sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Peça-me o que quiser Capítulo 16

Capítulo 16

Na sexta-feira, assim que acordo, olho para o relógio digital na mesinha de cabeceira. São 13h07. Dormi várias horas direto. Como minha irmã não sabe que estou de volta, ela não apareceu aqui em casa e, por alguns segundos, isso me deixa feliz. Não quero dar explicações. Quando saio do quarto, a primeira coisa que procuro é o celular. Está na minha bolsa, e no silencioso. Há duas chamadas perdidas da minha irmã, duas de Robin e doze de Emma. Caramba! Não respondo a nenhuma. Não quero falar com ninguém. Minha raiva toma conta de mim outra vez e eu decido fazer uma limpeza geral. Quando estou de mau humor, faço uma faxina que é uma maravilha. Às três da tarde, minha casa está uma bagunça. 
Roupa de um lado, água sanitária de outro, móveis fora do lugar... mas não estou nem aí. Sou a rainha desta casa e quem manda aqui sou eu. De repente, sinto vontade de passar roupa. Inacreditável, mas é verdade. Pego a tábua, ligo o ferro na tomada e separo várias peças de roupa. Cantarolando a música que toca no rádio, acabo esquecendo o que me atormentava: Emma.
 
Passo um vestido, uma saia, duas blusas e, quando estou passando uma camisa polo, meus olhos se detêm numa bolinha vermelha que está no chão. Logo me lembro de Trampo, meu Trampo, e meus olhos se enchem de lágrimas até que solto um grito. Acabo de me queimar com o ferro no antebraço e está doendo à beça.
 
Olho nervosa para a queimadura.
 
Meu antebraço está vermelho como a camisa da seleção espanhola e consigo até ver o contorno e os furinhos do ferro na minha pele. Está doendo... está doendo... está doendo... Doendo muito! Fico na dúvida entre lavar com água ou botar pasta de dentes, enquanto caminho dando pulinhos pela casa. Sempre ouvi falar desses remédios, mas não sei se funcionam. Por fim, morrendo de dor, decido correr para o hospital
Às sete da noite eu finalmente sou atendida.
 
Viva a rapidez dos prontos-socorros!
 
Minha dor é tanta que chego a ver estrelas. Uma médica adorável passa com delicadeza um líquido na queimadura e faz um curativo no meu braço. Me receita analgésicos e me manda para casa.
 
Com uma dor insuportável e o braço enfaixado, procuro uma farmácia. Como sempre nesses casos, a mais próxima fica a mil quarteirões de onde estou. Após comprar o que preciso, volto para casa. Estou exausta, irritada e cheia de dor. Mas, quando chego ao portão da frente, ouço uma voz atrás de mim.
 
— Não vá embora de novo sem me avisar.
 
Sua voz me paralisa.
Me irrita mas também me conforta.
 
Eu precisava ouvi-la.
 
Me viro e vejo que a mulher que me tira dos eixos está a apenas um metro de mim. Sua expressão é séria e, sem saber por quê, levanto o braço e digo, com os olhos cheios de lágrimas:
 
— Me queimei com o ferro de passar e está doendo pra caramba.
 
Sua cara muda.
 
Olha o curativo no meu braço. Depois olha para mim e eu noto que ela perdeu toda a seriedade. Icewoman acaba de ir embora para dar lugar a Emma. A Emma que eu adoro.
 
— Meu Deus, pequena, vem cá.
 
Chego perto dela e sinto que me abraça com cuidado para não encostar na queimadura. Meu nariz fica impregnado de seu cheiro e me sinto a mulher mais feliz do mundo. Durante alguns minutos, permanecemos nessa posição até que eu me mexo e então ela aproxima sua boca dos meus lábios e me dá um beijo rápido mas doce e carinhoso.
 
Nunca me beijou assim, e isso me deixa completamente boba.
 
— O que houve? — pergunta.
 
Volto a mim e sorrio.
 
Me beijou com ternura!
 
Entrego as chaves da minha casa para que ela próprio abra.
— A fechadura do portão está quebrada... tem que puxar a porta.
Desvia os olhos de mim e faz o que peço. Depois pega minha mão e subimos juntas o elevador. Ao abrir a porta de casa, vejo que olha ao redor e murmura:
 
— Mas... o que aconteceu aqui?
 
Sorrio. Sorrio como uma idiota, como uma boba.
 
