sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Peça-me o que quiser Capítulo 18

Capítulo 18

Segunda-feira 
O despertador toca às sete da manhã.
 
Odeio acordar tão cedo!
 
Levanto e entro no banho sem muita vontade. Estou exausta. Não consegui dormir direito porque fiquei pensando na Emma. Quando volto ao quarto para me vestir, olho para a pequena luminária que ela me deu. Sento na cama e, com saudades, passo meus dedos pelo contorno de seus lábios e seu nome. Fico um bom tempo observando a luminária e pensando nela.
 
Por fim saio da cama. Tenho que ir trabalhar. Me visto e pego o carro.
 
Quando chego ao escritório, deixo a bolsa sobre a mesa e sinto alguém se aproximar de mim por trás. É meu colega Killian.
 
— Bom dia, linda.
 
— Bom dia.
 
Ao ver minha expressão de desânimo, chega ainda mais perto e me observa.
 
— Nossa... — murmura. — Icewoman te fez trabalhar mais do que deveria? Você está com uma cara péssima.
 
Seu comentário me desperta.
 
— Pois é — digo, sorrindo. — Ela é meio cruel no trabalho. Mas de resto é tranquilo.
 
De repente Killian repara no curativo do meu braço.
 
— Mas o que houve aí?
 
Sem vontade de lhe dar muitas explicações, digo entredentes:
 
— Me queimei com o ferro de passar roupa.
 
Killian faz que sim e pergunta:
 
— Quando você voltou de viagem?
— Sexta à noite. Cancelaram as reuniões que teríamos porque a senhora Swan precisou voltar pra Alemanha.
 
Killian me pega pelo braço e diz:
 
— Vamos. Te levo pra tomar café da manhã e você me conta o que está acontecendo.
 
No café, para justificar minhas olheiras, falo de Trampo. A simples menção de seu nome enche meus olhos de lágrimas e é um bom pretexto para que ele não descubra o que está havendo de verdade. Vinte minutos depois, ao terminarmos de comer, voltamos às nossas salas. Há muito trabalho pela frente.
 
Minha chefe me cumprimenta ao passar a meu lado e pede que vá até sua sala. Quer saber como foi tudo na viagem, e o que lhe digo parece deixá-la satisfeita. Em seguida, me enche de trabalho. É assim, me entupindo de tarefas, que ela me mostra o quanto ficou irritada com o fato de a chefe ter escolhido a mim, e não a ela, para acompanhá-la. Quando saio do escritório à tarde, estou exausta, mas decido ir à academia. Preciso relaxar e lá eu consigo.
Terça-feira Envio um e-mail para Emma... Não responde. Minha chefe me enche a paciência. Ela está insuportável. Qualquer dia vou mandá-la à merda e serei demitida na hora. Robin me liga. Nos falamos e ele insiste que eu antecipe a viagem a Jerez.
Quarta-feira Mando outro e-mail para Emma... De novo não responde. Hoje minha chefe escapou por pouco. Gerardo, o chefe do RH, chegou de repente e eu tive que me desdobrar para que ele não flagrasse minha fogosa chefe e Killian numa atitude não muito profissional na sala.

Quinta-feira Me recuso a escrever mais e-mails para Emma. Mas por fim não consigo resistir e mando uma mensagem com apenas uma palavra: “Babaca!”

Sexta-feira
O desespero tomou conta de mim.
 
Nenhuma notícia. Nenhum telefonema. Nada.
 
Não sei absolutamente nada sobre ela. E isso me faz concluir que de fato fui seu brinquedinho durante alguns dias, e tudo o que quero agora é esquecê-la.
 
Minha chefe é um saco. Hoje fez uma ceninha na frente de vários colegas. Não a mandei à merda porque o desemprego está alto, senão... ela ia saber quem é Regina Mills.
 
À tarde, minha amiga Azu me liga e marcamos um cinema. Vamos ver o filme Tengo ganas de ti e eu choro... Me acabo de tanto chorar. É lindo e triste ao mesmo tempo. Me sinto como Ginebra, uma guerreira lutadora e incompreendida, e totalmente apaixonada por uma mulher cheia de segredos.
 
Na saída, uns amigos que nos esperam riem de mim. Ninguém entende por que eu choro com os filmes, e sugerem que a gente vá beliscar alguma coisa nos bares da Plaza Mayor. A sugestão me deixa contente.
 
