sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Peça-me o que quiser Capitulo 20

Capítulo 20

Durante seis dias, meu mundo é cor-de-rosa. Vivo num país colorido como o da abelha Maia do desenho animado e me sinto como uma princesa rodeada por duas pessoas que me amam e me protegem.
Robin continua me procurando e, em sua última mensagem, avisa que sabe que Emma Swan está comigo em Jerez. Isso me deixa chateada. Não consigo digerir o fato de Robin estar a par da vida de Emma, mas decido ficar quieta. Se eu tentar explicar algo a Emma, com certeza a situação vai piorar.
 
Ela e meu pai estão se dando superbem e, embora a princípio meu pai tenha se aborrecido com ela por ter alugado um chalé, afinal entendeu que somos adultos e precisamos de privacidade.
Os amigos e vizinhos do meu pai logo apelidam Emma de “a Frankfurt”, pelo fato de ser alemã, e ela acha graça disso. O temperamento espanhol, especialmente o andaluz, é tão diferente do alemão que percebo o quanto Emma se surpreende o tempo todo.
 
Todo dia meu pai se emociona com Emma. Noto que gosta dela, que a respeita e a escuta, e isso diz muito sobre meu pai. Inclusive saem juntos às vezes para caminharem à tarde e voltam animados e felizes. Nesses dias, sempre que posso dou uma escapada para correr e cantar pneu com minha moto. Adoro isso e me divirto como uma criança. Numa dessas tardes, Robin aparece com sua moto. Cruza meu caminho. Nós dois paramos.
 
— Você ficou louca? O que essa mulher está fazendo aqui?
 
Irritada com sua intromissão, retiro os óculos de proteção do capacete.
 
— Você está passando dos limites. Não é da sua conta o que ela está fazendo aqui.
 
Robin desce da moto e vem até mim.
 
— Pelo amor de Deus, Regina, seu pai sabe que ela é sua chefe?
 
— Não.
 
— E quando você vai contar?
 
A cada instante que passa, vou ficando mais irritada.
 
— Quando eu estiver a fim.
 
Robin se move com rapidez e me segura pelo pescoço, encosta sua testa na minha e murmura:
 
— Regina... eu te amo.
 
— Robin, não...
 
Sem se afastar de mim, continua falando:
 
— Quero você só pra mim, com exclusividade. Ela não gosta de você tanto quanto eu, pense nisso, por favor, e...
 
Dou um empurrão nele e me afasto.
 
— Quero continuar meu caminho, Robin. Sai da frente, ok?
 
— Você está me dizendo que prefere a companhia dela à minha? — murmura, sem se distanciar um milímetro sequer e com atitude provocativa.
 
— Essa...mulher está te usando. Quando ela se cansar de você, vai te abandonar, como fez com centenas de mulheres. Pra ela você é apenas mais uma, enquanto pra mim você é especial, não percebe? Pensei que você fosse mais esperta, Regina, pelo amor de Deus.
Não quero ser cruel como ele está sendo comigo. Gosto dele. É um bom amigo. Mas por Emma sinto algo tão forte que não posso ignorar. Como fico em silêncio, ele se vira e sobe na moto, mal-humorado.
 
— Tudo bem. Depois não diga que não avisei.
 
Em seguida vai embora e me deixa desconcertada e com um sabor amargo na boca.
 
No sétimo dia, meu pai me lembra do evento anual de motocross em Puerto Real, um vilarejo próximo de Jerez. Neste ano não estou muito a fim de participar. Prefiro curtir a companhia da minha loura, mas, ao ver a animação do meu pai e de seus amigos para que eu participe, acabo cedendo e convenço Emma a nos acompanhar.
 
Papai sempre quis ter um filho homem. Um menino. Mas a vida lhe deu duas filhas. Se bem que eu, com meu jeito meio moleca, talvez tenha compensado um pouco essa carência.
 