— Limpeza geral — respondo, olhando o caos que nos cerca. — Quando estou de mau humor, isso me relaxa.
 
Ela ri baixinho e depois eu ouço a porta se fechar. Quando deixo a bolsa no sofá, me esqueço da dor e me viro para ela.
 
— O que você veio fazer aqui?
 
— Eu estava preocupada. Você foi embora sem avisar e...
 
— Te deixei um bilhete e, o mais importante, em boa companhia.
Emma olha para mim. Sinto seu rosto ficando tenso de novo.
 
— Não quero ouvir outra vez esse seu comentário humilhante de que você é minha puta. Porque é claro que você não é, Regina. Pelo amor de Deus! Nunca te vi nem vou te ver dessa forma, ok? — Vou concordando com a cabeça, e ela continua: — Mas, Regi, você ainda não entendeu que sexo pra mim é um jogo e que você é minha peça mais importante?
 
— Você disse: sua peça!
 
— Quando digo “peça”... quero dizer que você é a mulher que mais me importa neste momento. Sem você, o jogo perde a graça. Que coisa, Regina, pensei que eu já tivesse deixado isso claro.
 
Por alguns minutos, ficamos em silêncio. A tensão no ambiente é tão concreta que tenho a sensação de poder cortá-la com uma faca.
 
— Olha, Emma, isso não vai funcionar. É melhor sermos só amigas. Acho que, em termos profissionais, podemos trabalhar juntas, mas...
 
— Regi, eu nunca menti pra você.
 
— Eu sei — admito. — O problema aqui sou eu, não você. É que eu não estou me reconhecendo. Não sou a garota que você manipula como uma peça. Não... me recuso! Não quero. Não quero saber nada sobre seu mundo, seus joguinhos, nem nada disso. Acho... acho que o melhor é cada um voltar pra sua vida e...
 
— Tudo bem — diz.
 
Sua resposta me paralisa. De repente quero discutir o assunto outra vez. Não quero que ela me leve a sério. Será que estou ficando louca?
 
Vejo a dor e a raiva em seus olhos, mas tento manter de pé o que acabo de dizer e me seguro para não abraçá-la. Minha força de vontade desaparece quando estou perto dela, e preciso me manter firme, embora eu mesma me contradiga. Sinto uma pontada no antebraço que me faz contrair o rosto, e dou um pulo.
— Meu Deeeeeus! Que dor! Porra! Poooooorra!
Ela enruga a testa e se levanta. Não sabe o que fazer enquanto eu continuo com minha sinfonia de gritos e palavrões. O braço está me matando.
 
— Está doendo muito?
 
— Sim. Vou tomar um analgésico senão te juro que vou ter um troço.
 
Meu braço lateja e a dor fica insuportável. Ando como uma louca pela sala até que Emma me detém.
 
— Senta — ordena. — Vou chamar uma amiga.
 
— Quem você vai chamar?
 
— Uma amiga minha que é médica, pra ela dar uma olhada no seu braço.
 
— Mas já me examinaram no hospital...
 
— Mesmo assim. Vou ficar mais tranquila se Jane te olhar.
 
Estou com tanta dor que nem consigo falar direito. Vinte minutos mais tarde, o interfone toca. Emma atende e um minuto depois aparece a amiga dela. Cumprimentam-se e a recém-chegada fica observando o estado da casa. Em meio a risadas, Emma cochicha:
 
— Regina estava fazendo uma faxina.
 
Elas se olham e sorriem. E, nesse momento, irritada com a dor no braço, murmuro:
 
— Venham, não façam cerimônia. Se acham que está tudo bagunçado, dou permissão para vocês arrumarem. A escova e o esfregão estão à inteira disposição de vocês.
Minha cara emburrada as faz sorrir.
 
Que gracinhas, as duas!
 
Por fim, a recém-chegada se aproxima:
 
— Oi, Regina, meu nome é Jane Rizzoli. Então, o que houve?
 
— Me queimei com o ferro de passar e estou morrendo de dor.
Faz que sim com a cabeça e pega uma tesoura.
 
— Me dá o braço.
 
Emma senta ao meu lado.
 
Sinto sua mão protetora nas minhas costas e isso me reconforta.
 
A médica abre o curativo com cuidado. Observo-a por um momento, pega uma espécie de soro e o despeja sobre minha ferida. Um alívio momentâneo me faz suspirar. Depois coloca umas gazes molhadas com esse líquido e fecha o curativo.
 