Entre uma bebidinha mais forte e outra, tomamos muitas cervejas e por fim consigo sorrir. Depois emendamos em outro bar e, às quatro da manhã, finalmente volto a ser eu mesma! Rio, me divirto e danço como uma louca, ainda que para isso eu tenha bebido o estoque de rum com Coca-Cola de toda a Madri.
 
Na manhã seguinte, o barulho da porta me acorda.
 
Tapo a cabeça com o travesseiro, mas o barulho continua e continua... Irritada, me levanto e atendo o interfone.
 
— Quem é?
 
— Oi, tia. Sou eu e a mamãe.
 
Era o que me faltava.
 
Minha irmã!
 
Abro a porta para elas com má vontade. Começar o dia aturando o pessimismo da minha irmã me deixa desesperada, mas não tenho escapatória. Minha pequena sobrinha se atira em meus braços assim que me vê, e minha irmã, ao reparar em meu estado, passa batido e liga logo a tevê. Procura o canal infantil e, quando Bob Esponja aparece na tela, minha sobrinha desaparece do nosso lado. Como gosta desses desenhos ridículos...
 
Entro na cozinha, feito um zumbi, preparo um café e minha irmã me segue. Sua expressão é séria, e eu já imagino que ela vai me encher de perguntas. Vejo como está tensa.
 
— Primeiro, me devolve a cópia das chaves da tua casa.
 
Com vontade de matar Mary, vou até o aparador, pego as chaves e ponho na sua mão.
 
— Segundo — continua —, você é uma péssima irmã. Te liguei milhões de vezes nos últimos dias e nada de você ligar de volta. E se tivesse acontecido alguma coisa grave comigo?
 
Não respondo. Ela tem razão. Às vezes sou muito avoada e admito que dessa vez exagerei.
 
— E terceiro: que diabos aconteceu para você estar com essa cara péssima?
 
— Mary, ontem à noite eu saí com uns amigos e só fui dormir às sete da manhã. Estou destruída.
 
Minha irmã se serve de outro café e senta na minha frente.
 
— Bom, a noite deve ter sido maravilhosa. Sua cara diz tudo.
 
— Foi, sim — murmuro, enquanto pego uma aspirina. Estou precisando.
 
— Foi com aquela mulher com quem você está saindo?
 
— Não.
 
Faz cara de decepção, e eu mais ainda ao pensar em Emma. Minha irmã não gosta de Azu e meus amigos. Acha coisa de marginal usarem piercing na sobrancelha e terem tatuagens. Está muito enganada, mas, como já tentei explicar várias vezes e não deu em nada, deixo pra lá. Que ela pense o que quiser.
 
— Manaaaa... não me diga que a saída de ontem foi com aqueles seus amigos, porque senão vou ficar irritada.
 
Dou de ombros e respondo:
 
— Então pode ficar irritada. Assim você terá dois trabalhos: se irritar e se “desirritar”.
 
— E Emma? Esse é o nome dela, né?
 
— É.
 
— Você continua com ela?
 
— Não.
 
— Por que não?
 
— O que você tem a ver com isso, Mary?
 
— Poxa, Regina, ela parecia ser uma pessoa legal. Apesar de eu não entender muito bem o fato de você sair com mulheres, gostei de Emma. Como você deixou escapar?
 
Esse é um comentário típico do meu pai, mas, não satisfeita e apesar de eu olhar para ela com minha expressão de “Cala a boca senão te dou um tapa!”, ela continua:
 
— Eu realmente não te entendo, Regina. Robin é louco por você, e você não está nem aí pra ele, e agora você ainda perde aquela mulher interessante, decente e com cara de séria que te dá a maior bola. —Espera! Eu disse interessante?! Ai meu Deus devo estar ficando louca...
Rio com o pequeno ataque de minha irmã. Coitada. Mas não querende lhe dar corda, a interrompo.
— Que saco... quer calar a boca?
 
Minha irmã balança a cabeça, me reprovando. Mau sinal.
 
— Não. Não vou calar a boca. Fico dias sem te ver e quando ligo você não atende. E hoje eu venho te ver e te encontro feito um trapo por ter saído com seus amiguinhos. E ainda por cima não está mais com Emma.
 
