentário me faz rir, embora reconheça que pensei nessa possibilidade.
— Maura, o mundo não vai acabar. E quanto a Emma, uma pessoa que desconfia de mim e que se enfurece comigo sem deixar que eu me explique não é o que quero na minha vida. Além disso, já estou cheia dela. É uma babaca.
— Minha nossa! Realmente você é pior que ela. Vem cá, vocês são tão idiotas que não veem que foram feitas uma pra outra? Bom, enfim... não quer deixar de lado esse teu orgulho desgraçado e dar a vocês a chance que merecem? Ela é uma cabeça-dura? Com certeza! Você é uma cabeçuda? Com certeza! Mas, pelo amor de Deus, Regina, você tem que falar! Lembra que ia se mudar logo pra Alemanha? Já esqueceu? — E sem me dar tempo de dizer mais nada, afirma: — Bom, deixa comigo. Até sábado, Regi.
E, com uma estranha dor no estômago pelo que ouvi, me despeço.
A sexta-feira passa — e o mundo não acaba! Os maias não acertaram.
No sábado, acordo muito cedo. Estou exausta por causa do meu trabalho de garçonete, mas é a vida. Olho pela janela.
Não está chovendo!
Beleza!
Saber que Emma está a poucos quilômetros de mim e que há a possibilidade de nos vermos me deixa ansiosa demais. Não comento nada em casa. Não quero que isso mexa com eles e — quando chegam o Bichão e o Lucena com o reboque e meu pai e Whale ajeitam a moto nele — sorrio, feliz.
— Vamos, moreninha! — grita meu pai. — Já está tudo preparado.
Minha irmã, minha sobrinha e eu saímos de casa. Estou levando a bolsa com meu macacão de corrida. Ao chegar ao carro, me alegro ao ver Robin chegando.
— Você vai? — pergunto.
Ele, engraçadinho, faz que sim.
— Me diga quando eu faltei a uma de tuas corridas?
Nos dividimos em dois carros. Meu pai, minha sobrinha, o Bichão e o Lucena vão num, e minha irmã, Whale, Robin e eu, no outro.
Em Puerto de Santa María, nos dirigimos ao lugar do evento. Está transbordando de gente, como todos os anos. Depois de entrar na fila para confirmar a inscrição e receber meu número, meu pai volta feliz.
— Você é o número 87, moreninha.
Sorrio e olho em volta em busca de Maura. Não a vejo. Gente demais. Checo meu celular. Nenhuma mensagem. Me encaminho com minha irmã para os vestiários improvisados que a organização montou para os participantes. Tiro meu jeans e boto meu macacão de couro, vermelho e branco. Minha irmã me coloca as proteções dos joelhos.
— Qualquer hora dessas, Regina, vai ter que dizer a papai que vai parar com isto — afirma. — Você não pode continuar dando saltos numa moto eternamente.
— E por que não, se eu gosto?
Mary sorri e me dá um beijo.
— Tem razão, na verdade. No fundo admiro seu lado de guerreira machona.
— Acabou de me chamar de machona?
— Não, fofinha. Quero dizer que essa força que você tem, eu gostaria de ter também.
— Você tem, Mary... — sorrio com carinho. — Ainda me lembro de quando você participava das corridas.
Minha irmã vira os olhos:
— Mas eu corri duas vezes. Não levo jeito pra isso, por mais que papai adore.
Realmente, ela tem razão. Mesmo que nós tenhamos sido criadas pelo mesmo pai e tenhamos compartilhado os mesmos hobbies, ela e eu somos diferentes em muitas coisas. E o motocross é uma delas. Vivi esse esporte, sempre. Ela sofreu, sempre.
Já de macacão, vou para onde me esperam meu pai e o que se pode chamar minha equipe. Minha sobrinha está feliz e dá pulos de entusiasmo ao me ver. Para ela sou sua supertitia! Sorridente, tiro fotos com ela e com todos. Pela primeira vez em vários dias, meu sorriso é franco e conciliador. Estou fazendo uma coisa de que gosto, e dá para ver isso na minha cara. Passa um homem vendendo bebidas e meu pai compra uma Coca-Cola. Contente, começo a tomá-la quando minha irmã exclama:
— Ihhhh, Regina!
— O quê?