— Dói muito, né?
 
Balanço a cabeça concordando.
 
Não choro porque estou com vergonha, e ela percebe. Emma também.
 
— Vou te dar uma injeção de analgésico. É a melhor forma de acabar com a dor. Esse tipo de ferida é chato mesmo. Mas fique calma, vai passar logo.
Não dou nem um pio.
 
Que ela injete em mim o que quiser, desde que acabe com essa dor horrível de uma vez por todas.
 
Enquanto ela me dá a injeção, eu a observo. Ela me olha e pisca um dos olhos com cumplicidade. Deve ter uns 30 anos. Alta, morena, tem cabelos longos ondulados e é dona de um sorriso lindo. Quando acaba, fecha sua maleta, tira um cartão e me entrega enquanto nos levantamos.
 
— Para qualquer coisa, à hora que for, me ligue.
 
Olho para o cartão e leio “Doutora Jane Rizzoli” e um número de celular.
 
Balanço a cabeça como uma idiota e enfio o cartão no armário da copa.
 
— Tudo bem, pode deixar.
 
Nesse momento, Emma passa a mão pela minha cintura numa atitude que me parece possessiva, em seguida põe a mão no ombro de sua amiga e diz:
 
— Se ela precisar, eu te ligo.
Jane sorri, Emma me solta e as duas se dirigem à porta. Por alguns minutos, eu as ouço murmurar algo, mas não consigo entender o que é. Quero que a dor vá embora e essa é a única coisa que me interessa agora.
 
Me atiro de novo no sofá. A dor do meu braço começa a diminuir e sinto que volto a ser uma pessoa. Emma retorna à sala e fala com alguém pelo celular enquanto olha pela janela. Fecho os olhos. Preciso relaxar.
 
Não sei quanto tempo fico nessa posição, até que ouço a campainha. É Tomás, motorista de Emma, que veio entregar várias sacolas. Quando a porta se fecha, Emma olha para mim.
 
— Pedi alguma coisa pra gente jantar. Não se mexa, eu me encarrego de tudo.
 
Sorrio. Ótimo! Preciso de paparicos.
 
Sem me levantar do sofá, ouço Emma se movimentando pela cozinha. Minutos depois, ela aparece com uma bandeja, pratos, talheres e copos.
 
— Pedi a Tomás que comprasse comida chinesa. Pelo que eu me lembre, você gosta, né?
— Adoro. — Sorrio.
 
— A dor diminuiu? — pergunta com expressão séria.
 
— Sim.
 
Minha resposta parece deixá-la aliviada.
 
Observo Emma colocando na bandeja tudo o que ela trouxe e não consigo parar de olhar. Parece mentira que essa jovem que arruma pratos e copos seja a mesma Icewoman implacável de certas situações. Sua expressão agora está relaxada, e eu gosto disso. Gosto de vê-la e de senti-la assim.
 
Quando acaba o que estava fazendo, volta para a cozinha e aparece com a bandeja cheia de caixinhas brancas. Senta-se a meu lado e diz:
 
— Como eu não sabia do que você gostava, pedi a Tomás que trouxesse um pouco de tudo: arroz maluco, pão chinês, rolinhos primavera, yakisoba, salada chinesa, carne de vitela com broto de bambu, porco com champignon, lagostim frito, frango ao limão. E, de sobremesa, trufas. Espero que alguma coisa te agrade.
 
Surpresa com tudo o que ela descreveu, murmuro:
 
— Caramba, Emma. Aqui há comida para um regimento inteiro! Podia ter dito a Jane que ficasse para jantar.
 
— Não.
 
— Por quê? Ela parece simpática...
 
— E é. Mas eu queria ficar a sós com você. Precisamos ter uma conversa séria.
 
Solto o ar bufando e sussurro:
 
— Mentirosa. Estou dopada e sou presa fácil.
 
Em resposta, ela apenas sorri.
 
— Come.
 
Passo os olhos por todas as embalagens e me sirvo com o que me apetece. Tudo está com uma cara ótima, e o sabor é ainda melhor. O frango ao limão está divino!
 
— Onde Tomás comprou isso tudo? É de qual restaurante chinês?
 
— Quem preparou foi Xao-li. Um dos cozinheiros do hotel Villa Magna.
 
Fico olhando para ela, incrédula.
 
— Você está comendo autêntica comida chinesa. Não o que imagino que você coma de vez em quando.
 
