sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Peça-me o que quiser Capítulo 33

Capítulo 33    
Ao despertar de manhã, custo a reconhecer onde estou, mas o cheiro de Emma está em tudo. Quando abro totalmente os olhos, ela está deitada a meu lado.
    — Bom dia,
linda.
     Sorrio, encantada com sua presença na cama a estas horas.
    — Bom dia,
amor.
    Emma chega mais perto para me beijar na boca, mas a detenho. Ela fica toda sem jeito, então digo:
    — Me deixe escovar os dentes, pelo menos. Ao acordar, tenho nojo de mim mesma.
    Sem esperar resposta, saio da cama, vou para o banheiro escovar os dentes correndo. Sem me preocupar com meu cabelo, volto para a cama e abraço Emma.
    — Agora sim. Me beije agora.
    Ela não se faz de rogada. Me beija, enquanto suas mãos tocam meu corpo, e eu, entusiasmada, me aninho no seu. Vários beijos depois, digo:
    — Olha, querid
a, estive pensando...
    — Hum, que perigo! — zomba Emma.
    Achando graça, dou um beliscão na sua bunda, e Emma sorri.
    — Como estou aqui, pensei que não precisa mais contratar ninguém pra ficar com o Flyn, quando você sai. O que acha?
    E me olha, me olha, me olha.
    — Tem certeza, pequena?
   — Sim, grandalhona. Tenho certeza.
    Durante um bom tempo, falamos, abraçadas na cama, até que de repente a porta se abre. Adeus, intimidade!
    Flyn aparece com a cara amarrada. Não se surpreende ao me ver. Imagino que Emma já lhe disse que eu estava aqui. Sem me olhar, se aproxima da cama.
    — Ti
a, seu celular tá tocando.
    Emma me solta, pega o celular e, levantando-se da cama, vai até a janela. Flyn continua sem me olhar, mas estou disposta a conquistá-lo.
    — Oi, Flyn, você tá todo bonitão hoje.
    O menino me olha. Sim, sim, passeia os olhos puxados pela minha cara e diz:
    — Você tá com cabelo de louca.
    Aí se vira e vai embora. Eita, chinesinho! Ai, não, coreano-alemão.
    Não há dúvida, o baixinho vai ser duro na queda. Levanto e, no espelho do banheiro, comprovo: realmente tenho um cabelo de louca! Molhou ontem à noite e agora não está nem ondulado nem liso: está todo desgrenhado.
    Emma entra no banheiro, me abraça por trás e, enquanto a observo pelo espelho, ela apoia o queixo sobre minha cabeça.
    — Precisa se vestir, pequena. Estão nos esperando.
    — Como? — digo espantada. — Quem está nos esperando?
    Mas Emma não responde e me dá um novo beijo na cabeça antes de sair.
    — Te espero na sala. Anda logo.
    Sozinha, me olho no espelho. Emma e seus segredinhos! Por fim, decido tomar uma chuveirada. Ao entrar de novo no quarto, sorrio ao ver que Emma deixou sobre a cama meus jeans secos e minha camisa. Que fofo! Me visto e prendo o cabelo num rabo de cavalo. Quando chego à sala, Emma se levanta e me entrega um casaco azulão que não é meu, mas é do meu número.
    — Teu casaco continua úmido. Vista este. Vamos.
    Não tenho tempo de perguntar aonde vamos. Flyn surge de casaco, gorro e luvas. Sem abrir a boca, vou para a garagem de mãos dadas com Emma. Embarcamos no Mitsubishi e saímos. Ao passarmos pelas latas de lixo, na rua, olho com curiosidade e vejo um cachorro deitado numa delas, que está caída na neve. Me dá peninha.
    Pobrezinho, que frio deve estar sentindo!
    Ligamos o rádio. Mas, para o meu azar, não conheço essas canções nem esses grupos alemães.