A princípio, Emma não sabe muito bem aonde vamos. Deixa claro para mim que não gosta de esportes radicais. Eu sorrio e minto para ela. O que posso fazer?
 
Mas, quando vê minha moto no reboque e meu pai junto a seus melhores amigos, o Lucena e o Bicho, falando sobre saltos, cantadas de pneu etc., entende perfeitamente o que vou fazer. Sua cara é de desconforto total.
 
— Não quero que você faça o que eles estão falando — murmura a poucos metros deles.
 
— Olha, Emma. Pra mim o que eles estão falando não tem nenhum mistério. Pratico motocross desde os 6 anos de idade. E agora, com 29, continuo inteirinha.
 
Seu rosto e sua boca revelam a tensão que está sentindo.
 
— Te prometo que vai dar tudo certo — insisto. — Você vem comigo e vai ver, ok?
 
— Olha quem está aqui... — escuto de repente atrás de mim. — Minha linda conterrânea motociclista.
 
Me viro e dou de cara com Robin. Seu comentário não me agrada nem um pouco. Meu estômago se contrai, mas me esforço para que ninguém perceba meu constrangimento. O Bicho olha para seu filho e depois para Emma. Sinto que está tão tenso quanto eu, mas respiro fundo e sorrio.
 
— Robin, essa é Emma. Emma, esse é Robin.
 
Apertam as mãos um do outro, e eu, que estou no meio, vejo o mal-estar da situação.
 
Eles se encaram. Dois rivais. Por sorte, meu pai bate palma e diz que é hora de irmos. Robin se ajeita e Emma logo me avisa que nos seguirá em sua moto. Decido acompanhá-la. Quando meu pai, o Lucena, o Bicho e Robin entram no carro e arrancam, Emma me passa um dos capacetes.
 
— Não gosto desse tal de Robin.
— Está com ciúmes?
 
— Deveria estar?
 
Dou um beijo em seus lábios e respondo:
 
— Claro que não, querida.
 
Quando chegamos ao lugar da corrida, meu pai e os amigos começam a cumprimentar todo mundo e faço o mesmo. Conhecemos quase todos os corredores e seus acompanhantes, já que participamos do evento há tantos anos. Às dez e meia, Cristina, a organizadora do motocross feminino, me entrega meu número, o 108, e informa que ao meio-dia haverá a primeira eliminatória.
Emma não fala nada. Só fica me observando. A cada segundo que passa, vejo a preocupação em seus olhos e tento acalmá-la. Mas, quando apareço com meu macacão vermelho de couro, as proteções, as botas, as luvas e o capacete, ela fica branca como cera.
— Pode me explicar por que está vestida desse jeito? — pergunta com irritação.
 
— Não estou sexy? — Sorrio.
 
Não responde.
 
— Regi. Não quero que você participe disso. É um esporte perigoso demais.
 
— Ah, que é isso! Não diga bobagem. — Sorrio de novo e tento não levá-la a sério.
 
Robin, que sei que estava prestando atenção na gente, se aproxima e com um sorriso falso diz:
 
— Vamos, linda... vá com tudo e deixe todo mundo sem palavras.
 
— Com certeza — respondo.
 
Robin, com duas cervejas na mão, pergunta a Emma:
 
— Quer uma? — E, sem lhe dar tempo de responder, continua: — Toma. Esta é toda pra você. A outra pra mim. Eu não compartilho nada.
 
Seu comentário me dá uma raiva. O que esse desequilibrado está fazendo?
 
Emma não fala nada, mas consigo perceber seu desagrado enquanto Robin se dirige a ela:
 
— Sabia que “nossa garota” é especialista em saltos e cantadas de pneus?
 
— Não.
 
— Então se prepare, porque, se você não sabia, hoje você vai ter um belo espetáculo.
 
Dito isso, Robin vem e me dá um beijo no rosto.
 
— Vamos, linda. Manda ver!
 
Assim que ficamos a sós, Emma olha para mim, irritada.
 