Concordo com a cabeça, divertida com o que ela acaba de dizer. Ela e sua exclusividade. Emma está de bom humor e isso me deixa alegre. Estar com ela assim, num clima leve, é uma maravilha. Na hora da sobremesa, ela vai até a cozinha, traz umas trufas e coloca diante de mim.
 
Pega uma colher, parte um pedaço de trufa e põe na frente da minha boca.
 
Sorrio, abro a boca e, depois de fazer um monte de gestos, murmuro:
 
— Meu Deeeeeeus! Que delícia!
 
Emma sorri e me dá outro pedaço. Eu saboreio, me delicio e me preparo para pedir mais, até que ela se antecipa.
 
— Posso provar um pedaço?
 
Passa a trufa pelos meus lábios, aproxima-se da minha boca e a lambe com delicadeza por alguns segundos, depois diz, afastando-se de mim:
 
— Delicioso.
 
Olho para ela. Ela olha para mim e nós sorrimos.
 
Essa paquerinha boba é tão sensual que não quero ser sua amiga, quero ser algo mais. E, quando vou me lançar em seus braços, desesperada para que me beije, ela me interrompe:
 
— Regi, agora há pouco você disse que...
 
— Sei o que eu disse. Esquece.
Emma olha para mim... Pensa... pensa e finalmente continua sem alterar sua expressão:
 
— Não diga outra vez que eu te considero minha puta, por favor, Regina. Fico arrasada só de imaginar que você pensa isso de mim.
 
— Tá bom. Foi da boca pra fora. Desculpa.
 
Seus dedos percorrem meus lábios com delicadeza.
 
— Regina... você é especial pra mim, muito especial. — Nos olhamos fixamente durante alguns segundos. Por fim ela muda de tom e continua: — Você não pode ir embora sem me dar uma explicação e sem esperar que eu fique louca de preocupação. Quando for assim, prefiro que você bata na minha porta e diga “Tchau!” a ficar pensando que você está. Combinado?
 
— Se eu não fiz isso, foi porque eu não queria te chamar de babaca ou algo pior.
 
— Pode chamar, se quiser.
 
— Não me dá a ideia — brinco.
 
Seus lábios se comprimem.
 
— Por favor, não vá embora de novo sem me avisar.
 
— Tá booooom...! Mas que fique claro que eu pretendia voltar pra continuar com o trabalho.
 
— Não precisa.
 
— Não?
 
— Não.
 
— Por quê?
 
— Surgiu um problema.
 
— Você me demitiu? Mas se eu nem cheguei a te chamar de babaca!
 
Emma sorri e enfia mais uma trufa na minha boca. Para que eu fique quieta, suponho.
 
— Cancelei as reuniões da próxima semana e deixei pra mais adiante. Vou voltar pra Alemanha. Tenho algo a resolver lá e não dá pra esperar.
 
A trufa e a notícia se reviram no meu estômago.
 
Ela vai embora!
 
Penso em Amanda. Ela e ela juntas na Alemanha. O espinho do ciúme volta a me espetar.
 
— Vai voltar com Amanda? — pergunto, incapaz de manter a boca fechada.
 
— Não, acho que ela voltou hoje. E, em relação a Amanda, ela é apenas uma colega de trabalho e uma amiga. Só isso. Hoje de manhã ela me contou sobre a visita que fez ao seu quarto e...
 
— Você passou a noite com ela?
 
— Não.
 
Sua resposta não me convence.
 
— Brincou com ela esta noite?
 
Recosta-se no sofá e faz que sim com a cabeça.
 
— Isso sim.
 
Eu a imito. Mas meu humor mudou completamente.
 
— Gosto de brincar, não se esqueça disso. E você deveria fazer o mesmo.
 
Oh....! Que lindo escutar isso!
 
Fico tensa com seu comentário, mas não posso me queixar. Ela sempre foi clara a esse respeito, e eu não tenho como negar. Mas, como sou uma intrometida, insisto em interrogá-la:
 
— Foi bom?
 
— Teria sido melhor com você.
 
— Ah, claaaaaro...
 
— Você me leva à loucura e me dá muito prazer. Atualmente, é a mulher que eu mais desejo. Não duvide disso, pequena.
 
— Atualmente?
 
— Sim, Regina.
 
Gosto disso, mas ao mesmo tempo não gosto. Será que estou ficando louca ou sou masoquista e, além disso, uma desequilibrada?
 