    Meia hora depois, após deixarmos o carro num estacionamento privado, pegamos um elevador. As portas se abrem no quinto andar. Um homem alto, de aspecto impecável, grita, abrindo os braços:
   — Eric! Flyn!
   O menino se joga em seus braços, e Emma lhe dá a mão, sorrindo. Segundos depois, os três me olham. Emma me apresenta:
   — Orson, esta é Regina, minha namorada.
   O tal Orson é um armário loiro e descolorido. Sim, um alemão, alemão, desses que no verão ficam cor de melancia. Ele bota Flyn no chão e vem até mim.
    — Prazer em conhecê-la.
    — O prazer é meu — digo toda educada.
   O homem me observa e sorri.
    — Espanhola? — pergunta a Emma. Meu amor confirma, e o outro diz: — Oh, Espanha! Olé, touro, castanholas!
   Agora sou eu que sorrio. Acho engraçado ouvir essas coisas.
   — Que espanhola mais bonita!
   — É maravilhosa, entre muitas outras coisas — garante Emma, sorridente, fundindo seu olhar com o meu. Vou dizer alguma coisa quando Orson me segura pela cintura.
   — Esta casa é sua desde este instante. — E, sem me deixar responder, prossegue: — Agora já sabe, relaxe e aproveite. Tire a roupa, e eu providenciarei tudo o que você precisar.
   Sem entender nada, olho para Emma. Tirar a roupa?
   Emma ri da minha cara. Pelo amor de Deus, Flyn está com a gente!
   Quero falar, protestar, mas minha gigante se aproxima e com cumplicidade me beija na boca.
   — Desejo que se divirta, pequena. Vamos... Tire a roupa e se esbalde.
   Vou ter um troço. Caraca, ficou louca? Que pretende que eu faça?
  — Vamos, minha linda, me siga — me apressa Orson. E olhando E
mma e Flyn, diz:
  — Se vocês quiserem, podem ir. Eu me ocupo dela e de todas as suas necessidades.
   Me dá um calorão. Sim, vou ter um troço. Estou indignada. Vou gritar, explodir como uma possessa. Então aparece uma jovem com um cabide cheio de roupas. Fica vermelha ao ver Emma. Depois me olha e pergunta:
   — Você é a cliente que vem provar a roupa, não é?
   Emma solta uma gargalhada, e eu, ao compreender de repente o mal-entendido que eu mesma criei, dou um murro nela  e rio. Emma pega a mão do sobrinho e me beija de novo.
    — Precisa de roupa, fofinha. Vamos, veja com Orson e Ariadna, e compre tudo, absolutamente tudo, o que quiser. Flyn e eu temos coisas a fazer.
    Feliz da vida, devolvo o beijo e sigo Orson e a moça do cabide. Entramos numa sala com grandes espelhos e muitas araras com todo tipo de roupa. Surpresa, olho ao redor.
    — E
mma me disse que você precisa de tudo — informa Orson. — Portanto, divirta-se. Prove tudo o que quiser e, se não gostar de nada, me avise, que traremos mais.
    Estou perplexa. O homem se vai. A jovem me olha e sorri.
    — Vamos começar! — exclama.
   Durante mais de duas horas, experimento todo tipo de calças, vestidos, camisas, botas, sapatos, casacos e conjuntos de lingerie. É tudo maravilhoso, mas, claro, a preços exorbitantes!
    Soam umas batidas na porta. Instantes depois entra Emma. Estou com um vestido sexy, de gaze preto — muito parecido ao que a Shakira usa quando canta Gitana. Adoro o vestido e, pela cara del
a, vejo que gosta também. Isso me faz sorrir. Ariadna, ao ver Emma entrar, desaparece da sala. Ficamos só nós duas. Com graça, dou uma voltinha diante dela.
   — Que acha?
   Emma se aproxima e me agarra pela cintura. Sorri.
   — Não vejo a hora de arrancá-lo, pequena.
   Vou protestar, mas ela me beija. Minha nossa, como gosto de seus beijos!