— De onde ele tirou isso de “nossa garota” e “compartilhar a cerveja”?
 
— Não sei — respondo, ainda sem conseguir acreditar no que acaba de acontecer.
 
Emma não é boba e, assim como eu, percebeu as segundas intenções nas palavras de Robin. Respira bufando, solta uns palavrões e não olha mais para Robin.
 
— Você vai se machucar, Regi. Não sei como seu pai te deixa fazer isso.
 
Seu comentário me faz rir. Aponto para meu pai, que está com seus dois amigos fazendo os últimos ajustes na minha moto.
 
— Você acha mesmo que meu pai está preocupado?
 
Emma o observa por alguns segundos e acaba se dando conta da felicidade em seu rosto.
 
— Tá bom... mas o fato de ele não estar preocupado não significa que eu não deva ficar. Sorrio, chego mais perto dela e, sem me importar que os outros nos olhe, subo numa caixa que está no chão para ficar da sua altura e aproximo meus lábios dos seus.
 
— Não se preocupe... pequena. Sei o que estou fazendo.
 
Consigo fazer com que Emma esboce um sorriso. Dou um beijo nela com sabor de vitória.
 
— Pelo seu bem — diz, séria —, melhor você saber mesmo o que está fazendo ou eu juro que já, já te faço pagar por isso.
 
— Hummmm... adorei ouvir isso!
 
— Regi... estou falando sério — insiste.
 
— Aaaaaah, já te disse... isso aqui pra mim é um passeiozinho de nada.
 
Não sorri. Mas eu sim.
 
Escuto a voz de meu pai me chamando. Tenho que ir para a pista. Dou um beijo rápido em Emma, desço da caixa, solto sua mão e vou até minha moto. Meu pai a acelera. Eu grito feliz e cheia de emoção, enquanto Emma fecha a cara.
 
Dez minutos depois, estou na pista com outras participantes, com a adrenalina a mil, saltando e correndo sem pensar em perigo. O motocross é uma combinação de velocidade e destreza, e as duas coisas juntas me empolgam muito.
 
Sempre fui meio moleca, o filho que meu pai nunca teve. Adoro os pneus cantando nas curvas fechadas, saltar em buracos, fazer manobras ousadas e meu macacão fica cheio de lama, enquanto minha adrenalina acelera meus movimentos e percebo que estou numa boa posição na corrida. Termino entre as quatro primeiras e passo à segunda etapa.
 
Emma está branca como mármore. O que acabo de fazer e minhas ultrapassagens mal lhe deixam respirar. Mas não temos tempo de trocar nenhuma palavra, porque vou participar da próxima etapa e assim sucessivamente até restarem apenas seis participantes.
 
Meu pai, junto ao Lucena e ao Bicho, gritam como loucos enquanto voltam a ajustar a moto. Robin, um expert em motocross, me dá umas dicas sobre as outras participantes e eu o escuto. Sabem que eu mando bem e que posso conquistar algum prêmio hoje. Mas não consigo deixar de procurar Emma. Onde está ela?
 
— Moreninha — diz meu pai.
 
— Emma voltou para Jerez.
 
— O quê?! — exclamo sem acreditar.
 
— O que você ouviu, filha. Disse que preferia te esperar na casa dela. — E murmura: — Ela estava se sentindo supermal, filha. Apesar de que agora, pensando bem, não sei se era por te ver dando saltos na pista ou por causa da presença de Robin e a atenção que ele te dava.
— Paaaaaaai — resmungo ao vê-lo sorrir.
 
Mas não podemos continuar falando. A próxima volta vai começar e eu tenho que ficar a postos. Minha concentração diminui, e meu humor péssimo. Emma foi embora e isso me deixa muito chateada. Quando a corrida começa, saio disparada como uma flecha. Salto um montinho, dois... três, os pneus cantam, acelero e pulo vários buracos seguidos. Ao fim, engato a segunda e grito de felicidade.
 