— Acho que tem alguém te paquerando.
Olho-a com uma expressão sacana, e ela, aproximando-se comicamente, cochicha:
— A piloto 66, a da tua direita, não para de te olhar. Não quero dizer nada, mas a mulher tá quase babando.
Curiosa, me viro e sorrio ao reconhecer Ruby Lucas. Ela me pisca o olho, e ambas nos cumprimentamos. Nós nos conhecemos há anos. É de uma cidadezinha perto de Jerez chamada Estrella del Marqués. Somos apaixonadas por motocross e costumamos nos encontrar de vez em quando em algumas corridas. Falamos por um instante. Ruby, como sempre, é toda charmosa comigo. Supersimpática. Pego o que ela me entrega, me despeço e volto para minha irmã.
— O que tem aí?
— Ô Mary, deixe de se meter em tudo — censuro.
Mas ao compreender que não vai mesmo me deixar em paz, respondo:
— Seu número de telefone, satisfeita?
Primeiro minha irmã tapa a boca e depois solta:
— Aiii, fofa! Quero ser você na outra encarnação.
Desato a rir bem na hora em que ouço:
— Regina!
Me viro e topo com o maravilhoso sorriso de Maura, que corre para mim com os braços abertos. Eu a abraço com alegria e vejo que atrás dela vêm Jane e Emma.
— O mundo não acabou — murmura Maura.
— Eu te disse — respondo alegre.
Meu Deussssss! Emma veio!
Meu estômago se contrai e, de repente, toda a minha segurança começa a evaporar. Por que sou tão imbecil? Por acaso o amor nos torna inseguros? Tudo bem, no meu caso com certeza a resposta é sim. Sei o que um evento como este faz com Emma. Dor e tensão. Mesmo assim, decido não olhar para ela. Continuo zangada.
Depois de beijar Maura, com carinho cumprimento Jane e , Logan que está no seu colo. Quando chega a vez de Emma, digo sem olhá-la:
— Bom dia, senhora Swan.
— Oi, Regina!
Sua voz me deixa nervosa.
Sua presença me deixa nervosa.
Ela toda me deixa nervosa!
Mas tiro forças do fundo da alma para momentos assim, viro a cabeça e digo a minha desconcertada irmã:
— Mary, elas são Maura, Jane e Logan, e ela é a senhora Swan.
Minha irmã e as outras ficam com cara de tacho. A frieza que demonstro ao me referir a Emma desorienta a todos, menos a ela, que me olha com sua habitual expressão de mau humor.
Nesse instante, surge Robin, que me avisa:
— Regina, você sai no próximo grupo.
De repente vê Emma e fica parado. Ambos se cumprimentam com um movimento de cabeça, e olho Maura.
— Tenho de deixar vocês. É minha vez. Maura, sou a número 87. Me deseje sorte. Quando me viro, Ruby Lucas, a piloto com quem falei antes, se aproxima e tocamos nossos punhos fechados. Me deseja sorte! Eu sorrio e, sem dizer nada, me afasto acompanhada por Mary e Robin.
Quando estamos suficientemente longe dos outros, entrego a minha irmã o papel que tenho na mão:
— Grave o número do telefone de Ruby no meu celular, tá?
Minha irmã concorda.
— Puxa, fofinha! — diz. — Emma veiiiiiooooooo!
Com cara de contrariada, apesar de no fundo sentir uma alegria idiota, ironizo:
— Oh, que emoção!
Mas minha irmã é uma romântica incorrigível.
— Regina, pelo amor de Deus! Ela está aqui por você, não por mim, nem por outra. Não tá vendo? Esse pedaço de mau caminho está louca por você. Tenho vontade de estrangulá-la.
— Nem mais uma palavra, Mary. Não quero falar disso.
No entanto, minha irmã... é minha irmã!
— Claro — insiste — que isso de chamar a mulher pelo sobrenome teve sua graça.
— Mary, feche a matraca!
Mas como é lógico nela, volta à carga:
— Uau, quando papai souber!
Papai? Paro na hora. Olho Mary.
— Nem uma palavra a papai sobre isso. E, antes que continue essa papagaiada de mulherzinha e de novela mexicana, lembre-se: Emma e eu já não temos nada. Entendeu ou quer que desenhe?
Robin, que está com a gente, tenta manter a paz.
