quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Peça-me o que quiser Capítulo 12

Capítulo 12
Às sete da noite, estou sentada no sofá da casa da minha irmã. 
Meu celular toca. Meus amigos me chamam para ir à praça Cibeles comemorar o título da Eurocopa. Mas não estou em clima de festa. Desligo o celular. Não quero saber de nada nem de ninguém. Estou triste, muito triste. Meu melhor amigo, com quem eu dividia todas as minhas tristezas e alegrias, me abandonou.
 
Choro... choro e choro.
 
Minha irmã me abraça, mas, inexplicavelmente, sinto que preciso do abraço de certa pessoa atrevida. Por quê?
 
Deixamos minha sobrinha na casa de uma vizinha. Não queremos que ela nos veja assim. Já foi bem difícil lhe explicar que o Trampo foi para o céu dos gatos, e não seria nada bom que ela agora nos visse aos prantos. Meu cunhado Whale chega e também fica triste. Nós três choramos. E, quando ligo para o meu pai e dou a notícia, já somos quatro. Isso tudo é muito triste!
 
Às nove da noite, ligo o celular e recebo uma ligação de Robin. Minha irmã tinha telefonado para ele, e agora ele está se oferecendo para vir a Madri me consolar. Rejeito a oferta e, após falar com ele por alguns minutos, encerro a ligação e desligo. Janto qualquer coisa e decido voltar para casa. Preciso enfrentá-la: a ela e à solidão.
Mas, quando entro, uma emoção estranha toma conta de mim. Tenho a sensação de que a qualquer momento Trampo, meu Trampinho, vai surgir em algum canto da casa e ronronar para mim. Fecho a porta e me apoio nela. Meus olhos se enchem de lágrimas e não me contenho mais.
Choro, choro e choro, e desta vez sozinha, que me cai melhor.
Com os olhos inchados e sem conseguir me controlar, ando até a cozinha. Observo a tigela de comida de Trampo e me abaixo para pegá-la. Abro a lixeira e jogo fora os restos de comida que havia ali. Coloco a tigela na pia e a lavo. Após enxugá-la, olho para ela sem saber o que fazer com isso. Deixo-a em cima da bancada. Depois pego o pacote de ração e os remédios. Junto tudo e volto a chorar como uma boba.
 
Alguns segundos depois, escuto a porta da rua sendo aberta. É minha irmã. Ela vem e me abraça.
 
— Eu sabia que você estaria assim, maninha. Vamos, por favor, pare de chorar.
 
Tento dizer que não consigo. Que não quero. Que me recuso a acreditar que Trampo não voltará, mas o choro me impede de dizer qualquer coisa. Meia hora mais tarde, eu a convenço a ir embora. Escondo suas chaves para que não leve com ela e não volte a me incomodar. Preciso ficar sozinha.
 
Quando ando até o banheiro para lavar o rosto, vejo a caixa de areia de Trampo e caio no choro outra vez. Sento no vaso, disposta a chorar por horas e horas, quando ouço batidas na porta. Convencida de que minha irmã se deu conta de que não está com as chaves e resolveu voltar, abro a porta, mas é Emma quem aparece na minha frente, com cara de poucos amigos.
O que ela está fazendo aqui?
 
Me olha surpresa. Sua expressão muda por completo e, sem se mexer, pergunta:
 
— O que houve, pequena?
 
Não consigo responder. Meu rosto se contrai e eu começo a chorar outra vez. Fica paralisada e então eu me aproximo dela, de seu peito, e ela me abraça. Preciso desse abraço. Ouço a porta se fechando e choro mais ainda.
 
Não sei por quanto tempo ficamos assim, até que de repente percebo que sua blusa está encharcada de lágrimas. Finalmente me afasto dela.
 
— Trampo, meu gato, morreu — consigo murmurar.
 
É a primeira vez que digo essa palavra terrível. Eu a odeio!
 
Minha cara se contorce de novo e eu caio em prantos outra vez. Ela me puxa para si e me leva até o sofá. Tento falar, mas os soluços de tristeza não me permitem. Só consigo articular palavras entrecortadas, enquanto meu corpo se contrai involuntariamente e eu vejo que Emma está desconcertada. Não sabe o que fazer. Por fim se levanta, pega um copo e o enche de água. Coloca nas minhas mãos e me obriga a beber. Cinco minutos depois, estou um pouco mais calma.
 