Meu pai, o Lucena e o Bicho correm para me abraçar. Estou coberta de lama, mas eu os fiz vibrar novamente. Quando me soltam, é Robin quem me pega entre seus braços, de um modo totalmente efusivo.
 
— Parabéns, linda. Você é a melhor!
 
— Obrigada e me solta.
 
— Por quê? Emma por acaso não gosta de compartilhar a mulher dela?
 
— Me solta, seu babaca, ou juro que acabo com você aqui mesmo — rebato ofendida. Cinco minutos depois, no pódio improvisado, fico feliz ao ver meu pai, o Lucena e o Bicho aplaudindo ao lado de Robin, orgulhosos de mim. Levanto o troféu e eu adoraria que Emma estivesse aqui.
O caminho de volta a Jerez é leve e divertido. Escutar meu pai e seus amigos contando piadas me faz morrer de rir. Como eles são engraçados! Quando chegamos, Robin insiste em sair para beber, com a desculpa de que precisamos comemorar a vitória. Mas não topo a ideia e, em casa, desço minha moto do reboque, seguro o troféu e, sem nem mesmo trocar de roupa, saio em disparada para o chalé de Emma.
 
Chego à porta, toco a campainha e, segundos depois, a enorme cancela branca se abre. Acelero a moto e subo por uma estradinha cercada de pinheiros. Ao longe, vejo a casa e Emma. Parece estar falando ao telefone. Acelero, dou uma derrapada e, rodeada de poeira, paro, olho para ela e levanto meu troféu.
 
— Você perdeu. Perdeu minha vitória.
 
Emma não sorri, fecha o celular, vira-se e entra em casa.
 
Surpresa com sua reação seca, desço da moto e a sigo. Fico louca quando ela se comporta desse jeito tão fechado. No caminho tiro os óculos e deixo o capacete numa mesa. Emma está na cozinha bebendo água. Espero que volte e ataco.
 
— Por que você foi embora sem me avisar?
 
— Você estava muito ocupada.
 
— Mas, Emma... eu queria que você estivesse ali.
 
— E eu queria que você não fizesse essas loucuras.
 
— Emma... escuta...
 
— Não. Escuta você. Se você tiver que dar mais uns saltos com sua moto em qualquer outro lugar, não conte comigo, entendido?
 
— Tá booooom.... mas, vai, não fique irritada. Não seja infantil.
 
Minhas palavras a magoam e ela fica ainda mais enfurecida.
 
— Eu te disse que não queria que você corresse perigo e você continuou com sua brincadeirinha sem pensar em como eu estava me sentindo. Você poderia morrer bem na minha frente e eu não poderia ter feito nada pra impedir. Meu Deus, como você pode ser tão irresponsável?
 
Afasta-se de mim. Acho sua reação exagerada.
 
— Não sou irresponsável. Sei muito bem o que faço.
 
— Sim, claro... não tenho a menor dúvida. E, como se não bastasse, ainda tenho que aguentar esse tal de Robin.
 
— Ah, não... , nem vem com essa — rebato irritada. — Não acho direito você brigar comigo por causa do motocross, mas até consigo entender! Agora, brigar comigo por causa das coisas que Robin disse, essa não!
 
— Ele ficou falando “Nossa garota”! — grunhe furiosa. — Não parou de fazer comentários desagradáveis o tempo todo na minha frente. Se eu não parti pra cima dele, foi por respeito a seu pai e a você, porque por mim eu teria ido... — E, antes que eu possa reagir, me pergunta: — Você disse que rolou alguma coisa com ele. Continua rolando?
Não respondo. Não quero contar o que Robin me revelou a seu respeito, nem o que houve entre nós, mas Emma insiste:
 
— Responde: o que você teve com esse cara?
 
— Alguma coisa. Mas foi sem importância e...
 
— Alguma coisa? O que é essa “alguma coisa”? — diz num tom glacial.
 