Solto o ar bufando. Bufando e bufando.
 
E, quando acho que já esgotei todos os meus suspiros e paciência, olho para a chata da minha irmã.
— Olha só, Mary, não quero falar sobre Emma, nem sobre meus amigos, nem sobre Robin , nem sobre nada. Não estou nem aí pra nada disso! Estou tendo uma semana infernal no trabalho e ontem saí porque precisava me divertir e esquecer todas as coisas que estão me estressando. E agora vem você e fica gritando como uma louca, sem querer entender que minha cabeça está explodindo... E, como você não cala a boca, juro que sou capaz de fazer uma coisa horrível.
 
Minha irmã mexe o café, toma um gole e, fazendo cara de coitadinha, começa a chorar.
 
Ótimo...! Era o que me faltava!
 
Por fim, abandono a cadeira e vou abraçá-la.
 
— Ah... desculpa, Mary. Desculpa por ter gritado desse jeito. Mas você já sabe que não suporto que você se meta na minha vida e...
 
— Preciso te contar uma coisa e não sei como, maninha.
 
A mudança de assunto me desconcerta.
 
— Deixa eu ver... outra vez a história do Whale estar enganando você?
 
Minha irmã enxuga os olhos. Levanta-se. Observa minha sobrinha de longe e, aproximando-se de novo de mim, murmura:
 
— Regina. Te liguei mil vezes pra te contar.
 
Fico concordando com a cabeça. Vi suas chamadas perdidas, mas decidi ignorar. Me sinto péssima.
 
— Eu... eu não sei por onde começar — cochicha. — É tudo tão... tão...
Isso me deixa nervosa, e meu pescoço começa a coçar. Será verdade que o idiota do meu cunhado está traindo minha irmã? Convencida de que dessa vez o assunto é sério, pego as mãos dela.
 
— Tão o quê?
 
Minha irmã tapa o rosto com as mãos e quero morrer de angústia. Pobrezinha. Sou pior que uma bruxa. Conheço ela e sei que está sofrendo.
 
— É que tenho vergonha.
 
— Deixa disso. Sou sua irmã.
 
Mary fica vermelha como um tomate. Leva a mão ao pescoço, abaixa a voz e cochicha:
 
— Whale e eu conversamos seriamente na semana passada, quando ele voltou de viagem. — Balanço a cabeça e faço cara de compreensão. Esse é um bom começo. — Me disse que não tem amante nenhuma e que gosta de mim, mas...
 
— Mas?
 
— No dia seguinte, quarta-feira da semana passada, quando Grace foi dormir, ele fechou a porta da sala e... e... colocou um filme de mulher vadia.
 
— Um filme pornô?
 
— Sim. Ai, meu Deus...! Você não imagina as coisas que vi!
 
Solto uma risada. Não consigo evitar.
— Ah, Mary, não seja careta. Pessoas transando.
 
— ... E trios e orgias e...
 
— Caraca... pelo visto o Zezinho te deixou bem informada.
 
Ambas caímos na gargalhada.
 
— Reconheço que isso fez minha libido ir a mil e... bem... — sussura. — Uma coisa levou à outra e fizemos amor na sala. No chão!
 
— Não acredito!
 
— Exatamente isso que você ouviu.
 
Achando graça no fato de que, para minha irmã, fazer sexo no chão é algo proibido, digo:
 
— Bom... e que tal?
 
Ela sorri. Morre de vergonha e murmura sem olhar para mim:
 
— Ah, Regina...! Foi como na época em que éramos namorados. Paixão em estado puro.
Pego suas mãos e a faço olhar nos meus olhos.
 
— Isso é maravilhoso. Não é o que você queria? Paixão?
 
— Sim.
 
— Então qual é o problema? Por que me olha com essa cara?
 
— Porque a história não termina aí. No sábado eu quis lhe fazer uma surpresa. Falei com a mãe de Alicia e levei Grace para dormir na casa dela. Preparei um jantarzinho, fui ao cabeleireiro e... e...
 
— E?
 
— Ai, querida, tenho até vergonha de falar.
 
Faço cara de impaciência e solto um longo suspiro.
 
— Tá bom, se você vai me dizer que assistiu a outro filme pornô com seu marido e que vocês transaram encostados na porta, o que há de errado?
 