— Entre todas as mulheres com quem você brinca — pergunto —, há alguma especial? Emma olha para mim.
Entende perfeitamente minha pergunta. Põe a mão na minha coxa e diz:
 
— Não.
 
— Nunca houve?
 
— Houve, sim.
 
— E?
 
Crava em mim seu olhar intenso.
 
— Já não faz parte da minha vida.
 
— Por quê?
 
— Regi... não quero falar disso... Mas quero, sim, que você saiba que só você conseguiu me fazer pegar um avião e ir desesperada à sua procura.
 
— Isso deveria me deixar feliz? — pergunto, sarcástica.
 
— Não.
Sua resposta volta a me desconcertar. Que jogo é esse que estamos jogando?
 
— Por que não deveria me deixar feliz?
 
Emma para e reflete bem antes de responder.
 
— Porque não quero te fazer sofrer.
 
Aquilo me deixa sem palavras. Não sei o que responder.
 
— Talvez seja eu quem esteja fazendo você sofrer — digo, com toda a petulância de que sou capaz.
Olha para mim... eu olho para ela...
 
Após um silêncio incômodo, meu celular toca. É Katheryn, minha amiga de Barcelona. Me levanto, atendo o telefone, digo a ela que estou em Madri e que daqui a pouco ligo de volta. Emma não se move. Limita-se a olhar para mim quase sem piscar. Meu braço está melhor. Já não está doendo, então volto ao ataque.
 
— Por que você acha que pode me fazer sofrer?
 
— Eu não acho... eu sei.
 
— Essa resposta não vale. Me diz: por quê?
 
Emma me observa em silêncio. Tenho a sensação de que estou prestes a explodir, como uma cafeteira italiana.
 
— Você é uma garota ótima que merece alguém melhor.
 
— Alguém melhor?
 
— Sim.
 
Me mexo inquieta. Sei do que ela está falando, mas quero que se expresse com clareza.
— Quando você se refere a alguém, é...
 
— Me refiro a alguém que cuide de você e que te trate como você merece. Talvez esse tal de Robin...
 
Escutar esse nome me deixa sem palavras.
 
— Não coloque Robin nessa história, ok?
 
Emma faz que sim com a cabeça. Um silêncio constrangedor volta a se instalar entre nós.
 
— Você merece alguém que te diga lindas palavras de amor.
 
— Você já faz isso, Emma.
 
— Não, Regi, não minto, você sabe que não faço isso.
 
Tento relaxar o ambiente, que está ficando pesado.
 
— Tá bom... você nunca me disse coisas carinhosas, mas me trata bem e vejo que se preocupa comigo. Por que está dizendo isso tudo?
 
— Regi... seja realista — Emma endurece a voz. — A palavra “sexo” te dá alguma pista? Sorrio com amargura. Ela percebe.
 
— Sim, claro que me dá pistas — digo, interrompendo o que ela estava a ponto de dizer. — Me indica que foi o sexo que nos uniu. Mas, quando duas pessoas se conhecem e se atraem, a primeira coisa que precisa surgir entre elas é química. E nós duas temos química.
— Com esse tal de Robin também rola química?
 
De novo menciona Robin. Isso me incomoda. Me enfurece. Por que não para de falar no Robin?
 
— Estou aguardando sua resposta, Regi— insiste, quando vê que eu não respondo.
 
— Vem cá, você pode esquecer o Robin de uma vez por todas? Isso é da minha vida particular. Por acaso eu te pergunto sobre sua vida particular? — Ela nega com a cabeça e continuo: — Não entendo a onde você quer chegar, não acho que eu tenha te pedido nada e...
 
— Não vou te dar nada que não seja sexo.
 
Sua resposta é irrebatível e minha respiração fica entrecortada. Não entendo suas mudanças de humor. Uma hora ela me olha com devoção e logo depois diz que entre nós só haverá sexo.
— Não tem problema, Emma. Sou suficientemente crescida para poder escolher com quem vou pra cama e com quem não vou.
 
— Claro, e espero que você faça isso mesmo. Mas eu não te dei opção.
 
— Ah, não?
 
— Não, Regina. Simplesmente gostei de você e te procurei. É o que sempre faço quando alguém me atrai.
Essa resposta me atinge em cheio.
 
— Babaca! — grito enfurecida. — Agora você está se comportando como uma verdadeira babaca.
 