— Por acaso eu te pedi uma lista de todas as suas amiguinhas? — pergunto, surpresa com o rumo que a conversa está tomando. — Se me lembro bem, você foi a primeira a querer se envolver comigo sem...
 
— Sei muito bem do que você está falando. Mas acho que você é madura o suficiente para entender que isso mudou entre a gente.
 
— Ah, é?
 
Sem alterar a expressão, ela solta um grunhido.
 
— Acabei de te fazer uma pergunta. Sempre fui sincera contigo. Quando voltei das Astúrias pra te procurar, você me perguntou se eu tive alguma coisa com Amanda e eu fui sincera. Você não pode fazer o mesmo agora?
 
— Ok. Eu e Robin já transamos, sim.
 
— E agora? Nos dias em que você esteve aqui antes de eu chegar?
 
— Não rolou nada...
 
— Não acredito.
 
— Em Madri fui pra cama com ele, mas aqui não. — Emma reclama e eu continuo:
 
— Aqui só demos alguns beijos e...
 
— Esse cara não é do tipo que se conforma com beijos. Reparei em como ele te olhava e, quando ele falou aquilo de compartilhar a cerveja, meu Deus... eu queria acabar com ele!
 
Irritada com suas palavras e com seus gritos, respondo:
 
— Talvez ele não se conformasse com beijos, mas eu, sim. Nunca me comportei com ele como me comporto contigo, porque ele não é como você, droga. E quer saber? Vou embora. Não quero ficar ouvindo essas idiotices ou te juro que não vou te perdoar. Quando você estiver mais calma, me liga e talvez... apenas talvez eu aceite desculpas pelo showzinho que você acaba de dar.
 
Dito isso, me viro, pego o capacete, os óculos e, ainda com o troféu nas mãos, saio da casa, arranco com a moto e vou embora. Cheia de raiva, atravesso o caminho de pinheiros. Quem Emma pensa que é pra falar comigo desse jeito? Por que eu não exijo nada dela, e ela, ao contrário, exige tudo de mim? A cancela branca se abre. Acelero, mas, antes de cruzá-la, freio novamente e solto um grito de frustração. Desço da moto e dou uns chutes pro ar. Sinto vontade de matar Emma quando ela age dessa maneira.
 
Após uns instantes a cancela volta ao lugar. Estou furiosa. Me abaixo, de cócoras, de olhos fechados, tentando me acalmar. Emma me cansa, e suas constantes mudanças de humor me deixam louca. Suas palavras e reações me deixam desnorteada. Nunca sei o que ela quer, e muito menos o que devo fazer.
De repente ouço um ruído rouco. Levanto a cabeça e vejo Emma que vem vindo de moto. Para perto de mim, abaixa o pedal de descanso e desce. Ela me encara.
 
— Como você pode ser tão fria?
 
— Com a prática.
 
Respiro fundo e me levanto, sem conseguir conter minha fúria.
 
— Emma, você me desespera. Não aguento essa sua maneira de ser. Às vezes quero te devorar com beijos, mas outras vezes sinto vontade de matar você. E agora é uma dessas vezes. Você sempre se acha a rainha do mundo. Da razão. A rainha do universo. É uma cabeça-dura, uma mandona, uma intransigente e...
 
— Você tem razão.
 
Sua resposta me surpreende.
 
— Pode repetir o que disse?
 
Emma sorri.
 
— Você tem razão, pequena. Passei dos limites. Fiquei muito nervosa quando te vi saltar com essa maldita moto e também com os comentários inconvenientes do seu amigo e acabei descontando em você. — Quando percebe que vou dizer algo, se adianta: — Não quero mais falar desse cara. Aqui, o importante somos eu e você. E por isso vim te buscar.
Seu sorriso. Ai, meu Deus...! Seu sorriso. Que gata ela fica quando sorri... Sem precisar de mais nada, chego bem pertinho dela.
 