Minha irmã põe a mão no peito.
 
— Regina... é que não só fizemos no sofá e no chão, mas também em cima da máquina de lavar e no corredor.
 
— O Whale tá que tá... Que garanhão você tem em casa, hein?
 
Por fim minha irmã solta uma gargalhada.
 
— Ele me comprou uma lingerie vermelha muito sexy e me fez vestir.
 
— Que máximo, Mary...
 
— E depois... quando eu menos esperava, me deu outro presente e...
 
— E?
 
Mary bebe um gole de seu café. Pega seu leque, se abana e acrescenta, vermelha como um tomate:
 
— Me deu um... um... um... vibrador. Pronto, falei! Disse que quer que a gente brinque na cama, que nossa relação precisa disso e que devemos realizar fantasias.
 
Solto uma risada outra vez. Não consigo me conter!
Minha irmã olha para mim e, chateada, murmura:
 
— Não sei qual é a graça. Estou te dizendo que...
 
— Desculpa... desculpa, Mary. — Fico séria e abaixo a voz, assim como ela. — Acho muito legal que Whale tenha te dado de presente um vibrador e que vocês fantasiem. Se isso vai apimentar a vida sexual de vocês, ótimo! Fantasiar é bom... A imaginação tem que servir para alguma coisa, não acha?
 
Ela concorda, vermelha como um tomate.
 
— Ai, Regi...! Fico vermelha só de lembrar as coisas que Whale me dizia.
 
Tento entendê-la. Tento imaginar o que meu cunhado lhe dizia, e isso me faz sorrir. No fim das contas, os seres humanos são mais parecidos uns com os outros do que pensam. Sussurro no seu ouvido.
 
— Tudo bem... não precisa me contar o que ele te dizia, mas que tal o Dom Vibrador?
 
— Regina!
 
— Você lhe deu um nome?
 
— Maninha, por favor!
 
— Ah, vai... você gostou ou não?
 
Minha irmã fica como um tomate de novo, mas, ao ver que continuo olhando para ela à espera de uma resposta, faz que sim com a cabeça.
 
— Ah, Regina, foi maravilhoso. Nunca pensei que um aparelhinho desses que vibram e funcionam com pilhas juntos com a imaginação pudesse ter tanta utilidade. Só posso dizer que desde sábado não paramos mais. Estou assustada. Será que tanto sexo assim faz mal? E vou te dizer que até minha virilha está doendo...
 
Achando graça da confidência que minha irmã acaba de fazer, eu rio de novo. Não consigo evitar.
 
— Diga a ele que dê um vibrador para o clitóris — cochicho. — É fantástico!
 
A cara da minha irmã agora é impagável.
 
Eu... sua irmãzinha, acabo de lhe revelar que nada do que ela me contou é novidade para mim. Deixa o leque em cima da mesa.
 
— Mas... desde quando você usa essas coisas?
 
— Há muito tempo — minto.
 
— E por que você nunca me disse?
 
Assustada com a pergunta, fico olhando para ela.
 
— Convenhamos, Mary, o fato de que você precisa me contar suas intimidades na cama com seu marido não significa que eu precise contar as minhas. Eu uso essas coisas e ponto. E agora, se você descobriu que te excitam, te deixam com tesão ou como queira chamar, aproveite o momento e tenho certeza de que sua vida será mais feliz.
 
Minha irmã faz que sim e toma outro gole de café.
 
— Você é minha melhor amiga e eu precisava te contar isso tudo. Eu sabia que você não ficaria escandalizada e que me incentivaria a continuar esses joguinhos sexuais com Whale.
Sorrio, pego sua mão, e ela sorri também. Às vezes eu é que pareço a irmã mais velha, e eu gosto disso.
 
— Essas coisas, como você chama, são brinquedos eróticos e tudo bem usar — cochicho, finalmente, em meio a risinhos. — E sim... eu também brinco com eles e com a imaginação. Acho que noventa por cento do planeta faz o mesmo, mas poucos admitem. Você sabe muito bem que sexo é tabu e, apesar de todo mundo fazer, ninguém fala disso. Mas o sexo é o sexo e devemos aproveitar tudo dele.
 