   — Está linda com este vestido — afirma, quando se afasta de mim. — Compre-o.
   Num gesto automático, olho a etiqueta e me escandalizo.
   — Emma, é um... Santo Deus! Olha, custa dois mil e seiscentos euros! Nem louca! Vamos, por favor, eu não ganho isso nem fazendo mais de cem mil horas extras.
   Ela sorri e me segura o queixo.
   — Você sabe que o dinheiro não é problema pra mim. Compre.
   — Mas...
   — Você precisa de um vestido pra festa da minha mãe, dia 5. E com este você está incrivelmente bonita.
   A porta abre de novo. Entram Ariadna e Orson. Ele me olha e dá um assobio de aprovação.
   — Este vestido foi feito pra você, Regina.
   Sorrio. Emma sorri.
   — Bom, Regina, gostou de alguma coisa? — pergunta Orson.
   Admirada, olho ao redor. Tudo é fantástico.
   — Acho que gosto de tudo — respondo em tom de brincadeira.
   Orson e Emma me olham, e minha Icewoman diz:
   — Envie tudo pra minha casa.
   Fico horrorizada.
   — Emma, pelo amor de Deus, nem pense nisso! A troco de que vai comprar tudo isto? Achando graça com minhas reações, a mulher pela qual me apaixonei completamente aproxima seu rosto do meu e sussurra:
   — Pois se não quer que enviem tudo pra casa, escolha alguma coisa. E quando digo alguma coisa, me refiro a... várias peças, incluindo sapatos e botas! Você precisa de tudo até que as suas coisas cheguem da Espanha, certo?
    Uau! Isso pode me deixar louca. Adoro as roupas. Mas insisto:
   — Tem certeza, Emma?
   — Certeza absoluta, pequena.
   — Emma, você me deixa sem jeito. É muito dinheiro.
   Meu Icewoman sorri e me beija a ponta do nariz.
   — Você vale muito mais, querida. Vamos, me dê o prazer de ver você usar essas roupas. Pegue absolutamente tudo o que quiser sem olhar o preço. Sabe que posso bancar. Por favor, me faça feliz.
   Olho de relance para Orson, que sorri. Puxa, que comprinha Emma vai fazer. Finalmente, fraquejo. Estou vivendo o sonho que qualquer mulher da Terra gostaria de viver. Comprar sem olhar o preço! Respiro fundo, me viro para as coisas de que gostei, disposta a dar esse prazer a Emma, embora, para dizer a verdade, quem vai ter um prazer enorme sou eu. Nossa, eu sou um perigo!
    Ariadna fica ao meu lado para que eu vá lhe entregando as peças escolhidas. Então começo. Sem pensar no preço, pego vários jeans, camisetas, vestidos, saias longas e curtas, sapatos, botas, meias, bolsas, roupa íntima, um casaco comprido, gorros, mantas, luvas, um casaco acolchoado e vários pijamas. Quando acabo de separar tudo isso, olho para Emma com o coração acelerado.
   — Quero tudo isso, incluindo o vestido que estou usando.
   Emma sorri. Está encantada, feliz.
   — Desejo concedido.
   Com um lindo vestido vermelho que comprei esta tarde, me olho no espelho do quarto. Fiz um coque alto, e minha aparência é sofisticada.
   Chove horrores. Está caindo um temporal tremendo, e os trovões fazem eu me encolher. Não sou medrosa, mas nunca gostei dos trovões.
   Ligo para meu pai em Jerez e falo com ele e com minha irmã. Ouço, ao fundo, as risadinhas de minha sobrinha, e meu coração se aperta. Enquanto falamos, todos parecem felizes, apesar de sabermos que morremos de saudade. Muita saudade.
   Depois de desligar, um tanto emocionada, decido retocar a maquiagem. Chorei, meu nariz está igual a um tomate. Preciso dar uma arrumada geral. Quando acho que já estou totalmente apresentável, vou para a sala, descendo a escada presidencial. É a última noite do ano e quero me sentir feliz com Emma e Flyn. Emma, ao me ver, se levanta e caminha até mim. Está maravilhosa com seu vestido longo azul escuro. O cabelo, está solto de forma natural. Está elegante e linda!  