— Por que temos que discutir por tudo?
 
— Não sei.
 
— Discutimos por tudo, menos por sexo.
 
— Hummmm... bom começo, não é?
 
Nós duas rimos, e Emma me pega. Beija meus dedos.
 
— Continua zangada?
 
— Muito.
 
— Sério?
 
— Com o que você fez hoje, me roubou dez anos de vida.
 
— Exagerada. — Sorrio.
 
Emma faz que sim com a cabeça e em seguida fecha os olhos.
 
— Regi, minha irmã Hannah morreu há três anos. Ela era como você, cheia de energia e vitalidade, adorava esportes radicais. Um dia me chamou pra fazer bungee jumping com ela e os amigos. Estávamos nos divertindo até que sua corda... e... eu... eu não pude fazer nada pra salvá-la.
 
Fico sem ação. Que coisa horrível! Viu a própria irmã morrer. O que ela acaba de contar me faz entender a angústia que sentiu enquanto eu me divertia com os saltos e derrapagens durante a corrida. Entendendo sua dor, quero dizer alguma coisa, mas é ela que continua:
 
— É por isso que não consegui continuar assistindo ao que você fazia.
— Sinto muito... eu... eu não sabia.
 
— Eu sei, querida. — Me abraça com força e murmura: — Agora sorria, por favor. Preciso que você sorria e não me pergunte mais nada do que te falei. Dói demais e não gosto de ficar lembrando, combinado?
 
Faço um gesto de compreensão e, sem falar mais nada, Emma me beija com verdadeira paixão. Sorrio, tento não pensar na tragédia que acaba de me contar e me deixo levar pelo meu amor. Minutos depois, ela pega o troféu que ainda está nas minhas mãos e fica admirando.
 
— Vou te matar, moreninha. Você me fez passar uns momentos terríveis.
 
— Emma... é motocross, você esperava o quê?
 
Sorri, me solta e sobe na sua moto com o troféu nas mãos.
 
— Pra casa, campeã. Vamos comemorar sua vitória como você merece.
No dia seguinte, no lindo chalé de Emma e após uma noite de paixão e loucuras, nos deitamos nuas para pegar sol enquanto planejamos um passeio a Zahara de los Atunes. Não tocamos mais no nome de Robin. Nenhuma de nós quer falar sobre ele. Emma beija minha tatuagem. Ela adorou. Cada vez que transamos, ela me olha toda safada e diz: “Peça-me o que quiser.” Isso me deixa louca. Completamente louca.
 
Emma me chamou para ir à casa de uns amigos seus em Zahara, e gostei da ideia. Podemos curtir uns dias com eles e depois voltar pro chalé, que, aliás, eu adorei. É uma graça.
 
À noite, Emma me leva de volta pra casa do meu pai, que encontro sentado num balanço do pátio dos fundos.
 
— Gosto de Emma. Ela serve pra você, moreninha.
 
— Ah... é? Por quê? — pergunto, achando graça, enquanto me sento ao lado dele.
 
— É uma mulher admirável. Tem quantos anos?
 
— Trinta.
 
— Uma boa idade.
 
Isso me faz sorrir e ele continua:
 
— Te olha da mesma forma que eu olhava pra sua mãe e isso me deixa satisfeito. E ouve bem o que estou te dizendo. Até pouco tempo atrás eu pensava que Robin era a pessoa certa pra você. Mas, depois de conhecer Emma, mudei de ideia. Vocês são feitas uma pra outra. Dá pra ver que é uma mulher digna e de princípios e que cuidará de você.
 
De novo me faz rir. Ele está certo. Emma é uma mulher de princípios, mas tenho certeza de que, se meu pai conhecesse seu comportamento sexual, cairia para trás. Mas isso é minha intimidade.
 
— Pai... Gosto da Emma, mas não sei quanto tempo nossa relação vai durar.
 
Surpreso, ele olha para mim.
 
— O que está acontecendo, moreninha?
 