Volto a pensar em Emma e, com um sorrisinho bobo, vou em frente:
— Lembro que a pessoa que me deu meu primeiro brinquedinho me disse que, quando uma pessoa te dá um objeto desses , é porque deseja brincar com você e curtir. Então, irmãzinha, aproveite, pois a vida é curta!
 
De repente, minha irmã explode numa gargalhada e eu também. Ainda não consigo acreditar que estou falando de vibradores com minha irmã e usando a palavra “brincar” nesse contexto. Até que minha sobrinha entra na cozinha.
 
— Do que vocês estão rindo?
 
Inesperadamente, Mary pisca um olho para mim e diz, enquanto continuo rindo:
 
— De como eu e sua tia adoramos brincar.
 
Nessa noite, após uma tarde de risadas e confidências com a agora safadinha da minha irmã, ligo o computador assim que as duas vão embora e fico boquiaberta. Um e- mail de Emma! Nervosa, abro a mensagem e vejo uma foto minha da noite anterior, dançando como uma louca com os braços para o alto. Isso me dá raiva. Por acaso ela voltou a me espionar? Mas minha irritação aumenta, quando leio o texto do e-mail.


De: Emma Swan
21 de julho de 2012 08:31
 
Para: Regina Mills
 
Assunto: Linda quando dança
 
Gostei de te ver feliz e mais ainda de saber que você está cumprindo o prometido. Atenciosamente, Emma Swan (a babaca)
O sangue me sobe à cabeça. Ter consciência de que ela fica me vigiando, de que leu a mensagem em que a insultei e de que não me respondeu — isso tudo me irrita a um ponto indescritível. Por que não me liga? Por que não responde meus e-mails? Por que fica me seguindo? 
Penso em responder. Começo a digitar, escrevendo um monte de grosserias. Mas não... me recuso a lhe dar esse gostinho e deleto a mensagem em um só toque. Por fim, desligo o computador e, morrendo de raiva, vou para a cama. Mais uma noite em claro.
No sábado à tarde decido sair de novo com meus amigos. Bebemos umas cervejas no bar do Asensio, jantamos numa pizzaria e depois seguimos para a boate Amnesia. Dou uma olhada à procura da detetive que Emma com certeza pôs na minha cola. Mas, claro, não descubro ninguém. Apenas gente se divertindo como eu.
 
Quando já faz mais de uma hora que estou lá, Robin aparece. Olho para ele surpresa e ele sorri para mim.
— O que você está fazendo aqui?
 
— Jerez sem você é muito chato.
 
Estranhando sua presença, volto a olhar para ele.
 
— Robin... você está se iludindo comigo. Nunca menti pra você e...
 
Põe um dedo na minha boca para me fazer ficar quieta.
 
— Eu sei, mas não consegui me segurar. Vamos... venha ao meu hotel. Temos que conversar.
 
Me despeço dos meus amigos e de Azu e prometo voltar logo. Sei que voltarei. A conversa que vou ter com Robin vai ser rápida e na certa não muito agradável.
Quando chegamos ao hotel, podemos sentir a tensão no ambiente. Me recuso a subir até seu quarto. Vamos ao bar e pedimos uma bebida. Conversamos durante uma hora, discutimos, deixamos claros nossos sentimentos. E, quando por fim tudo parece esclarecido e eu me preparo para ir embora, ele me pega pelo braço.
— Me dá uma chance, por favor. Você mesma acabou de dizer que não sabe se quer algo mais. Deixa eu te mostrar de uma vez por todas o que sou capaz de te dar. Você é linda, eu te adoro, sua animação para fazer as coisas me enlouquece, e quero que saiba que eu faria tudo por você.
Preciso de carinho e suas palavras são, nesse momento, um alívio para minhas feridas. Não posso deixar de pensar na desgraçada safada da minha chefe. Fecho os olhos, e o olhar possessivo e misterioso de Emma Swan aparece. Sem saber por quê, eu beijo Robin. Eu o beijo com tanto erotismo e vontade que até eu mesma me surpreendo.
 
Sem hesitar, Robin me arrasta até o elevador. Sei o que ele quer. Sei aonde me leva e eu deixo. Subimos até seu quarto. Por alguns minutos nos beijamos, enquanto eu o deixo percorrer meu corpo com as mãos. Mas me sinto uma traidora, não consigo parar de pensar em Emma. Quando ele começa a levantar minha saia jeans até a altura dos quadris, eu suspiro e, para sua surpresa, pego sua mão e o incentivo a me tocar.
 