— Sinto muito, Regina. Sinto muitíssimo.
 
Faço que sim com a cabeça, enquanto aperto meus lábios e engulo a enxurrada de emoções que novamente imploram para sair de dentro de mim. Abraçada a ela, apoio minha cabeça em seu peito e sinto minhas lágrimas rolando descontroladas. Desta vez não estou soluçando, e o simples fato de sentir sua mão acariciando meu cabelo e meu braço me reconforta.
 
Por volta da meia-noite, a tristeza ainda me domina, mas já sou capaz de controlar meu corpo e minhas palavras, então me afasto um pouco e olho para ela.
 
— Obrigada — digo.
Sinto que se comove; seus olhos revelam isso. Aproxima sua testa da minha e sussurra:
 
— Regi... Regi... Por que você não me disse? Eu teria te acompanhado e...
 
— Eu não estava sozinha. Minha irmã ficou comigo o tempo todo.
 
Emma balança a cabeça, compreensiva, e passa seus polegares por baixo dos meus olhos para retirar as lágrimas.
 
— Você precisa descansar. Está exausta e sua mente tem que relaxar.
Faço que sim com a cabeça. Mas então me dou conta de que seu rosto está contraído.
 
— Você está bem? — pergunto.
 
Surpresa com a pergunta, ela olha para mim.
 
— Sim. Só estou com um pouco de dor de cabeça.
 
— Se você quiser, tenho aspirina no armário do banheiro.
 
Vejo que ela sorri. Em seguida me dá um beijo no alto da cabeça.
 
— Não se preocupe. Vai passar.
 
Preciso dormir, mas não quero que ela vá embora, então seguro sua blusa para tentar impedi-la de sair.
 
— Gostaria que você ficasse aqui comigo, apesar de saber que não dá.
 
— Por que não dá?
 
— Não quero sexo — murmuro, com uma sinceridade esmagadora.
 
Emma ergue a mão e toca meu rosto com uma ternura que nunca havia demonstrado antes.
 
— Vou ficar aqui contigo e não tentarei nada até você me pedir.
 
Isso me surpreende.
Levanta-se e me estende a mão. Eu a pego e ela me leva até o quarto. Assustada, vejo-a tirando os sapatos. Eu faço o mesmo. Depois tira a calça. Eu a imito. Deixa a blusa em cima de uma cadeira e fica vestida apenas com uma calcinha boxer preta e top. Sexy! Levanta as cobertas e se enfia nelas. Sem esquecer o que lhe pedi, tiro a blusa e o sutiã, e pego embaixo do travesseiro minha camiseta de alcinha e o short de dormir. É do Taz, do desenho animado. Vejo que ela sorri e faço cara de emburrada.
Depois de vestir o pijama, abro uma caixinha redonda, retiro um comprimido e o tomo.
 
— O que é isso?
 
— Um relaxante muscular — explico.
 
Instantes depois, me deito ao seu lado, e ela enfia o braço embaixo do meu pescoço. Chego mais perto e ela me beija na ponta do nariz.
 
— Dorme, Regina... dorme e descansa.
 
Sua proximidade e sua voz me relaxam, e, abraçada a ela, acabo adormecendo.

O despertador toca. Olho a hora: sete e meia. 
Estico o braço e o desligo. Espreguiço na cama e minha cabeça desperta rapidamente. Olho à minha direita e vejo que Emma não está. Minha mente recupera a consciência do que aconteceu e eu me sento na cama quando ouço uma voz:
 
— Bom dia.
 
Olho na direção da porta e ali está ela, vestida. Vejo sua roupa e me surpreendo ao perceber que o terninho e a blusa que ela está usando não são as mesmas da véspera. Ela se dá conta e responde:
 
— Tomás me trouxe essa roupa há uma hora.
 
— E a dor de cabeça? Passou? — pergunto.
 
— Passou, sim, Regi. Obrigado por perguntar.
Respondo com um sorriso triste. Levanto da cama sem ter consciência da minha cara péssima, toda despenteada, cheia de remela e com o pijama do Taz. Chego perto dela, fico na ponta dos pés e lhe dou um beijo na bochecha enquanto murmuro um ainda sonolento “bom dia”.
 