   — Você está linda, Regi. Linda.
   Me beija, e seu beijo tem sabor de desejo e amor. Durante uma fração de segundos, nos olhamos nos olhos, até que uma vozinha protesta.
   — Parem já com esses beijos! Que nojo!
   Flyn não suporta nossas demonstrações de afeto, e isso nos faz sorrir, embora o menino não ache graça nenhuma.
   Flyn está vestido com roupas sociais. Um homenzinho. Mas que gracinha!
   Faço um gesto de aprovação.
   — Flyn, vestido assim, você parece um galã de cinema. Está muito bonito.
   O menino me olha e esboça um sorrisinho. Gostou do meu comentário, mas, mesmo assim, me apressa para jantar.
   — Vamos de uma vez. Você está atrasada, e estou com fome.
   Olho o relógio. Não são nem sete!
   Santo Deus, como podem jantar tão cedo?
   Este horário de gringo vai me matar. Emma sorri — parece ler meu pensamento. Quando me recomponho, contemplo a bela e enfeitada mesa que Simona e Norbert prepararam e pergunto, enquanto Emma me guia a uma das cadeiras:
   — Bom, e na Alemanha, o que se janta na última noite do ano?
   Mas antes que possam responder, a porta se abre e aparecem Simona e Norbert com duas sopeiras que deixam sobre a bonita mesa. Surpresa, observo que numa das sopeiras há lentilhas, e em outra, sopa.
   — Lentilhas? — digo rindo.
   — Eca! — careteia Flyn.
   — É uma tradição na Alemanha, como na Itália — responde Emma, feliz.
   — A sopa é de torresmo com salsichas, senhorita , e está muito saborosa — diz Simona. — Sirvo um pouquinho?
   — Sim, obrigada.
   Simona me serve, e todos ficam me olhando. Esperam que eu prove a sopa que realmente está muito boa. Sorrio, e todos os outros sorriem também.
    Sem conseguir ficar quieta, enquanto Norbert brinca com Flyn e Simona lhe enche o prato de sopa, olho Emma e cochicho:
   — Por que não diz a Simona e Norbert que se sentem com a gente pra jantar?
   Minha sugestão a surpreende, mas concorda, depois de entender o que pretendo.
  — Simona, Norbert, querem jantar com a gente?
   O casal se olha. Pela cara, imagino que é a primeira vez que Emma propõe algo assim.
   — Senhor — responde Norbert —, agradecemos muito, mas já jantamos.
   Emma me olha. Como estou disposta a atingir meu objetivo, digo sorridente:
   — Gostaria que se sentassem com a gente pra sobremesa, combinado?
   O casal se olha de novo e, por fim, diante de minha insistência, Simona sorri e concorda. Dez minutos depois, terminada a sopa, Simona e Norbert entram com mais pratinhos. Fico olhando um deles com atenção.
   — Isso é verdura. Se chama sauerkraut — explica Emma. — Chucrute, repolho avinagrado. Prove.
   — Sim. Tá sensacional — diz Flyn.
   Pela cara dele dá pra ver que não gosta, e a aparência do prato não me atrai. Decido recusar a oferta com o melhor dos meus sorrisos e pego um pãozinho com algo que parece uma salsicha branca.
   Logo, Norbert deixa umas bandejas sobre a mesa. Aplaudo. Lagostins, queijo e presunto ibérico. Olé! Emma, ao ver minha reação, pega minha mão.
   — Não esqueça que minha mãe é espanhola e temos muitos dos costumes que ela nos passou.
    — Nossa, adoro presunto! — exclama o baixinho.
   O presunto está de lamber os beiços. Santo Deus, que maravilha!