Não se move. Não responde.
 
Emma se limita a me olhar e a aceitar meus insultos.
 
— Regi... pode me xingar se quiser, mas você sabe que é verdade. Fui eu que desde o primeiro dia que te vi provoquei tudo o que houve entre a gente. No arquivo. No restaurante aonde te levei. No quarto do meu hotel, quando fiquei assistindo enquanto outra mulher te possuía. Na casa de swing de Barcelona. Você nunca tinha feito nada disso. Mas eu te levei pro meu mundo. Admite, pequena.
 
— Mas Emma...
 
— Há pouco tempo você disse que não quer participar das minhas brincadeiras, esqueceu?
 
Está certa... de novo ela está certa.
 
— Gosto de tudo que faço com você — respondo, perdendo toda a razão que ela disse que tenho. — Seu jogo me atrai e...
 
— Eu sei, pequena, eu sei — diz, colocando a mão na minha perna. — Mas isso não me impede de pensar que não sou a mulher que te merece e que talvez outra pessoa te faça mais feliz. — Está claro em quem Emma está pensando, mas desta vez não toca no nome dele. — Olha, pequena, gosto de sexo, gosto de jogos eróticos e pervertidos, e adoro ver uma mulher sentir prazer. Neste momento, essa mulher é você, mas algo me diz que preciso parar, que você não deveria entrar no meu jogo ou...
— Não sou a santa que você supõe. Já tive várias relações e...
 
Meu comentário a faz sorrir e ela me interrompe:
 
— Regi... para mim você é uma santa, sim. O que você fez nas suas relações anteriores não tem nada a ver com o que quero que você faça comigo.
 
Meu estômago se contrai.
 
Só de pensar no que ela quer fazer comigo, fico com a boca seca.
 
— O que você quer fazer comigo?
 
— Tudo, Regina, com você eu quero fazer de tudo.
 
— Estamos falando só de sexo?
A pergunta a pega de surpresa. Seus olhos não me enganam. Sei que há algo que guarda para si e preciso saber o que é.
 
— Não. E esse é o problema. Não posso permitir que você fique muito envolvida comigo.
 
— Mas por quê?
 
Não responde.
 
Apenas encosta sua testa na minha e fecha os olhos. Não quer olhar para mim. Não quer responder. Sei que está acontecendo com ela o mesmo que comigo. Sente algo mais, mas não quer admitir.
 
Permanecemos assim por alguns minutos, até que aproximo minha boca da sua e sussurro:
 
— Eu te desejo.
 
Emma continua com os olhos fechados.
De repente, parece muito cansada. Não entendo o que está acontecendo com ela.
 
— Hoje não, pequena. Um movimento errado e posso acabar machucando seu braço.
 
— Mas nem está doendo mais... — explico.
 
— Regi...
 
— Eu te desejo e quero fazer amor com você. É pedir muito? Daqui a pouco você vai embora e, considerando tudo o que disse, não sei se quando você voltar estaremos juntas de novo.
Minhas palavras a comovem.
 
Consigo ver em seu rosto. Finalmente aproxima seus lábios dos meus e me dá um beijo doce e cheio de carinho.
 
— Posso ficar com você esta noite?
 
Claro. Quero que ela fique sempre.
 
Mas suas palavras e em especial seu olhar me soam a despedida e, inexplicavelmente, meus olhos se enchem de lágrimas. Emma as enxuga, mas não diz nada. Depois se levanta e me estende a mão. Eu a pego e vamos juntas até meu quarto. Ali dentro, ela tira a roupa e eu a observo. Emma é linda, forte e sensual. Seu porte é magnífico e muito gostosa, e isso umedece não apenas minha boca.
Quando ela já está nua, pega debaixo do travesseiro meu pijama do Taz, senta na cama e eu me aproximo. Deixo que tire minha roupa. Ela o faz lentamente e com ternura, sem parar de me olhar nos olhos. Quando estou completamente nua, Emma se levanta e me abraça. Me abraça e me aperta com delicadeza contra seu corpo, e eu sinto que, apesar de seu tamanho todo, ela se refugia em mim.
 
Estamos nuas. Pele com pele. Pulsação com pulsação. Ela baixa a cabeça à procura da minha boca. Eu a dou. Eu a ofereço. Sou sua sem que ela me peça.
 