Vou à cozinha para dar o remédio de Trampo, até que vejo suas coisas em cima da bancada. Paro de repente e sinto Emma atrás de mim. Nem me deixa pensar. Me segura pela cintura e me vira.
 
— Já para o chuveiro! — ordena.
 
Quando saio do banheiro e entro no quarto para me vestir, Emma não está mais ali. Então me apresso a pegar uma calcinha e um sutiã da gaveta e os coloco. Depois abro o armário e me visto. Quando já estou vestida e apresentável, vou para a sala e a vejo lendo o jornal.
 
— Tem café fresco — diz ao olhar para mim. — Come alguma coisa.
 
Ela dobra o jornal, se levanta, vem beijar o alto da minha cabeça.
 
— Hoje você vai me acompanhar a Guadalajara. Tenho que visitar as sucursais de lá. Não se preocupe com nada. No escritório já estão todos avisados. Concordo com um gesto, sem ânimo para falar ou contestar. Tomo o café e, quando deixo a xícara na pia, sinto que Emma se aproxima por trás, mas desta vez não encosta em mim.
 
— Está melhor? — me pergunta.
Faço um gesto afirmativo, sem olhar para ela. Estou com vontade de chorar de novo, mas respiro fundo e consigo controlar o impulso. Tenho certeza de que Trampo se aborreceria se eu continuasse me comportando como uma fraca. Com meu melhor sorriso, me viro, tirando os fios de cabelo que caem sobre meus olhos.
 
— Quando quiser, podemos ir.
 
Ela faz que sim. Não me toca.
 
Não se aproxima de mim mais do que o estritamente necessário. Descemos até a rua e lá está Tomás, nos esperando com o carro. Entramos e a viagem começa. Durante o trajeto de uma hora, Emma e eu folheamos vários papéis. Sou a encarregada de manter atualizadas as sucursais da Müller, então conheço quase todos os chefes. Emma me explica que quer saber em primeira mão absolutamente tudo de cada sucursal: produtividade, número de funcionários que trabalham nas fábricas e o rendimento de todos eles. Isso me deixa nervosa. Com a taxa de desemprego tão alta hoje em dia, tenho medo de que comece a demitir a torto e a direito. Mas em seguida me esclarece que seu objetivo não é esse, mas sim o contrário: tentar fazer com que seus produtos sejam mais competitivos e dar início à expansão.
 
Às dez e meia chegamos a Guadalajara. Não me espanto quando noto que Charlotte Blio não se surpreende ao me ver. Cordial, nos cumprimenta e entramos todas juntas em sua sala. Emma e ela conversam sobre produtividade, deficiências da empresa e uma série de outras coisas. E eu, sentada num discreto segundo plano, tomo nota de tudo. À uma e meia, quando deixamos a sala, saio feliz ao ver que elas se entenderam. Recebo um torpedo de Robin. Respondo que estou bem, mas no íntimo me sinto culpada. Receber suas mensagens e estar com Emma faz com que eu me sinta mal. Mas por quê? Não tenho nada sério com nenhum dos dois.

No caminho de volta a Madri, Emma sugere que a gente pare e almoce em alguma cidadezinha. Gosto da ideia e digo que por mim tudo bem. Tomás para em Azuqueca de Henares e comemos um frango delicioso. Durante o almoço, ela recebe várias mensagens. Lê todas elas com as sobrancelhas franzidas e não responde. Às quatro da tarde seguimos viagem e, quando chegamos ao hotel Villa Magna, começo a ficar tensa. Emma percebe e segura minha mão.
— Não se preocupe. Só quero trocar de roupa pra passar a tarde contigo. Você tem algum plano?
 
Penso rápido e, por fim, digo que sim, que tenho um plano. Mas não lhe dou tempo de pensar nenhuma bobagem.
 
— Tenho um compromisso às seis e meia — aviso. — Se você não tiver nada melhor pra fazer, pode ir comigo. De repente você vai gostar. Aí posso te mostrar meu segundo emprego.
 
Minha resposta a surpreende.
 
— Você tem um segundo emprego?
 
— Tenho, pode-se chamar assim, apesar de que este ano é o último. Mas não vou te dizer do que se trata se você não vier comigo.
Ela sorri enquanto desce do carro. Eu a acompanho.
 