— Vamos, garotas! Chega de discussão. Não vale a pena.
— Como não vale a pena?! — recrimina minha irmã. — Emma é...
— Mary... — protesto.
Robin, que sempre se diverte com nossos estranhos “bate-bocas”, me diz:
— Vamos, Regina, dê uma maneirada. Talvez deva ouvir tua irmã e...
Incapaz de aguentar um segundo mais o papo deles, olho meu amigo puta da vida e grito como uma possessa:
— Por que não fecha a matraca?! Te garanto que fica mais bonito.
Robin e minha irmã trocam um olhar e riem. Viraram idiotas?
Chegamos onde meu pai está com o Bichão e o Lucena. Puxa, que trio! Boto o capacete, os óculos de proteção e ouço o que papai tem a me dizer sobre a regulagem da moto. Depois, monto e me dirijo para a porta de entrada. Aqui espero, com outros participantes, que me deixem entrar na pista.
Protegida atrás de meus óculos, olho para onde Emma está. Não posso evitá-la. Além do mais, é alta, o que torna impossível não vê-la. Está impressionante com esses jeans de cintura baixa e o suéter preto de tricô.
Nossa, que gata mais gostosa! É a típica mulher que até com uma melancia no pescoço ficaria bem. Fala com Jane e Maura, mas eu a conheço: está tensa. Sei que, detrás de seus Ray-Ban espelhados de aviador, me procura com o olhar. Isto me agita o coração. Mas como sou pequena e estou entre tantos pilotos vestidos do mesmo modo, ela não consegue me localizar, o que me dá vantagem. Eu posso ficar calmamente curtindo essa cena.
Quando abrem a pista, os juízes nos colocam em nossa posição no grid de largada. Eles nos avisam que há vários grupos de nove pessoas — tanto faz se homem ou mulher — e que os quatro primeiros colocados de cada grupo se classificam para as rodadas seguintes. Pronta em minha posição, ouço a vozinha de minha Grace me chamar e aceno para ela, que ri e aplaude. Que linda que é minha sobrinha!
Mas meu olhar volta a Emma.
Ela não se mexe.
Quase não respira.
Mas aí está, disposta a ver a corrida apesar da angústia que sei que vai lhe causar. De novo, me concentro no que devo fazer. Devo ficar entre os quatro primeiros se quero me classificar para a rodada seguinte. Acalmo minha mente e acelero a moto. Foco na corrida e me esqueço do resto. Tenho de fazer isso. Os instantes antes da largada fazem sempre minha adrenalina subir. Ouvir o ronco dos motores ao meu redor me deixa arrepiada e, quando o juiz baixa a bandeira, acelero ao máximo e saio a toda. Ganho boa posição desde o começo e, como meu pai me avisou, tenho cuidado na primeira curva, que está cheia de lombadas. Salto, derrapo, me divirto! E, ao chegar a uma descida espetacular, me alegro como uma louca enquanto vejo que o piloto a minha direita perde o controle de sua moto e cai. Puxa, que porrada levou! Acelero, acelero, acelero e salto de novo. Os pneus cantam e acelero, salto, derrapo de novo e, depois de completar o circuito três vezes, chego entre os quatro primeiros.
Beleza!
Me classifiquei para a próxima rodada.
Quando saio da pista, meu pai, mais feliz que pinto no lixo, me abraça.
Todos se dão parabéns pelo meu sucesso, enquanto tiro os óculos enlameados. Minha sobrinha está emocionada e não para de dar pulinhos. Sua titia é sua heroína, e estou muito contente por ela. Ruby Lucas sai no próximo grupo. Ao passar a meu lado, outra vez tocamos nossos punhos. Nesse instante, chega Maura e, adorando tudo, grita:
— Parabéns! Santo Deus, Regina, você foi impressionante!
Sorrio e bebo um gole de Coca-Cola. Estou sedenta. Olho além de Maura e parece que Emma não vem me abraçar. Eu a localizo a vários metros de distância, com Logan no colo, falando com Jane.
— Não vai cumprimentá-la? — pergunta Maura
— Já a cumprimentei.
Ela sorri e chega mais perto ainda.
— Isso de chamá-la de senhora Swan foi provocante — murmura. — Mas fala sério: não vai falar com ela?