   E quando trazem o pato assado, já não me aguento. Mas como não quero fazer uma desfeita, me sirvo um pouquinho, e a verdade é que está delicioso!
   Também provo um queijo alemão fundido e repolho com cenoura. Me dizem que são comidas tradicionais para trazer estabilidade financeira, e como estou desempregada, fico vermelha!
   O jantar transcorre tranquilamente, embora perceba que levo a conversa sozinha. Emma se contenta em me olhar e sorrir. Flyn tenta me evitar, mas, como tenho mais experiência, falo de jogos como de Wii ou PlayStation, e o garoto acaba entrando na conversa. Emma sorri e sussurra:
    — Você é incrível, querida.
   Quando decido que não vou comer mais nada para não explodir, aparecem Simona e Norbert com a sobremesa que tem um aspecto maravilhoso. Só de ver, já dá vontade de devorar.
   — Bienenstich de Simona. Delícia!
   — aplaude Flyn, emocionado.
   Sem tirar os olhos da torta com a cara tão boa, pergunto:
   — O que é isso?
   — É um bolo típico alemão, senhorita — diz Norbert —, que minha Simona prepara que é uma maravilha.
   — Sim, sim! É o melhor bienenstich que você vai comer na sua vida — me garante Emma, achando graça.
    A mulher, emocionada por ser o centro das atenções, sorri e se dirige a mim: — É uma receita que minha avó passou pra minha mãe e minha mãe, pra mim. O bienenstich, ou “picada de abelha’, é feito por camadas. A de baixo é massa podre com fermento; a segunda é um recheio de açúcar, manteiga e creme de amêndoas trituradas, e a de cima é de novo massa podre com amêndoas caramelizadas.
    — Mmm, que delícia! — Determinada, levanto e digo: — Como é a sobremesa, agora têm que se sentar com a gente. — Simona e Norbert se olham, e antes que possam dizer alguma coisa, lembro: — Vocês prometeram!
   Emma segue meu exemplo; se levanta, puxa uma cadeira e diz à mulher:
   — Simona, tenha a gentileza de se sentar.
  A mulher, quase sem respirar, senta, e junto dela, seu marido. Eu me aproximo e pergunto:
   — A gente corta como se fosse uma torta, né?
   Simona confirma.
   — Muito bem, sou eu quem vai servir a todos este fantástico bienenstich. — Em seguida, olho o menino e peço a ele: — Flyn, poderia trazer dois pratinhos mais pra Simona e Norbert?
   O menino, feliz, corre à cozinha e volta com os dois pratos. Decidida, corto cinco pedaços e os distribuo. Quando sento em minha cadeira, Emma me olha, satisfeita.
   — Vamos atacar logo antes que eu coma tudo — murmuro, provocando uma risada geral. Entre risos e piadas, devoramos a sobremesa maravilhosa. Surpresa, observo como as pessoas à minha volta curtem o momento como algo único, e me sinto imensamente feliz. Então proponho que cantem uma canção de festa alemã, e rapidamente Norbert dispara com o tradicional O Tannenbaum.

O Tannenbaum, O Tannenbaum,
wie treu sind deine Blätter.
Du grünst nicht nur zur Sommerzeit,
nein auch im Winter, wenn es schneit.
O Tannenbaum, O Tannenbaum
wie grün sind deine Blätter!

   Ouço maravilhada. Emma, com seu sobrinho no colo, também canta essa canção tão alemã que me deixa arrepiada. Ver essas pessoas unidas pela música me lembra minha família. Com certeza, meu pai e minha irmã estarão fatiando o cordeiro, e minha sobrinha e meu cunhado rindo com as piadas. Isso me emociona, e meus olhos se enchem de lágrimas.
   Quando a canção termina, aplaudo. Flyn, que entrou no meu jogo, logo pede que eu cante uma canção espanhola. Minha mente voa, e tento pensar em alguma que ele já possa ter ouvido com Sonia e começo Los peces en el río. Acerto, e o menino e Emma me acompanham, e cantamos batendo palmas.