No elevador, o ascensorista nos cumprimenta e nos leva diretamente à cobertura. Ao entrarmos em seu quarto bonito e espaçoso, Emma deixa em cima da mesa a pasta com o notebook e se enfia no quarto que não usamos no dia em que ficamos aqui brincando. Seu telefone apita. Uma mensagem. Não consigo deixar de olhar o visor do aparelho, onde leio o nome “Betta”. Quem será? Segundos depois, o celular apita de novo e na tela aparece escrito “Marta”. Nossa, que mulher disputada!
Estou inquieta. Na última vez que estive aqui, ocorreu algo que ainda me deixa constrangida. Passo a mão pelo lindo sofá marrom-café e contemplo o jardim japonês, enquanto procuro controlar minha respiração. Se Emma sair nua do quarto e me chamar para brincar com ela, não sei se consigo dizer não.
— Quando você quiser, podemos ir — ouço uma voz atrás de mim.
 
Surpresa, me viro e a vejo de jeans preto e uma camisa solta vinho. Está bonita. Elegante, como sempre. E o melhor: está cumprindo direitinho a promessa de não encostar em mim. Mas sinto uma estranha decepção ao não ser arrastada pelo mar de luxúria a que ela costuma me levar.
 
Será que estou ficando louca?
 
Dez minutos depois, estamos no carro com Tomás a caminho da minha casa. Assim que entro, sinto saudades de Trampo. Emma percebe e me beija na cabeça.
 
— Vamos, são seis horas. Dá uma apressada ou chegaremos tarde.
 
Seu comentário me desperta. Entro no quarto. Coloco uma calça jeans, tênis e uma blusa azul. Prendo o cabelo num rabo alto e saio rapidamente. Sem precisar olhar para ela, sei que está me observando. Minha temperatura sobe quando estou perto dela. Pego a máquina fotográfica e uma mochila pequena.
 
— Vamos — digo.

Guio Tomás em meio ao trânsito de Madri e em poucos minutos estamos diante da porta de um colégio. Surpresa, Emma sai do carro e olha ao redor. Não parece haver ninguém. Sorrio. Pego sua mão com determinação. Entramos no colégio, e Emma fica ainda mais desconcertada. É divertido vê-la assim. Gosto de vê-la intrigada. Segundos depois, abro uma porta onde está escrito “Quadra” e uma algazarra imensa nos engole. Em seguida, dezenas de meninas com idade entre 7 e 12 anos correm na minha direção, gritando:
 
— Treinadora! Treinadora!
 
Emma me olha, admirado.
 
— Treinadora? Sorrio e dou de ombros.
 
— Sou a treinadora de futebol feminino do colégio da minha sobrinha — respondo antes que as meninas cheguem.
Emma abre a boca, surpresa, e logo sorri. Mas já não posso conversar com ela. As garotas chegaram e agora se penduram nos meus braços e pernas. Brinco com elas até que suas mães as tiram de cima de mim.
 
— Quem é ela? — ouço minha irmã dizer.
 
— Uma amiga.
 
— Sei, maninha, Tem certeza? — pergunta desconfiada. Eu apenas a olho e sorrio.
As mães das garotas ficam na maior agitação com a festa que está pra começar. Dou oi para todo mundo, e agora minha irmã não para de me pedir para ser apresentada a ela, e eu acabo cedendo. Que chata! Por fim, de braços dados com ela, vou até onde ela está sentada.
 
— Mary, essa é a Emma. — Ela se levanta para cumprimentá-la.
 
— Emma, essa é minha irmã, e essa fofura ao meu lado é minha sobrinha Grace. — Dão dois beijinhos.
 
— Por que você é tão alta? — pergunta minha sobrinha.
 
Emma olha para ela e responde:
 
— Porque comi demais quando era pequena.
 
Eu e minha irmã sorrimos.
 
— Por que você fala tão estranho? — Grace volta a perguntar. — Tem algum problema na boca?
 
Me preparo para responder, mas então ela se agacha até minha sobrinha e diz:
 
— É que sou alemã. Sotaque forte.
 
A menina olha para mim, achando graça. Mas eu penso “que droga”, esperando sua resposta sem conseguir detê-la.
 
— Que goleada os italianos deram em vocês outro dia, hein? Mandaram a Alemanha pra casa.
 
Constrangida, minha irmã puxa a menina. E Emma se aproxima de mim.
 