— Não.
— Te garanto que fez um tremendo esforço pra vir. Você sabe por quê.
— Sei, sim, mas podia ter se poupado a viagem.
— Para com isso, Regina! — insiste Maura.
Falamos mais um pouco, mas, como diz meu pai, ela pode tirar o cavalinho da chuva. Não vou falar com Emma. Ela não merece. Ela me disse que nossa história tinha acabado, e eu lhe devolvi o anel. Fim de papo.
A manhã segue, e eu vou superando as rodadas, tantas que chego à final. Emma continua lá e a vejo falar com meu pai. Ambos estão concentrados na conversa, e agora meu pai sorri e lhe passa a mão nos ombros. Do que será que estão falando?
Reparei como Emma me procura continuamente com o olhar. Isto me excita, embora eu tenha ficado na minha. Tentou se aproximar de mim, mas cada vez que percebi sua intenção, escapei entre as pessoas, e não me encontrou.
— Tá com cara de que quer tomar uma Coca-Cola, não é mesmo?
Me viro e vejo Ruby me oferecendo a latinha. Enquanto esperamos que nos chamem para a última rodada, sentamos para tomar o refrigerante. Emma, não muito longe de mim, tira os óculos. Quer que eu saiba que está me olhando. Quer que eu veja sua irritação. Mas até com os óculos eu já sabia como me olhava. Por fim, fico de costas para ela. Mas mesmo assim sinto seu olhar. Isto me incomoda e, ao mesmo tempo, me excita.
Durante um tempinho, Ruby e eu falamos, rimos e observamos outros colegas correrem a última rodada de classificação. Meu cabelo flutua ao vento, e Ruby pega uma mecha e a põe atrás de minha orelha. Minha nossa, isso deve ter tirado o Emma dos eixos!
Não quero nem olhar.
Mas a depravada que mora em mim não resiste e, realmente, sua contrariedade virou uma fúria total.
Pior para ela!
Aí nos avisam que em cinco minutos começará a última corrida. A definitiva. Ruby e eu nos levantamos, tocamos nossos punhos, e cada uma se encaminha a sua moto e seu grupo. Meu pai me entrega o capacete e os óculos e pergunta, bem pertinho:
— Está fazendo ciúme pra tua namorada com Ruby Lucas?
— Papai... Eu não tenho namorada. — Ele ri, e antes que diga qualquer coisa, acrescento: — Se você se refere a quem eu penso que se refere, já te disse que terminamos. Acabou!
O bonachão do meu pai suspira.
— Acho que Emma não pensa assim. Não dá a coisa por terminada.
— Pra mim tanto faz, papai.
— Ah, você é igualzinha à teimosa da tua mãe. Igualzinha!
— Pois olha, isso me alegra — respondo, mal-humorada.
Meu pai concorda, suspira e solta, com expressão divertida:
— Ai, ai, ai, ai, moreninha! Nós gostamos das mulheres difíceis, e você, minha querida, sai da frente. Esse teu gênio deixa qualquer um doido! — Ri. — Eu não deixei tua mãe escapar, e Emma não vai deixar você escapar. Vocês são lindas e interessantes demais.
Com raiva, ajusto o capacete e boto os óculos. Não quero falar. Acelero a moto e a levo até o grid de largada. Como nas rodadas anteriores, me concentro e, enquanto espero a saída, piso várias vezes no acelerador. A diferença é que agora estou irritada, muito irritada, e isto me deixa mais louca ainda. Meu pai, que me conhece melhor que ninguém, me faz sinais com as mãos para que eu deixe a poeira baixar e relaxe.
A corrida começa, e sei que tenho que fazer uma boa largada, se quero vencer. Consigo e corro como quem viu um fantasma. Me arrisco mais e me divirto pelos ares, adrenalina a toda, enquanto salto e vou cantando os pneus. Com o canto do olho, vejo que Ruby e mais um me ultrapassam pela direita. Acelero. Consigo deixar a outra moto para trás, mas Ruby é muito boa, e antes de chegar à zona das lombadas, acelera e salta os quebra-molas que me fazem perder tempo e quase cair. Mas não, não caio. Aperto os dentes, e consigo manter o controle da moto e continuo acelerando. Não gosto de perder nem no dominó. Exijo tudo da moto. Alcanço e ultrapasso ela. Mas ela me passa de novo. Derrapamos, e um terceiro piloto se adianta a nós duas.