Minhas palavras fervem dentro de mim. Gostaria de contar ao meu pai que Emma é minha chefe, mas não posso. Tenho medo da reação dele. Gostaria de botar pra fora um monte de dúvidas e todos os medos, mas me contenho.
 
— Não está acontecendo nada, pai — respondo finalmente. — É só que é difícil manter um relacionamento a distância. Você sabe que ela mora na Alemanha e eu aqui. E, quando ela terminar o que veio fazer em Madri, nós duas teremos de voltar aos nossos trabalhos e, bem... você já entendeu.
 
Ele faz que sim com a cabeça e, com sua habitual prudência, acrescenta:
 
— Ouça, minha querida. Você já não é uma criança. É uma mulher e é assim que devo te tratar. Por isso, a única coisa que posso te dizer é que aproveite o momento e seja feliz. De nada adianta ficar pensando no que vai acontecer, porque o que tiver que acontecer... vai acontecer. Se você e Emma estão destinadas a ficarem juntas, não haverá distância que as separe. Mas seja cautelosa e um pouco egoísta, e pense em você. Não quero te ver sofrer à toa, como você mesma já está me dizendo que a situação de vocês é complicada.
As palavras do meu pai, como sempre, me confortam. Não sei se é pela idade, pela experiência de ter perdido minha mãe há alguns anos, mas, se tem uma coisa que ele sempre deixou claro e sempre transmitiu pra mim e pra minha irmã, é que a vida é pra ser vivida.
 
No dia seguinte, Emma, de moto, vem me pegar bem cedo. Nossa pequena aventura começa. Meu pai se despede de nós com animação e nos deseja uma boa viagem. Visitamos Barbate e Conil. Almoçamos lá e damos um mergulho na praia. À tarde, quando chegamos a Zahara de los Atunes, seu telefone toca e ela sorri.
 
— Jane está nos esperando.
 
Subimos na moto e ela dirige até a casa de Jane. Pela confiança com que se movimenta pelas estradas secundárias do lugar, fico imaginando que já esteve ali outras vezes. Mas não quero nem saber de sentir ciúme de novo. Nada vai me impedir de aproveitar esse tempo com ela.
Pegamos uma estradinha e paramos diante de um muro de pedras. Emma toca a campainha e, segundos depois, uma enorme porta se abre e eu fico boquiaberta. Na minha frente se estende um maravilhoso jardim com centenas de flores coloridas que cercam uma linda casa minimalista.
 
Ao chegarmos à porta, Emma para a moto, eu desço e, um pouco depois, Jane e uma mulher com um bebê nos braços vêm ao nosso encontro. Jane é a médica que Emma chamou em Madri e que cuidou do meu braço, e isso me surpreende.
 
A mulher de Jane se chama Maura, e o menino, Logan . Maura é alemã como Emma, mas fala espanhol perfeitamente e nos damos bem logo de cara. Uma mulher de meia-idade aparece e leva a criança. Segundos depois, nós quatro vamos a um jardim nos fundos onde uma empregada nos serve bebidas. Conversamos animadamente e elas contam histórias divertidas de suas viagens. Logo percebo a forte amizade que as une há anos e isso me faz sorrir. Por volta das oito, Maura nos leva ao nosso quarto. Um cômodo espaçoso, decorado com bom gosto e com uma cama enorme.
 
Assim que ficamos sozinhas, Emma me agarra, me beija e começa a tirar minha roupa. Me carrega até um enorme chuveiro, abre a água e nós duas gritamos animadas ao sentir a água fria caindo na gente. Os beijos de Emma se intensificam; e meu desejo por ela, mais ainda. De repente, me coloca no chão do boxe e se deita em cima de mim enquanto a água continua caindo. Sua boca ansiosa morde meus lábios e, ao mesmo tempo, eu sinto suas mãos percorrendo meu corpo, que estremece com o contato.
Quando abandona meus lábios, sua boca desce até meus seios. Os mamilos estão duros e, ao mordê-los, ela me faz gritar. Continua passeando por meu corpo e sinto sua língua descendo pelo meu umbigo, deliciando-se ali por alguns instantes até que continua seu caminho e de repente para.
 