Pero mira cómo beben los peces en el río,
Pero mira cómo beben por ver a Dios nacido Beben,
y beben, y vuelven a beber,
Los peces en el río por ver a Dios nacer.


   Desta vez, quando acabamos, são Simona e Norbert que nos aplaudem, e nós acabamos aplaudindo também.
   Que momento tão bonito e familiar!
   Emma abre uma garrafa de champanhe e enche todas as taças. Para Flyn bota suco de abacaxi. Todos brindamos a São Silvestre.
   Quando Simona começa a tirar a mesa, quero ajudá-la. No começo, ela e Norbert se queixam, mas por fim desistem ao ouvir Emma dizer:
    — Simona, se
Regi disse que ia te ajudar, nada vai detê-la.
   A mulher se dá por vencida e eu ajudo com entusiasmo. Consigo que Norbert fique com Emma e Flyn na sala, conversando. Quando volto para tirar os últimos pratos, Simona me sussurra:
   — Não, senhorita Mills: esses pratos devem ficar sobre a mesa até de madrugada. Na Alemanha é tradição deixar as sobras do jantar na mesa. Isso nos garante que no ano que vem teremos a despensa bem cheia.
   Imediatamente solto os pratos com alegria.
   — Então está bem! Tudo pela despensa cheia!
   Por um instante, todos rimos, enquanto contamos piadas. Entre risos me falam de uma brincadeira tradicional chamada Bleigiessen, e surpresa ouço que se vendem kits de Bleigiessen com os significados.
    O Bleigiessen é um ritual para prever ou adivinhar o futuro. Se funde um pedaço de chumbo numa colher com o fogo de uma vela. Daí se derramam gotas de chumbo derretido num recipiente com água fria, que se deixam endurecer. Em seguida cada pessoa pega uma dessas formas e, com a ajuda do kit, prevê o futuro.
    — Se o chumbo tem forma de mapa — diz Flyn, alegre —, você vai viajar muito.
    — Se tem forma de flor — diz Norbert —, significa que fará novos amigos.
   — E se sai em forma de coração — explica Simona, sorrindo —, é porque o amor chegará logo.
    Emma está se divertindo. Vejo na cara dela, em seu jeito de sorrir. Por fim, ela se levanta e convida todos nós a sentar nas poltronas. Enquanto liga a televisão, diz:
    —
Regi, há outra tradição na Alemanha. É meio esquisita, mas é uma tradição.
    — Mesmo? E qual é? — pergunto curiosa.
   Todos sorriem, e Emma, depois de me dar um beijo meigo na bochecha, diz:
   — Os alemães, depois da ceia de Ano-Novo e antes de sair pra admirar os fogos de artifício, costumam ver um vídeo cômico, bastante antigo, em preto e branco, chamado Dinner for One. Veja, começa depois dos anúncios.
   Todos concordam e se acomodam. Emma, ao ver que estou rindo, diz:
   — Não ria, moreninha. É uma tradição! Todos os canais de televisão transmitem ano após ano, no dia 31 de dezembro. Mas o mais curioso de tudo é que é um esquete em inglês, embora, em alguns canais, botem legendas em alemão.
    — E é sobre o quê?
   Emma me acomoda entre seus braços e, enquanto começa o esquete, sussurra em minha orelha:
   — A senhora Sophie festeja seus 90 anos em companhia de James, seu mordomo, e vários amigos que já não estão porque morreram. O engraçado é ver como o mordomo, durante a noite, se faz passar por cada um dos amigos da senhora.
    De repente, para de falar porque começa a rir com o que vê na televisão. No tempo em que dura o vídeo, olho surpresa para todos. Se divertem tanto, que até Flyn desfaz sua cara fechada para rir abertamente diante das coisas que o mordomo faz.
    Quando acaba o esquete, Simona vai à cozinha e volta com cinco copinhos com uvas. Olho as uvas com espanto.