Atrás dele!
Acelero ao máximo, consigo alcançá-lo e deixá-lo para trás. Agora Ruby salta, arrisca e me passa pela esquerda. Eu acelero. Ela acelera. Todos aceleramos. Quando passo pela linha de chegada e o juiz baixa a bandeira quadriculada, levanto o braço.
Segunda! Ruby, primeiro.
Damos uma volta pelo circuito e saudamos a plateia toda. Receber o aplauso e contemplar as caras felizes nos fazem sorrir. Quando paramos, Ruby vem até mim e me abraça. Está contente, e eu estou também. Tiramos os capacetes, os óculos, e as pessoas aplaudem com mais força. Sei que essa proximidade com ela não está agradando a Emma. Sei. Mas preciso dela, e inconscientemente quero provocá-la. Sou dona da minha vida. Sou dona dos meus atos, e nem ela nem ninguém conseguirá me fazer mudar de ideia.
Meu pai e todos os outros vêm para a pista nos felicitar. Minha irmã me abraça, meu cunhado também, Robin, minha sobrinha, Maura. Todos gritam “campeã” como se eu houvesse ganhado um campeonato mundial. Emma não se aproxima, se mantém num segundo plano. Sei que espera que seja eu a me aproximar, que vá até ela, como sempre. Mas não. Desta vez, não. Como diz nossa canção, “somos polos opostos”, e, se ela é cabeça-dura, quero que entenda de uma vez por todas que eu sou mais ainda.
Quando, no pódio, nos dizem o quanto de dinheiro se arrecadou para os presentes das crianças, fico louca de alegria.
Que bolada!
Instintivamente sei que grande parte desse dinheiro foi Emma quem doou. Sei. Ninguém precisa me dizer.
Encantada, sorrio, ao ouvir a quantia. Todos aplaudem, inclusive Emma. Seu rosto está mais relaxado, e vejo orgulho em sua expressão, quando levanto minha taça. Isto me comove e agita meu coração. Em outro momento, teria piscado um olho para ela e teria dito “te amo” com o olhar. Mas agora não. Agora não.
Quando desço do pódio, faço mil fotos com Ruby e com todo mundo. Meia hora depois, as pessoas se dispersam e nós, os pilotos, começamos a juntar nossas coisas. Ruby, antes de ir embora, vem falar comigo e me lembra que estará em sua cidadezinha até o dia 6 de janeiro. Prometo ligar para ela.
Quando saio do vestuário com meu macacão na mão, me agarram pelo braço e me puxam. É Emma. Durante uns segundos, nos olhamos.
Oh, Deus! Oh, Deusssssssss!
Seu rosto tão sério me deixa louca.
Suas pupilas se dilatam. Ela me diz com o olhar o quanto precisa de mim e, ao ver que não respondo, mesepara de mim, Icewoman comenta com voz rouca, me olhando nos olhos:
— Isto é como nas corridas, querida: quem não arrisca não petisca.
Tem razão.
Mas deixando-a totalmente confusa, respondo, consciente do que digo:
— Realmente, senhora Swan. O problema é que você já arriscou e me perdeu.
Seu olhar endurece de imediato. Me afasto dela, dando-lhe um empurrão, e caminho para o carro de meu cunhado puxa para ela. Quando me tem perto de sua boca, murmura:
— Tô morrendo de vontade de te beijar.
Não diz mais nada. Me beija, e uns desconhecidos que estão por perto aplaudem, encantados com tanta paixão. Durante uns segundos, deixo que Emma invada minha boca. Uauuu! Curto loucamente.
Quando se separa de mim, Icewomam comenta com voz rouca, me olhando nos olhos:
—Isto é como nas corridas, querida:
quem não arrisca não petisca.
Tem razão.
Mas deixando-a confusa, respondo,
consciente do que digo:
— Realmente, senhora Swan. O problema é
que você já arriscou e me perdeu.
Seu olhar endurece de imediato. Me
afasto dela, dando-lhe um empurrão, e caminho para o carro de meu cunhado. Emma
não me segue. Intuo que ficou sem saber o que fazer, enquanto sei que me
observa.
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