Excitado com minha empolgação, Robin me joga na cama, deita em cima de mim se esfregando. É cauteloso. Sempre foi assim. Seu jeito de fazer amor não tem nada a ver com o de Emma. No sexo, Robin é devagar e delicado. Emma é rude e possessiva.
 
Ele homem, ela mulher. Ambos com formas diferentes de fazer amor.
Meu coração bate com força. Penso em Emma e isso me excita. Tenho certeza de que, se ela visse o que estou fazendo, ficaria tão excitada quanto eu. Seu jogo se transformou no meu. Neste momento, embora seja Robin quem me toca, é Emma quem me possui.
Pego o celular e, disfarçadamente, tiro algumas fotos enquanto ele me beija. Enlouquecido pela minha entrega, ele tira minha calcinha e se surpreende ao me ver de pernas abertas para ele. Sem demora, me lambe e, instantes depois, meu gemido toma conta do quarto enquanto deixo que ele me coma, me chupe, me penetre com seus dedos.
 
Estou de olhos fechados e sinto o olhar de Emma. Seus olhos ardentes me censuram, mas ao mesmo tempo são cheios de desejo. Não quero abrir os olhos. Não quero ver Robin. Quero continuar de olhos fechados e sentir a presença de Emma sobre mim.
 
De repente, Robin para e abro os olhos. Abriu a calça e está colocando um preservativo.
 
— Tem certeza?
 
Faço que sim com a cabeça. Não consigo falar.
 
Ele sorri, mas não diz nada. Instantes depois, com delicadeza, começa a entrar em mim. Um pouco... mais um pouco... mais um pouco, mas a impaciência me domina e sou eu quem vai em sua busca. Pressiono meus quadris e me encaixo nele, desejando que goze em mim. Esse ataque o pega de surpresa. Escuto-o suspirar. Ele me agarra pela cintura e move-se para dentro e para fora. Gosto disso. Isso... continua... continua... mas preciso de mais. Minha vagina se abre para recebê-lo, mas ele não é quem eu desejo. Meus músculos se contraem, à espera de mais profundidade, mais voracidade, mas Robin, após várias investidas, goza e cai sobre mim.
 
Fecho os olhos e sinto vontade de chorar. Quero Emma. Quero fazer sexo com ela e que ela me faça estremecer. O que até um mês atrás era ótimo com Robin ou qualquer outra pessoa; agora, depois de Emma, ficou sem graça e monótono. Preciso de mais, e só Emma sabe me dar o que quero.
 
Sinto a cabeça de Robin em meu pescoço. Ouço-o respirar forte pelo esforço. Quando se afasta de mim, pergunta se estou bem. Minto e digo que sim. Não quero magoá-lo.
 
Ele me ajuda a me levantar e vou até o banheiro. Fecho a porta e jogo água no rosto, me olho no espelho e sussurro ao pensar em Emma:
 
— O que você fez comigo, sua babaca?
 
Depois de me lavar, saio do banheiro e encontro Robin sentado numa cadeira. Nos olhamos.
 
— Estou indo.
 
Sua expressão se contrai.
 
— Não, Regina... fique aqui.
Consciente de que estou me comportando como uma pessoa sem caráter, como uma idiota filha da puta, me aproximo e lhe dou um beijo na boca.
 
— Por favor, Robin, continue com sua vida e me deixe continuar com a minha. Nos vemos em Jerez.
 
Dito isso, me viro e saio. Quando fecho a porta atrás de mim, fecho os olhos e suspiro. Sinto-me péssima. Ando até o elevador e, já na rua, ligo para minha amiga Azu. Me diz onde estão e eu corro para lá. Preciso encher a cara e esquecer o que acabei de fazer.
Quando chego à boate Amnesia, meus amigos me perguntam por Robin. Minha cara demonstra que não quero falar disso. Respeitam meu silêncio e não perguntam mais. Meu querido amigo Graham me oferece uma Coca-Cola.
— Bebe... Vai se sentir melhor.
Uma hora depois, já estou mais relaxada. Graham conseguiu me fazer sorrir e só me deixou tomar Coca-Cola. Segundo ele, o álcool não é bom para curar a tristeza. Enquanto todos conversamos, fico observando seu braço. Sua tatuagem me chama a atenção. Então eu o seguro perto de mim.
 