Seus lábios saborosos encostam nos meus com uma delicadeza que me provoca arrepios, e depois faz aquilo de que tanto gosto. Passa a língua pelo meu lábio superior, em seguida o inferior, e, quando espero o ataque à minha boca, faz algo que me surpreende. Pega minha cabeça com as duas mãos e me beija com suavidade.
 
Sua língua molhada passeia com deleite por dentro da minha boca e eu deixo enquanto sinto entre as pernas minha própria umidade. Quando seu beijo doce e pausado está me tirando o fôlego, Emma se separa de mim e senta de novo na cama. Não para de me olhar e, atraída como um ímã, eu monto nela.
 
— Pequena... — diz com sua voz rouca. — Cuidado com seu braço.
 
Hipnotizada, minha cabeça concorda e sinto as pontas de seus dedos subindo por minha coluna e desenhando círculos em minha pele. Fecho os olhos e desfruto do contato e da delicadeza de seus desenhos. Quando os abro, sua boca procura a minha e me beija com carinho enquanto ela me aperta contra si. De um jeito calmo e pausado, ficamos uns dez minutos trocando mil carícias, até que minha impaciência me faz levantar sobre suas pernas e eu mesma pego uma de suas mãos e a puxo, enfio em mim seus dedos.
Minha carne se abre para receber seus dedos e eu solto um gemido ao sentir sua invasão. Emma fecha os olhos com força e sinto que se contrai para manter o autocontrole. Lentamente movo meus quadris pra frente e pra trás em busca de nosso prazer. Espero um tapa, um forte golpe que me atravesse, mas não. Emma apenas me olha e se deixa levar por meus movimentos como uma onda em calmaria.
 
— O que houve? — sussurro inquieta. — O que você tem?
 
— Estou cansada, querida.
Sua voz sensual me chamando de “querida”, suas palavras e a suavidade nelas, esse carinho todo que está tendo comigo me envolvem. Agora eu estou entendendo!
 
Ela está tentando fazer o que lhe pedi. Fazer amor. Nada de tapinhas. Nada de penetrações fortes. Nada de exigências. Mas neste momento, com ela dentro de mim, eu não quero isso. Quero ceder aos seus caprichos, às suas ordens. Quero que seu prazer seja meu prazer. Quero... quero... quero.
 
Comovida pelo controle que vejo em seu olhar, me deixo levar pelo prazer, decido aproveitar o que ela está fazendo por mim e convencê-la a mudar de ideia para que me possua como quero que ela faça. Levo sua boca aos meus seios. Emma aceita e os lambe com doçura, com ternura. O calor se apodera de mim, e ao mesmo tempo sinto que Emma deixou o momento por minha conta. Me reviro em busca do meu próprio prazer e consigo alcançá-lo. Respiro ofegante. Me aperto contra ela. Grito e solto um gemido. Seu corpo estremece enquanto o meu vibra enlouquecido porque seu lado bruto e selvagem assume o comando da situação e me penetra com avidez.
Preciso disso!
Desejo isso!
 
Quero que minhas vontades sejam as suas, mas Emma se recusa. Não quer entrar no meu jogo e, finalmente, quando o calor inunda meu desejo inflamado, apoio os braços em suas coxas e sou eu que me movo de forma brusca. Estou à procura do meu prazer, louca para encontrá-la. Quando o orgasmo vem, grito e me contorço em cima dela e, então, apenas então, Emma agarra minha cintura com a mão livre. Sinto a tensão de sua mão, ela me aperta uma só vez contra seu corpo e logo se deixa levar em silêncio. Permaneço abraçada a ela alguns minutos.
Não entendo por que se comportou desse jeito.
 
— Regi... é disso que eu estava falando. Para eu conseguir ter prazer no sexo, preciso de muito mais.
 
Me recuso a olhar para ela.
 
Me recuso a soltá-la.
 
Não quero que isso acabe e menos ainda perdê-la.
Mas, por fim, Emma se levanta da cama e me arrasta com ela. Pega um lenço de papel da mesinha de cabeceira e me limpa. Depois se limpa. Sem dizer nada, pega o pijama do Taz. Põe o short em mim e depois a blusa de alcinha. Ela veste uma calcinha boxer e permanece sem camisa, fica de top. Apaga a luz e me obriga a deitar ao seu lado. Desta vez me vira e me abraça por trás. Está preocupada em não machucar meu braço. Não falamos nada. Apenas tentamos descansar enquanto ouvimos o som das nossas próprias respirações em nossa despedida.





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