Ao notar que ela freou seus movimentos, ajeito minha cabeça para olhá-la e me dou conta do que foi que a fez parar. Está observando a tatuagem. Isso me excita e deixo escapar um gemido, enquanto ela me olha através dos cílios molhados.
 
— É sério o que está escrito aqui?
 
Balanço a cabeça num gesto afirmativo.
 
— Posso pedir qualquer coisa?
 
O formigamento na minha vagina aumenta. Acho que vou ter um orgasmo só de escutar sua voz e ver seu olhar pervertido. Volto a fazer que sim ao que ela me perguntou, e ela aperta os lábios.
 
Apoia os joelhos no chão do boxe e, com sofreguidão, me segura pelos quadris e me atrai para si. Pega a ducha, separa minhas pernas e me lava. Me umedece todinha e me deixo levar, em êxtase. Em seguida ela muda a intensidade da ducha. Agora o jato é mais fino e a água sai com força.
 
Imagino o que ela vai fazer e não me mexo. Eu a desejo.
 
Ela se curva, enfia sua língua na minha vagina encharcada e me chupa. Circula o clitóris com a língua e brinca com ele. Faz carinho nele, o devora. Me deixa louca. Pega a ducha outra vez, enquanto com dois dedos vai me abrindo e eu sinto os jatos caírem diretamente sobre o clitóris inchado.
 
Fico louca!
 
Solto um gemido... tento me mexer, mas ela me segura firme, enquanto os jatos caem com força no clitóris, despertando mil sensações. Que calor...! O calor sobe pelo meu corpo e, quando me contraio com um orgasmo maravilhoso, ela solta a ducha e enfia de forma dura três dedos de uma vez só em mim. Me puxa e mete tudo até o fundo.
 
— Tá bom, pequena... vou levar a sério o que você disse. Vou te pedir o que eu quiser. Deitada no chão do boxe com Emma me possuindo com força, deixo que ela me guie a seu bel-prazer.
 
Dez... onze... doze, continua sempre em cima de mim, enquanto minha vagina se contrai a cada penetração e o clitóris, com estímulo de seu polegar, me faz estremecer mais e mais. Tenho outro orgasmo maravilhoso, desta vez ao mesmo tempo que ela. Instantes depois, Emma se deita ao meu lado e nós duas ficamos no chão do enorme boxe olhando para o teto enquanto a água corre ao nosso redor. Sua mão procura a minha e, quando a encontra, ela a aperta e logo a leva à boca. Beija meus dedos e diz:
 
— Regi... Regi... O que você está fazendo comigo?

Às nove da noite, após um banho delicioso juntas e do qual tenho certeza de que todo mundo ficou sabendo, descemos de mãos dadas até a sala. Maura e Jane estão se beijando, mas param logo quando eu e Emma aparecemos. 
Passamos para a sala de jantar e nos sentamos ao redor de uma mesa maravilhosa. Emma puxa a cadeira para mim e se senta ao meu lado. Percebo que está feliz. Este é seu ambiente e dá para sentir que está mais à vontade. Os empregados entram e nos servem um bom vinho, seguido de uma lagosta esplêndida. Emma pede uma Coca-Cola para mim. Entre risadas e confidências, terminamos o primeiro prato e logo nos servem o segundo, uma carne bem suculenta. Quando acabamos o delicioso sorvete que tomamos de sobremesa, Maura sugere irmos ao jardim.
 
Após atender um telefonema, Emma se senta ao meu lado. Sinto suas carícias contínuas na minha pele e a noto mais pensativa que minutos antes. Mesmo assim, conversamos até altas horas da madrugada, quando então decidimos ir dormir.

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