— É nova?
 
— É, sim. Gostou?
 
Concordo com um gesto.
 
Sempre gostei de tatuagens e de pessoas tatuadas.
 
Algo que Emma não tem de jeito nenhum. Sua pele é suave e sem marcas, ao contrário de Graham, que é tatuador e adora ter a pele cheia de desenhos. De repente, tenho uma ideia.
 
— Graham, você me faria uma tatuagem?
 
Ele me crava seus olhos amendoados.
 
— Claro. Quando você quiser.
 
— Quanto você me cobraria?
 
Graham sorri.
 
— Nada, meu amor. Pra você eu faço de graça.
 
— Sério?
 
— Claro que sim, sua boba.
 
— Você faria agora?
 
Surpreso, deixa sua cerveja no balcão e repete:
 
— Agora?
 
— É.
 
— São cinco da manhã.
 
Sorrio. Mas, muito a fim de ter uma tatuagem, chego mais perto dele.
 
— Não acha que é uma hora perfeita pra isso?
 
Não preciso dizer mais nada. Graham pega firme na minha mão e saímos. Subimos na moto e vamos até seu estúdio. Ao entrar, acende as luzes e olho ao redor. Centenas de desenhos pendurados nas paredes, o trabalho de Graham ao longo de todos esses anos. Tribais, nomes, caricaturas, dragões...
 
— Bem, Dona Impaciência. Que tatuagem você quer?
 
Sem me mexer, continuo observando as fotos até que vejo algo e então sei exatamente o que quero. Ele se surpreende quando digo o que é, mas procuramos em seus moldes o que eu quero. Decidimos o tamanho. Não muito grande, mas o suficiente para ser notada. Graham começa a trabalhar no molde. Vinte minutos depois, olha para mim.
 
— Já está pronto, minha linda.
 
Nervosa, faço que sim com a cabeça. Ele me mostra. Observo seu desenho e sorrio. Me convida a me sentar na maca onde faz seus trabalhos.
 
— Onde você quer a tatuagem?
 
Hesito por alguns instantes. Quero que a tatuagem seja algo muito íntimo, que só quem eu queira possa ver e que sempre... sempre me faça lembrar dela. De Emma. Por fim, convencida do que quero, aponto o dedo para meu púbis depilado e sussurro:
 
— Aqui, quero que você tatue aqui.
 
Graham sorri. Eu também.
 
— Menina, vai ser uma tatuagem muito sensual. Você sabe disso, né?
 
— Sim, eu sei — respondo.
 
Graham faz que sim e pergunta, enquanto pega uma agulha:
 
— Tem certeza, Regi?
 
— Tenho — afirmo determinada.
 
— Tudo bem, linda. Então deite aí.
 
Enquanto conversamos e escutamos Bon Jovi, Graham trabalha sobre meu corpo. As picadas da agulha são dolorosas, mas nada se compara com a dor que sinto em meu coração por culpa de Emma. Por volta das sete da manhã, Graham larga a agulha na mesinha e lava minha pele com água.
 
— Prontinho, linda.
 
Levanto, ansiosa para ver o resultado. De calcinha, ando até o espelho e meu coração se contrai quando leio em meu púbis: “Peça-me o que quiser.”
 
Ao chegar em casa, em torno das oito da manhã, estou exausta e um pouco dolorida por causa da tatuagem. Mas abro o notebook. Passo as fotos que tirei com o celular e fico decidindo qual delas enviar. Depois abro meu e-mail e escrevo:
De: Regina
22 de julho de 2012 08:11
Para: Emma Swan
Assunto: Noite agradável
 
Para que você veja que estou me divertindo e fazendo o que te prometi.
Atenciosamente, Regina Mills

Anexo à mensagem uma foto em que estou deitada na cama e Robin me beija. Nem menciono a tatuagem. Ela não merece. Quero que se sinta mal. Que veja que minha vida continua mesmo sem ela. Após ler a breve mensagem umas cem vezes, aperto “enviar”. Fecho o computador e vou dormir.

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