— Não dá pra negar que é sua sobrinha — sussurra em meu ouvido. — É tão direta quanto você ao dizer as coisas.
 
Nós duas rimos, e as crianças correm de novo na minha direção. Isso não é um treino, é uma festa de verão que as mães organizaram para encerrar as aulas. Durante uma hora e meia eu falo com elas, abraço as meninas para me despedir e tiro milhares de fotos com elas. Emma continua sentada na arquibancada e, a julgar por sua expressão, parece curtir o espetáculo.
 
As meninas me entregam um pacote, que abro e tiro de dentro uma bola de futebol feita de balas coloridas. Vibro tanto quanto elas. Adoro balas! Minha sobrinha olha para mim e me aponta sua amiga Alicia. Fizeram as pazes. Levanto o polegar e pisco o olho. É isso aí, minha garota! Passados alguns minutos e depois de beijar as mães e minhas pequenas atletas, todas elas deixam a quadra. Minha irmã e minha sobrinha também. Feliz pela despedida que fizeram para mim, me viro na direção de Emma, encho dois copos de Coca-Cola meio quente e me junto a ela.
 
— Surpresa? — pergunto, oferecendo um dos copos.
 
Emma aceita e toma um gole.
 
— Sim. É surpreendente.
 
— Tá bom, tá bom, não continue, senão vou acabar acreditando.
 
Nós rimos e olhamos uma para a outra. Não dizemos nada, e o silêncio nos envolve. Finalmente reúno forças e digo com sinceridade:
 
— Emma, minha vida é o que é: normalidade.
— Eu sei... eu sei e isso me preocupa.
 
— Te preocupa? Te preocupa que minha vida seja normal?
 
Seu olhar me atravessa.
 
— Sim.
 
— Por quê?
 
— Porque minha vida não é exatamente normal.
 
Devo ter feito uma cara ridícula. Não a entendo, mas, antes de lhe pedir explicações, ela continua:
 
— Regina, sua vida exige relação e compromisso. Palavras que, para mim, ficaram ultrapassadas há anos. Muitos anos. — Toca meu rosto e prossegue: — Gosto de você, sinto atração por você, mas não quero te enganar. O que me atrai é transar contigo. Gosto de te possuir, de te estar dentro de ti e ver sua cara quando você goza. Mas acho que muitas das minhas brincadeiras não vão te agradar. E nem estou falando de sado, falo só de sexo mesmo. Simplesmente sexo.
Seu olhar se fecha. Emma me desconcerta, mas não quero abrir mão de seus jogos.
 
— Sou uma mulher normal, sem grandes pretensões, que trabalha pra sua empresa. Tenho um pai, uma irmã e uma sobrinha que adoro e, até ontem, tinha um gato que era meu melhor amigo. Sou treinadora de futebol de um time feminino e não cobro nem um centavo por isso, porque essa atividade me faz feliz. Tenho amigos e amigas com quem curto assistir a jogos, viajar, ir ao cinema ou sair pra jantar. Agora você vai perguntar por que estou te contando tudo isso, né? — Emma balança a cabeça afirmativamente. — Não sou deslumbrante, não gosto de me vestir de forma provocativa, e nem mesmo tento fazer isso. Meus relacionamentos têm sido normais, nada de outro mundo. Sabe como é: a garota conhece o garoto, as vezes a garota, sorrio. Eles se sentem atraídos um pelo outro e vão pra cama. Mas ninguém nunca conseguiu me tocar do jeito que você conseguiu em poucos dias. Nunca pensei que o sexo pudesse me deixar tão louca. Nunca pensei que eu pudesse fazer o que estou fazendo contigo. Você me domina e me submete de tal maneira que não consigo dizer não. E não consigo dizer não porque meu corpo e eu inteirinha querem fazer tudo que você quiser. Odeio receber ordens, principalmente na cama. Mas a você, inexplicavelmente, eu permito que mande em mim. Nunca na vida eu poderia imaginar que uma desconhecida como você, que mal sabe meu nome, minha idade e qualquer coisa da minha vida, me exigiria sexo só de olhar pra mim e eu cederia. Ainda tenho dificuldade de entender o que aconteceu naquele dia no quarto do seu hotel e...
 
— Regi...
 