    — Lembre-se, minha mãe é espanhola — diz E
mma. — As uvas nunca faltaram numa noite dessas.
    Emocionada, abobada e feliz com simples uvas, grito quando Emma troca para o canal internacional que transmite direto da Puerta del Sol de Madri.
    Aiii, minha Espanha! Viva Espanha!
   Me sinto mais espanhola que nunca.
   Faltam quinze minutos para acabar o ano, e ver na televisão minha querida Madri faz com que me emocione.
    Flyn me olha surpreso, e Emma se aproxima para dizer em minha orelha:
   — Não chore, querida.
   Engulo o choro e sorrio.
   — Tenho de ir ao banheiro um segundinho.
    Desapareço o mais rápido que posso.
    Quando entro no banheiro e fecho a porta, minha boca se contrai, e choro. Mas minhas lágrimas são estranhas. Estou feliz porque sei que minha família está bem. Estou feliz porque Emma está a meu lado. Mas essas lágrimas malditas insistem em correr.
    Choro, choro e choro até que consigo me controlar e passo água no rosto. Alguns minutos depois, batem na porta. Saio e Emma, preocupada, me pergunta:
    — Tudo bem?
    — Tudo — afirmo com um fio de voz —, só que é a primeira vez que estou longe de minha família numa noite tão especial.
    Meu rosto e, principalmente, meus olhos lhe indicam o que aconteceu. Emma me abraça.
    — Sinto muito, querida. Sinto que, por estar aqui comigo, esteja passando um mau momento.
    Suas palavras me confortam, me fazem sorrir, e beijo Emma na boca.
   — Não sinta, meu amor. Está sendo uma noite mágica pra mim.
   Não muito convencida, crava seus impressionantes olhos em mim e, quando vai acrescentar algo mais, lhe dou um rápido beijo nos lábios.
    — Vamos, vamos voltar para a sala. Flyn, Simona e Norbert nos esperam.
    Quando o relógio da Puerta del Sol começa a tocar, digo a eles que esses são os quartos de hora. E quando começam as verdadeiras badaladas, digo a todos para irem engolindo as uvas. Para Flyn e Emma isso é algo que já fizeram outras vezes, mas para Norbert e Simona não, e rio ao ver suas caras.
    Uva a uva, meu ânimo melhora.
    Uma. Duas. Três. Papai, Mary, Grace e meu cunhado estão bem.
    Quatro. Cinco. Seis. Eu sou feliz.
    Sete. Oito. Nove. O que mais posso pedir?
    Dez. Onze. Doze. Feliz 2013!
    Depois da última badalada, Emma vai me abraçar, mas Flyn se mete entre nós duas e nos separa. Eu sorrio e pisco um olho. É normal. O menino quer ser o primeiro. Norbert e Simona, ao testemunharem o que aconteceu, me abraçam e dizem:
   — Gutes Neues Jahr!
    Incapaz de conter meus impulsos, beijo os dois e, entre risadas, faço com que repitam em espanhol:
   — Feliz Año Nuevo!
    O casal se diverte repetindo o que eu digo, rindo e demonstrando sua felicidade.
    Depois Norbert e Simona apertam a mão de Emma e desejam feliz fim de ano, enquanto Flyn se afasta do lado dela. Me agacho para ficar à sua altura e o beijo na bochecha, sem que ele proteste.
    — Feliz Ano-Novo, querido. Que este ano que começa seja maravilhoso e espetacular.
   O menino me beija também e, para meu espanto, sorri. Norbert o coloca entre os braços. E Emma me olha rapidamente, me abraça e, com todo o seu amor, murmura em meu ouvido, me deixando arrepiada:
    — Feliz Ano-Novo, meu amor. Obrigado por fazer desta noite algo muito especial para todos nós.

Um comentário:

  1. Por favor não demora a postar não, fico super ansiosa esperando que você publique o próximo capítulo!

    ResponderExcluir