— Não, deixa eu terminar — exijo e coloco minha mão em sua boca. — Aquele episódio no seu quarto, goste eu ou não, me enfeitiçou. Reconheço que quando vi as imagens me incomodei. Mas, quando voltei a pensar nisso, naquele momento, fiquei muito excitada. Inclusive no domingo eu usei o vibrador pensando em você e tive um orgasmo maravilhoso ao imaginar o que ocorreu com aquela mulher no seu quarto. —Emma sorri. — Mas não curto estar com uma mulher, estando ao mesmo tempo com você. Não... não curto e, se você quiser brincar comigo outra vez nesse esquema, exijo que me consulte antes. Como eu disse no início desta conversa, não sou uma especialista em sexo, mas o que tenho vivido contigo me agrada, me excita, me deixa louca, e estou disposta a repetir.
 
— Mesmo sem compromisso da minha parte?
 
Tenho vontade de dizer que não, que a quero só para mim. Mas significaria perdê-la, e isso sim é algo que não quero.
 
— Mesmo sem isso.
 
Emma balança a cabeça, compreensiva.
 
— E, por favor... você já está liberada pra me tocar. Me beije e me diga alguma coisa porque estou morrendo de vergonha das coisas loucas que acabei de falar.
— Você está me deixando excitada, pequena.
 
Pego um leque na minha mochila e sorrio para ela, constrangida.
 
— Pois você não imagina como estou só de te falar essas coisas.
 
Emma me devolve o sorriso e tira o cabelo do rosto.
 
— Seu nome completo é Regina Mills. Tem 29 anos, um pai, uma irmã e uma sobrinha. Que eu saiba não tem namorado ou namorada, pisca pra mim. Mas sim pessoas que te desejam. Sei onde você mora e onde trabalha. Seus telefones. Sei que dirige muito bem uma Ferrari, que gosta de cantar, e que não tem vergonha de fazer isso na minha frente, e hoje fiquei sabendo que você é treinadora de futebol. Você gosta de morango, de chocolate, de Coca-Cola, de balas e de futebol, e, quando fica nervosa, seu pescoço se enche de brotoejas e você pode ter um troço. — Sorrio. — Pela maneira como tratava seu gato, sei que adora animais e que é leal a seus amigos. É curiosa e cabeça-dura, às vezes em excesso, e isso me irrita bastante, mas também é a mulher mais sexy e desconcertante que já encontrei na vida e reconheço que gosto disso. Até o momento, isso é o que sei sobre você, e é suficiente. Ah! E a partir de agora prometo te consultar sobre tudo o que se refere a sexo e a nossas brincadeiras. E, agora que você me liberou da minha promessa, vou te beijar e te tocar.
 
— Ótimo! — afirmo, erguendo os braços.
 
— E, já que resolvemos essa questão, preciso que você aceite a proposta que te fiz de te conhecer melhor e de você me acompanhar durante o tempo que ficarei na Espanha — acrescenta. — Esta semana vamos pra Barcelona. Tenho duas reuniões importantes na quinta e na sexta. O fim de semana, se você quiser, podemos dedicar ao sexo. Que tal?
 
— Seu nome é Emma Swan — respondo, sem me importar com sua frieza. — Você é alemã e seu pai...
 
Mas ela contorce o rosto e corta meu discurso.
 
— Como um favor pessoal, te peço que nunca mencione meu pai. Agora pode continuar. Essa ordem me deixa sem palavras, mas tento continuar:
 
— Você é uma mandona doentia e não sei mais nada a seu respeito, exceto que adora loucuras sexuais. Mesmo assim, gostaria de te conhecer melhor.
Sinto seu olhar penetrante, que me atravessa. Sei que ela tem um conflito interno entre se abrir comigo e continuar como estamos. Então se levanta e me puxa para si. Me beija e eu correspondo. Meu Deus, como eu precisava desse beijo! Poucos segundos depois, afasta seus lábios dos meus.
 
— Minha mãe é espanhola, por isso falo tão bem espanhol. Durmo pouco há anos. Tenho 30 anos. Não sou casada nem comprometida. Por enquanto, é isso que tenho a dizer. Emocionada por aquela mínima confidência, sorrio e, feliz como se tivesse ganhado na loteria, acrescento, fazendo-a rir:
 
— Senhora Swan, aceito sua proposta. A senhora já tem uma acompanhante.

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